Artigos com ‘Textos engraçados’

11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

Tags: , , , , , , ,

22
jul

Chatice

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Gato chatoPor mais duro que possa ser, chega um momento da vida que é necessário se olhar no espelho, esfregar as mãos no rosto e, em grave concentração, assumir a inegável verdade. Eu sou chato. Mas não um pouquinho chato, como quase todo mundo é quando acorda com o nariz entupido. Fala de uma chatice incomensurável, daquelas que me surpreende como alguém consegue tolerar minha modorrenta companhia por mais de dez minutos.

A bem da verdade, dizer-se chato é muito pouco, pois, como todo representante do gênero, entendo que a chatice pode ser classificada em diversas vertentes, cada qual com sua nuance mais evidente, mas igualmente desagradável, em todas das quais eu consigo incorrer, desde já me enquadrando no chato sistemático, com mania de classificar tudo.

Há, por exemplo, o chato monotemático. Já consigo ver o leitor imaginário lá do fundo da sala, de braço levantado empolgado, que se enxergou na categoria. É, você mesmo que só consegue falar dos filhos, do marido/esposa, dos Beatles, da novela da Globo, de futebol, ou, especialmente, de si mesmo. Aliás, a última categoria, do chato egocêntrico, merece um capítulo todo para ela no Grande Manual da Chatice Crônica, ainda a ser escrito.

Em seguida, surge uma categoria meio nebulosa de chatice. O chato feliz. Trata-se daquela criaturinha irritante que está alegre, faça sol na constelação de leão ou chuva ácida de canivete. Suspeito de qualquer pessoa que permaneça sempre feliz, especialmente daqueles que acordam cedo segunda-feira, com um sorriso nos lábios e saem para dar um “exerciciozinho”. É o chato pegajoso, que te conta sempre a mesma piada e ri sozinho. Há, por óbvio, o oposto extremo, o chato infeliz, que, por mais que lhe caiam mil bênçãos do céu, vai reclamar sempre da artrose no mindinho esquerdo do pé. Aí, que saco é isso…

Todavia, em que pese toda a má fama dos chatos, não são eles nem um pouco piores que os legais. E, vez ou outra, desconfio que o mundo só caminhe para a frente porque algum chato viu um defeito onde ninguém mais enxergou, reclamou em uma fila onde todos estavam calados, brigaram na hora em que todos fingiram que não viram. Mas, claro, isto tudo é desculpinha furada para justificar o injustificável. Porque, afinal, chato que é chato não tolera autoindulgência

Tags: , , , , , , ,

15
jul

Que dia é hoje?

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

CalendarioOs sábios historiadores já estabeleceram que os calendários foram criados para marcar eventos futuros. Na atribulada vida dos povos antigos, era sempre necessário agendar o dia do próximo festival de defenestração de idosos no magma quente ou a data correta para fazer feitiços com folhas de alecrim. Mas não demorou muito até o primeiro usuário da recém lançada invenção desvirtuar sua utilidade e começar a consolidar datas importantes. Registrou ali o abate do primeiro mamute, a descoberta da útil lâmina de pedra e a data de nascimento de cada um de seus rebentos.

Na dualidade entre o passado e futuro, as datas evoluíram. Em verdade, muito pode ser dito das pessoas de acordo com sua relação com o calendário. Algumas, como eu, eventualmente se esquecem por meses a fio de virar as folhas dos meses anteriores e ficam agarradas a um eterno janeiro, que naturalmente grande, estende-se infinito no tempo não passado. Outras, por outro lado, anotam seus compromissos nas folhas dos meses ainda por vir, às vezes com anexos de post-it, e tornam o calendário uma agenda multicolorida de projeções sonhadoras para o futuro.

Verdade que invejo discretamente um grande amigo meu. Desapegado das datas e, mais importante, com a cumplicidade da cônjuge, ele não lembra sequer do aniversário de casamento (11 de outubro de 1997). Se o passado não passa, também não há porque lhe construir um relicário e pode-se ter a chance de uma catarse mensal ao arrancar a folha do mês que se foi. Por outro lado, há algo agradável em ver um calendário recheado de lembranças, com a possibilidade de viver uma festa de desaniversário por dia.

