Artigos com ‘Textos engraçados’

29
mai

Revolucionários, Moderados e Otimistas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de maio de 2014,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Revolução FrancesaÀ época dos bancos de escola, meu professor de História insistia que, durante a Revolução Francesa, a Convenção Nacional contava com três forças políticas. Jacobinos, Girondinos e Grupo da Planície, jamais esquecerei, dividiam-se conforme sua firmeza na crença de que a guilhotina era um método válido para a resolução de conflitos. Na inocência de quem vivia no Brasil dos anos 90, não comprava muito a divisão proposta. Não entendia como funcionava essa coisa de ter razão e cortar a cabeça de quem está errado.

Pois, hoje, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, vejo que meu professor de história não mentiu para mim. Consigo imaginar, inclusive, as páginas dos livros de História que, daqui a muitos anos, relatarão os dias de hoje a um eventual bebê bonito.

Próximo ao início da Copa do Mundo, o povo do país do futebol decidiu se revoltar. Três grupos se formaram.

O mais radical era a turma do #nãovaitercopa. Inicialmente, contava com a participação de setores decisivos da sociedade, como os comentaristas da Globo News, a associação de moradores de Higienópolis, os grupos indígenas do Setor Noroeste de Brasília e o Batman do Leblon. Conforme virou modinha e deixou de ser hipster, recebeu a adesão de outros atores importantes, como sindicalistas e o Ronaldo Fenômeno, depois de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição. Englobava facções múltiplas da sociedade, cujo único ponto de concordância, paradoxalmente, era discordarem de “tudo isso que está aí”. Sem que ninguém se preocupasse em definir o que era “isso” e “aí”, o grupo alternava sua atuação entre a depredação do espaço público, as greves oportunistas em setores sociais sensíveis e passeatas de apoio a oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Tudo isso sem partido, mas com camisa branca da paz.  Ou preta, de luto com a situação do país. Tanto fazia. A pauta de reivindicações não chegou a ser descoberta pelos historiadores, porque cada integrante da passeata gritava uma coisa diferente, mas os cartazes revelavam o apoio da multidão à utilização, antes de qualquer palavra, de hashtags (era como eles chamavam, à época, aquele negocinho, #, que parece o jogo-da-velha). Lamentavelmente, as manifestações do grupo terminavam sempre com uma minoria de vândalos em confronto com a polícia. Ou com a polícia em confronto com uma minoria de manifestantes que gritava “sem violência”. Ninguém nunca entendeu direito. O mais importante é que o movimento começou pacífico, enquanto a maioria queimava o álbum de figurinhas da Copa e cantava o hino nacional abraçado na bandeira.

Na posição intermediária havia o grupo moderado, que era contra a gastança-de-dinheiros-em-estádios-enquanto-a-saúde-está-de-mal-a-pior, a corrupção, a ausência de infraestrutura para receber os estrangeiros e, principalmente, a cobrança de 6% de IOF nas compras no exterior. Bloco mais coeso, embarcava os comentaristas da Globo News, minha timeline do Facebook e a galera que colecionava o álbum de figurinhas da Copa (mas não queimava, porque, afinal, era moderada e ainda precisava trocar muitas figurinhas). Segundo relatavam, fizeram, desde o início, veemente oposição silenciosa à escolha do Brasil como sede da Copa. Só não manifestaram seus protestos antes porque, quando perguntaram sua opinião, eles estavam assistindo ao Campeonato Brasileiro, à Libertadores, ao Game of Thrones e ao Mais Você. Em que pese seu inconformismo com a realização da Copa no Brasil, o grupo optou, às vésperas do torneio, apoiar o evento, também silenciosamente, sob o argumento de que o dinheiro roubado já havia sido roubado, não havia lá muito o que se fazer, então, era melhor assistir mesmo aos jogos e torcer pela Seleção, cantando o hino nacional, abraçando a bandeira.

Na ponta oposta ao grupo #nãovaitercopa, estava a turma otimista. Certos de que #vaitercopa e de que ela seria sensacional, o movimento apoiou a realização do torneiro. Filiaram-se ao time dos otimistas os comentaristas da Globo News (menos o Diogo Mainardi, porque a última vez que ele foi otimista foi com a queda de Constantinopla), as pessoas com ingresso para assistir aos jogos, a galera que já tinha completado o álbum de figurinhas da Copa, o Ronaldo Fenômeno antes de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição, o Felipão, alguns jogadores da Seleção e o resto do Brasil inteiro.  Nos intervalos das partidas da Copa, o grupo organizava passeatas em oposição ao apoio à oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Ao fim da manifestação, todos cantavam o hino nacional, abraçados na bandeira.


