Artigos com ‘Literatura’

27
mai

Diga-me o que tens na estante

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas, Literatura

Começou com o jornal britânico, The Guardian, que publicou foto das estantes de livros de seus leitores. Na verdade, tenho uma suspeita que eles roubaram a ideia de um bate papo meu com o @entretantos. Inspirado pelo jornal, o Zeca Camargo lançou a mesma proposta em seu blog pessoal. E eu, que há muito, gostaria de ter ilustrado a ode aos livros que ainda não li com a foto de minha estante, resolvi embarcar.

Minha estante de livros (Clique para ver maior)

Por aqui em casa os livros tem o mau hábito de se espalharem por todos os cantos disponíveis. Escorrem para gavetas, cantos de armário e prateleiras suspensas, altamente perigosas para gatos travessos.

Mas há, sim, uma grande estante, altar de adoração de muitos itens especiais. Incrível como ao ver os livros repousados lá, percebo o quanto minha biografia e minha bibliografia vivem em simbiose.

Minha estante conta segredos estranhos. Houve um tempo em que acreditei em coisas que hoje me soam como piada. Gostei de romances policiais, gênero hoje quase ignorado por mim. Enfim, não foi sempre que busquei encontrar o sentido da vida nas páginas de algum livro.

Todavia, como alguém que tem péssimo hábito de comprar mais livros que é capaz de ler, o mais estranho é ver a estante como um projeto de minha vida ainda a ser concretizado. Como se tudo que eu fosse viver, aprender, experimentar e conhecer já estivesse previsto ali, já comprado, nas prateleiras da estantes. Entretanto, uma vez que o espaço para livros na casa é tão limitado como a vida, tento encaixar novas paixões entre um volume e outro.

Pois, perceber a dificuldade crescente de encontrar frestas para livros inéditos, na falta de expressão mais visceral, me apavora.

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16
nov

Cheiro de papel podre

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas, Literatura

digestivo logoEncaro a literatura, e com ela os livros, quase como uma religião. Portanto, enxergo em um livro um poder realmente sobrenatural. Mas, recentemente, acabei cedendo à tentação do coisa-ruim e cometi um pecado que, em outros tempos, garantir-me-ia o comparecimento ao incêndio de uma fogueira portentosa, com direito de visão pelo lado de dentro. Decidi comprar um leitor eletrônico.

 

Prezados leitores imaginário, faço um convite diferente. Um dos maiores sites culturais brasileiros, o Digestivo Cultural, publicou hoje um texto deste humilde escriba, do qual extraí o trecho acima.

É uma grande felicidade chegar em endereço com a visibilidade do Digestivo. Assim, espero que você possam me prestigiar em outras terras e escrever seus sempre elogiosos comentários por lá!

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30
set

Aos livros que ainda não li…

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

estante de livros

“Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar também o tempo para lê-los, mas na maioria das vezes troca-se a compra dos livros pela aquisição do seu conteúdo.”

Arthur Schopenhauer

 

Algumas vezes, coloco-me diante de minha estante de livros. Quase sou devorado. Em seu silêncio, as centenas de títulos me contemplam e desafiam. Eles sabem que, em uma batalha, venceriam, tanto pela quantidade, quanto pela qualidade. Não que eu tenha tantos livros. Só tenho mais do que sou capaz de ler.

Não sei quando exatamente aconteceu, mas a partir de um momento em minha vida deixei de comprar livros para lê-los. Ao contrário do que você pode pensar, não fiquei maluco. Acho que problema surgiu quando percebi que não iria mais ler todos os livros que eu gostaria. Ao menos, não nesta encarnação. Então, passei a comprar livros para "garantir" a oportunidade de sua leitura em algum futuro. Uma idéia estranha, como se comprando o livro eu estivesse fazendo um contrato com a vida. "Tá aí vida, comprei o livro, agora você garante minha existência no planeta Terra pelo menos até eu acabar de ler mais esse."

Talvez eu tenha ficado maluco e você esteja certo.

O fato é que minha estante é uma aposta. Uma aposta na perenidade no desejo de ler todos aqueles livros. Mais do que isso, uma aposta na vida e na possibilidade de que ela, em alguma realidade futura, permita me ser o leitor que eu gostaria de ser.

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22
mai

Livro – Bilhões e bilhões

   Postado por Carlos Goettenauer  em Literatura, Livros de 2010

 

2396967[1]O gerente de Milliway, o restaurante no fim da galáxia, do livro de Douglas Adams, costuma anunciar aos seus clientes:

“— É maravilhoso — continuou — ver todos vocês aqui esta noite, não é mesmo? Sim, absolutamente maravilhoso. Porque sei que tantos de vocês vêm aqui várias e várias vezes, o que eu acho realmente maravilhoso, vir aqui e assistir à finalização de tudo, e então retornar para casa, para suas próprias eras… e construir famílias, lutar por sociedades novas e melhores, combater em guerras terríveis por aquilo que sabem que é o certo… isso realmente dá esperança no futuro de toda espécie viva. A não ser, é claro — apontou para o redemoinho relampejante acima e ao redor deles — pelo fato de sabermos que isso não existe…”

É curioso que o espírito do texto acima esteja presente também na obra de Carl Sagan. A grande diferença entre os dois textos é a atitude de Sagan. O cientistas jamais deixou de lutar por “sociedades novas e melhores”. O não deixa de ser irônico que Bilhões e bilhões tenha sido escrito tão próximo ao fim da vida do autor. O livro transpassa vários temas científicos para demonstrar, ao fim, a pequenez das atividades humanas diante da grandeza dos fenômenos naturais, tanto neste planeta azul, como fora dele, na incomensurável universo que nos cerca.

