Artigos com ‘Textos de reflexão’

27
ago

Por uma rede antissocial

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Emoticon bravoComo todo bom internauta, adoro fuçar as fotos do Orkut manter-me atualizado sobre as novidades do meu círculo de amigos pelas redes sociais. Um mundo maravilhoso surge no monitor. Todos sorridentes, sempre alegres com a vida. Mesmo a tristeza, nas raras vezes que dá as caras, aparece em fontes coloridas e simpáticos emoticons chorosos ou um acréscimo de “saudades eternas” no sobrenome. No entanto, há um enorme campo que ainda deve ser desbravado pelos empreendedores da Internet, as redes antissociais.

Surpreendente, aliás, que a Internet tenha permanecido alheia até hoje ao mais poderoso dos sentimentos, o ódio. Basta uma rápida olhadela, seja na esquina movimentada mais próxima ou na história da humanidade, para confirmar o potencial humano em arrumar confusão e discórdia. Assim, nada mais natural que criar uma rede social na qual as pessoas se encontraram para discutir, brigar, ofender-se mutuamente, tudo com a segurança, comodidade e segurança propiciada pela Internet. Lembre-se daquele seu inimiguinho de infância, há anos perdido no esquecimento? Pois então, na nova rede vocë poderá reencontralo para terminar aquele “te pego lá fora” não mal resolvido há décadas.

A rede antissocial trará o melhor de todos os mundos. Com um clique rápido na leve interface você começará uma inimizade com seu mais recente desafeto, seja alguém com quem você tenha brigado no trânsito ou no bar. E, adeus reciprocidade. Não será mais necessário ter seu ódio correspondido para odiar alguém. Se iniciará um novo conceito, o ódio platônico. Celebridades, por exemplo, poderão comemorar quando atingirem seu primeiro milhão de inimigos. Em seguida, nada de recadinhos coloridos no mural dos outros. Você entrará na rede e receberá o maravilhoso aviso “fulano deixou uma ofensa para você”. Há como começar um dia melhor?

Já as comunidades, que fizerem o sucesso de algumas redes sociais, serão substituídas por clubinhos da raiva. As possibilidades são incalculáveis. Pessoas do mundo inteiro vão poder dividir seu desgostos e desinteresses em comum. Imagino as histórias edificantes que serão contadas daqui a anos sobre relacionamentos surgidos na rede antissocial. “Conheci meu marido no clube de pessoas que odeiam andar de bicicleta ergométrica em avenida”, afirmará alguma noiva entusiasmada.

Ao bem da verdade, o internauta superligado nas últimas novidades do mundo cibernético, atualmente deve desperdiçar passar boa parte do tempo digerindo a infinitude de conteúdo oriundo das redes sociais. O volume de bobagens informações é tão grande que se torna quase impossível manter-se atualizado com os últimos trending topics do Twitter, ler o s scraps do Orkut e aceitar os novos pedidos de amizade do Facebook. Assim, antes de o pacote de dados do celular 3G ficar mais caro que a dívida externa dos país em desenvolvimento, a rede antissocial é a solução definitiva para economizar nosso tempo, para que possamos nos concentrar no que há de mais importante na vida. Brigar em família.

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24
ago

Matemática da vida

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Operações matemáticas Com quatro operações se faz uma vida inteira.

Da soma de duas metades, nasce um inteiro. A partir de então, uma multiplicação sem comparativos. Zigoto, mórula, blástula, feto e parto.

Depois, vêm as adições. (A)crescem os dentes, o cabelo, as unhas insistentes, o corpo e as preocupações. Somam-se experiências para construir um adulto.

“Crescei e multiplicai-vos”, preparados ou não. A Bíblia, infelizmente, omitiu-se das divisões e subtrações. No sagrado silêncio, o pai tempo faz o trabalho sujo de roubar vigor. Como um ladrão paciente, retira a cor dos cabelos, os reflexos dos nervos e força do coração. Noves fora, zero, adeus mundo cruel.

No fim, só resta divisão. Sistema, órgãos, tecidos, células e patrimônio na mão dos herdeiros. Não é à toa que o derradeiro processo judicial chama-se partilha.

