Artigos com ‘Textos divertidos’

1
set

Amo muito tudo isso

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

hamburguer Na fila, peço pelo número. Meu pedido se transforma em algo muito próximo de comida. Não se pode dizer que seja ruim ou insosso. Embora pouco nutritivo, o lanche entregue em uma caixinha de papel é agradável e, diga-se, possui um sabor inconfundível. O que lhe falta para ser comida é a alma, perdida no longo processo que transforma o alimento em fast food.

Já na mesa, há uma ordem secreta para as coisas, desconhecida dos leigos. Se eu estiver acompanhado, o sanduiche deve ser comido primeiro. As batatas, ingeridas mais vagarosamente, servem para cativar um breve bate-papo. Caso esteja sozinho, as fritas, por esfriarem antes, devem ser comidas primeiro, em ritmo industrial. O sanduiche pode ser apreciado como prato principal em um silencio meditativo. Se o fast food não criou a solidão, pelo menos lhe alimenta diariamente. Ela senta em mesas estreitas de dois lugares e ocupa todo o espaço com sanduiche, batata e refrigerante médios. Já foi vista de fones ou lendo algum bestseller instantâneo, enquanto cumpre seu compromisso com o estomago.

O fim da refeição traz uma polêmica. É demonstração de grande civilidade e educação carregar sua própria bandeja e desfazer-se dos dejetos em uma lixeira ecologicamente correta. Por outro lado, deixar os despojos na mesa, obriga, indiretamente, a empresa a manter um empregado encarregado desta nobre atividade. Contribui-se, assim, para a redução dos índices de desemprego pátrios.

Opto por uma terceria via de salutar desobediência civil. Abandono a bandeja sob a lixeira, com toda a sujeira por ser retirada. Saio do estabelecimento feliz por ter cumprido meu papel de consumidor socialmente responsável. E com a barriga cheia.

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27
ago

Por uma rede antissocial

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Emoticon bravoComo todo bom internauta, adoro fuçar as fotos do Orkut manter-me atualizado sobre as novidades do meu círculo de amigos pelas redes sociais. Um mundo maravilhoso surge no monitor. Todos sorridentes, sempre alegres com a vida. Mesmo a tristeza, nas raras vezes que dá as caras, aparece em fontes coloridas e simpáticos emoticons chorosos ou um acréscimo de “saudades eternas” no sobrenome. No entanto, há um enorme campo que ainda deve ser desbravado pelos empreendedores da Internet, as redes antissociais.

Surpreendente, aliás, que a Internet tenha permanecido alheia até hoje ao mais poderoso dos sentimentos, o ódio. Basta uma rápida olhadela, seja na esquina movimentada mais próxima ou na história da humanidade, para confirmar o potencial humano em arrumar confusão e discórdia. Assim, nada mais natural que criar uma rede social na qual as pessoas se encontraram para discutir, brigar, ofender-se mutuamente, tudo com a segurança, comodidade e segurança propiciada pela Internet. Lembre-se daquele seu inimiguinho de infância, há anos perdido no esquecimento? Pois então, na nova rede vocë poderá reencontralo para terminar aquele “te pego lá fora” não mal resolvido há décadas.

A rede antissocial trará o melhor de todos os mundos. Com um clique rápido na leve interface você começará uma inimizade com seu mais recente desafeto, seja alguém com quem você tenha brigado no trânsito ou no bar. E, adeus reciprocidade. Não será mais necessário ter seu ódio correspondido para odiar alguém. Se iniciará um novo conceito, o ódio platônico. Celebridades, por exemplo, poderão comemorar quando atingirem seu primeiro milhão de inimigos. Em seguida, nada de recadinhos coloridos no mural dos outros. Você entrará na rede e receberá o maravilhoso aviso “fulano deixou uma ofensa para você”. Há como começar um dia melhor?

Já as comunidades, que fizerem o sucesso de algumas redes sociais, serão substituídas por clubinhos da raiva. As possibilidades são incalculáveis. Pessoas do mundo inteiro vão poder dividir seu desgostos e desinteresses em comum. Imagino as histórias edificantes que serão contadas daqui a anos sobre relacionamentos surgidos na rede antissocial. “Conheci meu marido no clube de pessoas que odeiam andar de bicicleta ergométrica em avenida”, afirmará alguma noiva entusiasmada.

