Artigos com ‘Textos de reflexão’

29
mai

Revolucionários, Moderados e Otimistas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de maio de 2014,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Revolução FrancesaÀ época dos bancos de escola, meu professor de História insistia que, durante a Revolução Francesa, a Convenção Nacional contava com três forças políticas. Jacobinos, Girondinos e Grupo da Planície, jamais esquecerei, dividiam-se conforme sua firmeza na crença de que a guilhotina era um método válido para a resolução de conflitos. Na inocência de quem vivia no Brasil dos anos 90, não comprava muito a divisão proposta. Não entendia como funcionava essa coisa de ter razão e cortar a cabeça de quem está errado.

Pois, hoje, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, vejo que meu professor de história não mentiu para mim. Consigo imaginar, inclusive, as páginas dos livros de História que, daqui a muitos anos, relatarão os dias de hoje a um eventual bebê bonito.

Próximo ao início da Copa do Mundo, o povo do país do futebol decidiu se revoltar. Três grupos se formaram.

O mais radical era a turma do #nãovaitercopa. Inicialmente, contava com a participação de setores decisivos da sociedade, como os comentaristas da Globo News, a associação de moradores de Higienópolis, os grupos indígenas do Setor Noroeste de Brasília e o Batman do Leblon. Conforme virou modinha e deixou de ser hipster, recebeu a adesão de outros atores importantes, como sindicalistas e o Ronaldo Fenômeno, depois de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição. Englobava facções múltiplas da sociedade, cujo único ponto de concordância, paradoxalmente, era discordarem de “tudo isso que está aí”. Sem que ninguém se preocupasse em definir o que era “isso” e “aí”, o grupo alternava sua atuação entre a depredação do espaço público, as greves oportunistas em setores sociais sensíveis e passeatas de apoio a oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Tudo isso sem partido, mas com camisa branca da paz.  Ou preta, de luto com a situação do país. Tanto fazia. A pauta de reivindicações não chegou a ser descoberta pelos historiadores, porque cada integrante da passeata gritava uma coisa diferente, mas os cartazes revelavam o apoio da multidão à utilização, antes de qualquer palavra, de hashtags (era como eles chamavam, à época, aquele negocinho, #, que parece o jogo-da-velha). Lamentavelmente, as manifestações do grupo terminavam sempre com uma minoria de vândalos em confronto com a polícia. Ou com a polícia em confronto com uma minoria de manifestantes que gritava “sem violência”. Ninguém nunca entendeu direito. O mais importante é que o movimento começou pacífico, enquanto a maioria queimava o álbum de figurinhas da Copa e cantava o hino nacional abraçado na bandeira.

Na posição intermediária havia o grupo moderado, que era contra a gastança-de-dinheiros-em-estádios-enquanto-a-saúde-está-de-mal-a-pior, a corrupção, a ausência de infraestrutura para receber os estrangeiros e, principalmente, a cobrança de 6% de IOF nas compras no exterior. Bloco mais coeso, embarcava os comentaristas da Globo News, minha timeline do Facebook e a galera que colecionava o álbum de figurinhas da Copa (mas não queimava, porque, afinal, era moderada e ainda precisava trocar muitas figurinhas). Segundo relatavam, fizeram, desde o início, veemente oposição silenciosa à escolha do Brasil como sede da Copa. Só não manifestaram seus protestos antes porque, quando perguntaram sua opinião, eles estavam assistindo ao Campeonato Brasileiro, à Libertadores, ao Game of Thrones e ao Mais Você. Em que pese seu inconformismo com a realização da Copa no Brasil, o grupo optou, às vésperas do torneio, apoiar o evento, também silenciosamente, sob o argumento de que o dinheiro roubado já havia sido roubado, não havia lá muito o que se fazer, então, era melhor assistir mesmo aos jogos e torcer pela Seleção, cantando o hino nacional, abraçando a bandeira.

