Artigos com ‘Textos divertidos’

21
abr

Quinta-feira

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 21 de abril de 2015,  em Crônicas

ZoológicoÚnica noite livre da semana. Ú. NI. CA. Confessa, noite livre em casa. Porque noite livre na rua, com os amigos, indo aquele bar que você não queria tanto ir, mas foi assim mesmo porque, afinal, também não queria tanto não ir, a ponto de deixar de ir, aquele bar não conta como noite livre. Conta como o proverbial “ir zoológico dar pipoca aos macacos.” (Raul explica tudo tão bem)

Única noite livre da semana. Quer dizer. Livre, livre, soltinha, à toa, a noite não é. Para ser livre você precisa ignorar várias camadas de coisas que precisa fazer. Aquelas coisas importantes que poderiam mudar sua vida se você fosse fazer. Começar a estudar o NovoCódigodeProcessoCivil, para trocaram o Código? Ou aquelas coisas que você deveria fazer, mas, pelamordedeus, hoje é a única noite livre da semana e você não vai usar para, sei lá, ir à academia correr na esteira, arrumar a gaveta da mesa de cabeceira. Sua cabeça é boa em esquecer coisas inconvenientes. Ainda bem. Noite livre, graças à memória seletiva.

Única noite livre da semana, finalmente. Já é quinta. Quase sexta. Sexta não é mais semana, nem livre, porque vai aparecer alguma coisa, sempre aparece. Sexta é um dia traiçoeiro. Complicado. Aparece amigo, aparece zoológico, aparecem aquelas coisas que você vai acreditando que gosta, mas dá uma preguiça de ir na hora. Aquelas coisas que podem ser até que legais. Mas nem sempre são. Igual concerto de música clássica. É bom se não tiver ninguém tossindo ou conversando ou balançando a perna nervosamente, fazendo aquela barulhinho chato com a cadeira. Nhic, nhic, nhic, nhic. Mas sempre tem. O oboé faz lá o barulho de oboé, a nota de oboé, o timbre de oboé. E a cadeira “nhic, nhic, nhic, nhic”. Dá vontade de falar todo gentil “Para de balançar essa de perna, meu senhor, porque eu preciso ouvir o oboé.” Mas não pode falar, porque atrapalha todo mundo. E fica chato para você. A vontade de falar com a pessoa passa. Vira vontade de matar a pessoa. Com um oboé, que agora já parou de tocar. Já está tocando o cello. A cadeira na mesma. A perna na mesma. Sexta-feira é um dia complicado. Traiçoeiro. Não dá para confiar.

Mas hoje é quinta-feira. Única noite livre da semana (já contei?! Ú. NI. CA.) E um monte de coisas boas para fazer. Tem livro para ler. Seriado para ver. Filme para assistir. Videogame para jogar. Tudo coisa boa. Só tem um problema. Tem muita coisa. Dá aquela angústia. Tem que decidir. E decidir não é fácil. Porque se faz uma coisa, na verdade, você deixa de fazer um monte de outras coisas. E dentro de cada coisa, tem um monte de subcoisas. Vai ver filme? No Netflix ou bluray? Qual filme?

Sei não, filme dá sono. Você já está com sono. Vai dormir. E aí, já sabe, a única noite livre da semana vira noite dormindo torto no sofá. Filme não. Demora muito. Melhor não. Jogo também não, porque deixa você agitado. Coisa de velho isso de “ficar agitado”. Igual gato naquele horário que gato corre pela casa sem explicação. Coisa de gato velho, deve ser. Você no GTA corre de carro, corre da polícia, corre dos outros que correm para pegar você. Se desligar o jogo vai continuar correndo. Como que dorme depois? Se dormir, corre no sonho. Melhor não. Livro? Sono. Melhor não. Vai de seriado. Mais fácil. Seriado é curtinho. Menos de uma hora. Pílula de diversão. Dá até para olhar um pouco do livro, se não tiver com sono. Ou ver dois capítulos do seriado. Pode ser.