Na insolúvel disputa de atenção entre as folha passadas e futuras do calendário, só vejo uma solução. Sugiro ao leitor imaginário que, neste exato momento, feche os olhos e, sem consultar qualquer auxílio externo ou parar a leitura do presente texto, tente recordar a data de hoje. Não sabe? Pois deveria. Por menos que se esteja esperando qualquer surpresa ao longo do dia e a tendência seja a queda da atual data no olvido eterno da rotina, hoje pode ser uma daquelas lembranças a serem guardadas em algum canto iluminado do memória, ao lado do dia em que levou um tombo estrondoso de bicicleta (27 de janeiro de 2000) ou quando resolveu que o avião não era mais um meio de transporte seguro (21 de agosto de 2009). A revolução do presente é sempre histórica.

Tags: , , , , , , , , ,

29
abr

Um casamento real

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Casamento de pobreO leitor talvez não saiba, mas Queite e Uilian vão se casar. Foram oito anos de ata e desata, muito em função das habituais escapadas dele e dos nervos hiper sensíveis dela. Todavia, com todas as desavenças conjugais, o casal conseguiu vencer o longo namoro e, com um anel de topázio comprado na Rua da Alfândega (ou na 25 de Março, resta apurar a informação), ele formalizou o pedido de casamento. No entanto, o noivado, cuja duração estimada era de mais 5 anos, foi abreviado por uma gravidez inesperada.

Mas a urgência dos preparativos não vai ofuscar a beleza da ocasião. O único pesar da noiva é o escalafobético horário em que se realizará a cerimônia religiosa, sexta-feira pela manhã. Quem consegue ir a um casamento nesse horário? Tudo culpa da indisponibilidade da igreja da comunidade, cujos “sábados à noite” já estão reservados até a próxima era glacial. Só mesmo a boa consideração gozada pela avó do noivo, Dona Bete, para atrair mais convidados a festança.

Após “o religioso”, os noivos vão comemorar com um almoço, no salão quase ao lado da igreja. O cardápio ainda não foi revelado à imprensa, em boa parte porque ninguém da mídia perguntou. Estima-se que não será algo tão pesado como uma feijoada, porque muitos dos convidados ainda vão para o serviço depois da festa. Ainda assim, é garantido que terá cerveja e, para o brinde, suficiente Sidra Cereser. As personalidades mais ilustres da comunidade vão comparecer e espera-se até mesmo a visita de um ou dois parentes de Minas.

Já casados, os dois pombinhos vão morar em um puxadinho na casa da Dona Bete. O ninho de amor está quase pronto. Falta pintar as paredes, ainda só no reboco, e colocar tampa na privada. A vida não será fácil, como, aliás, sempre se espera de um casal que mora tão próximo da avó do noivo, que o criou e é quase uma sogra para Queite.

E a você, que no início do texto escarneceu o evento, agora se sente preterido por não ter recebido um convite para o casamento, logo elucido que a honraria não é para qualquer um vivente. Para receber l’invitation, é necessário ter os pés bem presos na vida real e maravilhar-se ao testemunhar a coragem dos dois em enfrentar todas as pias de louça para lavar, as febres da criança que está por vir e o mês que insiste em ser maior que o salário. Será difícil, mas, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, será bonito e, pode até se dizer, gratificante, enxergar aqui mesmo, do lado de cá da tela, a eterna “ânsia da vida por si mesma”.

Tags: , , , , , , ,

1
abr

Mania de Limpeza

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

privadaNão sei nada de biólogo, psicologia ou psiquiatria, mas desconfio que Transtorno Obsessivo Compulsivo, o famoso TOC, seja uma doença que se espalha no ar. Só assim para explicar a preocupação constante com a sujeira que cresceu na sociedade ao longo dos anos. Uma epidemia de higiene, que, na falta de melhor nome, pode ser resumida por mania coletiva de limpeza.

Talvez tenha começado antes, mas o primeiro meio de transmissão desta doença deu-se por inocentes latinhas de bebidas. Eu, que tive minha infância nos perigosos anos oitenta, lembro muito bem que todos tomavam seu refrigerante ou cerveja sem precisar lavar a lata. Bastou uma história sobre não-sei-quem ter morrido não-sei-onde de leptospirose, após beber em uma lata com urina de rato. O mal já estava feito e, desde então, ninguém mais conseguiu tomar seus goles com tranqüilidade se antes não submetesse a lata a um processo de pasteurização.

Com a contaminação crescente, os padrões de higiene precisaram ser elevados a níveis cada dia mais altos. A redução número de microorganismos no sanitário passou a ser questão de segurança nacional. Segundo as propagandas de desinfetantes, os produtos de limpeza usados no banheiro são tão eficientes que, em breve, vai ser mais seguro almoçar usando a privada no lugar do prato.

