Artigos com ‘Crônicas engraçadas’

21
abr

Quinta-feira

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 21 de abril de 2015,  em Crônicas

ZoológicoÚnica noite livre da semana. Ú. NI. CA. Confessa, noite livre em casa. Porque noite livre na rua, com os amigos, indo aquele bar que você não queria tanto ir, mas foi assim mesmo porque, afinal, também não queria tanto não ir, a ponto de deixar de ir, aquele bar não conta como noite livre. Conta como o proverbial “ir zoológico dar pipoca aos macacos.” (Raul explica tudo tão bem)

Única noite livre da semana. Quer dizer. Livre, livre, soltinha, à toa, a noite não é. Para ser livre você precisa ignorar várias camadas de coisas que precisa fazer. Aquelas coisas importantes que poderiam mudar sua vida se você fosse fazer. Começar a estudar o NovoCódigodeProcessoCivil, para trocaram o Código? Ou aquelas coisas que você deveria fazer, mas, pelamordedeus, hoje é a única noite livre da semana e você não vai usar para, sei lá, ir à academia correr na esteira, arrumar a gaveta da mesa de cabeceira. Sua cabeça é boa em esquecer coisas inconvenientes. Ainda bem. Noite livre, graças à memória seletiva.

Única noite livre da semana, finalmente. Já é quinta. Quase sexta. Sexta não é mais semana, nem livre, porque vai aparecer alguma coisa, sempre aparece. Sexta é um dia traiçoeiro. Complicado. Aparece amigo, aparece zoológico, aparecem aquelas coisas que você vai acreditando que gosta, mas dá uma preguiça de ir na hora. Aquelas coisas que podem ser até que legais. Mas nem sempre são. Igual concerto de música clássica. É bom se não tiver ninguém tossindo ou conversando ou balançando a perna nervosamente, fazendo aquela barulhinho chato com a cadeira. Nhic, nhic, nhic, nhic. Mas sempre tem. O oboé faz lá o barulho de oboé, a nota de oboé, o timbre de oboé. E a cadeira “nhic, nhic, nhic, nhic”. Dá vontade de falar todo gentil “Para de balançar essa de perna, meu senhor, porque eu preciso ouvir o oboé.” Mas não pode falar, porque atrapalha todo mundo. E fica chato para você. A vontade de falar com a pessoa passa. Vira vontade de matar a pessoa. Com um oboé, que agora já parou de tocar. Já está tocando o cello. A cadeira na mesma. A perna na mesma. Sexta-feira é um dia complicado. Traiçoeiro. Não dá para confiar.

Mas hoje é quinta-feira. Única noite livre da semana (já contei?! Ú. NI. CA.) E um monte de coisas boas para fazer. Tem livro para ler. Seriado para ver. Filme para assistir. Videogame para jogar. Tudo coisa boa. Só tem um problema. Tem muita coisa. Dá aquela angústia. Tem que decidir. E decidir não é fácil. Porque se faz uma coisa, na verdade, você deixa de fazer um monte de outras coisas. E dentro de cada coisa, tem um monte de subcoisas. Vai ver filme? No Netflix ou bluray? Qual filme?

Sei não, filme dá sono. Você já está com sono. Vai dormir. E aí, já sabe, a única noite livre da semana vira noite dormindo torto no sofá. Filme não. Demora muito. Melhor não. Jogo também não, porque deixa você agitado. Coisa de velho isso de “ficar agitado”. Igual gato naquele horário que gato corre pela casa sem explicação. Coisa de gato velho, deve ser. Você no GTA corre de carro, corre da polícia, corre dos outros que correm para pegar você. Se desligar o jogo vai continuar correndo. Como que dorme depois? Se dormir, corre no sonho. Melhor não. Livro? Sono. Melhor não. Vai de seriado. Mais fácil. Seriado é curtinho. Menos de uma hora. Pílula de diversão. Dá até para olhar um pouco do livro, se não tiver com sono. Ou ver dois capítulos do seriado. Pode ser.

