Artigos com ‘Textos de reflexão’

19
out

Chega de Saudade

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Chagall PromenadeSegundo descobri recentemente, os esquimós têm doze mais de quarenta palavras para conceituar a neve. Pudera, eles têm bastante neve para trabalhar. Neve no chão, neve de fazer casa, neve de derreter e beber, neve de brincar e neve de fazer boneco de neve. Assim, pode parecer estranho o fato de ser o português a única língua que possui uma palavra para definir, com precisão, a saudade.

Mas, se eu encontro o danado que inventou a palavra, pego ele! Porque o sujeito criou uma coisa sem a qual, até aquele momento, todos conseguiam viver.

Basta ver que os grandes cientistas, enluvados em jalecos brancos, afirma ser a saudade um sentimento muito difícil de ser encontrado na natureza em estado puro. Normalmente, vem acompanhada de uma série outras impurezas que a contaminam e tornam sua apreciação quase impossível.

Veja-se, por exemplo, a saudade de quem já partiu para sempre. Impossível ser um sentimento puro, pois está misturada com tristeza e dor. Tampouco a nostalgia pode ser colocada simples saudade, pois, como informa a etimologia, é oriunda da junção das palavras gregas nostos (regresso) e algos (dor). Portanto, é, no máximo, uma saudade projetada ao passado, temperada, talvez, com uma decepção com o presente.

Assim, segundo apurou o cronista, em entrevista com os mais doutos cientistas dos sentimentos, apenas os mais vigorosos emocionalmente estão realmente aptos a sentir saudade pura e simples. Saudade que surge não de solidão ou insegurança, mas de simples ausência, temporária ou não. Como uma comichão pelo futuro, com a qual você até se acostuma, mas nunca pára de coçar.

Sorte daquele que é capaz de sentir pura saudade. Azar daquele que a sente.

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6
out

Insensível ao toque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Steve-Jobs-China-300x300

” i cannot think for myself,
i need to fit on the shelf
and pretend to be one more gadget
something expensive but disposable”

Nanda Fogli

 

Então, morreu Steve Jobs, com direito a cobertura especial nos canais de notícia a cabo, memes, primeiro lugar nos Trend Topics do Twitter. #morreujobs, todos chora. O modo de hipérbole, ligado na regulagem máxima, tão habitual nos falecimentos de celebridades, atinge o ápice extremo e transforma o ex-CEO da Apple no “messias dos novos tempos” (e uso aspas sem precisar citar a fonte, tamanha a enxurrada de exageros). Mas, meus queridos leitores, sempre tão atentos ao mundo das sutilezas, já devem ter notado que, por baixo de toda badalação, there’s one more thing.

Claro, seria demasiada pretensão deste humilde escriba pretender reduzir Steve Jobs a uma função de mero passante do Século XX. Ele pensou produtos inéditos, fez multidões abrirem suas carteiras para comprar modelos mais novos de gadgets, arrebanhou consumidores como ovelhas às iStores, tornou a tecnologia acessível até para sua avó e provavelmente mais uma porção de coisas que eu desconheço. Soube, claro, cobrar mais por tudo isso. Ademais, idealizou a uma das empresas mais lucrativas do mundo.

Daí a dizer que Jobs levou uma revolução ao mundo com sua passagem pelo planeta, meus caros, dá-se um enorme abismo.

Pois, eis que, em sua maior glória, mora a maior limitação de Steve Jobs. Em um mundo fora do campo de distorção criado pelo discurso hagiológico de seus seguidores, a Apple é apenas uma empresa, talvez com método e procedimentos diferente das demais, mas, em essência, rigorosamente igual a qualquer outro negócio. Criam-se e vendem-se produtos, alguns ganham, outros perdem e a vida segue, com menos ou mais dinheiro no bolso e algum celular novo nas mãos.

Entretanto, nem todos os iPhones do mundo tocando juntos poderiam fazer uma revolução. Revoluções são feitas de quebras de estruturas sociais, reagrupamento de classes, destruição e reconstrução nas formas de circulação de renda, cristalização de novos ideais e outras tantas coisas que não cabem nas telas do maior dos iPads. Tivesse Jobs libertado escravos chineses e morrido pobre,sem cabeça, em uma guilhotina, aí então seria merecedor do título de revolucionário.