Aí você vai ver o seriado. E, bem, esse não está legal. Não deu liga o episódio. Azar, hein? Justo na única noite livre da semana o capítulo do seriado é chato. Agora não dá mais para começar outra coisa. E você nem tem ânimo para ver outro capítulo do seriado, porque, se esse foi chato, o próximo também. Bate aquela tristeza. Porque você tinha um mundo de coisas para fazer e escolheu errado. Tinha filme. Tinha livro. Tinha GTA. Mas não, você resolveu ver o seriado e deu nisso. Até o bar era melhor que o seriado.

Ainda tenta consertar. Assiste aos últimos episódios do Porta-dos-Fundos. Mas nem ri, porque era a única noite livre da semana. E está desperdiçada. Mas a vida é assim. Uma única noite livre na semana. E você sempre escolha a coisa errada para fazer.

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20
mai

Ode aos textos nunca escritos

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 20 de maio de 2014,  em Crônicas

LixeiraCelebrem-se, agora, os textos nunca escritos!

Aquela ideia ótima que lhe ocorreu dentro do ônibus, uma mão ocupada em manter o equilíbrio, outra em segurar as três sacolas, duas do supermercado, com lasanha congelada e pipoca de micro-ondas, outra da Livraria Cultura, com maçãs. Não se anotou nada do conteúdo. Ficou apenas aquela coceira ali na cabeça, onde agora há esquecimento. A ideia, boa mesmo, seria um texto, não desceu no ponto certo. Coitada. Deve vagar perdida pela Zona Oeste de São Paulo.

Há também os textos não escritos por culpa de outros cronistas. Sem grandes habilidades, este modesto cronista lapidou o texto na cabeça por semanas, quiçá meses, e quando sentou para escrever, outro mais celebrado já havia falado sobre o assunto. Escreveu melhor, com mais propriedade, mais qualidade. Na atualidade, o Antônio Prata é o que mais apronta esse golpe. Mas, volta e meia, mesmo os falecidos insistem em furtar textos de minha mente. Às vezes é até uma honra. Veja que até o Rubem Braga (sim, o próprio!) já se escarafunchou nas dobrinhas cinzentas do meu cérebro para afanar uns pensamentos.

Outra “viva!” aos textos que perderam a relevância por preclusão temporal. Escrever sobre a vida corrente dá nisso. Antes de terminado o texto, o último acontecimento já é o penúltimo, antepenúltimo e virou gotinha de irrelevância no rio do tempo. Uma pena. Vai ver é por isso que os outros escrevem romances atemporais e tem sucesso, enquanto a sina do cronista é virar forro peniquinho de cachorro. Questionável honra que, aliás, não goza o cronista da época digital, cujas palavras param no latão virtual do sistema operacional.

Claro, não se celebre tudo, pois nem apenas de ideias piramidais vive a cabeça do Cronista. Uma vaia aos textos não escritos por terem argumentos ruins. A esses o eterno esquecimento não é pena suficiente. Como naquele caso em que veio a cabeça criativa, ao revirar uma caixa de mudança, sussurrar “uma crônica sobre controles remotos velhos!”. E o superego já abafou a ideia “não, não, não, de ideia estapafúrdia o Estado Crônico já está cheio! Esquece!”. E lá foi o texto para o rol dos nunca escritos. Pior é ver que o Antônio Prata roubou a ideia. E não ficou ruim.

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3
jul

Cinebiografia provisória

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 3 de julho de 2013,  em Crônicas

Cinema paradisoNós tínhamos dezesseis anos e nessa idade você pode (e deve) ser rebelde. Então, resolvemos praticar um ato anárquico e desafiar o sistema. Algo revolucionário e contestador. Decidimos assistir a dois filmes no cinema.

No mesmo dia.

Um em seguida ao outro.

Tamanha ansiedade é natural em quem tem todo o tempo do mundo e nenhum tempo a perder. E eu e meu amigo João decidimos desafiar as convenções. A sociedade espera que você seja um sujeito comportado, obediente, cumpridor das tradições e só assista a um filme no dia. Meu pai, se ficasse sabendo, acharia um absurdo completo. Um desperdício. Mas os pais nunca tomam conhecimento dessas aventuras.

Nós demos um tapa na cara da sociedade conservadora.