Na ponta oposta ao grupo #nãovaitercopa, estava a turma otimista. Certos de que #vaitercopa e de que ela seria sensacional, o movimento apoiou a realização do torneiro. Filiaram-se ao time dos otimistas os comentaristas da Globo News (menos o Diogo Mainardi, porque a última vez que ele foi otimista foi com a queda de Constantinopla), as pessoas com ingresso para assistir aos jogos, a galera que já tinha completado o álbum de figurinhas da Copa, o Ronaldo Fenômeno antes de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição, o Felipão, alguns jogadores da Seleção e o resto do Brasil inteiro.  Nos intervalos das partidas da Copa, o grupo organizava passeatas em oposição ao apoio à oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Ao fim da manifestação, todos cantavam o hino nacional, abraçados na bandeira.


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21
nov

Eu não!

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 21 de novembro de 2013,  em Crônicas

facelessNão. Eu não sou isso que você está falando. Não sou mesmo. Sei que às vezes parece. É meu jeito. Mas não, eu não sou nem um pouco. Nem gosto dessas coisas. Sou até ao contrário disso. Ah! Aquilo que eu falei? Pareceu que eu sou, é? Sei. É a maneira que falo as coisas. É mau jeito. Às vezes sou direto demais, sabe? Sinceridade. Ninguém gosta de sinceridade. Mas sincero, isso eu sou. Pode anotar aí! Além do mais aquilo era brincadeira. Eu brinco muito, não me leve a sério. O problema hoje é que todo mundo leva tudo muito a sério. O pessoal precisa relaxar mais, descontrair. Hum… Aquilo que eu fiz? Não, interpretaram errado. Eu estava tentado só mostrar como é para quem é… você sabe, né?, nem vou falar. Era uma forma de dar um exemplo. O que eu queria era o contrário. Interpretam sempre tudo errado. É ao contrário, sabe? Eu faço com uma intenção, mas aí levam para o outro lado. O problema do mundo é esse, ninguém se importa com suas intenções, só com o que parece ser. Que quase sempre não é. E costuma ser ao contrário. Todo mundo julga tudo hoje em dia. Sem prestar atenção no que você realmente queria dizer. Sei que falam que eu sou. É por causa disso aí. Parece, às vezes, pelas coisas que falo. E também por esse meu jeito, mais… Sincero! Meu jeito mais sincero. Mas não, eu não sou nem um pouco. Nem gosto de gente assim, para falar a verdade. Sei que meus amigos são. Eles sim! Mas eu tento dar uns toques neles. É por isso que não corto a amizade. Acho que é importante que eu esteja ali do lado para mostrar para eles como eles estão errados. Mas aí já começam a falar. Diga-me com quem andas… Já sabe, né? Também não é para sair por aí condenando todo mundo. E quer saber? Esse pessoal aí que diz que eu sou. Eles é que são. Fingem que não, disfarçam, tentam colocar a culpa nos outros. Mas a verdade é que no fundo eles são. Não! Não estou condenando ninguém! Eles podem ser, claro. No fundo todo mundo é um pouco, não? Todo mundo dá uma escapada às vezes. Todo mundo é, nem que seja no fundo.

Menos eu. Eu não sou. De jeito nenhum!

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3
jul

Cinebiografia provisória

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 3 de julho de 2013,  em Crônicas

Cinema paradisoNós tínhamos dezesseis anos e nessa idade você pode (e deve) ser rebelde. Então, resolvemos praticar um ato anárquico e desafiar o sistema. Algo revolucionário e contestador. Decidimos assistir a dois filmes no cinema.

No mesmo dia.

Um em seguida ao outro.

Tamanha ansiedade é natural em quem tem todo o tempo do mundo e nenhum tempo a perder. E eu e meu amigo João decidimos desafiar as convenções. A sociedade espera que você seja um sujeito comportado, obediente, cumpridor das tradições e só assista a um filme no dia. Meu pai, se ficasse sabendo, acharia um absurdo completo. Um desperdício. Mas os pais nunca tomam conhecimento dessas aventuras.

Nós demos um tapa na cara da sociedade conservadora.

Claro que um projeto ousado como esse dependia de alguma preparação. Assim, conversamos com os-amigos-do-colégio e montamos um esquema logístico especial. Naquela época, os multiplex de shoppings não eram uma realidade na minha cidade e, para conseguir assistir às duas sessões, precisaríamos de alguma folga no horário para correr entre um cinema e outro, o que acrescentaria mais emoção à aventura.

