Artigos com ‘Textos engraçados’

18
fev

Passe adiante

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Encaminhe esta mensagem para o maior número de pessoasNão é de hoje que o Estado Crônico goza do status de blog mais desconhecido da Internet pátria. Obviamente, nestes tempos de hiper popularidade, o anonimato não agrada ninguém, de maneira que sempre me coloquei às voltas com idéias para divulgar este site. Todavia, certamente fui amaldiçoado por torcer a favor do Coiote durante toda minha vida. Assim, até aqui todos meus planos falharam e permaneço cronista que escreve a leitores imaginários. Há alguns dias, no entanto, fui atingido por uma idéia de simplicidade tão cristalina que, imediatamente, coloquei-me a duvidar de minha inteligência por não ter pensado em algo tão bom antes. Pois bem, iniciarei uma corrente por e-mail para divulgar o blog.

Para tal intento, antes de tudo, é necessário adotar um pseudônimo. Mas não um destes nomes adotados por escritores que pretendem permanecer desconhecidos da massa. Ao contrário! O objetivo é tornar-se cada dia mais famoso. Assim, deve-se utilizar, preliminarmente, o nome de um autor já consagrado. Preferencialmente, alguém que já goza de credibilidade na Internet. No caso em questão, escolhi Luis Fernando Veríssimo, vítima predileta do plágio às avessas. Como cresci lendo suas crônicas diárias no jornal “O Globo” e outros tantos livros com coletâneas de textos, não me seria difícil emular seu estilo e passar-me pelo escritor gaúcho.

A partir de então, basta escolher o tema da minha corrente. Há aí dois grandes gêneros, que podem ser divididos em subgêneros. A um lado temos as mensagens edificantes. Contar como é bom você acordar feliz pela manhã com o barulho da chuva, o cheiro da relva e a passarinhada cantando. Ou recitar que é importante lembrar se das pessoas que amamos e estão ao nosso lado, ou longe, ou no meio termo. Tanto faz. Alguma coisa que narre visitas de anjos e a importância da fé também é válida, mas entrar demais no campo da religião pode diminuir o público e a eficácia da corrente.

Outro grande gênero é o correio de protesto, do qual sou grande admirador. Entra-se no campo da reclamação perpétua. Vale ser contra o governo e os políticos ladrões, contra a programação da tevê brasileira, contra a falta de respeito no trânsito ou de educação das pessoas que não deixam velhinhos usarem os assentos preferenciais. Neste caso, deve-se ter especial atenção para a atualidade do tema. Circula, atualmente, um texto atribuído (adivinhem) ao Luiz Fernando Veríssimo, que fala mal do Big Brother Brasil 2 4 5 7 9 10 11(?!). Quanto sincronismo e percepção desse autor anônimo.

Outra característica do texto-corrente de sucesso é a certeza de opinião. Nada de entrelinhas que possam enfraquecer seu posicionamento. Deve ser adotado um texto reto, preto no branco, sem essas bobagens barrocas que tanto abundam nos livros. Quem quer mudar a vida das pessoas deve ter convicção. As sutilezas literárias são para os autores fracos e leitores incompetentes. Mas, claro, tanta certeza não pode vir acompanhada de veracidade. Assim, qualquer informaçao que sustente a argumentação presente na mensagem deve ser inverídica. Preferencialmente, usa-se histórias críveis e interessantes, sobre crianças que teriam morrido depois de beber Coca-cola na lata suja ou estilistas que não querem suas roupas usadas por latinos.

Por fim, há as maldições a quem não repassa o texto adiante. Sem dúvida, trata-se da melhor parte da corrente. O leitor deve se sentir realmente compelido a apertar o botão de “Repassar a todos”, sob pena de perder a pessoa amada, ter todo o dinheiro confiscado por um plano econômico lançado exclusivamente para lhe sacanear a vida e, ao fim, trocar de sexo acidentalmente, vítima de uma distração no preenchimento de um formulário de plano de saúde. Mortes estúpidas também são válidas e podem ser utilizadas como meio de coerção. É uma espécie de maldição compensação literária. Depois de ter iluminado tanto seu dia, tudo que o texto pede é continuar circulando por aí. Tenho a impressão, inclusive, que o Estado Crônico é tão desconhecido porque esqueci de passar a diante uma corrente em 1997.