Longe dos títulos de revolucionário e visionário, Jobs alimentou mais do mesmo, ainda que com admirável habilidade. À espera do novo lançamento de um celular, seguimos vítima de das mesmas mazelas, insensíveis aos múltiplos toques nas telas (in)sensíveis. O mundo que enxerga uma revolução em Steve Jobs é um mundo cego, que caminha triste para consumir a si mesmo na fabricação de mais uma maçã metálica.

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30
set

Avatar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Walrus Goo Goo G'JoobO leitor imaginário, internauta que é (e se não fosse, aqui não estaria), já deve, em algum momento de sua existência virtual, ter sido obrigado a criar por aí seu tal “perfil” em uma rede destas que andam na moda. E deve ainda saber, se não é dos mais novatos no assunto, que a coisa é antiga para quem anda, há mais tempo, tomando bronzeado de luz azul na frente do monitor.

Certo é que, antes de James Cameron inventar seus bichões azuis, esse esforço de criar um avatar em outra dimensão já era coisa recorrente para os internautas. Pois, mesmo com a mais avançada tecnologia astronáutica da rede, você só existirá no mundinho virtual se projetar sua personalidade para ele, preferencialmente de alguma maneira mais ou menos controlada.

Claro, poliram a brincadeira com o tempo. No período pré-cambriano da Internet, quando o IRC era a coisa mais moderna da galáxia, sua liberdade criativa para formar o avatar se limitava à escolha de um nome, o bom e velho nickname. Eu, como sou fã dos Beatles e meio maluco (olha a redundância!), auto proclamei-me Walrus, em referência direta à música (goo goo g’joob) e indireta à Lewis Carol. Bom, era só um nome. Todavia, com uma meia dúzia de linhas de bazófia, tinha-se um personagem, meio esquisito, mas pronto para usar, na chatesfera.

Hoje a coisa “evoluiu” bastante. Você preenche um breve cadastro na rede, que lhe pergunta apenas nome, sobrenome, estado civil, CIC, cor do olho direito, hobby, filmes preferidos, passagens prediletas do Grande Sertão Veredas, angulação do estrabismo ocular, circunferência do dedo anelar (direito e esquerdo, afinal o estado civil pode mudar), quantidade de tempo que equilibra um cabo de vassoura no indicador e comprimento do antebraço. Com estes pequenos questionamentos, acrescidos à possibilidade de colocar a foto do papagaio da vizinha, filme com o batizado do primo do cunhado e todas as delícias do compartilhamento digital, é de se esperar que seu lindo perfil do lado de cá corresponda mais com o que temos do lado de lá (estejam e onde você, leitor, preferir).

Mas isso não acontece.

Por mais estranho que seja, enquanto mais ricos de possibilidades, creio que nossos avatares cada dia se parecem menos conosco. Seja lá por qual mistério do misticismo eletrônico, mesmo com meu esforço em fazer um perfil do Twitter e do Facebook, honesto e sincero, que reflita minha cara, a coisa desanda. Quanto mais cera se passa, mais embaçado fica. Olho os demais perfis, comparo as pessoas conhecidas com sua personalidade eletrônica e, ao fim, concluo que não conheço mais ninguém.

Há duas possibilidades para o fenômeno. Em Olhai os Lírios do Campo, o protagonista afirmava gostar de dirigir à noite, pois, com a redução de informações, a estrada ficava mais nítida. Talvez seja isso. Só com nome e idéias em um monitor de fósforo verde, era mais fácil ser sincero. Por outro lado, creio que, hoje, universos virtuais e reais já se misturaram faz tempo. Não dá mais para separar a realidade do que há através do espelho. Assim, as pessoas na Internet são as mesmas fora dela. E eis o problema. A simulação é feita de carne e osso, bem aqui no mundo das saudações forçadas e beijinhos protocolares. Se a sinceridade é virtual, a falsidade é verdadeira.

