“Mas é que se agora, pra fazer sucesso, pra vender disco de protesto, todo mundo tem que reclamar.”. Há dez mil anos atrás muito tempo, Raul Seixas, profético como só ele, já havia detectado uma espécie que costuma parasitar o sucesso alheio. Trata-se do Homo Reclamantis, uma criaturinha desagradável que habita quase todo o ecossistema cultural. Recentemente, a espécie tem proliferado em meio eletrônico, entulhando a vida dos demais com sua chatice habitual.
Antes de tudo, o Homo Reclamantis deve ser separado de outra espécie, o Homo Criticus, costumeiramente mimetizado pelo primeiro. Apesar da freqüente confusão, o Homo Criticus é um ser muito mais evoluído, que, para imprimir suas opiniões, possui grande cabedal teórico, normalmente associado à vasta experiência na área de atuação. O Homo Reclamantis,ao contrário, limita seus ataques a argumentos vazios e inúteis. Sua opinião, em geral, é baseada em seu gosto pessoal e no espírito litigioso típico da espécie. Trata-se do simples, “não gosto, por isso é ruim, porque eu estou certo, afinal, sou o dono da verdade”.
Apesar de seu fraca capacidade de argumentação, a peçonha do Homo Reclamantis não pode ser ignorada. Com a evolução da Internet, o Reclamante encontrou um habitat ideal. Graças à facilidade de acesso à mentes sem juízo crítico propiciada pela rede, o Homo Reclamantis consegue espalhar sua mensagem chatinha para um número incalculável de pessoas.
A maior maneira de identificar um Homo Reclamantis é, no primeiro contato com o espécime, questioná-lo sobre seu gosto cultural. O verdadeiro Reclamante terá seu universo de preferências restrito a um limite muito específico, normalmente menor do que a cabeça de um alfinete. Tudo o mais que não cabe em seu mundinho, absolutamente delimitado por julgamentos sumários, é classificado como lixo (palavra muito comum no vocabulário das criaturas em questão). Em verdade, o reclamante se define pelo não gostar. É um não ser, incapaz de perceber o paradoxo consistente em considerar a negativa de apreciação, o não gostar, uma forma afirmativa de expressão.
Curiosamente, apesar de se julgar no direito de expressar suas idéias ilimitadamente, o Homo Reclamantis não costuma ser receptivo a questionamentos de sua opinião. Esta característica decorre de sua personalidade negativa e falta de capacidade crítica. Normalmente, quando recebe algum questionamento, o reclamante ridiculariza seus críticos, com ofensas pessoais. Seu argumento mais típico consiste em igualar aqueles que o contestam àqueles que ele mesmo critica. Em síntese, o Homo Reclamantis flagrado fazendo uma reclamação sobre a saga Crepúsculo, por exemplo, limita-se a afirmar que seus críticos são todos crepusculetes sem noção.
Ainda, ao contrário do que se pode pensar, o Homo Reclamantis não reclama apenas do que faz sucesso. Em obediência a seus extintos, a espécie reclama de absolutamente tudo que encontra pela frente. Todas as músicas, todos os livros, a forma como é feito o café com leite da padaria, a distribuição dos carros dos elevadores nos edifícios e o equilíbrio térmico global. Enfim, uns chatos. Todavia, os ataques às celebridades ou aos movimentos populares acabam ganhando maior destaque. Não pela qualidade da reclamação, mas pelo próprio sucesso prévio das vítimas.
Por fim, vale lembrar que o homus reclamantis se alimenta, primordialmente, da atenção a ele dispensada. Sua estratégia é roubar os olhares destinados a outros objetos, por meio de seus violentos ataques e, em alguns casos, uso de ironia pobre. Assim, a melhor maneira de exterminar um reclamante é ignorar-lo. Sem atenção, o homo reclamantis entra em crise existencial e verifica o vazio que semeia. Em pouco tempo ele definha e morre ou, em casos raros, revê conceitos e começa a adorar algum dos objetos que, há pouco, eram seus objetos de ataque. Nas duas hipóteses, temos um chato a menos no mundo e podemos respirar aliviados.
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