Mas, o apogeu da epidemia veio apenas recentemente, em forma de álcool gel. Hoje, qualquer estabelecimento de respeito deve ter afixado nas paredes uma borrifador do produto, para manter as mãos dos consumidores constantemente limpas. Suspeita-se, inclusive, que o governo em breve tomará medidas para tornar o álcool gel item da cesta básica e obrigará todos a tomar banhos diários em uma solução gosmenta.

Não há cura conhecida para a epidemia de limpeza, tendo em vista seu agente transmissor é absolutamente invulnerável a qualquer substância conhecida pela humanidade. Mas, se você tiver dinheiro suficiente, pode comprar o mais novo desinfetante, capaz de, com uma única gota, exterminar toda a fauna do oceano atlântico. E, o mais estranho em tudo isso, é que, com toda nossa desenvolvida tecnologia, não consigo enxergar o mundo mais limpo. Mas, devem ser meus óculos, que podem estar sujos.

Tags: , , , , , , ,

25
mar

Ganhe R$ 100,00 para ler este texto!

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Como todo bom mineiro, só arrisco quando tenho certeza. Da mesma forma, sou dotado de olhar sagáz e de cara de sujeito esperto. Assim, é uma grande contradição o fato de eu ser vítima de toda sorte de golpista aleatório. Basta que surja um golpe novo na praça, aplicado contra velhinhos inocentes e criancinhas impúberes, para que eu caia sem tempo.

Esta conclusão veio recentemente, ao ler um texto sobre o Golpe do Americano. O tipo chegou perto de mim com um duiuispiqueinglichi e contou, em um inglês de fazer inveja, uma história triste. Foi assaltado, apanhou da polícia, roubaram todo seu dinheiro, documentos e coisa e tal. Precisava de uns trocados para o taxi ou qualquer outra coisa que o valha. Pois, pior do que cair no golpe, eu só descobri que era armação quando vi um relato semelhante. Até então eu me dava por satisfeito, como se aquele tivesse sido um dos raros momentos de bondade do meu coração

O leitor imaginário já deve conhecer os golpes mais típicos que circulam por aí e, como não é bobo como o presente escrivinhador, deve ter se safado de todos eles. Mas, nível de bobeira à parte, deve-se concordar que os golpistas, geralmente, apelam para dois sentimentos contraditórios. Primeiro, vem a ganância. O golpe do bilhete premiado é um deles. O título deste post é outro. Acompanhada de uma leve pitada de má-fé, a vontade de levar vantagem sempre leva muita gente a investir em pirâmides que prometem fortunas e depositar dinheiro em contas de estelionatários.

No entanto, há quem seja vacinado contra este tipo de golpe. Eu, por exemplo, não acredito nem em promoção de supermercado, quanto mais em algum esquema para ficar rico rápido. Assim, há outra vertente de golpista, muito mais cruel, que apela para a boa-fé alheia. O safado se faz de sofredor, fala que está sem comer, beber e… (você já antecipou lá no início da história), pede dinheiro, nem que seja um pouquinho, só um trocado para completar a passagem para Itapopoca. Neste momento, o verdadeiro trouxa está em um dilema moral. Pode dar o dinheiro e ser enganado ou pode negar. Na última hipótese, será consumido de remorso por não ter ajudado alguém que precisava. Na primeira, se sentirá um idiota. Diante da dubiedade da situação, inicia-se uma barganha de mercado marroquinho. Dá-se uma desculpa aqui (“estou com pouco trocado, aceita cartão?”), uma enrolada ali, e o golpista leva menos do que queria e mais do que merecia.

Mas, nem tudo está perdido. Se você é uma vítima habitual de golpes, deve se juntar a mim em um esforço. Vamos nos unir em um desses grupos de ajuda coletivos e dividir nossa experiência. Você poderá se levantar e fazer seu relato (“Meu nome é Pedro Bó e sou um tonto”) para pessoas com o mesmo problema. Rapidamente aprenderá técnicas avançadas de esperteza e descobrirá como ficar do lado certo da Lei de Gerson. Para fazer a matrícula, basta depositar qualquer trocado na minha conta corrente.