Sucesso é mesmo algo curioso. Talvez a maior façanha de um escritor imaginário, como eu, seja conseguir a popularidade de um texto, ainda que este não leve seu nome. Ainda assim, vale lembrar que você leitor deve passar este texto para o maior número de pessoas possível. Em 1943, uma mulher, no estado do Recife, não passou esta corrente adiante e morreu engasgada com uma sombrinha enquanto fazia um complexo movimento do Frevo. Já em 2009, um paulista leu este texto no trabalho e não remeteu a seus contatos. Quando ia para casa, ficou detido em um engarrafamento na Marginal que durou 3 dias. Prestes a sucumbir de desnutrição, já quase sem forças, lembrou-se do texto e utilizou seu celular 3G para repassar a mensagem para toda sua agenda. Tão logo a operação foi concluída, o caminhão tombado foi retirado da pista e o congestionamento se desfez.

Assim, colabore você também para o sucesso do Estado Crônico e utilize os botões abaixo para divulgar este post. Senão…

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24
dez

A arte de presentear

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

PresenteCertamente, minha próxima revelação será um grande choque para os leitores imaginários de espírito mais inocente. Talvez os mais puros jamais venham a se recuperar do trauma que se seguirá. Mas, é dever do Estado Crônico informar a todos sobre nossa mais recente descoberta. Papai Noel não existe.

Ao contrário do que nos conta o senso comum, todos os presente entregues no final do ano são comprados por pessoas que, pelo menos em tese, gostam de nós e dedicam uma parte de seu dinheiro e, especialmente, de seu tempo, a uma das tarefas mais difíceis. As compras de Natal.

Mas, apesar dos shoppings abarrotados ou das ruas constantemente encharcadas no mês de dezembro, não é o ato de sair de casa e enfrentar a multidão que torna qualquer compra de Natal um genuíno ato de doação. O verdadeiro desafio se encontra em escolher o presente. Vive-se, em verdade, um paradoxo quase insolúvel. O presente deve agradar ao presenteado, sob pena de tornar-se algum daqueles objetos inúteis que habitam o alto do guarda-roupa. Ao mesmo tempo, tem de guardar alguma relação com o presenteante, levar um pouco de sua personalidade, como uma mensagem ao destinatário. Isso tudo, ainda deve casar com o tamanho do bolso, a disponibilidade de peças tamanho 42 e a capacidade olfativa do comprador.

Assim, a verdade é mais surreal do que o mito de um velhinho maluco e desprendido, capaz de entregar presentes no planeta inteiro em apenas uma noite. São mesmo os humanos que, no Natal, entregam-se à tarefa quase impossível de agradar o próximo e doar-se a alguém. Ainda que apenas uma vez no ano, ainda que só com uma lembrancinha.

Aliás, espantoso mesmo é que não ocorram mais trocas no dia útil seguinte ao Natal.

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24
nov

Papo-Furado II

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

papo furadoAlém da entediada fila de repartição pública, há outra hipótese sobre o surgimento da comunicação humana. Após um longo dia de caçada inútil, o homem retornava à caverna chamada lar. Esfalfado, roupas rasgadas e escoriações por todo o corpo, esperava um pouco de conforto da mulher das cavernas.

Ela, no entanto, também não teve o melhor dos dias. Estripou, despelou e assou a caça do dia anterior, que, obviamente, ficou dura e queimada. Além disso, o menino das cavernas passou o dia a rabiscar nas paredes desenhos de seu pai caçando animais, coisa que obrigou sua mãe a esfregar a rocha com a bucha de limpeza.

Tão logo venceu o arco da caverna, os olhares do homem e da mulher se cruzaram, ainda mudos. Mas, quando o menino das cavernas dormiu, e o casal foi para seu leito de pele de tigre-dente-de-sabre. Ela sentou-se e disparou as primeiras palavras ditas pela humanidade:

“Precisamos discutir a relação”

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12
nov

Papo Furado

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

papo furadoConceituados estudos antropológicos certamente apontam que a comunicação humana surgiu de alguma necessidade evolucionária vital. Algo como, por exemplo, contar para o resto da galera onde estava aquele mamute distraído e montar uma caçada bacana.