Ao bem da verdade, o internauta superligado nas últimas novidades do mundo cibernético, atualmente deve desperdiçar passar boa parte do tempo digerindo a infinitude de conteúdo oriundo das redes sociais. O volume de bobagens informações é tão grande que se torna quase impossível manter-se atualizado com os últimos trending topics do Twitter, ler o s scraps do Orkut e aceitar os novos pedidos de amizade do Facebook. Assim, antes de o pacote de dados do celular 3G ficar mais caro que a dívida externa dos país em desenvolvimento, a rede antissocial é a solução definitiva para economizar nosso tempo, para que possamos nos concentrar no que há de mais importante na vida. Brigar em família.

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13
ago

Proposta para acabar com o azar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Gato branco, tomando sorteve colorido, para ninguém ter azar. Sexta-feira treze, em agosto, e meus leitores imaginários de mais juízo devem ter ficado em casa, devidamente protegidos das intempéries do destino. Afinal, hoje os astros dizem que o dia é cosmicamente desfavorável às atividades que exponham o sujeito a riscos, como atravessar a rua ou acessar blogs de conteúdo duvidoso. Eu, como tenho o corpo fechado pelos personagens místicos das novelas da Globo, não preciso me preocupar com esse problema. Mesmo assim, em um ataque de solidariedade, passo algumas dicas para conseguir mais sorte nesta tenebrosa data.

Novos tempos exigem novos hábitos e, convenhamos, gato (de qualquer cor) só dá azar para sorvetes coloridos ratos, assim como não passar por baixo de escadas não é superstição. Trata-se, no máximo, de bom senso de quem não quer ser atingido por um uma lata de tinta na testa. Portanto, para ter melhor sorte, devem-se adotar novas mandingas.

A principal alteração na vida para quem não quer sucumbir às catástrofes aleatórias é livrar-se do objeto mais agourento do mundo. O dinheiro. Basta observar a vida dos ricos para perceber que dinheiro dá um azar tremendo. Todos sempre envolvidos com atos de violência, como seqüestros e arrastões em condomínios fechados, super chiques. E a vida amorosa? Quase impossível apontar um casamento duradouro entre ricos. Normalmente os matrimônios de alta renda se desfazem mais rápido que calotas polares. Quando o dinheiro se associa à fama, a dificuldade torna-se ainda maior e até os enlaces modelo acabam em divórcios exemplares.

Ademais, dinheiro é um talismã ao contrário. Enquanto um galhinho de arruda pode trazer boa sorte e bons fluídos, uma nota de cem dólares desperta nas outras pessoas a terrível inveja. Como se sabe, um sujeito invejoso projeta péssimas energias no ambiente, sempre muito nocivas aos endinheirados. A melhor maneira para acabar com o sentimento destrutivo é, portanto, livrar-se do dinheiro, fonte da inveja alheia.

Por outro lado, pobre não tem azar. Tudo de ruim que acontece com ele já está perfeitamente previsto dentro de seu roteiro de vida. Assalto no ônibus? Ora, é mais do que provável. Doença na família com falta de atendimento no SUS? Quem mandou não pagar plano de saúde.

Portanto, antes que qualquer endinheirado se afogue em uma garrafinha de Dom Pérignon, sugiro que seja realizada uma transferência de todo seu patrimônio para alguém que tenha capacidade de lidar com este imã de azar. Só assim os ricos viverão uma existência longe de energias ruins. Deve-se, claro, ter o cuidado de escolher como destinatário das doações uma pessoa que conte com uma grande proteção espiritual e bons feitiços anti-urucubaca, exatamente como o cronista que vos escreve. Quaisquer dúvidas sobre número de conta
corrente ou demais entraves burocráticos podem ser esclarecidas no formulário de contatos ou com cartas para a redação. E boa sexta-feira treze para quem não tem grana suficiente para ter azar.