Tags: , , , , , , ,

11
mar

Abre a rodinha

   Postado por Carlos Goettenauer  em Blog para ele mesmo, Crônicas

rodinhaViva o leitor imaginário onde viver, tenho certeza que, em qualquer passeio pela região central de sua cidade, poderá testemunhar um aglomeradinho de pessoas, em círculo, olhando curiosas as peripécias desempenhadas algum desses personagens aleatórios das ruas. É a rodinha de curiosos, um fenômeno até agora relegado ao esquecimento pela sociologia, cuja análise merece uma tese de mestrado a ser desenvolvida no botequim mais próximo.

Como assíduo freqüentador do Centro de São Paulo, já tive oportunidade de testemunhar incontáveis rodinhas de curiosos e conclui que há um sem número de temas que impiradores da aglomeração. O mais freqüente, sem dúvida, é a rodinha circense, na qual um performer faz algum truque que encanta os passantes. Já vi a rodinha da mãozinha, onde uma mão boba anda, inexplicavelmente, sozinha pela rua. No mesmo ramo atua o mágico de rua, que tira coelho da cartola no meio da calçada e, em seguida, passa o instrumento de trabalho (a cartola, não o coelho) para a contribuição dos espectadores.

Não menos famosa são as rodinhas musicais. Seu expoente mais tradicional é o grupo de cantores bolivianos interpretando Yesterday na flautinha de bambu, em uma versão que faria Paul McCartney quebrar o sagrado baixo Hofner de raiva. Suspeito que o grupo seja, na verdade, uma franquia administrada em algum vilarejo andino, que se utiliza de túneis subterrâneos para distribuir CDs de “música típica” no centro de qualquer cidade do mundo.

As rodinhas de rua são tão populares que foram um subgênero musical. Por exemplo, ao lado do sertanejo universitário, vem o sertanejo “de rua”, com as mesmas músicas, mas com um instrumental mais pobre. Ainda merece registro o subgênero da rodinha-musical-mirim, com um cantor infantil, que dubla e dança algum astro do momento ou do passado. Eu mesmo já vi Michael Jackson (re)encarnado em uma pobre menino de uns oito anos, incapaz de repetir qualquer passo de dança com alguma dignidade.

Por mais que existam histórias edificais por aí, ninguém está cantando na rua porque é bom, mas “não teve uma chance no mercado”. Assim, as rodinha musicais são sempre irritantes, com aquele som de autofalante de kit multimídia. Perdem na chatisse apenas para a rodinha do fanático religioso, um tipo também bastante comum, constituída de algum pregador que revela a todos a iminência do fim do mundo ou, na vertente oriental, busca convencer o publico a comprar o Bhagavad-gita em uma edição bem acima do preço.

No entanto, independente da temática, há algo que me obriga a sentir empatia com o protagonista colocado ali no centro. Sozinho, ele tenta chamar para sua atividade a atenção de um universo de pessoas desconhecidas, talvez, para ele, também um pouco imaginárias. Pessoas que por acaso encontram aquele aglomerado de gente e param para ouvir o que acontece. E me coloco a perguntar, não seria um blog a forma moderna, talvez mais polida, da rodinha de curiosos?

Tags: , , , , ,

25
fev

Puxadinho

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Puxadinho típico.Como tudo por aqui, a arquitetura brasileira não é fácil de ser apreendida. Um sobrevôo pelo Google Earth revela as modernas curvas da deslocada Brasília, influência quase hegemônica em cada monumento público do país. Mas, com todo respeito ao centenário Oscar, não são suas belas obras a melhor representação da nossa arquitetura. Aqui de baixo, quem anda nestas nossas ruas enxerga que o puxadinho é o expoente máximo das obras brasileiro.

O leitor mais burguês, ultrajado, vai afirmar, provavelmente em expressão cheia de eufemismos, que isso é coisa de pobre. Mas basta lembrar que o puxadinho foi chancelado governo com a criação do “anexo” do Palácio do Planalto. Assim, um passeio pelas cidades revela que as maravilhas da cultura do puxadinho atingem não só a periferia como os condomínios de luxo beira-mar. Taj Mahal, Notre-Dame, Empire State, tudo vira fixinha perto de algumas construções, que desafiam as leis, não só de ordem pública, como a da gravidade. Esta última, aliás, com tristes conseqüências na época de chuvas.