Claro que um projeto ousado como esse dependia de alguma preparação. Assim, conversamos com os-amigos-do-colégio e montamos um esquema logístico especial. Naquela época, os multiplex de shoppings não eram uma realidade na minha cidade e, para conseguir assistir às duas sessões, precisaríamos de alguma folga no horário para correr entre um cinema e outro, o que acrescentaria mais emoção à aventura.

Assistimos a Men In Black e Velocidade Máxima 2. Dois promissores arrasa-quarteirões daquele ano, com todas as correrias e explosões do gênero. A maratona nos causou um processo de suspensão de descrença, causado por ver tantos personagens escapando com arranhões de situações que, na realidade, seriam absolutamente improváveis.

Saímos das sessões nos sentindo indestrutíveis. Poderíamos atravessar a avenida na frente dos carros e, caso surgisse a oportunidade, impedir assaltos a indefesas senhoras.

Na verdade, acho que naquela idade, sem saber, nós poderíamos tudo mesmo. Mas, na dúvida, fomos ao McDonald’s.


Dezesseis anos se passaram e, com o dobro da idade, decidi repetir a dose daquela noite. Dessa vez, não contaria com a companhia de meu amigo João, separado pela distância geográfica, mas sim de minha querida namorada, com quem divido, entre muitas coisas, o gosto pelo cinema.

Entretanto, estamos mais velhos, mais sábios e, presume-se, mais preparados para essas ousadias. Assim, escolhi não dois, mas três filmes em um único dia. “Elena”, “Faroeste Caboclo” e “O Grande Gatsby” foram escolhidos após uma conversa com os colegas de trabalho e a turma do Facebook. Uma aventura ainda mais mirabolante, considerando que as obras cresceram, não apenas em número, como também em complexidade. Mas, hoje, mais justificável, por espremer nas minguadas horas do final de semana todo o lazer que nos sobra.

O leitor mais perspicaz já percebeu, apenas com a enumeração de seis títulos, o grande equívoco na escolha dos filmes. Pois, se há dezesseis anos eu saíra do cinema como a encarnação de um personagem plenipotente, agora eu sentia uma exaustão amarga. As três obras são trágicas e, cada uma a sua maneira, corroem qualquer ilusão que possamos conservar com relação às aclamadas potencialidades da vida.

Talvez ficar adulto seja esse processo de trocar filmes que explodem por filmes que implodem.

Mas prefiro pensar que não. Como Gatsby, em um otimismo incorrigível. Olho ao redor e prefiro as maravilhas que me cercam hoje.


Preciso de mais dezesseis anos para chegar aos quarenta e oito. Às vésperas dos cinquenta. Não sei como as coisas estarão até lá. O futuro ainda é uma página branca, hoje como era há tantos anos.

Mas, seja como for, pretendo fazer mais uma sessão conjunta de cinema. Se isso ainda existir até lá.

Qualquer novidade, aviso vocês.

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14
dez

Aperte Pausa

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de dezembro de 2012,  em Crônicas

Terra, um pálido ponto azul visto de Saturno.Sei que não será nada original este blog retornar ao assunto do fim do mundo às vésperas do evento. Mas, desde quando têm os cronistas direito de buscarem pautas que escapem das vicissitudes do cotidiano?

Assim, com apenas mais 7 dias para aproveitarmos nossa gloriosa vidinha aqui no pálido ponto azul, busco apenas jogar algumas conjecturas hipotéticas no ar.

E se, ao invés de acabar em um fogaréu roliço no negro do espaço, nosso mundo fosse só dar uma pausa. Um relax sob a sombra do coqueiro. De uma hora para outra, seja lá por qual motivo, desse na idéia de alguém proibir a novidade?

No noticiário, um William Bonner atônito, dizendo “E hoje não aconteceu rigorosamente nada que seja digno de notícia. Nenhuma tragédia em nenhum país longe, nenhum escândalo de corrupção, nem gols das equipes de futebol. Então, para suprir o vazio da programação, vamos passar vídeos de gatinhos fofos que tiramos do YouTube”.