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10
ago

5 fatos bizarros das novelas da Globo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Listas infames

Quer gostemos ou não, inegável que as novelas globais desempenham um papel fundamental no imaginário brasileiro. Portanto, antes que acusem o Estado Crônico de só dar atenção às atrações estrangeiras, nos dedicamos hoje a estudar alguns dos fatos mais estranhos das teledramaturgia nacional.

 

1. Todo mundo acorda bonito

Não sei vocês, mas eu confesso que acordo despenteado. Provavelmente porque não vivo no Projac. Pois os personagens de novela sempre acordam arrumados, prontos para entrar em cena. As mulheres, aliás, já acordam maquiadas, algumas até com colares e badulaques típicos do gênero.

Apenas uma overdose de laquê seria capaz de manter alguns penteados durante toda noite de sono.

Personagem de novela dormindo

Baton e rimel para dormir? 

 

2. Ninguém sabe quem é seu pai

DNA
A cadeia de DNA acabou com a farça de muitas mamães noveleiras.

Entra ano e sai ano e não passa uma única novela que todos os personagens sejam mesmo filhos dos supostos pais. Enfim, no mundo fictício da Globo a paternidade é uma coisa muito incerta. Seria conveniente, inclusive, alertar os pais antecipadamente e exigir o exame de DNA antes do registro civil. Milhares de páginas de folhetim seriam salvas com esse procedimento.

De toda forma, imagino que as personagens de novela estejam entre as mulheres mais infiéis do universo.

 

3. Não existe classe média

Justiça seja feita, as novelas revelam o abismo social brasileiro. Nelas, há sempre dois grupos bem definidos. Os ricos e os pobres. Infelizmente, há muito pouco, ou nada, no meio.

A classe média, quando surge, aparece só como figurante. Quase uma concessão. É a professora particular de alguém do núcleo rico ou a mãe de alguém que “chegou lá”. Ainda assim, é uma classe média que tem dinheiro para comprar carro importado e morar no Leblon.

 

Personagem de novela dirigindo

Típica perua de classe média, dirigindo seu carro quase popular.

 

4. Todo brasileiro fala italiano

 

Tony Ramos exibindo seu carrão.

Tony Ramos é o principal representante do do idioma italianês.

Talvez você não tenha notado, mas já sabe falar italiano, sem nenhum estudo. Basta conviver alguns minutos na Itália que a língua brota, quase que naturalmente. A receita é acrescentar algumas poucas palavras ao vocabulário, que o português se transforma em italiano. O fenômeno deve ser explicado pelo excesso de exposição do povo brasileiro às novelas de imigrantes.

Aliás, o italianês já deve ser língua oficial de algum país imaginário.

 

5. Teletransporte é possível

A internacionalização das novelas globais veio associada a outra invenção. O teletransporte. Está é a única explicação para viagens internacionais instantâneas retratadas na TV.

Seja na Índia, no Marrocos ou na Itália, o outro lado do mundo fica logo ali. Sempre há disponibilidade imediata de vôos intercontinentais. E melhor, nada de atrasos em aeroportos ou conexões demoradas. Ir daqui para a Ásia é tão fácil quando dar pegar uma ponte-aérea Rio/São Paulo. Aliás, lembrando a última crise aérea, é mais fácil…

Brundle Mosca

Para quem não conhece, esse é Brundle “Mosca”, pioneiro no ramo de teletransportes.

 

Em que pesem os comentários acima, este blog ainda pretende emplacar um sucesso que lhe valha uma vaga na novela das oito e ser alavancado para a categoria de webhit.

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30
jul

No busão – uma proposta política

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Insira seu parlamentar aqui! Quase todo brasileiro tem uma solução própria para solucionar a crise de representatividade que atinge nosso cenário político. Alguns pregam o radicalismo de uma revolução, seguida do extermínio cruel de todos os deputados e senadores. Quase Terror Jacobino, versão tupiniquim. No entanto, eu tenho uma proposta muito mais moderada e viável. Meu plano é obrigar todo ocupante de cargo público a se deslocar, exclusivamente, de ônibus urbano.