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13
ago

Proposta para acabar com o azar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Gato branco, tomando sorteve colorido, para ninguém ter azar. Sexta-feira treze, em agosto, e meus leitores imaginários de mais juízo devem ter ficado em casa, devidamente protegidos das intempéries do destino. Afinal, hoje os astros dizem que o dia é cosmicamente desfavorável às atividades que exponham o sujeito a riscos, como atravessar a rua ou acessar blogs de conteúdo duvidoso. Eu, como tenho o corpo fechado pelos personagens místicos das novelas da Globo, não preciso me preocupar com esse problema. Mesmo assim, em um ataque de solidariedade, passo algumas dicas para conseguir mais sorte nesta tenebrosa data.

Novos tempos exigem novos hábitos e, convenhamos, gato (de qualquer cor) só dá azar para sorvetes coloridos ratos, assim como não passar por baixo de escadas não é superstição. Trata-se, no máximo, de bom senso de quem não quer ser atingido por um uma lata de tinta na testa. Portanto, para ter melhor sorte, devem-se adotar novas mandingas.

A principal alteração na vida para quem não quer sucumbir às catástrofes aleatórias é livrar-se do objeto mais agourento do mundo. O dinheiro. Basta observar a vida dos ricos para perceber que dinheiro dá um azar tremendo. Todos sempre envolvidos com atos de violência, como seqüestros e arrastões em condomínios fechados, super chiques. E a vida amorosa? Quase impossível apontar um casamento duradouro entre ricos. Normalmente os matrimônios de alta renda se desfazem mais rápido que calotas polares. Quando o dinheiro se associa à fama, a dificuldade torna-se ainda maior e até os enlaces modelo acabam em divórcios exemplares.

Ademais, dinheiro é um talismã ao contrário. Enquanto um galhinho de arruda pode trazer boa sorte e bons fluídos, uma nota de cem dólares desperta nas outras pessoas a terrível inveja. Como se sabe, um sujeito invejoso projeta péssimas energias no ambiente, sempre muito nocivas aos endinheirados. A melhor maneira para acabar com o sentimento destrutivo é, portanto, livrar-se do dinheiro, fonte da inveja alheia.

Por outro lado, pobre não tem azar. Tudo de ruim que acontece com ele já está perfeitamente previsto dentro de seu roteiro de vida. Assalto no ônibus? Ora, é mais do que provável. Doença na família com falta de atendimento no SUS? Quem mandou não pagar plano de saúde.

Portanto, antes que qualquer endinheirado se afogue em uma garrafinha de Dom Pérignon, sugiro que seja realizada uma transferência de todo seu patrimônio para alguém que tenha capacidade de lidar com este imã de azar. Só assim os ricos viverão uma existência longe de energias ruins. Deve-se, claro, ter o cuidado de escolher como destinatário das doações uma pessoa que conte com uma grande proteção espiritual e bons feitiços anti-urucubaca, exatamente como o cronista que vos escreve. Quaisquer dúvidas sobre número de conta
corrente ou demais entraves burocráticos podem ser esclarecidas no formulário de contatos ou com cartas para a redação. E boa sexta-feira treze para quem não tem grana suficiente para ter azar.

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6
ago

Um tapinha não dói

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Este bebê não foi maltratado para a escrita desta crônica. O mundo legislativo anda mesmo efervescente. Recentemente surgiu a polêmica da proibição das palmadas educativas e, logo que as crianças malcriadas pararam de comemorar, foi lançada outra lei. Agora, graças à reforma no Estatuto do Torcedor, os aficcionados por seus times não podem mais entoar seus cânticos ofensivos nos estádios, especialmente se a provocação envolver racismo ou xenofobia.

Possivelmente, o momento de criatividade do poder legislativo deve ser fruto de nossa economia estável e desenvolvimento humano. Assim, sem terem que se preocupar com questões mais melindrosas, os legisladores podem se dedicar à atividade inventiva de estabelecer novas formas de tornar nossas vidas mais seguras e agradáveis.