Aí você vai ver o seriado. E, bem, esse não está legal. Não deu liga o episódio. Azar, hein? Justo na única noite livre da semana o capítulo do seriado é chato. Agora não dá mais para começar outra coisa. E você nem tem ânimo para ver outro capítulo do seriado, porque, se esse foi chato, o próximo também. Bate aquela tristeza. Porque você tinha um mundo de coisas para fazer e escolheu errado. Tinha filme. Tinha livro. Tinha GTA. Mas não, você resolveu ver o seriado e deu nisso. Até o bar era melhor que o seriado.

Ainda tenta consertar. Assiste aos últimos episódios do Porta-dos-Fundos. Mas nem ri, porque era a única noite livre da semana. E está desperdiçada. Mas a vida é assim. Uma única noite livre na semana. E você sempre escolha a coisa errada para fazer.

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4
abr

Pequenas Grandes Angústias Cotidianas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 4 de abril de 2015,  em Crônicas

O telefone toca e você já olha preocupado, porque telefone tocando não costuma ser coisa boa. Nunca foi. Você já até se acostumou. Notícia boa chega via WhatsApp, via email, via telegrama fonado, via Diário Oficial. Já telefone é como o Oficial de Justiça das notícias. Ninguém com boa intenção pega o telefone, disca (porque notícia ruim disca o número, dígito por dígito, não usa o número da agenda, olha no papel ou no caderninho que fica do lado do aparelho), espera chamar, fala “alô”. Ninguém liga para ninguém hoje em dia.

O telefone toca, você ainda olha preocupado. Vê o número. Você não conhece. Claro, ninguém conhece número de ninguém, só o da Rádio Globo, que tocava na sua casa quando você era criança. Dois zero cinco, zero um dois três, no programa do Haroldo de Andrade. Tinha uma musiquinha atrás, você até consegue lembrar. Sua mãe ouvia em um rádio creme. Quer cor exótica para rádio (aliás, onde será que está o rádio?) Mas aí aparece o nome também. É conhecido.  Não se veem há um tempo. Gente boa o sujeito. Por onde será que ele anda? Você já dá aquela relaxada. Não deve ser desgraça pelo menos. Aí aparece a foto do cara. Foto de rede social, que o celular aprendeu sozinho a pegar. Mas não a foto do Facebook, porque seu celular é hipster, é metidão, tem vontade própria e escolhe a foto o Google Plus para associar aos contatos. Então não é foto nova, é foto que já tem mais de três anos. Nem o cara lembra mais que essa foto que aparece para todo mundo quando ele telefona para alguém. Até porque ele não deve ligar para ninguém mesmo. Ninguém liga para ninguém hoje em dia.

O telefone toca mais uma vez. Você já não está mais tão menos relaxado. Melhor atender. Porque se não atender o sujeito vai saber que você deixou de atender ao telefonema dele. E vai ficar esperando você retornar. Você não vai retornar, porque nunca retorna telefonema. Para ninguém. Nem para parente. Principalmente para parente. Então vai pintar aquele clima pesado entre vocês. E quem sabe vocês se encontram na rua por acaso um dia. Ele vai falar que você não atende as ligações dele. Provavelmente não vai acontecer, porque vocês moram a seguros dois mil quilômetros de distância um do outro. Só que se acontecer vai ser pior, porque talvez o cara esteja vindo para Brasília esse fim de semana e queira só marcar alguma coisa. Um chope rápido. Ali no Beirut mesmo. Melhor atender. Ou ficar em casa o fim de semana inteiro. Seria boa ideia. Mas não dá, tem que ir ao supermercado. E você quer andar no Parque da Cidade no domingo. Você não quer encontrar o cara sem querer. Melhor atender. Meio irritado, é verdade. Quem é que liga para alguém hoje em dia?

O telefone toca, mais uma vez. Você está irritado. Tem que disfarçar antes de atender. Tem que lembrar o nome do cara. Não precisa, está escrito ali. Essa parte foi fácil. Tem que lembrar como você costumava chamar o cara na época que conviviam. Não dá para sair chamando o sujeito da mesma maneira que você chama todo mundo hoje. Hoje você chama todo mundo de “meu irmão” se for homem e “minha amiga” se for mulher. Tem que ser como naquela época quando vocês conviviam. Para rolar um vínculo, uma identidade. Tem que usar o vocativo certo. A entonação certa. Era “camarada”! Vocês se chamavam de “camaradas”. Não se sabe bem porque. A União Soviética já tinha acabado. Vocês nem eram comunistas. Nem pretendiam fazer nenhuma revolução socialista. Olhando para trás, não fazia mesmo muito sentido. Talvez fosse o caso de mudar esse tratamento. Ou talvez naquela época vocês se sentissem camaradas, no sentido fraternal da coisa. Mas agora não dá para pensar nisso. O telefone está tocando pela quinta vez. E se desligar, você já sabe, vai encontrar o cara por acaso no Parque da Cidade, vai rolar aquele clima tenso.

