Artigos com ‘Crônicas divertidas’

28
nov

Seu bebê é feio

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Toda a graça e beleza do bebê renascentistaA cena é conhecida. Talvez até testemunhada pelo leitor imaginário mais experiente. A mamãe vestida em uma camisola cujas estampas só não perdem em bom senso para a cortina de casa de tia. A cara de quem não dorme há dezoito noites. E isso é só o ensaio. O pai, ainda invicto na batalha que se inicia, carrega orgulhoso um pacote pelo quarto. Volta e meia, desfaz o embrulho e revela à comitiva de visitantes o novo raminho que acaba de nascer na árvore familiar.

Então, dá-se o momento mágico. Cinco tios, nove primos, a tia-avó que mora em Cataguases, aquele colega da firma, que não queria vir, mas sabe que para essas horas tem que “dar uma atenção”, todo o séquito de visitantes, ao contemplar aquele rostinho fofinho, recém inaugurado, exclama em uníssono.

“Meu deus! Que coisa mais linda!”

Ah… Como é falsa a humanidade. Mas, é dever de ofício deste cronista, sincero que só beata se confessando em leito de morte, colocar a verdade no berço. Não, minha cara leitora imaginária. Ele não é bonito. Sinto muito decepcionar, sei que a noite não foi fácil e os próximos dias puro padecimento no paraíso. Mas não dá para iniciar essa jornada tão bonita em uma ilusão estética.

Seu bebê é feio.

Sei que ele é fofo, cutch-cutch e uma gracinha. O mais bochechudo das galáxias. Mas bonito é que ele não é. Bonito é outra coisa. E,  para que não fiquem as mamães e papais decepcionados, aviso logo. Ser feio não é exclusividade do seu bebê. Veja, mesmo os pintores renascentistas, tão celebrados pelas belezas que criam, não foram capazes de imaginar um único bebê bonito, registrando o menino santo com cara de baiacu inflado por seguidas vezes. A bem da verdade, o único bebê bonito ainda está para nascer e vai demorar bastante.

Então, não se aborreçam por isso. Feiura passa. Entre o ultrassom-4D-multicolor, onde a criança aparece com a cara de massinha de modelar, e o recém nascido, há uma evolução estética considerável. Beleza toma tempo. Gente demora a amadurar, virar gente mesmo. Enquanto isso, é aguentar aquela rostinho oscilando entre o azedo e o choro.

P.S.: Marcinha, o Heitorzinho será uma gracinha, tá?

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3
jul

Cinebiografia provisória

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Cinema paradisoNós tínhamos dezesseis anos e nessa idade você pode (e deve) ser rebelde. Então, resolvemos praticar um ato anárquico e desafiar o sistema. Algo revolucionário e contestador. Decidimos assistir a dois filmes no cinema.

No mesmo dia.

Um em seguida ao outro.

Tamanha ansiedade é natural em quem tem todo o tempo do mundo e nenhum tempo a perder. E eu e meu amigo João decidimos desafiar as convenções. A sociedade espera que você seja um sujeito comportado, obediente, cumpridor das tradições e só assista a um filme no dia. Meu pai, se ficasse sabendo, acharia um absurdo completo. Um desperdício. Mas os pais nunca tomam conhecimento dessas aventuras.

Nós demos um tapa na cara da sociedade conservadora.

Claro que um projeto ousado como esse dependia de alguma preparação. Assim, conversamos com os-amigos-do-colégio e montamos um esquema logístico especial. Naquela época, os multiplex de shoppings não eram uma realidade na minha cidade e, para conseguir assistir às duas sessões, precisaríamos de alguma folga no horário para correr entre um cinema e outro, o que acrescentaria mais emoção à aventura.

Assistimos a Men In Black e Velocidade Máxima 2. Dois promissores arrasa-quarteirões daquele ano, com todas as correrias e explosões do gênero. A maratona nos causou um processo de suspensão de descrença, causado por ver tantos personagens escapando com arranhões de situações que, na realidade, seriam absolutamente improváveis.