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20
mai

Ode aos textos nunca escritos

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 20 de maio de 2014,  em Crônicas

LixeiraCelebrem-se, agora, os textos nunca escritos!

Aquela ideia ótima que lhe ocorreu dentro do ônibus, uma mão ocupada em manter o equilíbrio, outra em segurar as três sacolas, duas do supermercado, com lasanha congelada e pipoca de micro-ondas, outra da Livraria Cultura, com maçãs. Não se anotou nada do conteúdo. Ficou apenas aquela coceira ali na cabeça, onde agora há esquecimento. A ideia, boa mesmo, seria um texto, não desceu no ponto certo. Coitada. Deve vagar perdida pela Zona Oeste de São Paulo.

Há também os textos não escritos por culpa de outros cronistas. Sem grandes habilidades, este modesto cronista lapidou o texto na cabeça por semanas, quiçá meses, e quando sentou para escrever, outro mais celebrado já havia falado sobre o assunto. Escreveu melhor, com mais propriedade, mais qualidade. Na atualidade, o Antônio Prata é o que mais apronta esse golpe. Mas, volta e meia, mesmo os falecidos insistem em furtar textos de minha mente. Às vezes é até uma honra. Veja que até o Rubem Braga (sim, o próprio!) já se escarafunchou nas dobrinhas cinzentas do meu cérebro para afanar uns pensamentos.

Outra “viva!” aos textos que perderam a relevância por preclusão temporal. Escrever sobre a vida corrente dá nisso. Antes de terminado o texto, o último acontecimento já é o penúltimo, antepenúltimo e virou gotinha de irrelevância no rio do tempo. Uma pena. Vai ver é por isso que os outros escrevem romances atemporais e tem sucesso, enquanto a sina do cronista é virar forro peniquinho de cachorro. Questionável honra que, aliás, não goza o cronista da época digital, cujas palavras param no latão virtual do sistema operacional.

Claro, não se celebre tudo, pois nem apenas de ideias piramidais vive a cabeça do Cronista. Uma vaia aos textos não escritos por terem argumentos ruins. A esses o eterno esquecimento não é pena suficiente. Como naquele caso em que veio a cabeça criativa, ao revirar uma caixa de mudança, sussurrar “uma crônica sobre controles remotos velhos!”. E o superego já abafou a ideia “não, não, não, de ideia estapafúrdia o Estado Crônico já está cheio! Esquece!”. E lá foi o texto para o rol dos nunca escritos. Pior é ver que o Antônio Prata roubou a ideia. E não ficou ruim.

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28
nov

Seu bebê é feio

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 28 de novembro de 2013,  em Crônicas

Toda a graça e beleza do bebê renascentistaA cena é conhecida. Talvez até testemunhada pelo leitor imaginário mais experiente. A mamãe vestida em uma camisola cujas estampas só não perdem em bom senso para a cortina de casa de tia. A cara de quem não dorme há dezoito noites. E isso é só o ensaio. O pai, ainda invicto na batalha que se inicia, carrega orgulhoso um pacote pelo quarto. Volta e meia, desfaz o embrulho e revela à comitiva de visitantes o novo raminho que acaba de nascer na árvore familiar.

Então, dá-se o momento mágico. Cinco tios, nove primos, a tia-avó que mora em Cataguases, aquele colega da firma, que não queria vir, mas sabe que para essas horas tem que “dar uma atenção”, todo o séquito de visitantes, ao contemplar aquele rostinho fofinho, recém inaugurado, exclama em uníssono.

“Meu deus! Que coisa mais linda!”

Ah… Como é falsa a humanidade. Mas, é dever de ofício deste cronista, sincero que só beata se confessando em leito de morte, colocar a verdade no berço. Não, minha cara leitora imaginária. Ele não é bonito. Sinto muito decepcionar, sei que a noite não foi fácil e os próximos dias puro padecimento no paraíso. Mas não dá para iniciar essa jornada tão bonita em uma ilusão estética.