É bem verdade que as torcidas organizadas e seus enfurecidos cantos discriminatórios há muito precisavam ser controlados. E imagine-se o trabalho horrendo que não seria ensinar a toda a massa de torcedores como se portar educadamente em um estádio de futebol. Às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil, o país precisa de uma solução imediata e garantida para manter os bons costumes dos torcedores, especialmente diante dos sempre mais importantes olhares estrangeiros. Assim, nada melhor do que criminalizar os cânticos, de maneira bem genérica. Desta forma, nossa preparada força policial está autorizada a abordar os infratores com a educação costumeira, para didaticamente descer o cacete demonstrar a correção de se obedecer à lei.

O mesmo se diga das palmadas, agora abolidas. Eram realmente um meio antiquado para a manutenção da autoridade paterna. Sem o recurso fácil do tapinha no traseiro, os pais se verão obrigados a partir para novas formas educativas, que dependem de mais empenho, como o choque-elétrico dialogo construtivo. Certamente, apenas a coerção estatal poderia levar essa alteração de comportamento, que, de outra forma, só seria atingida com anos e anos de investimento em educação fundamental e acompanhamento pedagógico aos pais. Veja como é sábio o legislador, que, de uma tacada só, economizou tempo e dinheiro do contribuinte.

Na minha humilde opinião de cronista obscuro, as duas leis já existiam por aí. Que eu lembre, agredir crianças e xingar os outros já não era bem visto pela sociedade há muito tempo. Mas isso deve ser coisa de minha mente criativa, que enxerga coisas onde elas não estão. O certo é que, agora, nossa sociedade deu dois importantes passos para o desenvolvimento social. Especialmente quando lembramos sobre a qualidade de nosso sistema prisional, que só encontra rival na Suíça. Em tais casas de reclusão, os papais de mão-pesada e os torcedores boca-suja se encontrarão para refletir sobre sua existência e repensar seus atos.

Por outro lado, melhor que o Governo não se ocupe de fazer valer a lei. Afinal, como nos ensina o costume brasileiro, o sucesso de uma legislação não depende da fiscalização e controle, mas sim da vontade popular em aderir às novas normas e garantir que a lei pegue.

Com todo este arcabouço normativo, teremos que dar adeus à esperança de atazanar os argentinos nos estádios em 2014. Mas, minha única preocupação é que talvez todo esse esforço legislativo seja inútil, quando, no nosso caminho do desenvolvimento, nós encontrarmos o bom-senso, solução para todos os conflitos, jurídicos ou não.

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27
jul

Thundercats e o imperialismo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Mumm-Ra, o líder da resistência do Terceiro Mundo, com sua tradicional babinha na boca! Já relatei antes meu desapreço por He-man, um reacionário em sunga de pelúcia. Mas minha antipatia por falsos heróis alcança outros desenhos animados antigos e suas mensagens sutis. Nesta linha, Thundercats é outro programa cujas más intenções nunca escaparam de minha aguçada percepção.

Para quem não se lembra mais, vale à pena recapitular a história dos felinos humanóides.

Como é de conhecimento notório, planetas ficcionais são destruídos muito facilmente, vide Cripton e Alderan. Thundera, a terra natal dos Thundercats, não teve melhor sorte e acabou virando poeira cósmica. Com a destruição, a nobreza do lugar, que não poderia ser deixada flutuando na galáxia eternamente, foi encaminhada a outro planeta, chamado América Latina BRIC Terceiro Mundo. Todavia, nem tudo seriam flores para o grupo de nobres gatinhos. Ao chegarem ao novo lar, descobriram que o planeta já era habitado há milênios por Mumm-Rá, uma respeitável liderança local.

A partir de então os Thundercats mostram sua verdadeira face de conquistadores saguinários. Qualquer criatura com bom senso, se forçada a viver em um planeta novo, procuraria um mínimo de diplomacia e respeito aos costumes locais. Ah! Mas não os arrogantes Thundercats! Logo ao chegarem, já bancaram que eram os donos da verdade e detentores da justiça, consubstanciada em uma espada que cresce quando manipulada. Para provar sua superioridade intelectual, trouxeram um aparato tecnológico, convertido para utilização militar.