Neste ambiente favorável ao contato humano e intercâmbio social, nossas doutas autoridades teriam a inestimável oportunidade de conviver com as mais variadas camadas da população. De longe, vêm os mais humildes, que já lotam o ônibus nas primeiras paradas. Mas ao longo do caminho, conforme a condução cruza áreas mais valorizadas, alguns ocupantes improváveis, de terno e perfume, vêm se juntar a festa. Ao chegar ao epicentro de qualquer cidade, o ônibus já é uma amostra demográfica condensada em um tubo de ensaio da MARCOPOLO®, dificílima de ser reproduzida em laboratórios estatísticos.

O horário também seria previamente estipulado, para garantir ao o máximo da experiência urbana ao nosso representante. Algo entre 6 e 7 da noite, no horário “nobre” do transporte público urbano. Nesta hora, quando já não cabe mais ninguém em qualquer centímetro da malha viária, o político teria a oportunidade única de entrar no ônibus pelo último lugar da fila, para ocupar, junto com mais umas dezessete pessoas, o privilegiado lugar entre o primeiro degrau e a porta de entrada. Assim, a cada nova parada, quando as portas se abrissem, Nossa Excelência desfrutaria de uma breve lufada de brisa, oriundo do sempre puro ar das capitais brasileiras. Claro que, imediatamente, as portas se fechariam para manter o equilíbrio térmico do ambiente interno, algo próximo da umidade de uma floresta tropical, cumulado com o calor do deserto africano.

Licencinha, faz favor...Mais estejam as autoridades alertadas com relação a um ponto especial. Para garantir a melhor interação com o povo brasileiro, fundamental para o sucesso de qualquer governante, o político não poderá se fazer acompanhar de segurança, seja particular ou agente fardado da polícia estatal. É pouco recomendável, por conseqüência, portar objeto de valor, especialmente eletrônicos que despertem a cobiça alheia, como celulares de último tipo ou iPods. Aliás, para garantir o contato com a massa, a autoridade não deve portar sequer um livro ou fones de ouvido. Afinal, ninguém quer perder a chance de compartilhar o último funk da galera do fundão, muitas vezes produzido ali mesmo, no calor do transporte, pelos (i)letrados criadores de nossa valorosa cultura pátria.

As vantagens da medida seriam muitas, tanto para os políticos, quanto para o povo brasileiro. Para não citar a economia em passagens aéreas para consulta às bases, nossos governantes estariam em dia com a repercussão de suas decisões de Estado na massa governada. Em curto prazo, creio que haveria redução no número de assentos preferenciais, para grávidas, idosos, obesos, pessoas com sacolas vermelhas e crianças de colo. Depois, algumas melhorias no transporte urbano seriam percebidas. Daí em diante, um acréscimo na qualidade da educação e o Brasil já estaria no caminho da emancipação. Todavia, se tudo der errado, ao menos a medida reduziria as emissões de carbono.

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23
jul

Te cuida Manequinho!

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Manequinho, exibindo suas vergonhas e dando mau exemplo para a galera. Saci-pererê certamente não precisou de cota para entrar no panteão do folclore brasileiro. De pulinho em pulinho, na fumacinha do cachimbo, Saci conseguiu ser escalado como um dos personagens imortais de Monteiro Lobato e alcançar glória nacional. Bem visto por todos, que entendias suas travessuras como molecagens inocentes, ele conseguiu até uma vaga de mascote de clube de futebol. Bom, pelo menos até recentemente.

Segundo notícias, o Internacional FC de Porto Alegre pretende, de maneira sorrateira, demitir Saci-pererê do cargo de mascote oficial do clube. Para sua vaga já foi escalado um macaco, curiosamente chamado de Escurinho.

Não vamos culpar o clube de futebol. Afinal, os tempos são outros e Saci seria uma péssima influência para as crianças, sempre pitando seu infame cachimbo. Passível até de responsabilização por danos morais em algum juizado por aí. Algo inaceitável para a segurança pública. Lembro que na minha infância existiam uns cigarrinhos de chocolates, embalados em caixas, cujo rótulo era um menino negro fumando. Uma dupla agressão à moral e bons costumes de nossa muito respeitável sociedade. Em apenas uma embalagem instigava-se nas crianças o racismo e o vício! Aliás, pior, ao vício de cigarro e de chocolate, que muito em breve também ter suas propagandas com alertas sobre a possibilidade do consumo excessivo transformar você em um obeso mórbido. As fotos na embalagem serão horrendas senhoras, pensando quatrocentos quilos.

