Artigos com ‘Textos sobre a Copa do Mundo’

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Revolucionários, Moderados e Otimistas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de maio de 2014,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Revolução FrancesaÀ época dos bancos de escola, meu professor de História insistia que, durante a Revolução Francesa, a Convenção Nacional contava com três forças políticas. Jacobinos, Girondinos e Grupo da Planície, jamais esquecerei, dividiam-se conforme sua firmeza na crença de que a guilhotina era um método válido para a resolução de conflitos. Na inocência de quem vivia no Brasil dos anos 90, não comprava muito a divisão proposta. Não entendia como funcionava essa coisa de ter razão e cortar a cabeça de quem está errado.

Pois, hoje, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, vejo que meu professor de história não mentiu para mim. Consigo imaginar, inclusive, as páginas dos livros de História que, daqui a muitos anos, relatarão os dias de hoje a um eventual bebê bonito.

Próximo ao início da Copa do Mundo, o povo do país do futebol decidiu se revoltar. Três grupos se formaram.

O mais radical era a turma do #nãovaitercopa. Inicialmente, contava com a participação de setores decisivos da sociedade, como os comentaristas da Globo News, a associação de moradores de Higienópolis, os grupos indígenas do Setor Noroeste de Brasília e o Batman do Leblon. Conforme virou modinha e deixou de ser hipster, recebeu a adesão de outros atores importantes, como sindicalistas e o Ronaldo Fenômeno, depois de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição. Englobava facções múltiplas da sociedade, cujo único ponto de concordância, paradoxalmente, era discordarem de “tudo isso que está aí”. Sem que ninguém se preocupasse em definir o que era “isso” e “aí”, o grupo alternava sua atuação entre a depredação do espaço público, as greves oportunistas em setores sociais sensíveis e passeatas de apoio a oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Tudo isso sem partido, mas com camisa branca da paz.  Ou preta, de luto com a situação do país. Tanto fazia. A pauta de reivindicações não chegou a ser descoberta pelos historiadores, porque cada integrante da passeata gritava uma coisa diferente, mas os cartazes revelavam o apoio da multidão à utilização, antes de qualquer palavra, de hashtags (era como eles chamavam, à época, aquele negocinho, #, que parece o jogo-da-velha). Lamentavelmente, as manifestações do grupo terminavam sempre com uma minoria de vândalos em confronto com a polícia. Ou com a polícia em confronto com uma minoria de manifestantes que gritava “sem violência”. Ninguém nunca entendeu direito. O mais importante é que o movimento começou pacífico, enquanto a maioria queimava o álbum de figurinhas da Copa e cantava o hino nacional abraçado na bandeira.

Na posição intermediária havia o grupo moderado, que era contra a gastança-de-dinheiros-em-estádios-enquanto-a-saúde-está-de-mal-a-pior, a corrupção, a ausência de infraestrutura para receber os estrangeiros e, principalmente, a cobrança de 6% de IOF nas compras no exterior. Bloco mais coeso, embarcava os comentaristas da Globo News, minha timeline do Facebook e a galera que colecionava o álbum de figurinhas da Copa (mas não queimava, porque, afinal, era moderada e ainda precisava trocar muitas figurinhas). Segundo relatavam, fizeram, desde o início, veemente oposição silenciosa à escolha do Brasil como sede da Copa. Só não manifestaram seus protestos antes porque, quando perguntaram sua opinião, eles estavam assistindo ao Campeonato Brasileiro, à Libertadores, ao Game of Thrones e ao Mais Você. Em que pese seu inconformismo com a realização da Copa no Brasil, o grupo optou, às vésperas do torneio, apoiar o evento, também silenciosamente, sob o argumento de que o dinheiro roubado já havia sido roubado, não havia lá muito o que se fazer, então, era melhor assistir mesmo aos jogos e torcer pela Seleção, cantando o hino nacional, abraçando a bandeira.

Na ponta oposta ao grupo #nãovaitercopa, estava a turma otimista. Certos de que #vaitercopa e de que ela seria sensacional, o movimento apoiou a realização do torneiro. Filiaram-se ao time dos otimistas os comentaristas da Globo News (menos o Diogo Mainardi, porque a última vez que ele foi otimista foi com a queda de Constantinopla), as pessoas com ingresso para assistir aos jogos, a galera que já tinha completado o álbum de figurinhas da Copa, o Ronaldo Fenômeno antes de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição, o Felipão, alguns jogadores da Seleção e o resto do Brasil inteiro.  Nos intervalos das partidas da Copa, o grupo organizava passeatas em oposição ao apoio à oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Ao fim da manifestação, todos cantavam o hino nacional, abraçados na bandeira.


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Acabou

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 2 de julho de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Acabou. Não há o que se fazer. Não acredito em quem usa, em um momento como esses, o clichê sobre a importância de saber competir e aceitar as derrotas. Perder é horrível, uma pequena morte. Sua aceitação passa pela negação, raiva, barganha e depressão, como um luto.

No exato momento estou entre a negação e a raiva. Ainda não acredito no apito final, mas já começo a sentir uma raiva, fantasiada de mau-humor crônico, a me subir pela espinha. Hoje, não queiram me encontrar em uma fila demorada ou engarrafamento. Também não vou ser adulto. Aliás, quero distância dos sentimentos pretensamente adultos, crescidinhos e edificantes. Prefiro procurar infantilmente um culpado. Já escolhi Felipe Melo como minha presa. Como mineiro, peguei raiva dele para o resto da vida. Daqui a vinte anos, na Copa da China, não me venha o safado tentar treinar a Seleção sem falar com a imprensa, sob a justificativa de perseguição na Era Melo.

Depois da raiva, passo à barganha. Se pelo menos a Argentina for desclassificada e a final for uma goleada de Gana sob a Alemanha… Perder a Copa para ver um time africano campeão não terá sido tão ruim e inútil. Não vou perdoar o Felipe Melo, claro, mas vai ser gratificante ver os europeus derrotados pelo continente negro. Justiça histórica. E que soem as Vuvuzelas tão alto que eu possa ouvir daqui, sem a interferência irritante do Galvão Bueno.

Todavia, cedo ou tarde, a aceitação vai chegar, talvez após uma breve depressão. Afinal, Copa do Mundo é igual eleição e a cada quatro anos tem uma nova. Além do que, por mais desclassificado que estejamos agora, foi bom me empenhar na torcida, comemorar cada gol, por menos que tenham sido. Não me arrependo dos gritos e vuvuzeladas. Acreditem ou não, eu me diverti muito seja torcendo, seja compartilhando minhas idéias com meus leitores imaginários. Continuo brasileiro e patriota, dentro e fora de campo e não retiro rigorosamente nenhuma vírgula do que escrevi no último mês. “Valeu à pena, sou pescador de ilusões”.

Agora, vamos mudar de assunto, que eu não aguento mais escutar e falar de futebol.

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