Os leitores imaginários devem lembrar que os fatos não aparecem no programa de televisão com as mesmas cores que aqui coloco. O líder local, Mumm-Rá, é retratado como múmia asquerosa, violenta, com babinha na boca e cobrinhas na cabeça. No entanto, seu hábito de usar bandagens e fazer feitiços supostamente malignos reflete os costumes da região, desprezados pelos Thundercats. Na ótica dos invasores, reproduzida no desenho, tudo que não é felpudo e ronrona como um gato é feio, perigoso e deve ser destruído.

Talvez hoje os Thundercats não teriam tanto sucesso em sua empreitada colonizadora. Se sua nave tivesse desviado do Terceiro Mundo e caisse em Pandora, o planeta reproduzido em Avatar, a história seria outra. Certamente Munn-Rá tem muito a aprender com os Na’vi sobre resistência nativa. Mas, quanto isso, deve ser feita justiça à imagem do líder de Terceiro Mundo, que merece lugar na galeria de grandes libertadores coloniais.

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23
jul

Te cuida Manequinho!

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Manequinho, exibindo suas vergonhas e dando mau exemplo para a galera. Saci-pererê certamente não precisou de cota para entrar no panteão do folclore brasileiro. De pulinho em pulinho, na fumacinha do cachimbo, Saci conseguiu ser escalado como um dos personagens imortais de Monteiro Lobato e alcançar glória nacional. Bem visto por todos, que entendias suas travessuras como molecagens inocentes, ele conseguiu até uma vaga de mascote de clube de futebol. Bom, pelo menos até recentemente.

Segundo notícias, o Internacional FC de Porto Alegre pretende, de maneira sorrateira, demitir Saci-pererê do cargo de mascote oficial do clube. Para sua vaga já foi escalado um macaco, curiosamente chamado de Escurinho.

Não vamos culpar o clube de futebol. Afinal, os tempos são outros e Saci seria uma péssima influência para as crianças, sempre pitando seu infame cachimbo. Passível até de responsabilização por danos morais em algum juizado por aí. Algo inaceitável para a segurança pública. Lembro que na minha infância existiam uns cigarrinhos de chocolates, embalados em caixas, cujo rótulo era um menino negro fumando. Uma dupla agressão à moral e bons costumes de nossa muito respeitável sociedade. Em apenas uma embalagem instigava-se nas crianças o racismo e o vício! Aliás, pior, ao vício de cigarro e de chocolate, que muito em breve também ter suas propagandas com alertas sobre a possibilidade do consumo excessivo transformar você em um obeso mórbido. As fotos na embalagem serão horrendas senhoras, pensando quatrocentos quilos.

Quem nunca fumou um chocolate? Tempos perigosos aqueles. Não possuíamos quem pensasse por nós e vivíamos indefesos, à mercê de inescrupulosos fabricantes de cigarrinhos de chocolate. Sem a patrulha politicamente correta, não sabíamos como consumir, xingar com educação ou ser preconceituoso com respeito. Recentemente vi que o jovem afro-descendente da embalagem perdeu o cigarro, usa uma roupinha mais classe-média e trás entediantes lápis de colorir. O novo sabor? Não faço a mais vaga idéia, pois não comprei. O barato mesmo era fingir que fumava chocolate, algo que certamente transformou minha geração em fumantes desbragados, que vivem tossindo seus pulmões pelos cantos.

Mas, convenhamos, Saci teve o que mereceu. Deveria ter notado que os tempos eram outros, menos tolerantes aos vícios. Negro, deficiente, fumante e travesso, Pererê teve bastante tempo para se emendar na vida, largar o cachimbo, comprar uma perna mecânica igual a do Rei Roberto, daquelas tão discretas que viram lendas. Se tivesse um pouco mais de bom senso, hoje estaria ocupando uma vaga em universidade ou, melhor ainda, um cargo de caximbador carimbador maluco no serviço público.

Talvez ainda haja tempo para Saci. Sugiro a substituição do cachimbo, por algum outro objeto. Uma cuia de chimarrão? Não, muito regionalista. Uma pipa? Não, pode incentivar as crianças a se eletrocutarem na rede elétrica. Deixar as mão vazias? Não, vai parecer que ele é pobre, coisa que de fato ele é, mas não precisa parecer. O ideal é uma pastinha escolar e um livro na outra mão! Incentiva a educação e a leitura em apenas um mascote.