Assistimos a Men In Black e Velocidade Máxima 2. Dois promissores arrasa-quarteirões daquele ano, com todas as correrias e explosões do gênero. A maratona nos causou um processo de suspensão de descrença, causado por ver tantos personagens escapando com arranhões de situações que, na realidade, seriam absolutamente improváveis.

Saímos das sessões nos sentindo indestrutíveis. Poderíamos atravessar a avenida na frente dos carros e, caso surgisse a oportunidade, impedir assaltos a indefesas senhoras.

Na verdade, acho que naquela idade, sem saber, nós poderíamos tudo mesmo. Mas, na dúvida, fomos ao McDonald’s.


Dezesseis anos se passaram e, com o dobro da idade, decidi repetir a dose daquela noite. Dessa vez, não contaria com a companhia de meu amigo João, separado pela distância geográfica, mas sim de minha querida namorada, com quem divido, entre muitas coisas, o gosto pelo cinema.

Entretanto, estamos mais velhos, mais sábios e, presume-se, mais preparados para essas ousadias. Assim, escolhi não dois, mas três filmes em um único dia. “Elena”, “Faroeste Caboclo” e “O Grande Gatsby” foram escolhidos após uma conversa com os colegas de trabalho e a turma do Facebook. Uma aventura ainda mais mirabolante, considerando que as obras cresceram, não apenas em número, como também em complexidade. Mas, hoje, mais justificável, por espremer nas minguadas horas do final de semana todo o lazer que nos sobra.

O leitor mais perspicaz já percebeu, apenas com a enumeração de seis títulos, o grande equívoco na escolha dos filmes. Pois, se há dezesseis anos eu saíra do cinema como a encarnação de um personagem plenipotente, agora eu sentia uma exaustão amarga. As três obras são trágicas e, cada uma a sua maneira, corroem qualquer ilusão que possamos conservar com relação às aclamadas potencialidades da vida.

Talvez ficar adulto seja esse processo de trocar filmes que explodem por filmes que implodem.

Mas prefiro pensar que não. Como Gatsby, em um otimismo incorrigível. Olho ao redor e prefiro as maravilhas que me cercam hoje.


Preciso de mais dezesseis anos para chegar aos quarenta e oito. Às vésperas dos cinquenta. Não sei como as coisas estarão até lá. O futuro ainda é uma página branca, hoje como era há tantos anos.

Mas, seja como for, pretendo fazer mais uma sessão conjunta de cinema. Se isso ainda existir até lá.

Qualquer novidade, aviso vocês.

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7
jun

Estraga Magia

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 7 de junho de 2013,  em Crônicas

Ah Mister M, o mestre dos estraga magia.Imagine-se o leitor imaginário a assistir ao novo número de um grande mágico. Passa para cá caixa com metade de mulher dentro, passa para lá cartola transbordando coelhos, muitos deles ocupadíssimos em levitar e assanhadamente fazer reaparecer buquês de rosas por trás das orelhas das jovens na plateia.

Ao lado do leitor, a essa hora ainda abandonado pelo cronista na cadeira do teatro, um sujeito assiste aos números, sério, com bloquinho e caneta. Ao fim, vira-se para o leitor imaginário e passa a descrever a maneira como todos aqueles malabarismos mágicos foram montados para enganar o público. Pura ilusão, aponta ele, feita de polias, espelhos, fios transparentes, fundos falsos e cadafalsos.

Está aí, ao lado do leitor imaginário, um espécime cada dia mais comum na fauna humana. O estraga magia.

Trata-se do sujeito que tem explicação para tudo quanto é que pode existir no planetinha Terra. Quiçá na galáxia. Você lá, a se maravilhar com o arco-íris e as miragens no deserto, e ele te explicando sobre a refração da luz nas gotas de água, frequência das ondas luminosas e como tudo isso influencia a revenda de commodities no mercado de tapioca. Quase uma Wikipédia viva, com seu repertório de conhecimento apagando o encantamento de qualquer pequeno milagre cotidiano.