Seu bebê é feio.

Sei que ele é fofo, cutch-cutch e uma gracinha. O mais bochechudo das galáxias. Mas bonito é que ele não é. Bonito é outra coisa. E,  para que não fiquem as mamães e papais decepcionados, aviso logo. Ser feio não é exclusividade do seu bebê. Veja, mesmo os pintores renascentistas, tão celebrados pelas belezas que criam, não foram capazes de imaginar um único bebê bonito, registrando o menino santo com cara de baiacu inflado por seguidas vezes. A bem da verdade, o único bebê bonito ainda está para nascer e vai demorar bastante.

Então, não se aborreçam por isso. Feiura passa. Entre o ultrassom-4D-multicolor, onde a criança aparece com a cara de massinha de modelar, e o recém nascido, há uma evolução estética considerável. Beleza toma tempo. Gente demora a amadurar, virar gente mesmo. Enquanto isso, é aguentar aquela rostinho oscilando entre o azedo e o choro.

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5
mar

Dividir para entender

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 5 de março de 2012,  em Crônicas

Sem calçasTenho hábitos exóticos, que podem ser confundidos facilmente com maluquice pretensiosa. Entre eles, coloco o costume de dividir a humanidade entre dois grupos distintos, por meio de critérios que, apesar de rigorosamente absurdos, muito revelam sobre meus objetos de estudo, em um prisma de sociologia de botequim.

Afirmo, por exemplo, que o mundo está dividido entre as pessoas que, quando trocam de roupa vestem a calça primeiro que a camisa e entre as pessoas que vestem a camisa primeiro que a calça.

Corte aparentemente absurdo e certamente aleatório. Mas no breve momento, quando o sujeito encontra-se desnudo e tem que optar pela peça prioritária do guarda-roupas, cabe toda uma construção de filosofias e advocacias de estilos de vida. De um lado, os calceiros, a turminha que prefere a calça à camisa. Defendem uma bandeira de normalidade, com um papo moralista sobre o efeito nefasto de andar por aí sem calças. Do outro, os camiseiros, advogando uma cultura de rebeldia. “Que calças que nada! O Rei está nu, eu também e vamos todos andar pelados por aí! Pelados não, de camisa, de preferência com estampas anárquicas.”

Empolgado com a profundidade da análise psicológica do critério anterior, já consigo separar o mundo em outras duas categorias. Os motoristas que, no shopping, estacionam de ré e os motoristas que estacionam de frente. Os primeiros são pessoas hábeis e precavidas. Andam em veículos com airbag, guardam dinheiro para o futuro, não compram a prazo e ainda têm plano complementar de aposentadoria. Já os outros, creio que a maior parte da humanidade, deixam o trabalho mais árduo para depois e procrastinam todas as tarefas desagradáveis que a vida gentilmente nos oferece. Estudam na véspera, à espera de alguma tempestade capaz de defenestrar as provas pela janela do apartamento do professor. Aliás, são eles também que, na hora das refeições, comem logo as batatas fritas e passam o almoço encarando feio a pobre folha de alface e o tímido tomate.

E, já que tocamos no intricado assunto dos alimentos, há no ramo alguns grandes cortes cuja total amplitude de significados ainda não consigo absorver. Veja-se a divisão entre aqueles que comem mais arroz contra os que comem mais feijão. Seriam os primeiros adeptos de um sabor monótono, mas com inquestionável segurança digestiva, opositores das estripulias dos amantes do feijão, com sua saborosa riqueza e evidentes riscos ao equilíbrio intestinal? O leitor imaginário mais arguto poderá responder em suas cartinhas à redação.

Alguém  pode-se opor contra minhas divisões e interpretações da humanidade. Pois eu lhes digo que são demasiado úteis. Atalhos, para facilitar a compreensão deste planeta tão grande e diverso. E, além do mais, não consigo ver como muito melhores os critérios de divisão do mundo que há por aí, firmados em cor, sexo, saldo bancário, circunferência abdominal, local de nascimento e a mesma história velha de sempre.