Quem nunca fumou um chocolate? Tempos perigosos aqueles. Não possuíamos quem pensasse por nós e vivíamos indefesos, à mercê de inescrupulosos fabricantes de cigarrinhos de chocolate. Sem a patrulha politicamente correta, não sabíamos como consumir, xingar com educação ou ser preconceituoso com respeito. Recentemente vi que o jovem afro-descendente da embalagem perdeu o cigarro, usa uma roupinha mais classe-média e trás entediantes lápis de colorir. O novo sabor? Não faço a mais vaga idéia, pois não comprei. O barato mesmo era fingir que fumava chocolate, algo que certamente transformou minha geração em fumantes desbragados, que vivem tossindo seus pulmões pelos cantos.

Mas, convenhamos, Saci teve o que mereceu. Deveria ter notado que os tempos eram outros, menos tolerantes aos vícios. Negro, deficiente, fumante e travesso, Pererê teve bastante tempo para se emendar na vida, largar o cachimbo, comprar uma perna mecânica igual a do Rei Roberto, daquelas tão discretas que viram lendas. Se tivesse um pouco mais de bom senso, hoje estaria ocupando uma vaga em universidade ou, melhor ainda, um cargo de caximbador carimbador maluco no serviço público.

Talvez ainda haja tempo para Saci. Sugiro a substituição do cachimbo, por algum outro objeto. Uma cuia de chimarrão? Não, muito regionalista. Uma pipa? Não, pode incentivar as crianças a se eletrocutarem na rede elétrica. Deixar as mão vazias? Não, vai parecer que ele é pobre, coisa que de fato ele é, mas não precisa parecer. O ideal é uma pastinha escolar e um livro na outra mão! Incentiva a educação e a leitura em apenas um mascote.

De todo, se não houver salvação para o emprego do Saci-pererê, espero que ele volte em segurança para o Reino de Narizinho, lugar muito mais divertido e fantástico que este onde vivemos. Entretanto, no caminho, não custa passar no Rio de Janeiro e avisar ao botafoguense Manequinho para guardar suas vergonhas e parar de fazer xixi em público. Afinal, a patrulha está à solta, para nossa segurança.

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16
jul

Os milzonários

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

cifrao Há não muito tempo, milionário era um sujeito riquíssimo, associado a montanhas incalculáveis de dinheiro, capazes de despertar a cobiça de Tio Patinhas. Então, a revolução digital chegou e nos apresentou aos bilionários, que perfuraram poços eletrônicos de riqueza e, com espinhas na cara, já ganhavam mais dinheiro que os paxás da velha indústria. No entanto, por mais que faltem números para contar a grandeza da riqueza dos magnatas, percebo que o populacho insiste em se abraçar em seu antigo status de milzonário.

No já comentado Bilhões e bilhões, Carl Sagan descreve a inflação das grandezas numéricas ao longo da história. No início, as centenas atendiam todas as necessidades humanas. Duzentas vaquinhas no curral, trezentas pessoas na vila e, no máximo, dois ou três lugares para ir. O desenvolvimento da humanidade, no entanto, trouxe a necessidade de mais números para contar as coisas. Aí vieram os milhares, milhões, bilhões e números com tantos zeros que não cabem no papel. O mesmo se dá com os ricos. A cada dia precisam de mais números para contar, não só seu dinheiro, mas também o tamanho de suas fazendas, a potência de seus carros, os quilômetros entre a mansão e o espaço, onde farão seu próximo tour.

Vida de milzonário é diferente. Do lado de cá, dificil é juntar milzão. O acúmulo de qualquer mil dinheiros, seja qual for a moeda da moda, depende de longo tempo de trabalho. Aí, com os mils no bolso, compra-se alguma coisa do tamanho das casas decimais. O dia da compra vai ser celebrado por muito tempo, como uma conquista. O milzonário de boa memória ainda vai lembrar que naquele dia carregou nãoseiquantos mil em espécie ou fez um cheque de tantosmil reais, uma quantia fabulosa, equivalente a meses e meses de trabalho, suor, economia, mais trabalho, mais suor e mais economia.