Em que pese o conhecimento dos renomados cientistas, eu, que nasci há dez mil anos atrás, posso informar aos leitores imaginários que a conversa surgiu da necessidade de acabar com o tédio na fila pré-histórica de uma repartição pública. Um homem das cavernas, enquanto aguardava para retirar sua licença de caça, olhou para o outro e começou o papo.

Todavia, delimitar qual o primeiro assunto tratado na conversa que inaugurou a comunicação oral é tarefa muito mais árdua, especialmente porque eu não estava escutando na hora. Se os interlocutores possuíam filhos, certamente a conversa foi sobre crianças, assunto onipresente nas rodinhas de papo de papais e mamães. Do contrário, o assunto foi os gatos de domésticos. Durante a pré-história, os humanos acreditavam serem os gatos animais domesticáveis, crença que só foi desfeita recentemente, quando ficou provado que são os gatos que possuem os humanos como escravos de estimação.

Excluídas as duas hipóteses acima, começam a rarear as possibilidades. O cinema e a televisão ainda não existiam, o que torna qualquer papo sobre capítulo de ontem da novela ou sobre os filmes em cartaz absolutamente improvável. A música, por outro lado, já era uma constante na sociedade, mas como as canções não eram nominadas, um papo sobre os últimos hits era bem pouco interessante.

Portanto, não sobraram muitas opções de assunto para os homens das cavernas. Com sua senha de pedra lascada não mão, sem celular 3G ou mesmo jogo da cobrinha, o elo perdido da comunicação humana olhou para o lado e disparou:

“O tempo ta estranho… Será que vai chover?”

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8
nov

#MIPI – Movimento Internet Para Internautas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas, Listas infames

Típico usuário atual da INTERNET Para quem é mais jovem pode até parecer ficção, mas houve um tempo em que a Internet era um espaço virtual agradável, propício à troca de informações úteis e ao desenvolvimento intelectual da humanidade. Pode-se dizer que foi a Era de Ouro da redemundialdecomputadores, como era conhecida pela mídia, época em que o mundo cibernético era habitado apenas por um sem número de nerds grandes mentes, denominados Internautas, capazes de domar todas as dificuldades que envolviam transferir arquivos, visitar websites e papear no mIRC, tudo em uma conexão que não superava os 2 kb/s.

Mas o tempo passo, a banda larga chegou e com ela vários usuários incultos invadiram a Internet e destruíram tudo que havia de bom no mundinho virtual. Tornaram as redes sociais inabitáveis, entupiram nossas caixas de e-mails com spam e, com seu sotaque detestável, criaram um idioma novo.

Assim, chegou a hora da reação. O Estado Crônico inicia hoje o Movimento Internet para Internautas (#MIPI), cujo objetivo é extirpar a Internet dos invasores que dominaram o espaço virtual, sem respeito aos bons costumes e hábitos dos que aqui já estavam. Uma migração predatória e perniciosa.

Nossos propostas iniciais são poucas, mas já devem ser o suficiente para melhorar em muito a convivência na Internet e mandar os invasores para o mundo real, de onde nunca deveriam ter saído.

1) Acabar com as fazendas virtuais e outros jogos afins

Miguxo te mandou uma vaca louca de presente na "Colheita Maldita"

Os joguinhos das redes sociais são uma praga que deve ser eliminada o mais rápido possível. Pesquisas demonstram que nenhum Internauta sério considera seriamente a possibilidade de cultivar um pomar no Facebook ou um curral no Orkut. Aliás, o que leva alguém a acreditar que um porco virtual pode ser considerado um presente?

Sem os joguinhos virtuais, boa parte dos usuários invasores vai perder o interesse em ligar o computador para acessar as redes virtuais, livrando-nos de seu desagradável presença.

 

2) Bloquear qualquer e-mail com arquivo de PowerPoint

Não há nada mais desagradável do que abrir seu e-mail e encontrar cinqüenta mensagens edificantes, em arquivo .ppt, demonstrando como devemos respeitar os mais velhos, valorizar as pequenas coisas da vida, ver o mundo com os olhos de criança, mergulhar na inocência dos animais, viver motivados para o dia de amanhã e mais qualquer clichê, sempre com um imagens piegas, ampliadas até os pixels estourarem, e uma musica da Enya no fundo.