De todo, se não houver salvação para o emprego do Saci-pererê, espero que ele volte em segurança para o Reino de Narizinho, lugar muito mais divertido e fantástico que este onde vivemos. Entretanto, no caminho, não custa passar no Rio de Janeiro e avisar ao botafoguense Manequinho para guardar suas vergonhas e parar de fazer xixi em público. Afinal, a patrulha está à solta, para nossa segurança.

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16
jul

Os milzonários

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

cifrao Há não muito tempo, milionário era um sujeito riquíssimo, associado a montanhas incalculáveis de dinheiro, capazes de despertar a cobiça de Tio Patinhas. Então, a revolução digital chegou e nos apresentou aos bilionários, que perfuraram poços eletrônicos de riqueza e, com espinhas na cara, já ganhavam mais dinheiro que os paxás da velha indústria. No entanto, por mais que faltem números para contar a grandeza da riqueza dos magnatas, percebo que o populacho insiste em se abraçar em seu antigo status de milzonário.

No já comentado Bilhões e bilhões, Carl Sagan descreve a inflação das grandezas numéricas ao longo da história. No início, as centenas atendiam todas as necessidades humanas. Duzentas vaquinhas no curral, trezentas pessoas na vila e, no máximo, dois ou três lugares para ir. O desenvolvimento da humanidade, no entanto, trouxe a necessidade de mais números para contar as coisas. Aí vieram os milhares, milhões, bilhões e números com tantos zeros que não cabem no papel. O mesmo se dá com os ricos. A cada dia precisam de mais números para contar, não só seu dinheiro, mas também o tamanho de suas fazendas, a potência de seus carros, os quilômetros entre a mansão e o espaço, onde farão seu próximo tour.

Vida de milzonário é diferente. Do lado de cá, dificil é juntar milzão. O acúmulo de qualquer mil dinheiros, seja qual for a moeda da moda, depende de longo tempo de trabalho. Aí, com os mils no bolso, compra-se alguma coisa do tamanho das casas decimais. O dia da compra vai ser celebrado por muito tempo, como uma conquista. O milzonário de boa memória ainda vai lembrar que naquele dia carregou nãoseiquantos mil em espécie ou fez um cheque de tantosmil reais, uma quantia fabulosa, equivalente a meses e meses de trabalho, suor, economia, mais trabalho, mais suor e mais economia.

No entanto, parece que o mundo a cada dia custa mais caro para os milzonários. Antigamente, as coisas que não vamos ter custavam um milhão. Estavam nessa categoria as Ferraris, os iates, as mansões no litoral, a muitos zeros de distância do bolso milzonário. Inalcançáveis, pelo menos serviam de parâmetro para a falta de dinheiro dos outros. Hoje, no entanto, parece que as necessidades de consumo chegaram aos milhões que não temos. O apartamento, meio milhão, a cobertura de seu vizinho, mais de um milhão. Milzonário, desista de nunca mais ter uma Ferrari, agora você não terá mais casa própria.

Mas eu, como bom milzonário (salvo hipótese do Google comprar o Estado Crônico) não vou desistir. De milhas em milhas, pode-se juntar o suficiente para uma viagem para o exterior e, paradoxalmente, economizar dinheiro gastando em bugigangas eletrônicas. Ou optar pela solução radical. Dividir a existência em bilhões de vezes no meu cartão de crédito do clube dos milzonários e atrasar seu pagamento, melhor maneira de ver um número com seis zeros no extrato, ainda que seja o saldo devedor.

 

P.S.: Com os devidos créditos, a nomenclatura milzonário foi cunhada por Ana Luiza (@analuizalb, filiada ao clube dos milzonários e leitora misteriosa do Estado Crônico), a quem este post, bem como os passados e futuros, são incondicionalmente dedicados.