No entanto, parece que o mundo a cada dia custa mais caro para os milzonários. Antigamente, as coisas que não vamos ter custavam um milhão. Estavam nessa categoria as Ferraris, os iates, as mansões no litoral, a muitos zeros de distância do bolso milzonário. Inalcançáveis, pelo menos serviam de parâmetro para a falta de dinheiro dos outros. Hoje, no entanto, parece que as necessidades de consumo chegaram aos milhões que não temos. O apartamento, meio milhão, a cobertura de seu vizinho, mais de um milhão. Milzonário, desista de nunca mais ter uma Ferrari, agora você não terá mais casa própria.

Mas eu, como bom milzonário (salvo hipótese do Google comprar o Estado Crônico) não vou desistir. De milhas em milhas, pode-se juntar o suficiente para uma viagem para o exterior e, paradoxalmente, economizar dinheiro gastando em bugigangas eletrônicas. Ou optar pela solução radical. Dividir a existência em bilhões de vezes no meu cartão de crédito do clube dos milzonários e atrasar seu pagamento, melhor maneira de ver um número com seis zeros no extrato, ainda que seja o saldo devedor.

 

P.S.: Com os devidos créditos, a nomenclatura milzonário foi cunhada por Ana Luiza (@analuizalb, filiada ao clube dos milzonários e leitora misteriosa do Estado Crônico), a quem este post, bem como os passados e futuros, são incondicionalmente dedicados.

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8
jul

Palavras de baixo-calão

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas da Copa

xingando3-1Em um passado distante, o então técnico da seleção brasileira de futebol foi acusado de utilizar palavras chulas para atacar jornalistas durante uma entrevista coletiva. Os mesmos microfones, que até então escutavam sedentos, passaram a acusar o entrevistado de ofensas à moral dos inocentes ouvidos brasileiros, tão acostumados à fina flor verbal. Para classificar as palavras do técnico, a imprensa utilizou a curiosa e abstrata categoria de baixo calão.

Mestre Aurélio nos explica que o termo calão está associado ao uso de “termos baixos e grosseiros”. Portanto, baixo calão seria, em tese, quase uma redundância, porque calão, sozinho, já é baixo. E não existiria o alto calão.

Com todo o respeito, preciosismo exagerado do dicionário. A utilização do baixo na frente do calão implica que existe, sim, um alto (es)calão dos verbetes. São palavras com muito poder e dinheiro. Constitucionalidade e mercantilização estão lá, sempre muito próximas umas das outras. Mas há outras. Autoridade, por exemplo, consegue tudo que quer ao sacar do bolso um documento de identidade de cor especial, capaz de comprovar sua alta extirpe. Ultrapassa as burocráticas barreiras da ordem alfabética e deixa para trás palavras menos valorizadas, como Legislação e Igualdade

Todavia, há também a classe média vocabular. Deve ser constituída por palavras que andam por aí de transporte público ou engarrafadas em seus carros. Eu e Vocês, certamente são palavras de médio calão. Mas, atenção. Como nos ensinam os gramáticos, a linguagem é dinâmica e todo dia mais alguns termos são arrastados para as camadas mais baixas do vivedouro dos verbetes. Ninguém garante a manutenção de algum termo no universo do médio calão, principalmente nesses tempos de crise. Vejam, por exemplo, Socialista. Foi elogio, depois xingamento. Hoje em dia é casada com Moderado e vive bem, mas não trabalha mais fora.

Por outro lado, o universo das palavras permite certa mobilidade social e algumas palavras bem aventuradas ascendem a camadas superiores. Bunda, por exemplo, até bem pouco tempo circulava em lugares mal freqüentados, como Zonas. Hoje em dia é diferente. Bunda ganhou fama, dinheiro, freqüenta capa de revista e novela das oito. Seu sucesso é tão grande que o Bumbum, seu primo rico, anda em franco desuso e, atualmente, é quase pueril. Deve estar deprimido, o coitado.