A solução é encaminhar uma proposta a todos os servidores de e-mail, requerendo que, para o bem e felicidade geral, sejam criados filtros que impeçam o envio de arquivos de PowerPoint por e-mail.

Imagem típica do Power Point edificante

 

3) Tornar crime a utilização do miguxês

A Hello Kitty do mau vai mattar o miguxo.

Eu confesso que, há milhares de anos, quando o mIRC existia, os usuários abreviavam alguns termos. Mas era uma coisa polida e educada. O “você” virava “vc” e, no máximo, o “porque” passava a “pq”. O tempo passou, veio o ICQ e depois a praga do MSN e, em seguida, a invasão dos imigrantes bárbaros, que trouxeram para o mundo virtual uma maneira absurda de falar e escrever. Trata-se do miguxês.

a unica solussaum eh proibi u idioma…puninu seus usuarius kom penas gravis…komu a leitura obrigatoria d "os lusiadas"…… assim…serah impossiveu a komunicassaum dus miguxus ke…a parti d entaum…naum + utilizaram a redi virtuau komu ambienti d vida……

 

4) Desabilitar o CAPS-LOCK de todos os teclados

Afinal, para que serve o Caps-Lock? Se você quer escrever uma letra maiúscula, aperta shift e o assunto fica resolvido. No mais, só serve para você esquecer ligado e errar a senha milhares de vezes. Então, a única explicação para a manutenção do Caps-Lock nos teclados modernos é permitir a utilização pela massa iletrada e arrogante, que mantém o hábito de escrever o texto inteiro em maiúsculas, irritando todos os Internautas com seus cyber gritos. Há, ainda, a utilização do Caps-Lock pelos também irritantes usuários do neo-miguxês, um dialeto insuportável do idioma miguxês, caracterizado pela utilização alternada de MAiuscULaxXx I MiNuScuLaxXx na mesma palavra.

A única solução é, portanto, entrar em contato com todos os fabricantes de teclado e extirpar o Caps-Lock do computador. Ou, em versão mais radical, instalar um dispositivo que exploda o computador caso a tecla permaneça ativa por mais de 10 segundos

 Caps Lock é como gritar em silêncio

 

5) Fim do ORKUT

Orkut

É duro admitir isso, mas eu já fui um usuário do ORKUT, dos mais entusiastas, antes da invasão dos miguxos. Infelizmente, depois de alguns anos o ORKUT, que no início era promissor, passou a ser um território inimigo, habito pelo o populacho da Internet, com as fotos do “morzão e eu na Praia Grande”, scraps com músicas irritantes (as mesmas do PowerPoint supra citado) e os famigerados joguinhos de vacas virtuais.

Diante da grande contaminação do ORKUT, não resta solução senão sua extinção definitiva, proibindo todos os seus usuários, não apenas de freqüentar qualquer rede social, mas como também toda a Internet.

 

Estas são minhas propostas iniciais para o Movimento Internet Para Internautas. Por certo, não são as únicas. Portanto, façam suas contribuições e endossem as idéias nos comentários.

Mais do que isso, twittem o presente post para levar a hashtag #MIPI para os trending topics e ampliar a adesão ao movimento que libertará nosso espaço dos invasores.

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27
out

Os Sem-Cérebro

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Cérebro O leitor mais apressado, ao ver o título acima, já deve ter realizado seu prévio julgamento dos parágrafos seguintes e decidido que o presente texto trará uma série de zombarias sobre os menos favorecidos intelectualmente. Pois, saiba o prezado leitor que está longe de minhas intenções fazer tamanha picardia sobre a ignorância alheia, especialmente por considerar que sou eu mesmo um dos menos capacitados mentalmente a frequentar o globo terrestre, razão pela qual não me restaria qualquer legitimidade para eventuais brincadeiras.

Desfeito o engano, afirmo que venho realizar uma nova proposta que, creio eu, muito contribuirá para o avanço dos feitos da humanidade e revolucionará o sistema de pensamento atualmente vigente. Trata-se do Movimento dos Sem Cérebro.