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23
set

Donald x Gastão

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Donald x GastãoNão importa o quanto os sábios sociólogos, economistas, biólogos e estatísticos consigam dividir, subdividir, categorizar e classificar os humanos, eu, imbuído de profundos estudos em antropologia de revista em quadrinhos, afirmo que só há dois tipos de pessoas. Os Pato Donalds e os Gastãos. E antes que o leitor imaginário mais reprovador balance a cabeça em desacordo, indignado com mais uma de minhas idéias estapafúrdias, aviso logo que no último parágrafo, me desdirei, sem, contudo, me contradizer.

O Pato Donald é velho conhecido de infância e o mais famoso dos patos, dispensando apresentações adicionais. No entanto, sua fama do lado de cá das páginas não corresponde à sorte que tem de dentro da história. Donald é azarado como poucos. Cuida de três sobrinhos travessos e atentados, vive um namoro de eterno pegar na mão com a Margarida e, mesmo sendo parente próximo do pato mais rico do mundo, vive na chutando lata. Tanto pior, aliás, pois quando se coloca a trabalhar para o tio, acaba por ser explorado até a última força, como o mais espoliado dos proletários.

Gastão é o contraponto exato de Donald. Dono da maior sorte do mundo, não precisa fazer nada se manter, pois simplesmente tropeça no dinheiro. Consegue as melhores barbadas sem nenhum esforço. O tipo de cara que chega naquele restaurante com fila de espera de horas e consegue a melhor mesa, por estar na hora certa, no lugar certo. É, enfim, um abençoado pelo cosmos.

Os dois são parentes próximos, da mesma família e, provavelmente, com condições equivalentes de vida, não fosse o absurdo azar de um e a incrível do outro.

Há, portanto, apenas dois tipos de pessoas no mundo. Como Donald, o sujeito está na base da cadeia que alimenta os fluxos aleatórios de fortuna. Não digo que não chegará a lugar nenhum da vida, um eterno gauche drummoniano. Mas precisará do dobro de esforço para conseguir a metade dos lucros. Já os Gastões são os peixes grandes do mundo. Mas antes que se reduza o pensamento exclusivamente ao vil metal, esclarece-se que nas menores coisas também é possível notar a diferença. Na hora de parar o carro no shopping, conseguir a fila mais rápida do supermercado e ser sorteado no melhor brinde na festa de final de ano da empresa.

Mas há algo de especial em ser um Pato Donald. Talvez os leitores imaginários menos conhecedores do universo Disney não saibam, mas o pato mais famoso tem uma identidade secreta. Veste-se de Super Pato e, na calada da noite, torna-se o grande herói mascarado Patópolis. Uma glória clandestina, como bem cabe a nós, formiguinhas do mundo, com nossas conquistas insignificantes do cotidiano. Sem pódio ou beijo de namorada. Mas talvez com um conforto inexplicável. E injustificável.

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16
set

Se arrependimento matasse…

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Cachorro arrependidoNão se pode falar que meu pai seja alguém de opiniões voláteis. Mas a facilidade com que ele se arrepende de suas escolhas garantiu-lhe um bordão: “ah! Se arrependimento matasse!” Pois, chega ele com um saquinho de parafusos, confere que eles não cabem nas buchas e, lá vem a frase. Ou, experimenta uma nova marca de margarina, não gosta, solta outra vez o regozijo pela ausência de fatalidade no arrependimento.

É pai, ainda bem que arrependimento não mata. Do contrário eu seria órfão faz tempo.

Em que pese a ausência de punição pelo arrependimento, não parece ser esta uma das condutas mais na moda. No mundo super colorido de alegria infinita, os gurus da prateleira de auto-ajuda já proclamaram a morte do arrependimento como alternativa para a vida saudável, bacana, feliz e cheia daquele otimismo solar de propaganda de pasta de dente.

E os contentes de plantão têm mesmo seus motivos para se afastar do arrependimento. Longe da beleza do ideal cristão, não é fácil cultivar o sentimento com a sabedoria de meu pai. Olhar para a trás e se arrepender equivale a jogar lama no passada, perceber a inutilidade e o equívoco das escolhas pretéritas.

Claro, há, também, quem olhe para trás com uma pontada de arrependimento e consiga ver que sem um tropeço de um lado ou outro, não dava para chegar até está. Uma versão mais polida e orgulhosa do arrependimento, que, como bem notou Oscar Wilde, alguns dão o nome de experiência.