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11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 11 de novembro de 2011,  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

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22
jul

Chatice

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 22 de julho de 2011,  em Crônicas

Gato chatoPor mais duro que possa ser, chega um momento da vida que é necessário se olhar no espelho, esfregar as mãos no rosto e, em grave concentração, assumir a inegável verdade. Eu sou chato. Mas não um pouquinho chato, como quase todo mundo é quando acorda com o nariz entupido. Fala de uma chatice incomensurável, daquelas que me surpreende como alguém consegue tolerar minha modorrenta companhia por mais de dez minutos.

A bem da verdade, dizer-se chato é muito pouco, pois, como todo representante do gênero, entendo que a chatice pode ser classificada em diversas vertentes, cada qual com sua nuance mais evidente, mas igualmente desagradável, em todas das quais eu consigo incorrer, desde já me enquadrando no chato sistemático, com mania de classificar tudo.

Há, por exemplo, o chato monotemático. Já consigo ver o leitor imaginário lá do fundo da sala, de braço levantado empolgado, que se enxergou na categoria. É, você mesmo que só consegue falar dos filhos, do marido/esposa, dos Beatles, da novela da Globo, de futebol, ou, especialmente, de si mesmo. Aliás, a última categoria, do chato egocêntrico, merece um capítulo todo para ela no Grande Manual da Chatice Crônica, ainda a ser escrito.

Em seguida, surge uma categoria meio nebulosa de chatice. O chato feliz. Trata-se daquela criaturinha irritante que está alegre, faça sol na constelação de leão ou chuva ácida de canivete. Suspeito de qualquer pessoa que permaneça sempre feliz, especialmente daqueles que acordam cedo segunda-feira, com um sorriso nos lábios e saem para dar um “exerciciozinho”. É o chato pegajoso, que te conta sempre a mesma piada e ri sozinho. Há, por óbvio, o oposto extremo, o chato infeliz, que, por mais que lhe caiam mil bênçãos do céu, vai reclamar sempre da artrose no mindinho esquerdo do pé. Aí, que saco é isso…

Todavia, em que pese toda a má fama dos chatos, não são eles nem um pouco piores que os legais. E, vez ou outra, desconfio que o mundo só caminhe para a frente porque algum chato viu um defeito onde ninguém mais enxergou, reclamou em uma fila onde todos estavam calados, brigaram na hora em que todos fingiram que não viram. Mas, claro, isto tudo é desculpinha furada para justificar o injustificável. Porque, afinal, chato que é chato não tolera autoindulgência

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15
jul

Que dia é hoje?

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 15 de julho de 2011,  em Crônicas

CalendarioOs sábios historiadores já estabeleceram que os calendários foram criados para marcar eventos futuros. Na atribulada vida dos povos antigos, era sempre necessário agendar o dia do próximo festival de defenestração de idosos no magma quente ou a data correta para fazer feitiços com folhas de alecrim. Mas não demorou muito até o primeiro usuário da recém lançada invenção desvirtuar sua utilidade e começar a consolidar datas importantes. Registrou ali o abate do primeiro mamute, a descoberta da útil lâmina de pedra e a data de nascimento de cada um de seus rebentos.

Na dualidade entre o passado e futuro, as datas evoluíram. Em verdade, muito pode ser dito das pessoas de acordo com sua relação com o calendário. Algumas, como eu, eventualmente se esquecem por meses a fio de virar as folhas dos meses anteriores e ficam agarradas a um eterno janeiro, que naturalmente grande, estende-se infinito no tempo não passado. Outras, por outro lado, anotam seus compromissos nas folhas dos meses ainda por vir, às vezes com anexos de post-it, e tornam o calendário uma agenda multicolorida de projeções sonhadoras para o futuro.

Verdade que invejo discretamente um grande amigo meu. Desapegado das datas e, mais importante, com a cumplicidade da cônjuge, ele não lembra sequer do aniversário de casamento (11 de outubro de 1997). Se o passado não passa, também não há porque lhe construir um relicário e pode-se ter a chance de uma catarse mensal ao arrancar a folha do mês que se foi. Por outro lado, há algo agradável em ver um calendário recheado de lembranças, com a possibilidade de viver uma festa de desaniversário por dia.