No cinema, nada de estréias. Senta lá e vai assistir trilogia de O Senhor dos Anéis na versão estendida. Lista de livros? Encolhendo, porque ninguém acresce títulos à pilha de leituras pendentes. Discos? Ouça os que já tem, bailando naquele festejo de quem celebra bodas de ouro.

Tecnologia? Vire-se com o que aí está. Abaixo a Lei de Moore! Ninguém mais vai preso se mantiver computador desatualizado por mais de duas semanas. Também não precisaremos mais de notação científica para numerar modelo de celular. Fique com a quinta maçã  ou a terceira galáxia, pois os dois já passam mensagem, têm toque polifônico, tela colorida e controlam foguete espacial.

Não sei bem qual seria a consequência econômica disso. Suspeito que alguma recessão grave, cumulada com o desemprego do Bonner e agravada pela nossa crise de abstinência de distrações. No entanto, mais dia menos dia, alguém vai sair do riscado e frear a máquina de novidades.

Mas, por mais estranho que possa parecer, não achei tão ruim a proposta. Pelo menos haverá os vídeos de gatinhos fofos no Jornal Nacional.

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19
jul

Fim do Mundo II

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 19 de julho de 2012,  em Crônicas

London Burning 1666Se estou especialmente otimista com o fim do mundo, um ponto em especial me aflige. A possibilidade, cada dia mais remota, de a catástrofe não acontecer no período aprazado. Vai que o evento é adiado, por uma série de questões relacionadas ao planejamento divino, como ausência de recursos para as obras de fim de mundo ou falta de meio de transporte para o deslocamento dos trabalhadores e espectadores do espetáculo (nas esferas celestes a questão é tida como um show pirotécnico – de baixo orçamento).

Imaginem só, todos preparados para o fim do mundo em 21 de dezembro de 2012 e ele não dá as caras. Pior, aparece algumas semanas depois, sem vergonha. Como uma visita que chega sem avisar, quando sua casa está mais bagunçada.

Pois não haverá vexame maior que não poder programar os últimos vestígios da humanidade. Pensem na espécie sucessora do ser humano no domínio do planeta. Seus estudiosos escavarão nossos vestígios, como hoje fazemos com os dinossauros, e tentarão entender nossa cultura.

O fim do mundo fora de hora estragará nossa pouca chance de deixar boa impressão. Nada de desaparecer com os discos de Michel Telo do três-em-um, varrer todos os filmes do Michael Bay para baixo do tapete e esconder os livros de auto-ajuda. Azar nosso, o fogo consumirá até a  extinção, ardiloso que só, o volume de Shakespeare Complete Works e o vinil de Bach.

Vai-se embora também a oportunidade de colocar, sob a pilha de escombros do fim do mundo, um livro bojudo da “Grande e Gloriosa História da Humanidade”, bem editado, sem aqueles tropeços bélicos tão feios.

Que venha o fim do mundo. Mas na data marcada, sem imprevistos!

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6
jul

Fim do Mundo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 6 de julho de 2012,  em Crônicas

Buuuum!Entre as tão poucas cartinhas à redação que recebo no escritório do Estado Crônico, uma em especial chamou minha atenção. Tratava-se de uma leitora imaginária, aflita, pois a redução do número de publicações nas últimas semanas poderia significar o fim do blog. “Que farei eu, caro cronista, sem a alegria e diversão de seu texto? Não mais uma pérola de sabedoria semanal, que me livram do tédio existencial…” E por tal caminho seguiam os elogios e angústias da leitora, que, ao meio da leitura, coloquei de lado a carta e agarrei o teclado para escrever novas crônicas.

Assim, para que não reste qualquer dúvida sobre o assunto, esclareço. O Estado Crônico não vai acabar, nem agora, nem tão cedo.

E viverá tanto que, estranhamente, sobrevirá ao mundo, este sim, infelizmente, com data para seu fechar de cortinas já agendada para o final do ano.

Portanto, em que pese a necessidade das crônicas habitualmente acompanharem as variações de humores e interesses do público, considerando que ao fim do mundo não haverá mais leitores, imaginários ou não, decidi antecipar a pauta e falar um pouco sobre o trágico final que se aproxima.