Saímos das sessões nos sentindo indestrutíveis. Poderíamos atravessar a avenida na frente dos carros e, caso surgisse a oportunidade, impedir assaltos a indefesas senhoras.

Na verdade, acho que naquela idade, sem saber, nós poderíamos tudo mesmo. Mas, na dúvida, fomos ao McDonald’s.


Dezesseis anos se passaram e, com o dobro da idade, decidi repetir a dose daquela noite. Dessa vez, não contaria com a companhia de meu amigo João, separado pela distância geográfica, mas sim de minha querida namorada, com quem divido, entre muitas coisas, o gosto pelo cinema.

Entretanto, estamos mais velhos, mais sábios e, presume-se, mais preparados para essas ousadias. Assim, escolhi não dois, mas três filmes em um único dia. “Elena”, “Faroeste Caboclo” e “O Grande Gatsby” foram escolhidos após uma conversa com os colegas de trabalho e a turma do Facebook. Uma aventura ainda mais mirabolante, considerando que as obras cresceram, não apenas em número, como também em complexidade. Mas, hoje, mais justificável, por espremer nas minguadas horas do final de semana todo o lazer que nos sobra.

O leitor mais perspicaz já percebeu, apenas com a enumeração de seis títulos, o grande equívoco na escolha dos filmes. Pois, se há dezesseis anos eu saíra do cinema como a encarnação de um personagem plenipotente, agora eu sentia uma exaustão amarga. As três obras são trágicas e, cada uma a sua maneira, corroem qualquer ilusão que possamos conservar com relação às aclamadas potencialidades da vida.

Talvez ficar adulto seja esse processo de trocar filmes que explodem por filmes que implodem.

Mas prefiro pensar que não. Como Gatsby, em um otimismo incorrigível. Olho ao redor e prefiro as maravilhas que me cercam hoje.


Preciso de mais dezesseis anos para chegar aos quarenta e oito. Às vésperas dos cinquenta. Não sei como as coisas estarão até lá. O futuro ainda é uma página branca, hoje como era há tantos anos.

Mas, seja como for, pretendo fazer mais uma sessão conjunta de cinema. Se isso ainda existir até lá.

Qualquer novidade, aviso vocês.

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7
jun

Estraga Magia

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Ah Mister M, o mestre dos estraga magia.Imagine-se o leitor imaginário a assistir ao novo número de um grande mágico. Passa para cá caixa com metade de mulher dentro, passa para lá cartola transbordando coelhos, muitos deles ocupadíssimos em levitar e assanhadamente fazer reaparecer buquês de rosas por trás das orelhas das jovens na plateia.

Ao lado do leitor, a essa hora ainda abandonado pelo cronista na cadeira do teatro, um sujeito assiste aos números, sério, com bloquinho e caneta. Ao fim, vira-se para o leitor imaginário e passa a descrever a maneira como todos aqueles malabarismos mágicos foram montados para enganar o público. Pura ilusão, aponta ele, feita de polias, espelhos, fios transparentes, fundos falsos e cadafalsos.

Está aí, ao lado do leitor imaginário, um espécime cada dia mais comum na fauna humana. O estraga magia.

Trata-se do sujeito que tem explicação para tudo quanto é que pode existir no planetinha Terra. Quiçá na galáxia. Você lá, a se maravilhar com o arco-íris e as miragens no deserto, e ele te explicando sobre a refração da luz nas gotas de água, frequência das ondas luminosas e como tudo isso influencia a revenda de commodities no mercado de tapioca. Quase uma Wikipédia viva, com seu repertório de conhecimento apagando o encantamento de qualquer pequeno milagre cotidiano.

Mas, apesar do hábito da desmitificação, o estraga magia tem lá suas utilidades. Especialmente porque nem todo encanto vem para bem. Assim, você descobre que não deve misturar vinho e Coca-cola, porque o álcool e o gás carbônico, quando misturados, reagem no estomago para se transformarem em ácido carboxílico. E isso dói.

E para desdizer o que disse antes, nem acredito que o estraga magia seja assim tão ruim. Na pior das hipóteses, suas ponderações enciclopédicas podem, no máximo, ser um pé de página na conversa mística. Triste mesmo é quem vê encanto e magia na ignorância.