Na insolúvel disputa de atenção entre as folha passadas e futuras do calendário, só vejo uma solução. Sugiro ao leitor imaginário que, neste exato momento, feche os olhos e, sem consultar qualquer auxílio externo ou parar a leitura do presente texto, tente recordar a data de hoje. Não sabe? Pois deveria. Por menos que se esteja esperando qualquer surpresa ao longo do dia e a tendência seja a queda da atual data no olvido eterno da rotina, hoje pode ser uma daquelas lembranças a serem guardadas em algum canto iluminado do memória, ao lado do dia em que levou um tombo estrondoso de bicicleta (27 de janeiro de 2000) ou quando resolveu que o avião não era mais um meio de transporte seguro (21 de agosto de 2009). A revolução do presente é sempre histórica.

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29
abr

Um casamento real

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de abril de 2011,  em Crônicas

Casamento de pobreO leitor talvez não saiba, mas Queite e Uilian vão se casar. Foram oito anos de ata e desata, muito em função das habituais escapadas dele e dos nervos hiper sensíveis dela. Todavia, com todas as desavenças conjugais, o casal conseguiu vencer o longo namoro e, com um anel de topázio comprado na Rua da Alfândega (ou na 25 de Março, resta apurar a informação), ele formalizou o pedido de casamento. No entanto, o noivado, cuja duração estimada era de mais 5 anos, foi abreviado por uma gravidez inesperada.

Mas a urgência dos preparativos não vai ofuscar a beleza da ocasião. O único pesar da noiva é o escalafobético horário em que se realizará a cerimônia religiosa, sexta-feira pela manhã. Quem consegue ir a um casamento nesse horário? Tudo culpa da indisponibilidade da igreja da comunidade, cujos “sábados à noite” já estão reservados até a próxima era glacial. Só mesmo a boa consideração gozada pela avó do noivo, Dona Bete, para atrair mais convidados a festança.

Após “o religioso”, os noivos vão comemorar com um almoço, no salão quase ao lado da igreja. O cardápio ainda não foi revelado à imprensa, em boa parte porque ninguém da mídia perguntou. Estima-se que não será algo tão pesado como uma feijoada, porque muitos dos convidados ainda vão para o serviço depois da festa. Ainda assim, é garantido que terá cerveja e, para o brinde, suficiente Sidra Cereser. As personalidades mais ilustres da comunidade vão comparecer e espera-se até mesmo a visita de um ou dois parentes de Minas.

Já casados, os dois pombinhos vão morar em um puxadinho na casa da Dona Bete. O ninho de amor está quase pronto. Falta pintar as paredes, ainda só no reboco, e colocar tampa na privada. A vida não será fácil, como, aliás, sempre se espera de um casal que mora tão próximo da avó do noivo, que o criou e é quase uma sogra para Queite.

E a você, que no início do texto escarneceu o evento, agora se sente preterido por não ter recebido um convite para o casamento, logo elucido que a honraria não é para qualquer um vivente. Para receber l’invitation, é necessário ter os pés bem presos na vida real e maravilhar-se ao testemunhar a coragem dos dois em enfrentar todas as pias de louça para lavar, as febres da criança que está por vir e o mês que insiste em ser maior que o salário. Será difícil, mas, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, será bonito e, pode até se dizer, gratificante, enxergar aqui mesmo, do lado de cá da tela, a eterna “ânsia da vida por si mesma”.

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1
abr

Mania de Limpeza

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 1 de abril de 2011,  em Crônicas

privadaNão sei nada de biólogo, psicologia ou psiquiatria, mas desconfio que Transtorno Obsessivo Compulsivo, o famoso TOC, seja uma doença que se espalha no ar. Só assim para explicar a preocupação constante com a sujeira que cresceu na sociedade ao longo dos anos. Uma epidemia de higiene, que, na falta de melhor nome, pode ser resumida por mania coletiva de limpeza.

Talvez tenha começado antes, mas o primeiro meio de transmissão desta doença deu-se por inocentes latinhas de bebidas. Eu, que tive minha infância nos perigosos anos oitenta, lembro muito bem que todos tomavam seu refrigerante ou cerveja sem precisar lavar a lata. Bastou uma história sobre não-sei-quem ter morrido não-sei-onde de leptospirose, após beber em uma lata com urina de rato. O mal já estava feito e, desde então, ninguém mais conseguiu tomar seus goles com tranqüilidade se antes não submetesse a lata a um processo de pasteurização.

Com a contaminação crescente, os padrões de higiene precisaram ser elevados a níveis cada dia mais altos. A redução número de microorganismos no sanitário passou a ser questão de segurança nacional. Segundo as propagandas de desinfetantes, os produtos de limpeza usados no banheiro são tão eficientes que, em breve, vai ser mais seguro almoçar usando a privada no lugar do prato.