Então você atende e não fala “Alô?”. Já dispara: “E aí meu Camarada?”. Mas não um “E aí meu Camarada?” irritado. Não um “E aí meu Camarada?” falso. Vem um “”E aí meu Camarada?” moleque. Você até sorri. O personagem veio. Foi só evocar aquele tempo quando vocês se chamavam de camaradas sem querer fazer nenhuma revolução. Então você se sente, atendendo aquele telefonema, como um surfista que consegue pegar a onda e rasgar a água bem na diagonal. Aquela imagem bonita. O mar azul levantando, a prancha cruzando a onda, pouco antes da crista. Quer dizer, é o que você imagina, porque não surfa. Nem consegue se equilibrar na prancha. Mas a sensação que dá quando você vê o sujeito na TV parece que é essa. Viu? Deu tudo certo. Você conseguiu atender o telefone. Nem foi tão difícil. As pessoas ainda ligam umas para as outras. É exótico. É eventual. Mas ligam. Deve ser moda hipster.

Mas não. É voz de mulher. Você já pensa que fez alguma bobagem, claro. Essas coisas costumam sempre ser culpa sua. Colocou o nome de uma pessoa com o telefone de outra na agenda do celular. Fato que não é o camarada, é outra pessoa. Mulher. Ou ele mudou muito de voz. Mas não foi você quem errou. Na verdade, você acertou. Cadastrou o número do celular e o número do fixo do camarada no mesmo contato. E a agora é a mãe do camarada no telefone fixo. Você, malandrão de agenda de celular na nuvem, foi pego no contrapé, porque nunca nem viu a mãe do camarada. Sabia que ele tinha uma, claro, por presunção. Mas nunca foi um fato que tenha merecido algum relevo na sua consciência. A mãe do camarada era como a população inteira da China. Você até sabe que está lá, mas é meio que uma coisa abstrata, implícita no mundo.

Só que a mãe do camarada não é mais abstrata. Ela quer falar com você. Sobre sua irmã. O que é bem complicado, porque você não tem irmã. Não que saiba, pelo menos. Ou talvez você tenha tratado sua irmã como a população da China, ali, meio que no canto do cérebro onde você coloca aquelas coisas que não lembra que existem. Será que você deixou de retornar uma ligação da sua irmã? Agora você já não confia mais em si mesmo. O assunto está complicado. Ela conhece sua irmã da aula de porcelana. Ficou sabendo que ela está doente. Coisa séria. Barra. Sorte que você não tem irmã, tem quase certeza disso. Tanto que quando vai falar com homens, chama de “irmão” e vai falar com mulher, chama de “amiga”. Então não é sua irmã que está doente. Tenta explicar. Fala que sim, que você é você mesmo, o camarada amigo do filho dela. Mas que não, você não tem irmã. Que sua irmã não fez aula de porcelana. Que sua irmã não está doente. Nem seu irmão. Sim, está todo mundo bem na família, você fala só por garantia. Seu irmão teve dengue, mas não convém falar, o papo já está complicado demais sem essa informação. Você até pensa em perguntar se o camarada está bem. Pensa duas vezes. Melhor não, vai que ele não está bem. Ou vai que ele vem para Brasília nesse fim de semana. Você não quer encontrar ninguém esse fim de semana. Tem um monte de coisas para fazer. E tem que ir ao supermercado.

Você desliga o telefone. Confere o WhatsApp para ver se seu amigo, por acaso, mandou alguma mensagem. Mas não. Parece que ele não vem para Brasília. Sorte. No fim de semana você vai ao Parque da Cidade. Mas vai preocupado. Vai com medo de encontrar o sujeito. Um pouco de culpa lá no fundo, pode ser. Não vai ser legal. Talvez ligue para o camarada só para ver como ele está e despreocupar. Melhor não. Passa um e-mail. Assim resolve. Ninguém liga mesmo para ninguém hoje em dia.