Contudo, como sempre ocorre nos assuntos de alto relevo da humanidade, nessa história há muita confusão e pouca definição. Pois, a dimensão e o alcance do tal fim do mundo ainda são absolutamente desconhecidos e nem a mais pessimista das pessoais deve esperar a súbita explosão dessa esfera, a qual nos habituamos a chamar de Terra. Assim, provavelmente, quem terá seu fim serão os habitantes do planeta, nem sabemos quais, nem quantos, muito menos de que espécie. Veja-se, por exemplo, o que se passou com, George, o último espécime da última tartaruga gigante, cujo falecimento levou ao fim toda sua espécie. Foi o fim do mundo para a turminha deles.

Creio em um fim do mundo mais ameno. Como diria R.E.M., banda que (sintomaticamente) acabou há pouco, “it’s the end of the world as we know it.”

Exatamente diante disso, coloco-me extremamente otimista com relação ao fim do mundo. Afinal, a grande hecatombe que virá trará, provavelmente, uma série de inconvenientes, mas, na mesma medida, exterminará uma série de outros tantos.

Vejam só, as aporrinhações mais cotidianas vão junto com o mundo. Não mais fila de carros para entrar no estacionamento, nem escolha de amaciantes no supermercado. Mas, a grande vantagem de todas será o fim das preocupações mundanas. Ora, se são elas “mundanas”, não podem sobre-existir em um tempo em que o mundo já não mais existe. E, com isso, lá se vão todas as vaidades, anseios de sucesso e prazer instantâneo.

Dessa maneira, meus prezados leitores e leitoras imaginárias, nada de desânimo com o fim do mundo. Vamos acordar com a melhor cara que pudermos usar no dia 21 de dezembro de 2012, data provável para o fatídico evento. E quem viver (se alguém viver, por óbvio) aproveitará nosso planetinha renascido, talvez de nós mesmos.

Aliás, não é assim todo dia?

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20
abr

Elogio ao otimismo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 20 de abril de 2012,  em Crônicas

Em uma olhada nos debate dos filósofos de botequim, conclui-se que falta um bom advogado ao otimismo.

Pois, enquanto o pessimismo flana nas cabeças mais esclarecidas como um porto seguro, o otimismo raramente goza de boa defesa. Nas poucas vezes que alguém se aventura a falar sobre as vantagens de colocar um olhar mais cheio de boa vontade para a vida, vem logo com um papo metafísico complicado e, no fim, a proposta de cobrar dez por cento dos seus eventuais ganhos.

Comigo não era diferente. Mas, então, deparei-me com dois livros, sobre assuntos distintos, mas com a mesma anedota. Tanto o Andar do Bêbado, quanto You are not so smart, contam sobre uma experiência a que foram submetidos os enólogos mais sabidões dos botecos finos. Todos eles deveriam que se manifestar sobre dois vinhos, um reconhecidamente bom, outro reconhecidamente ruim. O leitor já imagina a cena. Vários narizes enfiados em copos, descrevendo o quando amadeirado é o tanino da cachaça de uva. O que os sujeitos não sabiam é que os rótulos estavam trocados. Assim, o vinho ruim vinha em garrafa boa e o bom em garrafa ruim, tal como se vê por aí, a torto e a direito, entre os seres humanos.

E, não será nenhuma surpresa quando eu contar que todos os enólogos erraram seus pareceres. Mas não se trata de mera bravata. Mais tarde comprovou-se que os elogios ao melhor vinho eram sinceros. Os experts não foram conscientemente enganados pelo rótulos. Eles efetivamente sentiram mais prazer ao tomar um vinho, exclusivamente porque o sua etiqueta era de uma boa safra.

Então, estava eu em um jardim de Rosmarinus officinalis, quando refleti sobre a alegoria acima. Não seria o otimismo ou pessimismo meros rótulos colocamos em uma garrafa ainda a ser bebida? Assim, ao esperar que aquela viagem para New York será fantástica, o turista prega tão forte uma etiqueta na situação que as mais adversas situações não seriam suficientes para tirar o sorriso de encantamento ao vislumbrar a Manhattan Skyline.

Portanto, deixemos um pouco a conveniente casmurrice de lado e vamos lá fora dá uma olhada no tempo, que deve melhorar.