Fato é que nossa relação com as palavras é muito complicada. Tentamos fazer delas nossas ferramentas, quase escravas. Dizemos o que pensamos com palavras. Mas, na via reversa, são elas que dizem muito sobre nós. Dentro de nossas frases espontâneas e bem intencionadas, as palavras contam mensagens sutis. Avisam a todos quem somos, de onde, de que e a que viemos. Não importa o que é dito, pois a mensagem repousa em como é dito.

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1
jul

Brasil x Holanda – Contém spoilers

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas, Crônicas da Copa

Em uma copa, há sempre para o Brasil aquele que é O jogo. Depois dele, tudo o que segue é mera burocracia, puro jogo de futebol. Por duas copas seguidas, o jogo foi Brasil e Holanda. Pelas características dos dois times e por se enfrentarem nas fases decisivas do conflito, as duas seleções fizeram a final antecipada do mundial.

Inesquecível o terceiro gol do Brasil em 1994. Maradona fez gol de mão? Pois bem, Romário fez um raríssimo gol de bunda. E melhor, sem encostar na bola, perfeitamente válido. Já, em 1998, Brasil e Holanda tinha tudo para virar um joguinho chato, mas graças a um empate, terminou em um disputa de pênaltis que levou muitos a perderem as unhas e mostrou ao Brasil a imagem de Zagallo gritando motivação a seus atletas.

O vídeo, aos 2m30s, mostra com clareza o raríssimo gol de bunda.

Amanhã podemos viver, novamente, uma grande partida. Mas, há um problema. O time de Dunga é a Seleção Vagalume, brilha para, logo em seguida, se apagar. Se estiver em seu dia ofuscado, o Brasil entra em campo apático e só será páreo para o adversário se também a Holanda estiver em um dia ruim.

Mas, vamos torcer para ver, amanhã, O jogo, com boas atuações dos dois lado e, claro, vitória do Brasil. Vencer a partida de amanhã, com brilho, será um divisor de águas para o time. Cumpriremos tabela para ganhar o mundial em um joguinho previsível com a Alemanha. Não vamos tomar conhecimento do Uruguai, como nem lembramos da Turquia na semifinal de 2002.

Perder? Essa hipótese não existe aqui na redação do Estado Crônico. Mas uma vitória morna apenas prolongará a agonia.

P.S.: O jogo de 2002 foi contra a Inglaterra. Em 2006, O jogo não aconteceu, porque o Brasil não disputou aquele mundial, mandando o Tabajara FC em seu lugar. Já em 1998, após de ter vencido a partida contra a Holanda, o Brasil perdeu a final por WO, em uma história até hoje não muito bem explicada. Fomos campeões morais (como se isso existisse).

P.P.S.: Alguém falou de Argentina na final? Como diria Padre Quevedo, isso no equiziste, é imaginação, delírio e coisa de cabeça psicótica.

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29
jun

5 razões porque futebol é um esporte idiota

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas, Crônicas da Copa

futebol_idiota

Não aguenta mais empates em zero a zero? Gols válidos anulados? Gols inválidos legitimados? Então, se você é uma pessoa normal, já deve ter percebido que futebol é um esporte para idiotas.

Aliás, foi o que os americanos concluiram, depois da eliminação para Gana. Assim, para diantar eventual eliminação do Brasil (bate na madeira), já fizemos nossa listinha de razões para concluir que futebol é um esporte idiota.

Pelo menos, se a Argentina ganhar a Copa (bate na madeira outra vez), já vamos ter motivos para não gostar mais de futebol!

1. Empates

Estado Crônico: seu repositório de crônicas e textos.
O placar informa o resultado após a realização de um grande classico, de altíssimo nivel futebolístico 

Sinceramente, não me entra na cabeça a possibilidade de um jogo empatar. Basquete, vôlei, cuspe-em-distância, todo esporte sério tem, necessariamente, vencedores. É próprio da essência da competição que alguém ganhe e alguém perca. Do contrário, todo o esforço de jogar e torcer vira uma perda de tempo sem tamanho.