Valendo-se sempre de experiências cotidianas, o autor nos leva a conclusões científicas nos mais variados campos. Incrível, por exemplo, o texto em que Sagan utiliza o aquário de camarões, que ganhou quando criança, para falar sobre o equilíbrio ecológico do planeta Terra. Suas idéias nos mostram o privilégio que é nossa vida no planeta. Temas como a cosmogonia se misturam com o aquecimento global, de maneira perfeitamente harmônica. Aliás, a qualidade do texto revela que Carl Sagan não era apenas um grande cientista, mas um ótimo escritor.

Leve, sem deixar de ser informativo, Bilhões e bilhões é um daqueles livros para quem ainda não parou de se maravilhar cada vez que contempla o céu e a imensidão do universo ou a Terra e o delicado equilíbrio da natureza. Talvez, Carl Sagan tenha escrito o verdadeiro guia do mochileiro das Galáxias.

Cinco estrelas em cinco!

(Fim da leitura em 19/05/2010)

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24
abr

Livro: A linguagem cinematográfica

   Postado por Carlos Goettenauer  em Literatura, Livros de 2010

Há algum tempo procuro um livro sobre linguagem cinematográfica que seja acessível e, ao mesmo tempo, interessante para os leigos no assunto, como eu. O livro de Marcel Martin me ganhou logo na introdução, quando afirma ser um livro dirigido para profissionais e amadores do cinema. Amadores com sentido de amantes. Ainda assim, posso afirmar que, apesar de ser o melhor livro que li sobre o assunto, ainda não é exatamente o que procuro.

Justiça seja feita, trata-se de um bom livro introdução ao estudo do tema. O autor esclarece os níveis da inguagem (representação, estético e ideológico). Destaca, ainda, de maneira sistemática, cada um dos elementos que compõe uma narrativa cinematográfica, explicando o que são planos, seqüências e cenas. Analisa as espécies de enquadramento, citando o plongée o contra-plongée. Melhor, faz tudo isto sempre levando em conta que qualquer técnica cinematográfica só será válida se possuir relevância psicológica.

Por outro lado, o esforço de sistematização do livro, preocupado em analisar cada uma das possibilidades de aplicação de todas as técnicas cinematográficas, acaba tornando a leitura da obra muito cansativa. A ponto do autor incluir, ao fim, um índice para recapitular os temas.

Outro problema, que não é culpa do autor, são os filmes citados como exemplo, todos muito antigos para quem, como eu, tem um referencial cinematográfico pós anos 60.

Por fim, considerando que a primeira edição do livro é de 1955, pareceu-me um pouco pretensiosa a afirmação do autor de que tudo que havia para ser inventado na linguagem cinematográfica já havia sido criado até os anos 40. Só de brincadeira, vale lembrar que o trecho sobre profundidade de campo tornou-se obsoleto com o lançamento de “Avatar”. Ainda assim, é um ótimo livro para se iniciar no estudo da linguagem cinematográfica. Especialmente enquanto Pablo Villaça não escreve o dele.

(A Linguagem Cinematográfica de Martin Marcel. Fim da leitura em 30/03/2010)

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6
fev

Livros lidos em 2010

   Postado por Carlos Goettenauer  em Literatura, Livros de 2010

Darkly Dreaming Dexter de Jeff Lindsay. Fim da leitura em 29/01/2010.

Já que vamos catalogar os filmes lidos, nada mais certo que fazer o mesmo com os livros. Mas, se o ano cinematográfico começou bem, conforme o post anterior, o mesmo não se pode dizer da literatura.

Resolvi ler Darkly Dreaming Dexter seduzido pelo seriado. Para quem não conhece, Dexter é um seriado sobre um serial killer “do bem”, que persegue e mata outros assassinos. Aqui no Brasil passou na FX até a segunda temporada e já está disponível em DVDs a venda. Disputa, para mim, o título de melhor seriado, concorrendo em pé de igualdade com Lost.

O livro, apesar de emprestar argumento ao programa, é, no máximo, regular. Mesmo possuindo personagens interessantes (como, o próprio Dexter), a trama até começa bem, mas se perde pelo meio e termina de maneira absolutamente frustrante. Para piorar, há a inclusão de certos “fenômenos” sobrenaturais que negam, de plano, a natureza realista de um romance policial.

O único elemento que ainda pode ser considerado um pouco interessante é a narrativa em primeira pessoa do protagonista, que, apesar de algumas ironias bobas, confirma o potencial do personagem. Impassível, Dexter se enrola sempre que se vê em uma situação emocional minimamente complexa. Certamente, foi aí que começou o interesse em fazer uma série baseada no livro.