Mas, apesar do hábito da desmitificação, o estraga magia tem lá suas utilidades. Especialmente porque nem todo encanto vem para bem. Assim, você descobre que não deve misturar vinho e Coca-cola, porque o álcool e o gás carbônico, quando misturados, reagem no estomago para se transformarem em ácido carboxílico. E isso dói.

E para desdizer o que disse antes, nem acredito que o estraga magia seja assim tão ruim. Na pior das hipóteses, suas ponderações enciclopédicas podem, no máximo, ser um pé de página na conversa mística. Triste mesmo é quem vê encanto e magia na ignorância.

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25
mar

Aperte Play

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 25 de março de 2013,  em Crônicas

Clique para abrir o site do fotógrafoQuando aprendi a escrever foi como ganhar um grande brinquedo.

Alfabetização é uma coisa meio mágica. De uma hora para outra a criança adquire um sem número de possibilidades para mundo até então fechado. Mas, mesmo com todo encanto que traz a leitura, lembro que era a possibilidade da escrita que mais me enfeitiçava naquele processo.

Depois de entender como se faz a magia da escrita, eu pude, pela primeira vez, mostrar minhas idéias para o grande público. Ainda que, à época, os leitores fossem ainda mais imaginários do que hoje. Na grande maioria das vezes, apenas minha mãe, cuja aprovação invariável dos textos era, para dizer o mínimo, suspeita. Ser escritor foi, provavelmente, a primeira profissão que desejei na vida.

Estranhamente, esse desejo foi esmaecendo. Com o tempo, escrever foi se tornando sempre coisa séria. Escreva bem, menino. Escreva direito, escreva correto, conjugue o verbo na segunda pessoa do plural do pretérito mais-que-perfeito do indicativo (droga de tempo verbal chato). À escrita atribuiu-se sempre alguma utilidade. Escrever para se comunicar, ser claro, passar no vestibular, mandar cartas para a avó (que já tinha morrido e se recusava a ler as missivas), ter bom emprego e redigir contratos infalíveis. Que saco.

Fato é que ninguém disse “escreva por escrever, feito brincadeira, porque é legal e essas idéias malucas que você tem, sei lá, vai que algum doido gosta também e lê, compra a mensagem, dialoga, sabe como é, já vão ser dois malucos juntos.” Essa falta de incentivo à escrita contrasta, aliás, com todas as mensagens que colhi na vida sobre as maravilhas da leitura. “Ler liberta, ler enriquece, ler te dá asas, ler te leva a lugares, ler faz você conseguir namorada bonita e inteligente.”

(Bom, pelo menos a última frase deve ser verdade, o que escusa os arautos da leitura do crime de estelionato, mas já falei minha opinião sobre o tema antes.)

Ainda assim, entre todos os textos perdidos por aí, personagens natimortos e histórias engolidas no mundo esquecido dos livros não escritos, consegui, meio por acaso, chegar a esse blog. Mas, por muito tempo, precisei, de alguma maneira, buscar um discurso que justificasse o tempo perdido nas palavras e a energia gasta com algo que não ia além daqui mesmo (e da cabeça dos leitores imaginários) ou em fazer para que esse algo fosse além do que já era. E isso era uma angústia.

Vejo que não sou muito diferente de outros tantos por aí nessa angústia. Todavia, conscientemente, trabalho, quando escrevo, para me libertar do compromisso de chegar a algum objetivo além da própria atividade. Escrever pela alegria de atirar os pensamentos nessa parede estranha e esperar ver o que vai dar. Até se não for dar nada. O zen da escrita.

P.S.: Enquanto fermentava as idéias para esse texto, uma amiga me mostrou o blog de seu filho de 6 anos. Achei fofo. Aos poucos, nesse mundão grande da Internet, ele toma gosto pela escrita. Queria ter seis anos hoje para poder ter um blog assim e espalhar mais ideias por aí.

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14
dez

Aperte Pausa

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de dezembro de 2012,  em Crônicas

Terra, um pálido ponto azul visto de Saturno.Sei que não será nada original este blog retornar ao assunto do fim do mundo às vésperas do evento. Mas, desde quando têm os cronistas direito de buscarem pautas que escapem das vicissitudes do cotidiano?