Verdade é que arrependimento é meio como cachorro que ladra, mas não morde. Põe mais medo que causa malefício. Você se põe na encruzilhada e oscila entre duas trilhas. Horas de indecisão com medo do monstro do arrependimento. Mas, no futuro, o monstro vira um bichinho de estimação e você passa a acariciá-lo, para aplacar o descontentamento com o presente.

Por outro lado, influenciado pela sabedoria paterna, sigo a corrente minoritária e, diante da ausência de punibilidade pelo fato, arrependo-me a todo o momento de muitas escolhas. Desde escolher uma camisa com uma cor tão escalafobética para ir a festa de formatura, até ter viajado tão pouco em tanto tempo. Melhor assim, carregando a voz do arrependimento no ombro, para colocar bastante pensamento nas decisões. Afinal, ruim não é se arrepender, é errar.

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9
set

Sobre icebergs e turbinas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

United 232Segundo reza a lenda, eternizada no filme, o fabricante do Titanic, orgulhoso do poder de sua criatura, teria afirmado que nem Deus poderia afundar aquele navio. Com toda certeza, meus bem informados leitores imaginários já sabem o triste desfecho da história. Não foi necessária a intervenção divina. Bastou um bloco aleatório de gelo, grande como as forças naturais costumam ser, para se converter o soberbo feito da engenharia humana em um barquinho sem vergonha, que hoje jaz no fundo do oceano atlântico.

Mas, não se enganem, nem todas tragédias vêm do tamanho de icebergs. Em 19 de julho de 1989, o vôo United 232 decolou, de Denver, no estado americano do Colorado. Não havia garrafas de champagne no casco. Nem banda. Era mais um avião, com aborrecidos businessmen cheios de afazeres em Chicago e famílias que viajavam para visitar a vovó. Embora alguns tenham orado, os passageiros embarcaram sem a garantia do fabricante contra o insucesso de qualquer tentativa divina de derrubar a aeronave.

E, convenhamos, eles não tinham mesmo nada a temer. O dia era tranqüilo, o tempo bom, a tripulação atenciosa e capacitada como sempre e o avião, um sólido DC-10, possuía a mais moderna tecnologia disponível. Ainda assim, uma das hélices da turbina acordou naquele dia especialmente fadigada. Depois de anos girando de maneira eficiente, fraturas microscópicas, engrandecidas pelo tempo, romperam as pás. Lançada pela turbina, por ela própria impulsionada, a hélice destruiu a fuselagem da aeronave, cortou parte do sistema hidráulico e transformou o D-10 em um gigantesco avião de brinquedo, sem controle remoto.

O desfecho das duas tragédias não é muito diferente. Muitos morreram, alguns sobreviveram. Mas há uma característica especial a cada uma. O Titanic afundou pela ação de algo gigantescamente poderoso. Um iceberg que poderia, e deveria, ser notado a quilômetros de distância. O desastre foi resultado da enorme pretensão e descuido humano. O United 232 não teve a mesma sorte. O trágico defeito de fabricação da hélice estava ali desde o primeiro dia de operação. Foram incontáveis horas de vôo sem nada errado com o equipamento, até então confiável. Mas as pequenas fissuras, intrínsecas ao material, foram lhe comendo por dentro, sem que absolutamente ninguém pudesse enxergar. E um dia, a coisa toda dá errado e, de súbito, temos um acidente.

As duas histórias andam há tempos em minha cabeça, como metáforas do acaso. Tenho sempre a tendência a procurar, em cada uma das tragédias da vida, alguma grande explicação, conclusiva como um iceberg. Seja ao entender a tragédia social do garoto pedinte na praça de alimentação, seja para explicar a história de parentes que nunca mais se falaram. Mas, na maior parte das vezes, as grandes tragédias acontecem em razão de motivos simples, cotidianos e, pior de tudo, quase invisíveis. Suas causas estão silenciosas a nos contemplar desde o primeiro dia. E não há nada que possamos fazer para evitá-las.

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2
set

Uma esmolinha pelamor de Deus

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

EsmolaE eu, que não perco a capacidade de me surpreender e mudar minhas idéias, diante de qualquer coisinha do cotidiano?