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13
abr

Elogio ao pessimismo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 13 de abril de 2012,  em Crônicas

Urubulino, o mestre do pessimismo.Há muito se vê por aí aquela historinha do copo com água pela metade, com dois bobos muito pretensiosos ao lado, dizendo se ele está meio cheio ou meio vazio, conforme as perspectivas otimistas ou pessimistas de cada um. História a qual nunca dei muito crédito, uma vez que, seja lá como for a idéia de cada um, um copo com água é para ser bebido, não para ponderações filosóficas.

No entanto, sempre me considerei um pessimista. E, mais ainda, considero o pessimismo de possuidor de uma lógica muito tentadora. Ora, ter por inevitáveis futuras pequenas grandes catástrofes é uma forma de fazer um seguro emocional contra a frustração. Portanto, muito sábio mesmo ser um pessimista e só ter boas surpresas na vida. Tudo de ruim torna-se um mero “eu já sabia”.

Mas, por rigor acadêmico, deve-se diferenciar o pessimista do prevenido.

O indivíduo se prepara para viajar e coloca quatro estepes no porta-malas, como precaução de enfrentamento com crateras lunares asfálticas. Eis o prevenido.

O pessimista é pessoa muito mais sábia. Ele nem viaja porque já espera, além do pneu furado, a quebra na barra de suspensão. E o engarrafamento. E a chuva na praia. E trinta e cinco multas por excesso de velocidade, mesmo no engarrafamento. E, esperando na volta, a casa arrombada, quase vazia (as multas aguardam no chão da sala).

No entanto, antes de passar o leitor imaginário a iniciar um manifesto otimista, parênteses devem ser abertos para destacar que as pessoas cheias de cristais energéticos, ervas de bom olhado e amuletos de pelos de lhama, quando falam sobre a força do “pensamento positivo” tornam ainda mais convidativa a vontade de ser um pessimista rabugento.

Então, não se diga que pessimismo ou otimismo são apenas a formas de olhar um copo d’água. Pessimismo é o patuá de quem não acredita em amuletos. No fim, a expectativa é a mãe de toda decepção. Mas, nada impede que, se por completo acaso os bons ventos soprem, o pessimista se coloca de orelhas em pé de tanta alegria e abraça a vida como nenhum entediado otimista faria.

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5
mar

Dividir para entender

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 5 de março de 2012,  em Crônicas

Sem calçasTenho hábitos exóticos, que podem ser confundidos facilmente com maluquice pretensiosa. Entre eles, coloco o costume de dividir a humanidade entre dois grupos distintos, por meio de critérios que, apesar de rigorosamente absurdos, muito revelam sobre meus objetos de estudo, em um prisma de sociologia de botequim.

Afirmo, por exemplo, que o mundo está dividido entre as pessoas que, quando trocam de roupa vestem a calça primeiro que a camisa e entre as pessoas que vestem a camisa primeiro que a calça.

Corte aparentemente absurdo e certamente aleatório. Mas no breve momento, quando o sujeito encontra-se desnudo e tem que optar pela peça prioritária do guarda-roupas, cabe toda uma construção de filosofias e advocacias de estilos de vida. De um lado, os calceiros, a turminha que prefere a calça à camisa. Defendem uma bandeira de normalidade, com um papo moralista sobre o efeito nefasto de andar por aí sem calças. Do outro, os camiseiros, advogando uma cultura de rebeldia. “Que calças que nada! O Rei está nu, eu também e vamos todos andar pelados por aí! Pelados não, de camisa, de preferência com estampas anárquicas.”

Empolgado com a profundidade da análise psicológica do critério anterior, já consigo separar o mundo em outras duas categorias. Os motoristas que, no shopping, estacionam de ré e os motoristas que estacionam de frente. Os primeiros são pessoas hábeis e precavidas. Andam em veículos com airbag, guardam dinheiro para o futuro, não compram a prazo e ainda têm plano complementar de aposentadoria. Já os outros, creio que a maior parte da humanidade, deixam o trabalho mais árduo para depois e procrastinam todas as tarefas desagradáveis que a vida gentilmente nos oferece. Estudam na véspera, à espera de alguma tempestade capaz de defenestrar as provas pela janela do apartamento do professor. Aliás, são eles também que, na hora das refeições, comem logo as batatas fritas e passam o almoço encarando feio a pobre folha de alface e o tímido tomate.