Assim, com apenas mais 7 dias para aproveitarmos nossa gloriosa vidinha aqui no pálido ponto azul, busco apenas jogar algumas conjecturas hipotéticas no ar.

E se, ao invés de acabar em um fogaréu roliço no negro do espaço, nosso mundo fosse só dar uma pausa. Um relax sob a sombra do coqueiro. De uma hora para outra, seja lá por qual motivo, desse na idéia de alguém proibir a novidade?

No noticiário, um William Bonner atônito, dizendo “E hoje não aconteceu rigorosamente nada que seja digno de notícia. Nenhuma tragédia em nenhum país longe, nenhum escândalo de corrupção, nem gols das equipes de futebol. Então, para suprir o vazio da programação, vamos passar vídeos de gatinhos fofos que tiramos do YouTube”.

No cinema, nada de estréias. Senta lá e vai assistir trilogia de O Senhor dos Anéis na versão estendida. Lista de livros? Encolhendo, porque ninguém acresce títulos à pilha de leituras pendentes. Discos? Ouça os que já tem, bailando naquele festejo de quem celebra bodas de ouro.

Tecnologia? Vire-se com o que aí está. Abaixo a Lei de Moore! Ninguém mais vai preso se mantiver computador desatualizado por mais de duas semanas. Também não precisaremos mais de notação científica para numerar modelo de celular. Fique com a quinta maçã  ou a terceira galáxia, pois os dois já passam mensagem, têm toque polifônico, tela colorida e controlam foguete espacial.

Não sei bem qual seria a consequência econômica disso. Suspeito que alguma recessão grave, cumulada com o desemprego do Bonner e agravada pela nossa crise de abstinência de distrações. No entanto, mais dia menos dia, alguém vai sair do riscado e frear a máquina de novidades.

Mas, por mais estranho que possa parecer, não achei tão ruim a proposta. Pelo menos haverá os vídeos de gatinhos fofos no Jornal Nacional.

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4
dez

A Arte de Voltar

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 4 de dezembro de 2012,  em Crônicas

O Retorno do Filho Pródigo RembrandtDois sentimentos dividem quem volta.

E deixo propositadamente a última palavra sem seu devido adjunto adnominal. Pois não me interessa para onde ou do quê se volta. Basta existir o fenômeno da “volta”, após a ausência prolongada, para o sujeito (o “voltante”) ser dividido por dois sentimentos dispares.

O primeiro é o mais notável. A familiaridade. Reencontrar-se com o que já se conhece. A rigidez da dobradiça da porta de casa, fechada por um mês, que ecoa pelo corredor do prédio o mesmo barulho de todos os rotineiros retornos, gritando “Lar, doce lar”. Daí vem inquestionável conforto, mesmo para aquele que retorna às situações mais desagradáveis. Aliás, tenho a impressão que o apego a familiaridade deve ser ainda maior quando se retorna ao caos. O preso se reconforta na cela, quando vem a saber que eles ainda servem a mesma refeição horrível, a qual se acostumou a comer ao longo da última pena.

Estranhamente, é a mesma familiaridade que, quando em excesso, se torna enfadonha e leva ao tédio. E este, à partida, fenômeno sem o qual não há qualquer retorno. Pois, quem parte vai em busca de uma nova realidade, seja o estranhamento nas planícies desérticas da Mongólia ou o conturbado mar de gente da China.

O que nos leva ao segundo sentimento, o encontro com a novidade. Pois quando se sai para buscar a novidade do outro lado da galáxia, nem se imagina que o retorno será a um lugar diferente.

Mas sempre é.

E o leitor imaginário vai me esfregar o óbvio na cara, dizendo que há muito mais de familiar na volta do que na ida. Verdade. Contudo, eu insisto, porque a novidade do familiar tem que ser buscada nos detalhes. Na grama crescida após a seca, na reforma eterna que é uma mutante constância, na mudança da programação da TV, com o mesmo locutor dando outras notícias, na sutileza de quem respira o ar e percebe a diferença de sua umidade relativa.