Como é notável, a sociedade é abalada por diversos movimentos sociais dos Sem-AlgumaCoisa. Invasões de Sem-Terra ameaçam, no campo, fazendas improdutivas, ao tempo que os Sem-Teto ocupam prédios abandonados pelos seus legítimos proprietários. Menos articulado, mas igualmente relevante, o movimento dos Sem-Trabalho busca a redução da cargo horária para o aumento da oferta de emprego. Por fim, há os Sem-Vergonha, Sem-Tempo e os Sem-Paciêcia, grupo quase exclusivamente por motoristas paulistanos.

Inspirado por tantas demandas sociais de máximo relevo, observei uma lacuna nas reivindicações populares. Pois, há por aí um sem número de boas idéias, que não chegam a atingir sua maturidade pela falta de cérebros que as acolham. Tais pensamentos deveriam ser agrupados no Movimento dos Sem-Cérebro, para conquistar o devido espaço nas mentes das pessoas.

Unidos, os bons pensamentos poderiam lutar por um espacinho nas cabeças alheias, aproveitando a fragilidade dos olhos opacos e dos ouvidos moucos, tão típicos dos portadores de um cérebro improdutivo.

Como em todo movimento social reivindicatório, há possibilidade de resistência por parte das cabeças vazias. As mentes dedicadas às atividades mais fúteis da sociedade, como v.g. a leitura de blogs irrelevantes, a discussão política sem sentido e outras tantas a serem definidas pelos leitores imaginários, devem reagir à incorporação de novidades, especialmente aquelas que lhes retirem da zona de conforto, Nestes casos, seria possível considerar o uso da violência justificável, como a exposição prolongada a música erudita inspiradora ou a freqüência compulsória a exposições de arte.

Como é previsível, muitos julgarão o Movimento dos Sem-Cérebro uma política autoritária e pretensiosa, capaz de decidir quais idéias são ou não produtivas. Deve-se lembrar, todavia, que a atitude revolucionária do movimento pretende a pacificação e desenvolvimento da sociedade. Assim, as idéias a serem incutidas nas mentes improdutivas serão sempre relacionadas a conceitos positivos, como solidariedade e respeito ao próximo. Desta forma, os poucos opositores do momento em pouco tempo se calarão e as mentes desocupadas poderão, finalmente, trabalhar com idéias mais nobres.

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22
set

Eu também vou reclamar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Felipe Neto, típico representante da espécie Homo Reclamantis “Mas é que se agora, pra fazer sucesso, pra vender disco de protesto, todo mundo tem que reclamar.”. Há dez mil anos atrás muito tempo, Raul Seixas, profético como só ele, já havia detectado uma espécie que costuma parasitar o sucesso alheio. Trata-se do Homo Reclamantis, uma criaturinha desagradável que habita quase todo o ecossistema cultural. Recentemente, a espécie tem proliferado em meio eletrônico, entulhando a vida dos demais com sua chatice habitual.

Antes de tudo, o Homo Reclamantis deve ser separado de outra espécie, o Homo Criticus, costumeiramente mimetizado pelo primeiro. Apesar da freqüente confusão, o Homo Criticus é um ser muito mais evoluído, que, para imprimir suas opiniões, possui grande cabedal teórico, normalmente associado à vasta experiência na área de atuação. O Homo Reclamantis,ao contrário, limita seus ataques a argumentos vazios e inúteis. Sua opinião, em geral, é baseada em seu gosto pessoal e no espírito litigioso típico da espécie. Trata-se do simples, “não gosto, por isso é ruim, porque eu estou certo, afinal, sou o dono da verdade”.

Apesar de seu fraca capacidade de argumentação, a peçonha do Homo Reclamantis não pode ser ignorada. Com a evolução da Internet, o Reclamante encontrou um habitat ideal. Graças à facilidade de acesso à mentes sem juízo crítico propiciada pela rede, o Homo Reclamantis consegue espalhar sua mensagem chatinha para um número incalculável de pessoas.