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20
mai

Ode aos textos nunca escritos

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 20 de maio de 2014,  em Crônicas

LixeiraCelebrem-se, agora, os textos nunca escritos!

Aquela ideia ótima que lhe ocorreu dentro do ônibus, uma mão ocupada em manter o equilíbrio, outra em segurar as três sacolas, duas do supermercado, com lasanha congelada e pipoca de micro-ondas, outra da Livraria Cultura, com maçãs. Não se anotou nada do conteúdo. Ficou apenas aquela coceira ali na cabeça, onde agora há esquecimento. A ideia, boa mesmo, seria um texto, não desceu no ponto certo. Coitada. Deve vagar perdida pela Zona Oeste de São Paulo.

Há também os textos não escritos por culpa de outros cronistas. Sem grandes habilidades, este modesto cronista lapidou o texto na cabeça por semanas, quiçá meses, e quando sentou para escrever, outro mais celebrado já havia falado sobre o assunto. Escreveu melhor, com mais propriedade, mais qualidade. Na atualidade, o Antônio Prata é o que mais apronta esse golpe. Mas, volta e meia, mesmo os falecidos insistem em furtar textos de minha mente. Às vezes é até uma honra. Veja que até o Rubem Braga (sim, o próprio!) já se escarafunchou nas dobrinhas cinzentas do meu cérebro para afanar uns pensamentos.

Outra “viva!” aos textos que perderam a relevância por preclusão temporal. Escrever sobre a vida corrente dá nisso. Antes de terminado o texto, o último acontecimento já é o penúltimo, antepenúltimo e virou gotinha de irrelevância no rio do tempo. Uma pena. Vai ver é por isso que os outros escrevem romances atemporais e tem sucesso, enquanto a sina do cronista é virar forro peniquinho de cachorro. Questionável honra que, aliás, não goza o cronista da época digital, cujas palavras param no latão virtual do sistema operacional.

Claro, não se celebre tudo, pois nem apenas de ideias piramidais vive a cabeça do Cronista. Uma vaia aos textos não escritos por terem argumentos ruins. A esses o eterno esquecimento não é pena suficiente. Como naquele caso em que veio a cabeça criativa, ao revirar uma caixa de mudança, sussurrar “uma crônica sobre controles remotos velhos!”. E o superego já abafou a ideia “não, não, não, de ideia estapafúrdia o Estado Crônico já está cheio! Esquece!”. E lá foi o texto para o rol dos nunca escritos. Pior é ver que o Antônio Prata roubou a ideia. E não ficou ruim.

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28
nov

Seu bebê é feio

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 28 de novembro de 2013,  em Crônicas

Toda a graça e beleza do bebê renascentistaA cena é conhecida. Talvez até testemunhada pelo leitor imaginário mais experiente. A mamãe vestida em uma camisola cujas estampas só não perdem em bom senso para a cortina de casa de tia. A cara de quem não dorme há dezoito noites. E isso é só o ensaio. O pai, ainda invicto na batalha que se inicia, carrega orgulhoso um pacote pelo quarto. Volta e meia, desfaz o embrulho e revela à comitiva de visitantes o novo raminho que acaba de nascer na árvore familiar.

Então, dá-se o momento mágico. Cinco tios, nove primos, a tia-avó que mora em Cataguases, aquele colega da firma, que não queria vir, mas sabe que para essas horas tem que “dar uma atenção”, todo o séquito de visitantes, ao contemplar aquele rostinho fofinho, recém inaugurado, exclama em uníssono.

“Meu deus! Que coisa mais linda!”

Ah… Como é falsa a humanidade. Mas, é dever de ofício deste cronista, sincero que só beata se confessando em leito de morte, colocar a verdade no berço. Não, minha cara leitora imaginária. Ele não é bonito. Sinto muito decepcionar, sei que a noite não foi fácil e os próximos dias puro padecimento no paraíso. Mas não dá para iniciar essa jornada tão bonita em uma ilusão estética.

Seu bebê é feio.