Assim, voltar é como viajar para a própria casa. Estranhar-se no lugar familiar. Mas, claro, há quem dirá que nada disso interessa (“Ah! Vá lá dizer que a programação da TV interessa!”). Mas esses voltam sempre para a mesma vidinha desinteressante de sempre. E não há viagem que mude isso.

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19
jul

Fim do Mundo II

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 19 de julho de 2012,  em Crônicas

London Burning 1666Se estou especialmente otimista com o fim do mundo, um ponto em especial me aflige. A possibilidade, cada dia mais remota, de a catástrofe não acontecer no período aprazado. Vai que o evento é adiado, por uma série de questões relacionadas ao planejamento divino, como ausência de recursos para as obras de fim de mundo ou falta de meio de transporte para o deslocamento dos trabalhadores e espectadores do espetáculo (nas esferas celestes a questão é tida como um show pirotécnico – de baixo orçamento).

Imaginem só, todos preparados para o fim do mundo em 21 de dezembro de 2012 e ele não dá as caras. Pior, aparece algumas semanas depois, sem vergonha. Como uma visita que chega sem avisar, quando sua casa está mais bagunçada.

Pois não haverá vexame maior que não poder programar os últimos vestígios da humanidade. Pensem na espécie sucessora do ser humano no domínio do planeta. Seus estudiosos escavarão nossos vestígios, como hoje fazemos com os dinossauros, e tentarão entender nossa cultura.

O fim do mundo fora de hora estragará nossa pouca chance de deixar boa impressão. Nada de desaparecer com os discos de Michel Telo do três-em-um, varrer todos os filmes do Michael Bay para baixo do tapete e esconder os livros de auto-ajuda. Azar nosso, o fogo consumirá até a  extinção, ardiloso que só, o volume de Shakespeare Complete Works e o vinil de Bach.

Vai-se embora também a oportunidade de colocar, sob a pilha de escombros do fim do mundo, um livro bojudo da “Grande e Gloriosa História da Humanidade”, bem editado, sem aqueles tropeços bélicos tão feios.

Que venha o fim do mundo. Mas na data marcada, sem imprevistos!

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1
jun

Montinho de areia

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 1 de junho de 2012,  em Crônicas

Só areia.Dizem que no começo era um grão de areia. Ou talvez fosse só um grão de qualquer coisa, pois, sendo o início de tudo, areia ainda não existia e tampouco podiam os grãos ser disso ou daquilo. Eram grãos. Ou melhor, era um grão que eu, por absoluta teimosia e para deixar o texto mais poético, chamo de grão de areia.

Bons tempos aqueles.

Depois o grão explodiu. E pelo que me contam os canais de televisão especializados no assunto, tudo virou uma nuvem de poeira. Poeira cósmica é o nome que dão. E fico eu, no sofá da sala, morrendo de medo da infinitude do universo, a me questionar o que seria poeira cósmica. Certamente não é a mesma que se acumula nos livros da estante. Deve ser poeirinha mais especial, que faz mais que me provocar alergia. Mas seja lá como ela for, gosto mais de pensar em uma nuvem enorme de areia, poeirenta que só ela, a invadir tudo. Melhor, invadir o nada, que, pasmem, ainda estava em estágio de elaboração na época.

E muitos tempo depois, os grãozinhos de areia olharam para o lado, se gostaram e, ao melhor estilo da Clarice Lispector, disseram sim um para o outro. Naquela atração toda, fizeram um bem bolado que chamamos de galáxias, sistemas, estrelas e até um planeta com água e areia. E, vejam a surpresa divina, que água e areia, misturados, transformam-se em barro e do barro, como é sabido, se fazem várias coisas, entre elas tijolos, esculturas, peças de porcelana para minha mãe pintar, paredes, atoleiros, vasos fantasmagóricos, urnas funerárias e não seres humanos. Esses são feitos de outra coisa. Provavelmente poeira cósmica.