A maior maneira de identificar um Homo Reclamantis é, no primeiro contato com o espécime, questioná-lo sobre seu gosto cultural. O verdadeiro Reclamante terá seu universo de preferências restrito a um limite muito específico, normalmente menor do que a cabeça de um alfinete. Tudo o mais que não cabe em seu mundinho, absolutamente delimitado por julgamentos sumários, é classificado como lixo (palavra muito comum no vocabulário das criaturas em questão). Em verdade, o reclamante se define pelo não gostar. É um não ser, incapaz de perceber o paradoxo consistente em considerar a negativa de apreciação, o não gostar, uma forma afirmativa de expressão.

Curiosamente, apesar de se julgar no direito de expressar suas idéias ilimitadamente, o Homo Reclamantis não costuma ser receptivo a questionamentos de sua opinião. Esta característica decorre de sua personalidade negativa e falta de capacidade crítica. Normalmente, quando recebe algum questionamento, o reclamante ridiculariza seus críticos, com ofensas pessoais. Seu argumento mais típico consiste em igualar aqueles que o contestam àqueles que ele mesmo critica. Em síntese, o Homo Reclamantis flagrado fazendo uma reclamação sobre a saga Crepúsculo, por exemplo, limita-se a afirmar que seus críticos são todos crepusculetes sem noção.

Ainda, ao contrário do que se pode pensar, o Homo Reclamantis não reclama apenas do que faz sucesso. Em obediência a seus extintos, a espécie reclama de absolutamente tudo que encontra pela frente. Todas as músicas, todos os livros, a forma como é feito o café com leite da padaria, a distribuição dos carros dos elevadores nos edifícios e o equilíbrio térmico global. Enfim, uns chatos. Todavia, os ataques às celebridades ou aos movimentos populares acabam ganhando maior destaque. Não pela qualidade da reclamação, mas pelo próprio sucesso prévio das vítimas.

Por fim, vale lembrar que o homus reclamantis se alimenta, primordialmente, da atenção a ele dispensada. Sua estratégia é roubar os olhares destinados a outros objetos, por meio de seus violentos ataques e, em alguns casos, uso de ironia pobre. Assim, a melhor maneira de exterminar um reclamante é ignorar-lo. Sem atenção, o homo reclamantis entra em crise existencial e verifica o vazio que semeia. Em pouco tempo ele definha e morre ou, em casos raros, revê conceitos e começa a adorar algum dos objetos que, há pouco, eram seus objetos de ataque. Nas duas hipóteses, temos um chato a menos no mundo e podemos respirar aliviados.

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9
set

Sete de Setembro e o Bloco do Urutu

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

urutu Contrariando a máxima que, de graça, até injeção na testa, a parada de Sete de Setembro há muito é um fracasso de público e crítica. Qualquer festa agropecuária do interior de Minas Gerais consegue um público maior que nosso momento pátrio máximo. Aliás, não é preciso muita comoção para rivalizar a audiência do desfile cívico que invade as avenidas brasileiras.

O número de pessoas que freqüenta a festa é tão pequeno que as “mais de trinta mil pessoas” em Brasília parecem uma multidão imensa comparada com a audiência do resto do Brasil. No Rio, dos seis milhões de habitantes, apenas 12 mil resolveram acompanhar o desfile in loco. É o equivalente ao um cantor anônimo, que fecha uma casa de show só para os familiares e amigos. Já na capital paulista, São Pedro, dando provas inequívocas de sua falta de patriotismo, depois de meses de secura agreste, resolveu lançar uma tempestade sob o comboio de Urutus e dispersou os poucos entusiastas.

Assim, parece evidente que já passou da hora de revigorar o Sete de Setembro e adotar uma proposta mais acessível. Para tanto, primeiro um pré-conceito precisa ser quebrado. A Independência do Brasil, e com ela o desfile, não é propriedade de nossas forças armadas. Aliás, elas nem existiam quando Dom Pedro I proclamou seu famoso grito. Portanto, deve-se devolver ao povo o direito de cuidar de suas comemorações. E, justiça seja feita, ninguém entende mais de fazer desfile que o brasileiro. Somos responsáveis para maior festa popular do mundo, com um carnaval sem comparativos em outras nações. E quem imagina que nosso sucesso se limita às alegrias carnavalescas, deve-se lembrar que também exportamos o Rock’n’Rio para vários outros países.

