Então está aí o leitor imaginário, já no fim da primeira-semana-do-ano, portador orgulhoso de sua lista de planos para 2012, cheia de clichês, mas feita no capricho. Lá estão, com quadradinhos na frente para serem ticados conforme a tarefa for cumprida, os mais aspirados desejos do ano. Pagar a academia para não malhar, malhar a academia para não pagar, não pagar a academia para não malhar e, sendo esta a última hipótese, no insucesso das demais, pagar a academia para malhar. Ah! Mas, corpo são, mente sã. Assim, assoma-se às atividades físicas o plano de engrandecer-se intelectualmente. Planeja o leitor adicionar a seu já vasto cabedal literário uma série de leituras, todas aptas a iluminar o caminho da sabedoria.
Sorte de meu leitor imaginário, com seus planos prontos. Pois o escriba, assoberbado nessa coisa toda de viver, comer, trabalhar e ir ao zoológico no domingo dar pipoca aos macacos (não pode, mas eu o faço por respeito às referências musicais), ainda não teve uma mísera réstia de tempo para reduzir a termo todo os planos para o ano seguinte.
E assim vai que o ano, começado meio desplanejado, em neologismo impróprio, grifado de vermelho pelo editor de textos, seguirá em ritmo acelerado e, antes que se possa afirmar, com habitual tradição, que o ano-está-passando-rápido-demais, eu ficarei encalacrado entre os afazeres, sem poder determinar, com aquele sábio distanciamento temporal preventivo, quais serão minhas próximas atitudes.
Assim, as coisas mais simples e modorrentas se misturarão com as mais complicadas e maneirosas. Colocarei nos planos viajar para o Nepal, mas não sem antes consertar a torneira do banheiro, cujo gotejar sem fim me faz engolir um nó de culpa todas as vezes que alguém alarma o fim dos mananciais de água doce no mundo. Tentarei salvar a Mata Atlântica, mas antes preciso lembrar de responder todos as mensagens dos leitores do Estado Crônico (infelizmente poucos, razão pela qual a tarefa não deveria ser absorvida pela falta de tempo).
E no campo literário a bagunça se fará melhor e maior. Grande Sertão Veredas aguardará sua vez de leitura. Todo satisfeito, abrirá seus bracinhos de papel em pedido de colo num sofá confortável, na tarde preguiçosa de um sábado que não existe. Nonada. Casa Grande & Senzala finalmente desempacará da fila ou persistirá em sua situação de melhor livro ainda não lido? E, finalmente, os, até agora 5, tijolos de Crônicas de Fogo e Gelo ainda pretendem ter uma chance, mais pelo burburinho do que pela vontade do cronista.
E com tudo, last but not least, para não deixar o leitor apreensivo e irritado com o anglicanismo bobinho, há sempre o plano de manter o Estado Crônico atualizado como um periódico eletrônico de fofoca de celebridades, com mais posts do que lista de discussão sobre política e um estoque de crônicas que faria de Nelson Rodrigues um invejoso escrivinhador. É bastante coisa. Tudo bem bagunçado e sem prioridades. Na mistura, viram os planos e metas meros pactos de diretrizes, repletos de contradições. E se o leitor goza da felicidade de uma listinha de fim de ano, o cronista prosseguirá no dia a dia, a vida de improviso, com quem atravessa a rua fora da faixa para pegar o ônibus de portas quase fechando.
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Segundo descobri recentemente, os esquimós têm doze mais de quarenta palavras para conceituar a neve. Pudera, eles têm bastante neve para trabalhar. Neve no chão, neve de fazer casa, neve de derreter e beber, neve de brincar e neve de fazer boneco de neve. Assim, pode parecer estranho o fato de ser o português a única língua que possui uma palavra para definir, com precisão, a saudade.
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Não importa o quanto os sábios sociólogos, economistas, biólogos e estatísticos consigam dividir, subdividir, categorizar e classificar os humanos, eu, imbuído de profundos estudos em antropologia de revista em quadrinhos, afirmo que só há dois tipos de pessoas. Os Pato Donalds e os Gastãos. E antes que o leitor imaginário mais reprovador balance a cabeça em desacordo, indignado com mais uma de minhas idéias estapafúrdias, aviso logo que no último parágrafo, me desdirei, sem, contudo, me contradizer. 