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8
jul

Palavras de baixo-calão

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas da Copa

xingando3-1Em um passado distante, o então técnico da seleção brasileira de futebol foi acusado de utilizar palavras chulas para atacar jornalistas durante uma entrevista coletiva. Os mesmos microfones, que até então escutavam sedentos, passaram a acusar o entrevistado de ofensas à moral dos inocentes ouvidos brasileiros, tão acostumados à fina flor verbal. Para classificar as palavras do técnico, a imprensa utilizou a curiosa e abstrata categoria de baixo calão.

Mestre Aurélio nos explica que o termo calão está associado ao uso de “termos baixos e grosseiros”. Portanto, baixo calão seria, em tese, quase uma redundância, porque calão, sozinho, já é baixo. E não existiria o alto calão.

Com todo o respeito, preciosismo exagerado do dicionário. A utilização do baixo na frente do calão implica que existe, sim, um alto (es)calão dos verbetes. São palavras com muito poder e dinheiro. Constitucionalidade e mercantilização estão lá, sempre muito próximas umas das outras. Mas há outras. Autoridade, por exemplo, consegue tudo que quer ao sacar do bolso um documento de identidade de cor especial, capaz de comprovar sua alta extirpe. Ultrapassa as burocráticas barreiras da ordem alfabética e deixa para trás palavras menos valorizadas, como Legislação e Igualdade

Todavia, há também a classe média vocabular. Deve ser constituída por palavras que andam por aí de transporte público ou engarrafadas em seus carros. Eu e Vocês, certamente são palavras de médio calão. Mas, atenção. Como nos ensinam os gramáticos, a linguagem é dinâmica e todo dia mais alguns termos são arrastados para as camadas mais baixas do vivedouro dos verbetes. Ninguém garante a manutenção de algum termo no universo do médio calão, principalmente nesses tempos de crise. Vejam, por exemplo, Socialista. Foi elogio, depois xingamento. Hoje em dia é casada com Moderado e vive bem, mas não trabalha mais fora.

Por outro lado, o universo das palavras permite certa mobilidade social e algumas palavras bem aventuradas ascendem a camadas superiores. Bunda, por exemplo, até bem pouco tempo circulava em lugares mal freqüentados, como Zonas. Hoje em dia é diferente. Bunda ganhou fama, dinheiro, freqüenta capa de revista e novela das oito. Seu sucesso é tão grande que o Bumbum, seu primo rico, anda em franco desuso e, atualmente, é quase pueril. Deve estar deprimido, o coitado.

Fato é que nossa relação com as palavras é muito complicada. Tentamos fazer delas nossas ferramentas, quase escravas. Dizemos o que pensamos com palavras. Mas, na via reversa, são elas que dizem muito sobre nós. Dentro de nossas frases espontâneas e bem intencionadas, as palavras contam mensagens sutis. Avisam a todos quem somos, de onde, de que e a que viemos. Não importa o que é dito, pois a mensagem repousa em como é dito.

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6
jul

Filme: Toy-Story 3

   Postado por Carlos Goettenauer  em Cinema, Crônicas, Filmes de 2010

poster_toystory3 Atualmente há um filme em cartaz que lida com a dificuldade de algumas criaturas, fadadas a permanecerem eternamente preservadas em uma forma imutável, lidarem com o crescimento e mudança daqueles a quem amam e servem. Não fosse a imagem ao lado (e o título, claro), os leitores imaginários teriam pensando na saga Crepúsculo. Mas claro, refiro-me a Toy Story 3.

Não vou falar sobre o primor técnico do filme. O melhor crítico brasileiro de cinema já fez isso com muita competência e o pessoal do Rapaduracast nos deu de presente um maravilho episódio, que conta com a presença de Guilherme Briggs, dublador de Buzz Lightear. No entanto, tive a sorte de assistir os três filmes da série da Pixar este ano e sou tentado a concordar com quem diz ser essa a melhor trilogia do cinema. Sem dúvida, unidos, os três filmes formam uma corrente sem elos fracos.