Portanto, para animar a festa, deve ser chamada a nata carnavalesca e sua habilidade burlesca. Mas, não pensem os leitores imaginários que minha proposta é alijar as forças armadas de seu tradicional desfile. Ao contrário, o objetivo é unificar e misturar tudo. Para começar, a famosa pirâmide humana da PE serviria de abre alas. Em seguida, os blindados seriam ornados com alegorias, projetadas por Joãozinho Trinta e Rosa Magalhães. Já os carros de combate receberiam caixas de som enormes e serviriam de palco para os melhores representantes da música popular, como Ivete, Asa, Chiclete e quem mais quiser chegar. Já o tradicional rasante de caças de combate lançaria confete e serpentina na multidão, a esse ponto já em completo êxtase.

Mas, a festa da independência, agora revigorada, atingiria seu apogeu no momento em que a artilharia sincronizasse seus canhões com o batuque do Olodum. Tchaikovsky e sua Abertura 1812 seriam fichinha perto disso. Aliás, já sinto o compositor russo verde de inveja por não ter conseguido tamanha inventividade. A cada batida no surdo, um disparo coletivo, tudo com os jatos pintando o céu de verde e amarelo. Duvido qualquer outro país consiga igualar esse sentimento patriota.

Em algum momento da história brasileira, civismo e patriotismo, dois conceitos fundamentais para a identidade da nação, reforçaram-se no consciente coletivo como domínio exclusivo do mundo fardado. Não se diga que as forças armadas não sejam, na maior parte do tempo, um exemplo de patriotismo. Todavia, amor à pátria não pode ser monopólio de alguns poucos. Ou, tanto pior, não se pode esperar o povo se submeta a uma identidade pré-formatada, muito distante da sua, para apenas então considerá-lo patriota. Sete de setembro deve ser uma festa popular em sentido estrito, “do povo”. E, se somos uma nação festeira, que não cabe quadradinha em uma marcha com desfile de Rolls Royce, que mal há nisso? Chamem o Olodum!

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27
ago

Por uma rede antissocial

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Emoticon bravoComo todo bom internauta, adoro fuçar as fotos do Orkut manter-me atualizado sobre as novidades do meu círculo de amigos pelas redes sociais. Um mundo maravilhoso surge no monitor. Todos sorridentes, sempre alegres com a vida. Mesmo a tristeza, nas raras vezes que dá as caras, aparece em fontes coloridas e simpáticos emoticons chorosos ou um acréscimo de “saudades eternas” no sobrenome. No entanto, há um enorme campo que ainda deve ser desbravado pelos empreendedores da Internet, as redes antissociais.

Surpreendente, aliás, que a Internet tenha permanecido alheia até hoje ao mais poderoso dos sentimentos, o ódio. Basta uma rápida olhadela, seja na esquina movimentada mais próxima ou na história da humanidade, para confirmar o potencial humano em arrumar confusão e discórdia. Assim, nada mais natural que criar uma rede social na qual as pessoas se encontraram para discutir, brigar, ofender-se mutuamente, tudo com a segurança, comodidade e segurança propiciada pela Internet. Lembre-se daquele seu inimiguinho de infância, há anos perdido no esquecimento? Pois então, na nova rede vocë poderá reencontralo para terminar aquele “te pego lá fora” não mal resolvido há décadas.

A rede antissocial trará o melhor de todos os mundos. Com um clique rápido na leve interface você começará uma inimizade com seu mais recente desafeto, seja alguém com quem você tenha brigado no trânsito ou no bar. E, adeus reciprocidade. Não será mais necessário ter seu ódio correspondido para odiar alguém. Se iniciará um novo conceito, o ódio platônico. Celebridades, por exemplo, poderão comemorar quando atingirem seu primeiro milhão de inimigos. Em seguida, nada de recadinhos coloridos no mural dos outros. Você entrará na rede e receberá o maravilhoso aviso “fulano deixou uma ofensa para você”. Há como começar um dia melhor?