E a verdade é que os seres humanos, caminhando sobre as areias, viram que aquilo era bom, útil e, já que estavam ali, de bobeira mesmo, construíram pirâmides e cidades. Entretanto, continuavam meio perdidos. Até que fizeram da areia, vidro. E do vidro, lentes. E das lentes, telescópios para olhar o céu enorme. E enxergaram uma porção de coisas, entre elas, os grãos de areia brilhantes lá encimados. Passaram a entender melhor seu lugar ridiculamente pequeno naquela nuvem enorme de areia. Mas, para consolar, inverteram as mesmas lentes e conseguiram enxergar coisas ainda mais ridiculamente pequenas. Óbvio que o alento durou pouco. Apenas até compreender que não só eles eram feitos daquelas coisas ridiculamente pequenas como, ainda, elas eram terrivelmente fatais.

Se não serviu de consolo, pelo menos as lentes abriram os olhos humanos para várias possibilidades. E eles pensaram bastante até conseguir brincar novamente, cheios de lentes e idéias, para juntar um punhado de areia, tirar o silício dali e fazer plaquinhas eletrônicas. Ah! Mas a brincadeira foi tão divertida que ainda nem terminou. Fizeram microchips, ligaram tudo em um rede e arrumaram um jeito de chamar de revolução tecnológica.

No entanto, olhando daqui, dá para ver que, do início até hoje foi só areia, explodida, agregada, compactada, aquecida, esfriada, polida, molhada, trabalhada e evoluída. Não espanta que se utilize vidro e areia para medir o tempo.

E você aí, reclamando que entrou areia nos seus planos de ir ao litoral relaxar na praia.

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18
mai

Misticismo consumista

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 18 de maio de 2012,  em Crônicas

cip_black-friday-tipsO mundo é mesmo um lugar meio incoerente. Ventos de responsabilidade, cumulada com consciência ecológica e culpa católica, transformaram a palavra consumismo em xingamento, a ser atribuído aos mais fúteis representantes da espécie humana. Estranhamente, os mesmos dedos em riste são os que retiram notas de carteiras recheadas na hora de gastar com algum outro produto eleito no último momento como fundamental para sociedade e escrevem sobre a importância de criar uma sociedade desenvolvida, produtiva e descolada.

Na brincadeira de pode-não-pode, vai muito argumento e pose para diferenciar o que é consumo desenfreado e o que é gadget importante para manter seu espírito atualizado com a última tendência de design da timeline. Mas, palavrório à parte, noves-fora-zero, sobra muito pouco de necessidade nas prateleiras das lojas. Quase tudo que colocamos para dentro da vida e para fora da carteira é coisa de urgência inventada. Ainda que sejam sólidas as camadas de ilusão sobre a importância de manter-se informado, culto, esperto, conectado, saudável, experiente e experimentado, no fundo, um pouco de sabão sobre a maquiagem comprada na Sephora, bem na Times Square, mostra a quase nenhuma vital necessidade do consumo.

Mas não escolho palavras em vão e se digo vital consumo, falo mesmo da mera sobrevivência. Pois, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão balé”. E, para citar Titãs duas vezes no mesmo parágrafo (feito até hoje não alcançado por nenhum cronista), “riquezas são diferenças, miséria é miséria em qualquer canto”. Nos diferenciamos e nos unimos, em estranho processo de individualização coletiva, pelo que produzimos, fabricamos, escutamos, lemos, escrevemos e sonhamos nas paredes das cavernas. Nos enriquecemos consumindo.

Depois de ser mero gasto de verdinhas na carteira, consumo é absorção de mundo. Pelos olhos, ouvidos, boca, mãos e nariz. E o moço de camiseta velha do Mário e all-star preto esfarrapado é tão consumista quanto a dondoca de bolsa Prada. Talvez mais pobre e com um senso estético diferente. Mas não menos cheio ou vazio. Pessoas planas são planas e ponto. Consumo, com a devida dosagem que não leve a ruína financeira ou a ostentação antiética, só faz bem.

P.S.: Em que pese as observações acima, não vele destruir o planeta inteiro no processo de nos tornamos melhores. Isso é feio. E como todo mundo sabe, para feiúra não tem jeito. Nem na Sephora

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