Fruto da incapacidade brasileira de realizar qualquer planejamento superior a trinta minutos, o puxadinho aparece da urgente necessidade surgida com algum acontecimento que, se não podia ser evitado, ao menos poderia ser previsto. Da gravidez da filha adolescente à expansão do trânsito de São Paulo, que criou o inédito puxadinho viário cujo sugestivo nome é Minhocão, tudo é desculpa chamar a turma do mutirão e bater uma laje no domingo. Aliás, só mesmo com essa habilidade gregária alguém consegue conviver em um puxadinho e sua exótica arquitetura, como suíte da filha com vista panorâmica do sofá da sala da casa dos pais (que flagra!) e banheiro com janela para a cozinha e duas portas.Nem o Palácio do Planalto escapou imune à onda dos puxadinhos.

Por outro lado, o puxadinho deixa claro como o brasileiro é capaz de improvisar com criatividade. Tenho um tio cuja casa sofreu tantas mutações ao longo dos anos que o visitante mais desatento poderia entrar no banheiro e se ver na varanda. Uma cozinha deu lugar a um quarto e, com algumas mudanças cujos registros perdi, terminou como uma sala. Até hoje é possível observar uma improvável torneira no meio da estante da TV.

A alma de um povo, seja lá o que isso signifique, está expressa em suas escolhas arquitetônicas. Afinal, vivemos, trabalhamos e, enfim, vivemos em construções. Enquanto os arranha-céus de Nova Iorque, com suas paradoxais curvas quadradas, refletem a arrogância conservadora americana envernizada em luxuosa ousadia, a explosão de luzes multicoloridas de Tóquio nos levam a enxergar o povo japonês diferente da imagem tradicional do oriental discreto. Já o jeitinho brasileiro arquitetônico está conceituado no puxadinho e sua alegre desrespeito pelas normas. Com a Copa do Mundo de 2014 à frente, tenho certeza que vamos testemunhar várias façanhas da construção civil nos próximos anos. É só esperar.

Tags: , , , , , ,

18
fev

Passe adiante

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Encaminhe esta mensagem para o maior número de pessoasNão é de hoje que o Estado Crônico goza do status de blog mais desconhecido da Internet pátria. Obviamente, nestes tempos de hiper popularidade, o anonimato não agrada ninguém, de maneira que sempre me coloquei às voltas com idéias para divulgar este site. Todavia, certamente fui amaldiçoado por torcer a favor do Coiote durante toda minha vida. Assim, até aqui todos meus planos falharam e permaneço cronista que escreve a leitores imaginários. Há alguns dias, no entanto, fui atingido por uma idéia de simplicidade tão cristalina que, imediatamente, coloquei-me a duvidar de minha inteligência por não ter pensado em algo tão bom antes. Pois bem, iniciarei uma corrente por e-mail para divulgar o blog.

Para tal intento, antes de tudo, é necessário adotar um pseudônimo. Mas não um destes nomes adotados por escritores que pretendem permanecer desconhecidos da massa. Ao contrário! O objetivo é tornar-se cada dia mais famoso. Assim, deve-se utilizar, preliminarmente, o nome de um autor já consagrado. Preferencialmente, alguém que já goza de credibilidade na Internet. No caso em questão, escolhi Luis Fernando Veríssimo, vítima predileta do plágio às avessas. Como cresci lendo suas crônicas diárias no jornal “O Globo” e outros tantos livros com coletâneas de textos, não me seria difícil emular seu estilo e passar-me pelo escritor gaúcho.

A partir de então, basta escolher o tema da minha corrente. Há aí dois grandes gêneros, que podem ser divididos em subgêneros. A um lado temos as mensagens edificantes. Contar como é bom você acordar feliz pela manhã com o barulho da chuva, o cheiro da relva e a passarinhada cantando. Ou recitar que é importante lembrar se das pessoas que amamos e estão ao nosso lado, ou longe, ou no meio termo. Tanto faz. Alguma coisa que narre visitas de anjos e a importância da fé também é válida, mas entrar demais no campo da religião pode diminuir o público e a eficácia da corrente.

Outro grande gênero é o correio de protesto, do qual sou grande admirador. Entra-se no campo da reclamação perpétua. Vale ser contra o governo e os políticos ladrões, contra a programação da tevê brasileira, contra a falta de respeito no trânsito ou de educação das pessoas que não deixam velhinhos usarem os assentos preferenciais. Neste caso, deve-se ter especial atenção para a atualidade do tema. Circula, atualmente, um texto atribuído (adivinhem) ao Luiz Fernando Veríssimo, que fala mal do Big Brother Brasil 2 4 5 7 9 10 11(?!). Quanto sincronismo e percepção desse autor anônimo.