Já as comunidades, que fizerem o sucesso de algumas redes sociais, serão substituídas por clubinhos da raiva. As possibilidades são incalculáveis. Pessoas do mundo inteiro vão poder dividir seu desgostos e desinteresses em comum. Imagino as histórias edificantes que serão contadas daqui a anos sobre relacionamentos surgidos na rede antissocial. “Conheci meu marido no clube de pessoas que odeiam andar de bicicleta ergométrica em avenida”, afirmará alguma noiva entusiasmada.

Ao bem da verdade, o internauta superligado nas últimas novidades do mundo cibernético, atualmente deve desperdiçar passar boa parte do tempo digerindo a infinitude de conteúdo oriundo das redes sociais. O volume de bobagens informações é tão grande que se torna quase impossível manter-se atualizado com os últimos trending topics do Twitter, ler o s scraps do Orkut e aceitar os novos pedidos de amizade do Facebook. Assim, antes de o pacote de dados do celular 3G ficar mais caro que a dívida externa dos país em desenvolvimento, a rede antissocial é a solução definitiva para economizar nosso tempo, para que possamos nos concentrar no que há de mais importante na vida. Brigar em família.

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13
ago

Proposta para acabar com o azar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Gato branco, tomando sorteve colorido, para ninguém ter azar. Sexta-feira treze, em agosto, e meus leitores imaginários de mais juízo devem ter ficado em casa, devidamente protegidos das intempéries do destino. Afinal, hoje os astros dizem que o dia é cosmicamente desfavorável às atividades que exponham o sujeito a riscos, como atravessar a rua ou acessar blogs de conteúdo duvidoso. Eu, como tenho o corpo fechado pelos personagens místicos das novelas da Globo, não preciso me preocupar com esse problema. Mesmo assim, em um ataque de solidariedade, passo algumas dicas para conseguir mais sorte nesta tenebrosa data.

Novos tempos exigem novos hábitos e, convenhamos, gato (de qualquer cor) só dá azar para sorvetes coloridos ratos, assim como não passar por baixo de escadas não é superstição. Trata-se, no máximo, de bom senso de quem não quer ser atingido por um uma lata de tinta na testa. Portanto, para ter melhor sorte, devem-se adotar novas mandingas.

A principal alteração na vida para quem não quer sucumbir às catástrofes aleatórias é livrar-se do objeto mais agourento do mundo. O dinheiro. Basta observar a vida dos ricos para perceber que dinheiro dá um azar tremendo. Todos sempre envolvidos com atos de violência, como seqüestros e arrastões em condomínios fechados, super chiques. E a vida amorosa? Quase impossível apontar um casamento duradouro entre ricos. Normalmente os matrimônios de alta renda se desfazem mais rápido que calotas polares. Quando o dinheiro se associa à fama, a dificuldade torna-se ainda maior e até os enlaces modelo acabam em divórcios exemplares.

Ademais, dinheiro é um talismã ao contrário. Enquanto um galhinho de arruda pode trazer boa sorte e bons fluídos, uma nota de cem dólares desperta nas outras pessoas a terrível inveja. Como se sabe, um sujeito invejoso projeta péssimas energias no ambiente, sempre muito nocivas aos endinheirados. A melhor maneira para acabar com o sentimento destrutivo é, portanto, livrar-se do dinheiro, fonte da inveja alheia.

Por outro lado, pobre não tem azar. Tudo de ruim que acontece com ele já está perfeitamente previsto dentro de seu roteiro de vida. Assalto no ônibus? Ora, é mais do que provável. Doença na família com falta de atendimento no SUS? Quem mandou não pagar plano de saúde.

Portanto, antes que qualquer endinheirado se afogue em uma garrafinha de Dom Pérignon, sugiro que seja realizada uma transferência de todo seu patrimônio para alguém que tenha capacidade de lidar com este imã de azar. Só assim os ricos viverão uma existência longe de energias ruins. Deve-se, claro, ter o cuidado de escolher como destinatário das doações uma pessoa que conte com uma grande proteção espiritual e bons feitiços anti-urucubaca, exatamente como o cronista que vos escreve. Quaisquer dúvidas sobre número de conta
corrente ou demais entraves burocráticos podem ser esclarecidas no formulário de contatos ou com cartas para a redação. E boa sexta-feira treze para quem não tem grana suficiente para ter azar.

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