Sei que ele é fofo, cutch-cutch e uma gracinha. O mais bochechudo das galáxias. Mas bonito é que ele não é. Bonito é outra coisa. E,  para que não fiquem as mamães e papais decepcionados, aviso logo. Ser feio não é exclusividade do seu bebê. Veja, mesmo os pintores renascentistas, tão celebrados pelas belezas que criam, não foram capazes de imaginar um único bebê bonito, registrando o menino santo com cara de baiacu inflado por seguidas vezes. A bem da verdade, o único bebê bonito ainda está para nascer e vai demorar bastante.

Então, não se aborreçam por isso. Feiura passa. Entre o ultrassom-4D-multicolor, onde a criança aparece com a cara de massinha de modelar, e o recém nascido, há uma evolução estética considerável. Beleza toma tempo. Gente demora a amadurar, virar gente mesmo. Enquanto isso, é aguentar aquela rostinho oscilando entre o azedo e o choro.

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7
jun

Estraga Magia

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 7 de junho de 2013,  em Crônicas

Ah Mister M, o mestre dos estraga magia.Imagine-se o leitor imaginário a assistir ao novo número de um grande mágico. Passa para cá caixa com metade de mulher dentro, passa para lá cartola transbordando coelhos, muitos deles ocupadíssimos em levitar e assanhadamente fazer reaparecer buquês de rosas por trás das orelhas das jovens na plateia.

Ao lado do leitor, a essa hora ainda abandonado pelo cronista na cadeira do teatro, um sujeito assiste aos números, sério, com bloquinho e caneta. Ao fim, vira-se para o leitor imaginário e passa a descrever a maneira como todos aqueles malabarismos mágicos foram montados para enganar o público. Pura ilusão, aponta ele, feita de polias, espelhos, fios transparentes, fundos falsos e cadafalsos.

Está aí, ao lado do leitor imaginário, um espécime cada dia mais comum na fauna humana. O estraga magia.

Trata-se do sujeito que tem explicação para tudo quanto é que pode existir no planetinha Terra. Quiçá na galáxia. Você lá, a se maravilhar com o arco-íris e as miragens no deserto, e ele te explicando sobre a refração da luz nas gotas de água, frequência das ondas luminosas e como tudo isso influencia a revenda de commodities no mercado de tapioca. Quase uma Wikipédia viva, com seu repertório de conhecimento apagando o encantamento de qualquer pequeno milagre cotidiano.

Mas, apesar do hábito da desmitificação, o estraga magia tem lá suas utilidades. Especialmente porque nem todo encanto vem para bem. Assim, você descobre que não deve misturar vinho e Coca-cola, porque o álcool e o gás carbônico, quando misturados, reagem no estomago para se transformarem em ácido carboxílico. E isso dói.

E para desdizer o que disse antes, nem acredito que o estraga magia seja assim tão ruim. Na pior das hipóteses, suas ponderações enciclopédicas podem, no máximo, ser um pé de página na conversa mística. Triste mesmo é quem vê encanto e magia na ignorância.

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14
dez

Aperte Pausa

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de dezembro de 2012,  em Crônicas

Terra, um pálido ponto azul visto de Saturno.Sei que não será nada original este blog retornar ao assunto do fim do mundo às vésperas do evento. Mas, desde quando têm os cronistas direito de buscarem pautas que escapem das vicissitudes do cotidiano?

Assim, com apenas mais 7 dias para aproveitarmos nossa gloriosa vidinha aqui no pálido ponto azul, busco apenas jogar algumas conjecturas hipotéticas no ar.

E se, ao invés de acabar em um fogaréu roliço no negro do espaço, nosso mundo fosse só dar uma pausa. Um relax sob a sombra do coqueiro. De uma hora para outra, seja lá por qual motivo, desse na idéia de alguém proibir a novidade?

No noticiário, um William Bonner atônito, dizendo “E hoje não aconteceu rigorosamente nada que seja digno de notícia. Nenhuma tragédia em nenhum país longe, nenhum escândalo de corrupção, nem gols das equipes de futebol. Então, para suprir o vazio da programação, vamos passar vídeos de gatinhos fofos que tiramos do YouTube”.

No cinema, nada de estréias. Senta lá e vai assistir trilogia de O Senhor dos Anéis na versão estendida. Lista de livros? Encolhendo, porque ninguém acresce títulos à pilha de leituras pendentes. Discos? Ouça os que já tem, bailando naquele festejo de quem celebra bodas de ouro.