Mas, o apogeu da epidemia veio apenas recentemente, em forma de álcool gel. Hoje, qualquer estabelecimento de respeito deve ter afixado nas paredes uma borrifador do produto, para manter as mãos dos consumidores constantemente limpas. Suspeita-se, inclusive, que o governo em breve tomará medidas para tornar o álcool gel item da cesta básica e obrigará todos a tomar banhos diários em uma solução gosmenta.

Não há cura conhecida para a epidemia de limpeza, tendo em vista seu agente transmissor é absolutamente invulnerável a qualquer substância conhecida pela humanidade. Mas, se você tiver dinheiro suficiente, pode comprar o mais novo desinfetante, capaz de, com uma única gota, exterminar toda a fauna do oceano atlântico. E, o mais estranho em tudo isso, é que, com toda nossa desenvolvida tecnologia, não consigo enxergar o mundo mais limpo. Mas, devem ser meus óculos, que podem estar sujos.

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25
mar

Ganhe R$ 100,00 para ler este texto!

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 25 de março de 2011,  em Crônicas

Como todo bom mineiro, só arrisco quando tenho certeza. Da mesma forma, sou dotado de olhar sagáz e de cara de sujeito esperto. Assim, é uma grande contradição o fato de eu ser vítima de toda sorte de golpista aleatório. Basta que surja um golpe novo na praça, aplicado contra velhinhos inocentes e criancinhas impúberes, para que eu caia sem tempo.

Esta conclusão veio recentemente, ao ler um texto sobre o Golpe do Americano. O tipo chegou perto de mim com um duiuispiqueinglichi e contou, em um inglês de fazer inveja, uma história triste. Foi assaltado, apanhou da polícia, roubaram todo seu dinheiro, documentos e coisa e tal. Precisava de uns trocados para o taxi ou qualquer outra coisa que o valha. Pois, pior do que cair no golpe, eu só descobri que era armação quando vi um relato semelhante. Até então eu me dava por satisfeito, como se aquele tivesse sido um dos raros momentos de bondade do meu coração

O leitor imaginário já deve conhecer os golpes mais típicos que circulam por aí e, como não é bobo como o presente escrivinhador, deve ter se safado de todos eles. Mas, nível de bobeira à parte, deve-se concordar que os golpistas, geralmente, apelam para dois sentimentos contraditórios. Primeiro, vem a ganância. O golpe do bilhete premiado é um deles. O título deste post é outro. Acompanhada de uma leve pitada de má-fé, a vontade de levar vantagem sempre leva muita gente a investir em pirâmides que prometem fortunas e depositar dinheiro em contas de estelionatários.

No entanto, há quem seja vacinado contra este tipo de golpe. Eu, por exemplo, não acredito nem em promoção de supermercado, quanto mais em algum esquema para ficar rico rápido. Assim, há outra vertente de golpista, muito mais cruel, que apela para a boa-fé alheia. O safado se faz de sofredor, fala que está sem comer, beber e… (você já antecipou lá no início da história), pede dinheiro, nem que seja um pouquinho, só um trocado para completar a passagem para Itapopoca. Neste momento, o verdadeiro trouxa está em um dilema moral. Pode dar o dinheiro e ser enganado ou pode negar. Na última hipótese, será consumido de remorso por não ter ajudado alguém que precisava. Na primeira, se sentirá um idiota. Diante da dubiedade da situação, inicia-se uma barganha de mercado marroquinho. Dá-se uma desculpa aqui (“estou com pouco trocado, aceita cartão?”), uma enrolada ali, e o golpista leva menos do que queria e mais do que merecia.

Mas, nem tudo está perdido. Se você é uma vítima habitual de golpes, deve se juntar a mim em um esforço. Vamos nos unir em um desses grupos de ajuda coletivos e dividir nossa experiência. Você poderá se levantar e fazer seu relato (“Meu nome é Pedro Bó e sou um tonto”) para pessoas com o mesmo problema. Rapidamente aprenderá técnicas avançadas de esperteza e descobrirá como ficar do lado certo da Lei de Gerson. Para fazer a matrícula, basta depositar qualquer trocado na minha conta corrente.

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