Por ser raso e previsível, Darkly Dreaming Dexter é um livro dispensável, cuja leitura eu não recomendaria, nem para os fãs do seriado. Minha nota? Duas estrelinha em cinco.

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4
nov

Juliet Naked, o novo de Nick Hornby

   Postado por Carlos Goettenauer  em Literatura

Nick Hornby virou, para mim, um autor do estilo “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Li quatro livros do sujeito e gostei, muito, de todos. O melhor, “Long Way Down”. O pior, “How to Be Good”. E o pior ainda é melhor que a maioria.

Comecei ontem a leitura do novo livro de Nick Hornby, “Juliet, Naked”. Trata, até o momento, sobre um fã, desses de carteirinha (como eu pelos Beatles). Nas 40 páginas que li, já deu para ver que vem coisa boa por aí.

Por enquanto, em minhas anotações inciais, destaco a diferenciação entre o fã de longa data, especialista no assunto, que conhece tudo, tem tudo e já escutou tudo, e o fã adolescente, com fervor juvenil. Aliás, se eu falei diferença, talvez Hornby queira colocar semelhança. Vide a passagem na frente da casas de Juliet em que as duas gerações de fãs se encontram, para fazer a mesma bobagem.

Outra coisa interessante resume-se a um parágrafo. Trata-se da nova relação do ouvinte com a música. Na verdade, segundo o protagonista, ouvir música, na era digital, se tornou um ato de maior romance, porque a música, em si, não está contida em nada físico. É mais misteriosa.

As idéias, claro, são preliminares. Quando evoluir na leitura, faço mais anotações.

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22
out

“No Ar Rarefeito”

   Postado por Carlos Goettenauer  em Literatura

 
Meu irmão costuma dizer que, ao ler o relato da tempestade enfrentada por Gilliatt em Os Trabalhadores do Mar, podia sentir suas próprias roupas encharcadas pela água da chuva e do mar.
 
Uma sensação parecida ocorreu enquanto eu lia No ar rarefeito, de Jon Krakauer. O livro relatada a trágica expedição do jornalista, também autor de Na Natureza Selvagem, ao Everest. Enquanto Krakauer escalava as cristas geladas, eu conseguia sentir o vento gelado que percorre a montanha e congela, em minutos, qualquer parte do corpo não coberta.
 
Estranho é observar que, muito embora o livro relate uma série de tragédias ocorridas no Everest, o relato só vez aumentar minha vontade de visitar a montanha. Esta contradição é um dos motes do livro. O que leva pessoas a passarem o sem número de privações e riscos que envolve uma escalada em alta montanha, como a altamente debilitante falta de oxigênio? Uma pergunta cuja resposta está muito além da minha compreensão e envolve prescrutar profundos abismos da psique humana. Melhor deixar a tradicional resposta de Mallory, quanto perguntado porque queria escalar o Everest.
 
"Porque está lá."
 
P.S.: A edição que li é de bolso. Mais barata, mas, por outro lado, sem as fantásticas fotos da edição mais cara, que está esgotada.

Abracos,

Carlos E. Goetteanuer

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29
ago

Robson Crusoe

   Postado por Carlos Goettenauer  em Literatura

Robson Crusoe é um livro que há muito tempo eu namorava. Possuo uma certa atração pelo imagem da ilha, figura relevante nas manifestações culturais. Da “Utopia” de Thomas More ao seriado “Lost”, a a ilha possui inúmeros significados, associados sempre ao isolamento.

Foi com esse convite que me aventurei na leitura de Robson Crusoe. Mais dois motivos me motivaram. O primeiro, a edição primorosa do livro, da Colectors Library. Capa dura, bordas douradas, em uma edição de bolso caprichada. Outro motivo foi a simplicidade do texto original, em inglês. Surpreendente a facilidade da leitura, especialmente se considerarmos que a obra possui mais de dois séculos. Fica a dica para quem quer começar a se arriscar na leitura em inglês.

Logo ao início da leitura, você percebe que está diante de uma obra clássica. As primeiras páginas descrevem as lições morais ignoradas, passadas pelo pai de Robson Crusoe ao jovem filho, que teimava em se aventurar pelo mundo. A grandiosidade dos dilemas morais que estão no discurso do pai de Robson vão permear toda a obra. Aliás, pretendo escrever mais tarde sobre o assunto.

Não foram poucas as surpresas que acompanharam a leitura. Ao contrário dos conceitos pré estabelecidos sobre o livro, a história de Robson Crusoe não se limita a um naufrágio e o isolamento em uma ilha. Ao contrário, antes de naufragar em sua ilha, Robson se aventura em vários continentes e, até mesmo, estabelece um engenho de açúcar no Brasil!

Ao fim, conclui-se que Robson Crusoe é um livro como não se escreve mais. As mais de trezentas páginas (na minha edição), fosse hoje, seriam reduzidas por qualquer editor a umas duzentas. A falta de divisão em capítulos também estranha num primeiro momento, mas não chega a incomodar. Ainda assim, o livro é uma das obras clássicas cuja leitura mais apreciei até hoje. Recomendo.

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