Tecnologia? Vire-se com o que aí está. Abaixo a Lei de Moore! Ninguém mais vai preso se mantiver computador desatualizado por mais de duas semanas. Também não precisaremos mais de notação científica para numerar modelo de celular. Fique com a quinta maçã  ou a terceira galáxia, pois os dois já passam mensagem, têm toque polifônico, tela colorida e controlam foguete espacial.

Não sei bem qual seria a consequência econômica disso. Suspeito que alguma recessão grave, cumulada com o desemprego do Bonner e agravada pela nossa crise de abstinência de distrações. No entanto, mais dia menos dia, alguém vai sair do riscado e frear a máquina de novidades.

Mas, por mais estranho que possa parecer, não achei tão ruim a proposta. Pelo menos haverá os vídeos de gatinhos fofos no Jornal Nacional.

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5
mar

Dividir para entender

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 5 de março de 2012,  em Crônicas

Sem calçasTenho hábitos exóticos, que podem ser confundidos facilmente com maluquice pretensiosa. Entre eles, coloco o costume de dividir a humanidade entre dois grupos distintos, por meio de critérios que, apesar de rigorosamente absurdos, muito revelam sobre meus objetos de estudo, em um prisma de sociologia de botequim.

Afirmo, por exemplo, que o mundo está dividido entre as pessoas que, quando trocam de roupa vestem a calça primeiro que a camisa e entre as pessoas que vestem a camisa primeiro que a calça.

Corte aparentemente absurdo e certamente aleatório. Mas no breve momento, quando o sujeito encontra-se desnudo e tem que optar pela peça prioritária do guarda-roupas, cabe toda uma construção de filosofias e advocacias de estilos de vida. De um lado, os calceiros, a turminha que prefere a calça à camisa. Defendem uma bandeira de normalidade, com um papo moralista sobre o efeito nefasto de andar por aí sem calças. Do outro, os camiseiros, advogando uma cultura de rebeldia. “Que calças que nada! O Rei está nu, eu também e vamos todos andar pelados por aí! Pelados não, de camisa, de preferência com estampas anárquicas.”

Empolgado com a profundidade da análise psicológica do critério anterior, já consigo separar o mundo em outras duas categorias. Os motoristas que, no shopping, estacionam de ré e os motoristas que estacionam de frente. Os primeiros são pessoas hábeis e precavidas. Andam em veículos com airbag, guardam dinheiro para o futuro, não compram a prazo e ainda têm plano complementar de aposentadoria. Já os outros, creio que a maior parte da humanidade, deixam o trabalho mais árduo para depois e procrastinam todas as tarefas desagradáveis que a vida gentilmente nos oferece. Estudam na véspera, à espera de alguma tempestade capaz de defenestrar as provas pela janela do apartamento do professor. Aliás, são eles também que, na hora das refeições, comem logo as batatas fritas e passam o almoço encarando feio a pobre folha de alface e o tímido tomate.

E, já que tocamos no intricado assunto dos alimentos, há no ramo alguns grandes cortes cuja total amplitude de significados ainda não consigo absorver. Veja-se a divisão entre aqueles que comem mais arroz contra os que comem mais feijão. Seriam os primeiros adeptos de um sabor monótono, mas com inquestionável segurança digestiva, opositores das estripulias dos amantes do feijão, com sua saborosa riqueza e evidentes riscos ao equilíbrio intestinal? O leitor imaginário mais arguto poderá responder em suas cartinhas à redação.

Alguém  pode-se opor contra minhas divisões e interpretações da humanidade. Pois eu lhes digo que são demasiado úteis. Atalhos, para facilitar a compreensão deste planeta tão grande e diverso. E, além do mais, não consigo ver como muito melhores os critérios de divisão do mundo que há por aí, firmados em cor, sexo, saldo bancário, circunferência abdominal, local de nascimento e a mesma história velha de sempre.

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27
jan

Lente Macro

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 27 de janeiro de 2012,  em Crônicas

O corpo foi encontrado poucos minutos passados da meia noite. Uma barata, não identificada, em meio ao gramado da quadra. A primeira formiga que por ali chegou não soube apurar a causa mortis, mesmo após verificar em detalhes o corpo e observar a existência de um ferimento corto-contuso no ventre da vítima.