Outro dia jantava com três amigos na burocrática praça de alimentação do shopping(aliás, já reparou como elas são todas sempre iguais?) Enquanto garfava, meu sushi, sem qualquer respeito à cultura oriental, passa um menino e deixa um papel sobre a mesa. História triste, dessas que muita gente se habituou a ler e ignorar, como mais um capítulo das enorme lista de mazelas humanas. Mãe presa, pai morto, irmãos com fome e tudo mais que possa fazer você se compadecer.

Agora, assim, contando, tenho até um pouco de vergonha de falar. Mas, na hora, eu ignorei menino, bilhete, falta de sapato, roupa inadequada. Ele passou, deixou sua notinha e minha cabeça, sempre ocupada com várias outras coisas, tratou sua intervenção como mais um estimulo a ser ignorado no super poluído ambiente. Algo equivalente a uma faca caindo na mesa vizinha. Se sei o conteúdo do papel deixado sobre a mesa, é porque um de meus amigos leu a nota e, antes de fazer qualquer juízo sobre a verdade da história, o valor que possuía na carteira ou a necessidade da criança, despejou suas moedas na mão do menino.

E uma atitude rotineira, despertou em mim, uma reflexão que estava há tempos soterrada sobre o peso de certezas instantâneas, convicções infundadas e, por que não admitir, conformismo e preguiça. Pois, há idéias que se infiltram em nossa cabeça, sem explicação e, de tão sedutoras, viram verdades antes do devido amadurecimento. Uma delas é a convicção reinante de que dar esmola é um ato reprovável, típico de gente arrogante, ignorante e irritante. O raciocínio é mais ou menos o seguinte. Quem dá esmola alimenta a miséria, facilita a vida do pedinte, que nunca se dará ao trabalho de conseguir uma ocupação honesta, digna e bacana, para se desenvolver na vida, crescer, tornar-se alguém que contribui para o belo quadro social. Aquela velha história que todo pai burguês-comedor-de-sushi-de-shopping-center ensina, “o importante filho, não é dar o peixe, é ensinar a pescar”.

Ótima idéia, destas que todos batem palmas, sem perceber a sereia sobre as pedras. Mas esbarra em alguns probleminhas de ordem prática, já detectado pelo cardume de peixes zombeteiros do fundo do lago. O mais evidente é que nem todo mundo consegue aprender a pescar. E não por falta de habilidade, mas por falta de vara. Ora, você, cheio de conhecimentos, pode até achar fácil lançar a rede ou, se for mais modesto, uma varinha de bambu e anzol. Mas não dá para esquecer que todo o aprendizado de pescaria veio com esforço e, principalmente, muito material de pesca. É isca lançada fora, anzol no fundo do lago, linha rompida, rede rasgada e, nos piores casos, barco afundado.

Não bastasse, por melhor que seja o pescador, vez ou outra, volta de mãos vazias. Seja lá porque motivo for. Os peixes não são tão idiotas quanto parecem e sabem se esconder nos melhores recônditos do mar. E, pior, eventualmente o tempo fecha, a maré muda, o vento bate de um jeito diferente. E aí, donde antes se retirava, se não redes cheias, pelo menos uma sardinha para o dia, não se puxa mais que botas velhas.

E não vou falar aqui que a desculpa de não dar o peixe depende, para ser minimamente respeitável, abandonar a leitura deste texto imediatamente, largar essa coisa de bobeirar na Internet e começar a dar aulas gratuitas de pesca. Infelizmente, não é o que vejo. Ao contrário, a pessoa que se compadece com uma idosa pedindo dinheiro, às vésperas de uma madrugada gelada paulistana, é a mesma que dedica parte de seu tempo livre, voluntariamente, a limpar o leito dos rios, salvar a Mata Atlântica e busca sem teto para doar a sobra dos fartos lanches de fastfood.

Todavia, a bem da verdade, eu poderia rasgar o texto inteiro o lançar mão de um único argumento. O fato é que, se aquele menino estava ali, no meio da praça de alimentação, pedindo dinheiro para comer, com seus irmãos, algo está errado, seja na distribuição de varas de pesca, seja nas escolas de pescaria ou no lago, com menos peixes que anzóis. E, sinceramente, naquele momento, os motivos que o trouxeram ali não interessam nem um pouco, nem a mim, nem a ele. Não há como discutir, argumentar, fazer tratados de pesca, sentindo fome. Ela encerra as importantíssimas reuniões de trabalho, abrevia discussões acaloradas e mata pessoas na África mais próxima. Diante dela, só me restava dar o peixe para aquele menino, como fez meu heróico amigo.