Ah! Mas futebol não precisa de vencedores. Pode terminar em empate. Pior ainda quando termina zero a zero. Você, torcedor fiel, ficou olhando para 22 tontos correrem atrás de uma bola no gramado, para não ver nada que preste no final!

Deveria existir uma regra que obrigasse os jogares a se esfalfarem até sair um vencedor. Ou proibir os goleiros de usar as mãos.

 

2. Os jogares são ricos e o torcedor é pobre

Nada mais irritante que ver um cara chamado Jordeicleison, incapaz de conjugar um verbo no plural, embuchado de tanto ganhar dinheiro, só porque sabe jogar bola. É o triunfo absoluto da ignorância. “Mamãe, não vou nunca mais para escola, porque eu quero ser jogador de futebol quando eu crescer”.

Aliás, no futebol quase todo mundo ganha. Jogador, técnico, cartola, locutor, comentarista, fabricante de camisas, patrocinador, editor de álbuns de figurinha e até o jornaleiro. O único que sempre perde dinheiro e continua pobre é o torcedor, idiota, que gasta rios de dinheiro para consumir tudo que tenha a cor de seu time.

Nojento, tcham!
Ronaldinho Gaucho, exibindo seu (belo) visual de milhorário

 

3. Regras ineficientes e inúteis

Piu-piu árbitro?
Pelo menos ele é mais simpático e inteligente que os árbitros da Copa do Mundo

As mulheres têm toda a razão em não entenderem a regra do impedimento. Vamos lá, o atacante não pode estar antes do último defensor, traçada uma linha imaginária perpendicular às laterais, com base no posicionamento do tronco dos atletas. Isso, claro, considerando o momento do passe, porque, afinal, todo mundo está correndo, cada um para um lado diferente.

E para que servem tantas regras se, no fim das contas, o árbitro não enxerga porcaria nenhuma e apita o que lhe dá na cabeça, como, por exemplo, o sambinha que aprendeu ontem?

Um esporte em que, muitas vezes, ninguém sabe dizer se o lance decisivo foi ou não válido, não merece ser levado a sério.

 

4. É perigoso

Dizem que os esportes radicais são perigosos. Pois eu não conheço ninguém que tenha se machucado pulando de paraquedas, escalando cachoeira ou fazendo base jump. Por outro lado, não consigo numerar a quantidade de “atletas” que se submeteram a algum tipo de cirurgia porque se machucaram jogando bola.

Portanto, para mim futebol é o esporte mais perigoso que existe. Diga-se de passagem, é um dos poucos esportes de contato físico que se joga sem proteção quase nenhuma. A coisa e tão difícil, que nos fornece a ridícula cena de homens crescidos protegendo as partes íntimas com medo de uma bolada. Um pouco de dignidade ali não ia mal, hein?

Aliás, o esporte é tão perigoso que volta e meia alguém morre em campo, por uma súbita parada cardíaca ou, pior, atingido por um raio – prova definitiva que Deus não gosta de futebol.

Adorei a sua bolsa.
Esses argentinos, hein, sei não…

 

5. Torcedores fanáticos

E sua mãe também!
Não sei porque, mas tenho certeza que o pai está orgulhoso.

Os torcedores fanáticos sintetizam a bobagem que é futebol. Eles acompanham um esporte que não tem regras e só serve para encher os outros de dinheiro. Mas quando um crássico termina empatado, o que fazem os torcedores? Resolvem que vão se matar na próxima esquina. Nada mais lógico, não?

O torcedor fanático mais civilizado é, no mínimo, um chato insuportável. Só sabe falar sobre como o Jordeicleison não está rendendo bem em dupla com o Uachinguiton ou discutir, infinitamente, o lance polêmico do último jogo. Por lance polêmico leia-se a última invenção do árbitro, que não viu que o zagueiro “dando condições” ao atacante.

Trata-se de gente que, reconhecidamente, leva o futebol mais a sério que os jogares.

 

Espero ter irritado bastante muitos dos fãs de futebol. Afinal, eles me irritaram a vida inteira e eu tenho o direito de devolver o favor.

Nota do editor: o presente texto representam, exclusivamente, as idéias do colunista. O Estado Crônico não compartilha com as opiniões aqui expressadas.

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