Outra característica do texto-corrente de sucesso é a certeza de opinião. Nada de entrelinhas que possam enfraquecer seu posicionamento. Deve ser adotado um texto reto, preto no branco, sem essas bobagens barrocas que tanto abundam nos livros. Quem quer mudar a vida das pessoas deve ter convicção. As sutilezas literárias são para os autores fracos e leitores incompetentes. Mas, claro, tanta certeza não pode vir acompanhada de veracidade. Assim, qualquer informaçao que sustente a argumentação presente na mensagem deve ser inverídica. Preferencialmente, usa-se histórias críveis e interessantes, sobre crianças que teriam morrido depois de beber Coca-cola na lata suja ou estilistas que não querem suas roupas usadas por latinos.

Por fim, há as maldições a quem não repassa o texto adiante. Sem dúvida, trata-se da melhor parte da corrente. O leitor deve se sentir realmente compelido a apertar o botão de “Repassar a todos”, sob pena de perder a pessoa amada, ter todo o dinheiro confiscado por um plano econômico lançado exclusivamente para lhe sacanear a vida e, ao fim, trocar de sexo acidentalmente, vítima de uma distração no preenchimento de um formulário de plano de saúde. Mortes estúpidas também são válidas e podem ser utilizadas como meio de coerção. É uma espécie de maldição compensação literária. Depois de ter iluminado tanto seu dia, tudo que o texto pede é continuar circulando por aí. Tenho a impressão, inclusive, que o Estado Crônico é tão desconhecido porque esqueci de passar a diante uma corrente em 1997.

Sucesso é mesmo algo curioso. Talvez a maior façanha de um escritor imaginário, como eu, seja conseguir a popularidade de um texto, ainda que este não leve seu nome. Ainda assim, vale lembrar que você leitor deve passar este texto para o maior número de pessoas possível. Em 1943, uma mulher, no estado do Recife, não passou esta corrente adiante e morreu engasgada com uma sombrinha enquanto fazia um complexo movimento do Frevo. Já em 2009, um paulista leu este texto no trabalho e não remeteu a seus contatos. Quando ia para casa, ficou detido em um engarrafamento na Marginal que durou 3 dias. Prestes a sucumbir de desnutrição, já quase sem forças, lembrou-se do texto e utilizou seu celular 3G para repassar a mensagem para toda sua agenda. Tão logo a operação foi concluída, o caminhão tombado foi retirado da pista e o congestionamento se desfez.

Assim, colabore você também para o sucesso do Estado Crônico e utilize os botões abaixo para divulgar este post. Senão…

Tags: , , , ,

24
dez

A arte de presentear

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

PresenteCertamente, minha próxima revelação será um grande choque para os leitores imaginários de espírito mais inocente. Talvez os mais puros jamais venham a se recuperar do trauma que se seguirá. Mas, é dever do Estado Crônico informar a todos sobre nossa mais recente descoberta. Papai Noel não existe.

Ao contrário do que nos conta o senso comum, todos os presente entregues no final do ano são comprados por pessoas que, pelo menos em tese, gostam de nós e dedicam uma parte de seu dinheiro e, especialmente, de seu tempo, a uma das tarefas mais difíceis. As compras de Natal.

Mas, apesar dos shoppings abarrotados ou das ruas constantemente encharcadas no mês de dezembro, não é o ato de sair de casa e enfrentar a multidão que torna qualquer compra de Natal um genuíno ato de doação. O verdadeiro desafio se encontra em escolher o presente. Vive-se, em verdade, um paradoxo quase insolúvel. O presente deve agradar ao presenteado, sob pena de tornar-se algum daqueles objetos inúteis que habitam o alto do guarda-roupa. Ao mesmo tempo, tem de guardar alguma relação com o presenteante, levar um pouco de sua personalidade, como uma mensagem ao destinatário. Isso tudo, ainda deve casar com o tamanho do bolso, a disponibilidade de peças tamanho 42 e a capacidade olfativa do comprador.

Assim, a verdade é mais surreal do que o mito de um velhinho maluco e desprendido, capaz de entregar presentes no planeta inteiro em apenas uma noite. São mesmo os humanos que, no Natal, entregam-se à tarefa quase impossível de agradar o próximo e doar-se a alguém. Ainda que apenas uma vez no ano, ainda que só com uma lembrancinha.

Aliás, espantoso mesmo é que não ocorram mais trocas no dia útil seguinte ao Natal.

Tags: , , , , , , , , ,