Portanto, eu dou sim esmola. Escuto, vez ou outra, críticas e discurso moralista, feito de peito inflado, de algum patrulheiro-professor-imaginário-de-pesca. E se você é um deles, pode mandar sua opinião para a sessão de cartas à redação, com todos seus xingamentos ou lições de moral. Prometo que leio e pondero todas elas. Talvez até mude de idéia com alguma grande razão. Mas, se quiser enviar um peixinho frito, ficarei mais grato. Com limão, faz favor.

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12
ago

Quase um toque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

 

Quase um toque“Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.”

Quase sem querer – Legião Urbana

Não sei se foi por vergonha, falta de oportunidade ou por julgar o assunto irrelevante, mas acabei sem contar para vocês, meus distintos leitores imaginários, sobre o incidente de minha quase morte. Sim, quase morri. Eu e mais algumas ilustres passageiros de uma van, em um quase acidente automobilístico. Um pouco de aplicação prática (já sei, é redundância, seu patrulheiro do pleonasmo) da teoria do caos e vocês poderiam remover os quases das frases acima e este blog perderia seu escriba, bem como as estatísticas da Via Dutra seriam engordadas.

Eis que o leitor imaginário já se aconchegou na poltrona e pensou, “lá vai o maluco do Carlos Goettenauer falar de bobagens transcendentais de luz do fim do túnel e nãoseioque além da vida”. Equivocou-se. A anedota acima é só exemplificativa, pois, meditando sobre o ocorrido de quase morte, percebo que o mais incômodo não é o termo fatal da expressão, mas sim o quase lhe permeando. Palavrinha ardilosa esta. Você coloca um quase na frente da expressão e o que é deixa de ser, mas continua como se fosse.

Então, quase não é nada, é um infinitésimo vazio, preenchido com um tudo que ainda não é. Mas consegue engolir o mundo inteiro dentro de si. Diga ao doente terminal que o a cura de sua moléstia quase foi descoberta e isto não lhe servirá de consolo. Pergunte ao quase aprovado no vestibular, aquele que ficou por um ponto, o valor de um advérbio. Enfim, quase é um sim ao contrário, quase não. O pedacinho enorme do que ficou faltando para ser grande. Se a palavra já fosse conhecida no século XV, Hamlet, com seu famoso crânio na mão, perguntaria, “ser, não ser, ou quase?”

Assim, a palavra quase é uma daquelas que deveria vir acompanhada de um alerta do Ministério da Semiótica sobre sua má utilização. Segundo nos ensina o velho Aurélio, a expressão vem do latim, quasi, e significa, originalmente, como se. Advérbio acossado da Síndrome de Viúva Porcina, aquela que foi sem nunca ter sido. Torna qualquer alternativa viável em uma paradoxal possibilidade impossível.

No entanto, se no país do futebol, o quase é a trave atrapalhando o gol de placa do craque do último final de semana, há quem saiba encher o advérbio de expectativa. Então o quase não é mais inverso de tudo, para ser a ponte para o que ainda não é, mas será, se as condições climáticas continuarem as mesmas e as montanhas russas seguirem seus previstos trilhos. Um quase lá, pertinho, falta pouco. Vem até com o pedido de paciência em alguns casos. Cautelosos, talvez pessimistas aconselharão cuidado para não se iludir com a incerteza adverbial. Mas quem acredita, prossegue, sem medo do quase.

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29
jul

Todos os nomes

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Romeu e Julieta"What’s in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet."

Há quem diga que os nomes foram criados para facilitar a identificação das pessoas. Coloca-se neste o nome de João e naquele de José, assim, na necessidade de chamar um dos dois, evita-se a confusão de ter que lidar com ambos ao mesmo tempo. Um erro. Fosse assim e não existiriam os famosos homônimos, que atormentam a vida da família Silva. Em verdade, os nomes dão aos seus portadores algo mais que um assento no grande cartório de registro civil da vida.