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14
dez

Aperte Pausa

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Terra, um pálido ponto azul visto de Saturno.Sei que não será nada original este blog retornar ao assunto do fim do mundo às vésperas do evento. Mas, desde quando têm os cronistas direito de buscarem pautas que escapem das vicissitudes do cotidiano?

Assim, com apenas mais 7 dias para aproveitarmos nossa gloriosa vidinha aqui no pálido ponto azul, busco apenas jogar algumas conjecturas hipotéticas no ar.

E se, ao invés de acabar em um fogaréu roliço no negro do espaço, nosso mundo fosse só dar uma pausa. Um relax sob a sombra do coqueiro. De uma hora para outra, seja lá por qual motivo, desse na idéia de alguém proibir a novidade?

No noticiário, um William Bonner atônito, dizendo “E hoje não aconteceu rigorosamente nada que seja digno de notícia. Nenhuma tragédia em nenhum país longe, nenhum escândalo de corrupção, nem gols das equipes de futebol. Então, para suprir o vazio da programação, vamos passar vídeos de gatinhos fofos que tiramos do YouTube”.

No cinema, nada de estréias. Senta lá e vai assistir trilogia de O Senhor dos Anéis na versão estendida. Lista de livros? Encolhendo, porque ninguém acresce títulos à pilha de leituras pendentes. Discos? Ouça os que já tem, bailando naquele festejo de quem celebra bodas de ouro.

Tecnologia? Vire-se com o que aí está. Abaixo a Lei de Moore! Ninguém mais vai preso se mantiver computador desatualizado por mais de duas semanas. Também não precisaremos mais de notação científica para numerar modelo de celular. Fique com a quinta maçã  ou a terceira galáxia, pois os dois já passam mensagem, têm toque polifônico, tela colorida e controlam foguete espacial.

Não sei bem qual seria a consequência econômica disso. Suspeito que alguma recessão grave, cumulada com o desemprego do Bonner e agravada pela nossa crise de abstinência de distrações. No entanto, mais dia menos dia, alguém vai sair do riscado e frear a máquina de novidades.

Mas, por mais estranho que possa parecer, não achei tão ruim a proposta. Pelo menos haverá os vídeos de gatinhos fofos no Jornal Nacional.

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19
jul

Fim do Mundo II

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

London Burning 1666Se estou especialmente otimista com o fim do mundo, um ponto em especial me aflige. A possibilidade, cada dia mais remota, de a catástrofe não acontecer no período aprazado. Vai que o evento é adiado, por uma série de questões relacionadas ao planejamento divino, como ausência de recursos para as obras de fim de mundo ou falta de meio de transporte para o deslocamento dos trabalhadores e espectadores do espetáculo (nas esferas celestes a questão é tida como um show pirotécnico – de baixo orçamento).

Imaginem só, todos preparados para o fim do mundo em 21 de dezembro de 2012 e ele não dá as caras. Pior, aparece algumas semanas depois, sem vergonha. Como uma visita que chega sem avisar, quando sua casa está mais bagunçada.

Pois não haverá vexame maior que não poder programar os últimos vestígios da humanidade. Pensem na espécie sucessora do ser humano no domínio do planeta. Seus estudiosos escavarão nossos vestígios, como hoje fazemos com os dinossauros, e tentarão entender nossa cultura.

O fim do mundo fora de hora estragará nossa pouca chance de deixar boa impressão. Nada de desaparecer com os discos de Michel Telo do três-em-um, varrer todos os filmes do Michael Bay para baixo do tapete e esconder os livros de auto-ajuda. Azar nosso, o fogo consumirá até a  extinção, ardiloso que só, o volume de Shakespeare Complete Works e o vinil de Bach.

Vai-se embora também a oportunidade de colocar, sob a pilha de escombros do fim do mundo, um livro bojudo da “Grande e Gloriosa História da Humanidade”, bem editado, sem aqueles tropeços bélicos tão feios.

Que venha o fim do mundo. Mas na data marcada, sem imprevistos!