Portanto, não posso deixar o filme passar sem registrar minhas impressões. Certa vez, escutei que uma obra clássica permite vários níveis de leitura. Toy Story 3 é, assim, um clássico imediato. Para os pequenos, o filme trás a fábula de brinquedos que tomam vida e aprontam aventuras secretas. Já a primeira seqüência do filme mostra, com acerto, a visão de uma brincadeira pelos vibrantes olhos infantis. Logo em seguida, somos lançados à melancolia, quando percebemos que aquele menino cresceu e os brinquedos, antes protagonistas de um universo particular maravilhoso, agora repousam em uma caixa e estão diante de uma iminente escolha, que os encaminhará ao esquecimento em um sótão empoeirado, à doação ou, pior dos fins, ao lixo.

Assim, para o público mais “idoso”, a fábula dos brinquedos sai de cena para a entrada de uma reflexão sobre o crescimento e envelhecimento, não apenas nosso, mas também de todos que queremos bem. Mas, ao longo da projeção, a alegoria se expande e notamos que Toy Story trata também sobre quais as relações que podemos e devemos conservar na vida e, especialmente, sobre alguns nós que, por ética ou sabedoria, devemos desatar para permitir o ressurgimento da felicidade, se não nossa, alheia.

Crescer não é simples e Toy Story retira dessa dificuldade a matéria prima para uma obra que, apesar de emocionar o patrulheiro estelar mais durão, não se rende ao sentimentalismo barato. Aliás, a película é capaz de fazer graça sobre vários ritos de passagem para a vida adulta. É divertido, por exemplo, como os brinquedos sequestram o celular Andy, como único recurso para atrair sua decrescente atenção ao velho baú onde repousam.

Mas Toy Story 3 não é grande apenas pela sua metáfora. Ganha mais relevo pelo período em que foi lançado.  Em uma época quando o drama quadrado de um amor eternamente impossível ecoa tanto na sociedade, a fábula infantil dos brinquedos dá uma lição  proustiana aos adolescentes e adultos mal-crescidos. Às vezes é necessário deixar partir aquilo que mais amamos. Nosso passado não repousa bem esquecido em um sótão. Viverá muito mais tranqüilo e feliz em nossa memória.

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2
jul

Acabou

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas, Crônicas da Copa

Acabou. Não há o que se fazer. Não acredito em quem usa, em um momento como esses, o clichê sobre a importância de saber competir e aceitar as derrotas. Perder é horrível, uma pequena morte. Sua aceitação passa pela negação, raiva, barganha e depressão, como um luto.

No exato momento estou entre a negação e a raiva. Ainda não acredito no apito final, mas já começo a sentir uma raiva, fantasiada de mau-humor crônico, a me subir pela espinha. Hoje, não queiram me encontrar em uma fila demorada ou engarrafamento. Também não vou ser adulto. Aliás, quero distância dos sentimentos pretensamente adultos, crescidinhos e edificantes. Prefiro procurar infantilmente um culpado. Já escolhi Felipe Melo como minha presa. Como mineiro, peguei raiva dele para o resto da vida. Daqui a vinte anos, na Copa da China, não me venha o safado tentar treinar a Seleção sem falar com a imprensa, sob a justificativa de perseguição na Era Melo.

Depois da raiva, passo à barganha. Se pelo menos a Argentina for desclassificada e a final for uma goleada de Gana sob a Alemanha… Perder a Copa para ver um time africano campeão não terá sido tão ruim e inútil. Não vou perdoar o Felipe Melo, claro, mas vai ser gratificante ver os europeus derrotados pelo continente negro. Justiça histórica. E que soem as Vuvuzelas tão alto que eu possa ouvir daqui, sem a interferência irritante do Galvão Bueno.

Todavia, cedo ou tarde, a aceitação vai chegar, talvez após uma breve depressão. Afinal, Copa do Mundo é igual eleição e a cada quatro anos tem uma nova. Além do que, por mais desclassificado que estejamos agora, foi bom me empenhar na torcida, comemorar cada gol, por menos que tenham sido. Não me arrependo dos gritos e vuvuzeladas. Acreditem ou não, eu me diverti muito seja torcendo, seja compartilhando minhas idéias com meus leitores imaginários. Continuo brasileiro e patriota, dentro e fora de campo e não retiro rigorosamente nenhuma vírgula do que escrevi e no último mês. “Valeu à pena, sou pescador de ilusões”.

Agora, vamos mudar de assunto, que eu não agüento mais escutar e falar de futebol.

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