E, já que tocamos no intricado assunto dos alimentos, há no ramo alguns grandes cortes cuja total amplitude de significados ainda não consigo absorver. Veja-se a divisão entre aqueles que comem mais arroz contra os que comem mais feijão. Seriam os primeiros adeptos de um sabor monótono, mas com inquestionável segurança digestiva, opositores das estripulias dos amantes do feijão, com sua saborosa riqueza e evidentes riscos ao equilíbrio intestinal? O leitor imaginário mais arguto poderá responder em suas cartinhas à redação.

Alguém  pode-se opor contra minhas divisões e interpretações da humanidade. Pois eu lhes digo que são demasiado úteis. Atalhos, para facilitar a compreensão deste planeta tão grande e diverso. E, além do mais, não consigo ver como muito melhores os critérios de divisão do mundo que há por aí, firmados em cor, sexo, saldo bancário, circunferência abdominal, local de nascimento e a mesma história velha de sempre.

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16
jan

You know my name, look up my number

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 16 de janeiro de 2012,  em Crônicas

Houve uma época que este escriba passava longas tardes macias entre masmorras e dragões, brincando no que o mundo se acostumou a chamar de Role Playing Game. Mais do que a aventura vivida no universo imaginado do jogo, fascinava-me a criação dos personagens de tal forma que a coisa toda para mim tornou-se um grande catálogo telefônico, cheio de nomes e números, mas com muito pouca história.

À leitora imaginária não-nerd, explico como era feito o processo de divinamente gerar um personagem a partir do barro de idéias. Primeiro, era dado ao jogador um certo número de pontos, a serem distribuídos em atributos básicos. Força, destreza, inteligência e carisma, por exemplo. A idéia principal era esboçar alguma personalidade nestas características, evitando um psdbista equilíbrio de pontos. Você queria se transformar em um grande gênio? Gastasse lá uns bons pontos em inteligência. Ou a vontade era de um personagem com mais lábia que o Silvio Santos? Invista no carisma e vá convencer leão à dieta vegan.

Mas a coisa não termina aí, pois ainda falta o tempero. Com os pontinhos restantes, o personagem ganha algumas qualidades especiais. Facilidade para aprender idiomas, por exemplo, custa uns pontos, mas transforma o sujeito em um poliglota natural. Todavia, como o cobertor é curto, você deve querer acrescentar alguns defeitos à pessoa imaginada. Assim, coloca-lhe uns desvio de caráter que lhe dão um saldo de pontos, a serem usados em mais vantagens. Eu, por exemplo, adoro a teimosia de meus personagens, hábeis em encasquetar com uma mania até o fim da aventura. Mesmo problema, aliás, que lhes obrigava a tentar convencer todos sobre suas opiniões.

Fato é que sempre achei os personagens de RPG parecidos com os humanos. Vejo por aí que somos meio assim, cada um com um acréscimo de características, qualidades e defeitos, que ao fim, resultam em um somatório de pontos. Mas, se no RPG, todos possuíam um mesmo saldo formidável para gastar na distribuição, os humanos possuem cada uma quantidade reduzida de pontos. Assim, para múltiplas qualidades, surgem defeitos aqui e acolá. Claro, há quem seja capaz de apreciar Bergman e escalar o Everest, imparidade apaixonante de características, que merece ser logo registrada.

E, como o Estado Crônico é nada e um pouco de tudo ao mesmo tempo, arrisco-me a deixar aos doutos leitores um conselho daqueles de livro best-seller, para quem busca de realização pessoal, profissional, social, emocional e dinheiral. Descubra seu número. Os defeitos parecem menos pesados quando surgem como custo de outras habilidades. E, se no caminho prateleira de auto-ajuda, você tropeçar com uma pessoa que tenha exatamente seu número, não saia mais do lado dela. Mas não se esqueça de correr na ficha do personagem e acrescentar como bônus o item “sorte” a sua lista qualidades.

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