Fosse diferente e, na ânsia do nascimento de um novo rebento, os pais não passariam tanto tempo na decisão de como nomear a criança. Como se, ao atribuir o definitivo vocativo do bebê, ao mesmo tempo lhe fosse entregue características específicas, próprias à coletividade das Alices e das Patrícias. Às primeiras, um ar de exploradora de locais oníricos. Às últimas uma habilidade artística extraordinária.

Todavia, por ter um nome grande, preenchido por um sobrenome complicado, sempre atendi por inúmeros vocativos. De tal sorte que não costumo me sentir representado pelo meu próprio nome. Completo, com todas suas vogais e consoantes, o registro batismal só me serve para documentos oficiais, lista de presença e resultados de concurso.

Assim, a identidade que os nomes nos dão, em muitos casos, cai por terra diante de chamamentos improvisados no cotidiano. Na família, um pequeno apelido, com repercussão em quase toda a cidade natal. Já no trabalho, um nome mais pomposo, acrescido de um pronome de tratamento meio deslocado. Entre amigos, o sobrenome se reverte em prenome, corrompido por várias pronúncias e abreviações. Em alguns casos, de grande amizade, muda tão completamente que nem lhe sobram as mesmas consoantes. Assim, ditos pelos lábios errados, o nome pode se tornar uma piada, uma provocação ou um grande sacrilégio.

Portanto, com todo respeito ao mestre bretão, portasse a rosa outro nome e seu perfume seria distinto. Da mesma maneira, um pé de orquídea, com outro nome, não daria uma flor tão bonita. Na dúvida de tal verdade, experimente chamar um adolescente pelo apelido de infância ou trocar o nome de alguém na agenda do celular e verifique as conseqüências.

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15
jul

Que dia é hoje?

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

CalendarioOs sábios historiadores já estabeleceram que os calendários foram criados para marcar eventos futuros. Na atribulada vida dos povos antigos, era sempre necessário agendar o dia do próximo festival de defenestração de idosos no magma quente ou a data correta para fazer feitiços com folhas de alecrim. Mas não demorou muito até o primeiro usuário da recém lançada invenção desvirtuar sua utilidade e começar a consolidar datas importantes. Registrou ali o abate do primeiro mamute, a descoberta da útil lâmina de pedra e a data de nascimento de cada um de seus rebentos.

Na dualidade entre o passado e futuro, as datas evoluíram. Em verdade, muito pode ser dito das pessoas de acordo com sua relação com o calendário. Algumas, como eu, eventualmente se esquecem por meses a fio de virar as folhas dos meses anteriores e ficam agarradas a um eterno janeiro, que naturalmente grande, estende-se infinito no tempo não passado. Outras, por outro lado, anotam seus compromissos nas folhas dos meses ainda por vir, às vezes com anexos de post-it, e tornam o calendário uma agenda multicolorida de projeções sonhadoras para o futuro.

Verdade que invejo discretamente um grande amigo meu. Desapegado das datas e, mais importante, com a cumplicidade da cônjuge, ele não lembra sequer do aniversário de casamento (11 de outubro de 1997). Se o passado não passa, também não há porque lhe construir um relicário e pode-se ter a chance de uma catarse mensal ao arrancar a folha do mês que se foi. Por outro lado, há algo agradável em ver um calendário recheado de lembranças, com a possibilidade de viver uma festa de desaniversário por dia.

Na insolúvel disputa de atenção entre as folha passadas e futuras do calendário, só vejo uma solução. Sugiro ao leitor imaginário que, neste exato momento, feche os olhos e, sem consultar qualquer auxílio externo ou parar a leitura do presente texto, tente recordar a data de hoje. Não sabe? Pois deveria. Por menos que se esteja esperando qualquer surpresa ao longo do dia e a tendência seja a queda da atual data no olvido eterno da rotina, hoje pode ser uma daquelas lembranças a serem guardadas em algum canto iluminado do memória, ao lado do dia em que levou um tombo estrondoso de bicicleta (27 de janeiro de 2000) ou quando resolveu que o avião não era mais um meio de transporte seguro (21 de agosto de 2009). A revolução do presente é sempre histórica.

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