Apesar da prudência e dos cuidados investigativos naturalmente exigidos pela gravidade do caso, a formiga não se interessou por aguardar a polícia técnica e, com vistas a evitar o formigueiro concorrente, chamou suas amigas para iniciarem juntas o trabalho de remoção.

Em minutos, um silencioso cortejo fúnebre cruzava o gramado. Equilibrado no alto de cuidadosas operárias, o corpo era levado ao sepulcro final na entrada do formigueiro. Mas, anunciada com breves gotas, uma chuva torrencial lavou o caminho longo e tortuoso da coveiras do jardim. E onde antes era apenas grama, surgiram rios caudalosos e fendas abismais. O complexo trabalho de engenharia necessário para vencer os obstáculos passou a ser observado ao longe por um interessado roedor, cuja gula só foi afastada em virtude do gato errante, morador perene da região e chefe da quadra.

No entanto, o primeiro raio de sol despertou um bem-te-vi de seu recluso galho no primeiro andar da mangueira. Os olhos treinados avistaram a trilha de formigas carpideiras. E, antes que elas chegassem à proteção de seus escuros túneis, com uma revoada, dois passinhos e uma bicada, o corpo-troféu, voou carregado pelos ares, esvaziando todo os esforço da madrugada empenhado pelo forte corpo operário do formigueiro.

Durante o dia, as empregas, as estudantes uniformizadas, as estudantes não uniformizadas, os engravatados das autarquias, o zelador, os maconheiros vespertinos, a equipe de cortadores de grama, o pessoal da capoeira, o entregador de móveis atrasados, ninguém percebeu o movimento insignificante do gramado, todos afogados em seus pensamentos de grandeza, muito maiores que o universo inteiro.

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11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 11 de novembro de 2011,  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

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14
out

De mau com o tempo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de outubro de 2011,  em Crônicas

Relógio estragadoBriguei com o tempo. Estamos de relações cortadas até última ordem, mas, creio, nosso rompimento será definitivo. A bem da verdade, nossa relação não foi das mais harmoniosas, como podia parecer a quem olhasse de fora a vida deste cronista (atenção especial à etimologia da palavra!). Mas, diante dos últimos acontecimentos, parti para uma solução radical. Não converso mais com o pai tempo.

Não se engane o leitor imaginário, com idéias de que se trata de mais um daqueles pequenos desentendimentos, típicos de relacionamentos longos, como o que tivemos nos últimos trinta anos. Não é uma briguinha como quando ficamos preso no trânsito e o tempo até a hora do vôo parece passar rápido como nunca. Coisa esquecida logo quando se senta na cadeira do avião.

Infelizmente, nossa briga foi mais grave. E, em como todo desentendimento, a culpa foi não foi minha. Pois, estive sempre acostumado a uma passagem do tempo em um ritmo, que se era tão lento como eu gostaria, tampouco era uma flecha que transforma o mundo em um borrão.

Mas então, confiando na constância do tempo, coloquei-me a esperar um grande acontecimento. Nada demais, três semanas e já estaria tudo resolvido. Sentei-me confortável no sofá, abri um livro, virei para o lado, mirei forte os olhos do pai tempo e disse-lhe, “faz seu trabalho daí, que eu fico quietinho por aqui”. Ah! Mas, como um cachorro que sente seu medo, ele percebeu a ansiedade no meu sorriso disfarçado. E desde então, passou da maneira mais devagar possível. Melhor, estancou, por pura provocação. Minutos arrastam-se pesados, horas viram dias e semanas, meus caros, são tão grandes que cabem dentro de si mesmas. Qualquer atividade que, antes, tomava horas, subitamente agora parece se completar em um instante, só para me deixar com cara de bobo entendiado.

Então, pergunto aos meus leitores imaginários. Que fazer diante de tamanha malícia do tempo? Briguei, feito criança mimada. Não converso, não mando bilhetinho e, se ele ligar me procurando para fazer as pazes, não atendo. Agora quero que o tempo viva na dele, passe no ritmo que bem entender e vá atazanar a vida de outro. Mas claro, sei que provavelmente terei que, cedo ou tarde, me reconciliar. Afinal, o grande mistério de uma vida feliz passar por fazer durar lento o tempo de um beijo e acelerar a sua passagem na fila do banco.

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