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20
abr

Elogio ao otimismo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Em uma olhada nos debate dos filósofos de botequim, conclui-se que falta um bom advogado ao otimismo.

Pois, enquanto o pessimismo flana nas cabeças mais esclarecidas como um porto seguro, o otimismo raramente goza de boa defesa. Nas poucas vezes que alguém se aventura a falar sobre as vantagens de colocar um olhar mais cheio de boa vontade para a vida, vem logo com um papo metafísico complicado e, no fim, a proposta de cobrar dez por cento dos seus eventuais ganhos.

Comigo não era diferente. Mas, então, deparei-me com dois livros, sobre assuntos distintos, mas com a mesma anedota. Tanto o Andar do Bêbado, quanto You are not so smart, contam sobre uma experiência a que foram submetidos os enólogos mais sabidões dos botecos finos. Todos eles deveriam que se manifestar sobre dois vinhos, um reconhecidamente bom, outro reconhecidamente ruim. O leitor já imagina a cena. Vários narizes enfiados em copos, descrevendo o quando amadeirado é o tanino da cachaça de uva. O que os sujeitos não sabiam é que os rótulos estavam trocados. Assim, o vinho ruim vinha em garrafa boa e o bom em garrafa ruim, tal como se vê por aí, a torto e a direito, entre os seres humanos.

E, não será nenhuma surpresa quando eu contar que todos os enólogos erraram seus pareceres. Mas não se trata de mera bravata. Mais tarde comprovou-se que os elogios ao melhor vinho eram sinceros. Os experts não foram conscientemente enganados pelo rótulos. Eles efetivamente sentiram mais prazer ao tomar um vinho, exclusivamente porque o sua etiqueta era de uma boa safra.

Então, estava eu em um jardim de Rosmarinus officinalis, quando refleti sobre a alegoria acima. Não seria o otimismo ou pessimismo meros rótulos colocamos em uma garrafa ainda a ser bebida? Assim, ao esperar que aquela viagem para New York será fantástica, o turista prega tão forte uma etiqueta na situação que as mais adversas situações não seriam suficientes para tirar o sorriso de encantamento ao vislumbrar a Manhattan Skyline.

Portanto, deixemos um pouco a conveniente casmurrice de lado e vamos lá fora dá uma olhada no tempo, que deve melhorar.

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5
mar

Dividir para entender

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Sem calçasTenho hábitos exóticos, que podem ser confundidos facilmente com maluquice pretensiosa. Entre eles, coloco o costume de dividir a humanidade entre dois grupos distintos, por meio de critérios que, apesar de rigorosamente absurdos, muito revelam sobre meus objetos de estudo, em um prisma de sociologia de botequim.

Afirmo, por exemplo, que o mundo está dividido entre as pessoas que, quando trocam de roupa vestem a calça primeiro que a camisa e entre as pessoas que vestem a camisa primeiro que a calça.

Corte aparentemente absurdo e certamente aleatório. Mas no breve momento, quando o sujeito encontra-se desnudo e tem que optar pela peça prioritária do guarda-roupas, cabe toda uma construção de filosofias e advocacias de estilos de vida. De um lado, os calceiros, a turminha que prefere a calça à camisa. Defendem uma bandeira de normalidade, com um papo moralista sobre o efeito nefasto de andar por aí sem calças. Do outro, os camiseiros, advogando uma cultura de rebeldia. “Que calças que nada! O Rei está nu, eu também e vamos todos andar pelados por aí! Pelados não, de camisa, de preferência com estampas anárquicas.”

Empolgado com a profundidade da análise psicológica do critério anterior, já consigo separar o mundo em outras duas categorias. Os motoristas que, no shopping, estacionam de ré e os motoristas que estacionam de frente. Os primeiros são pessoas hábeis e precavidas. Andam em veículos com airbag, guardam dinheiro para o futuro, não compram a prazo e ainda têm plano complementar de aposentadoria. Já os outros, creio que a maior parte da humanidade, deixam o trabalho mais árduo para depois e procrastinam todas as tarefas desagradáveis que a vida gentilmente nos oferece. Estudam na véspera, à espera de alguma tempestade capaz de defenestrar as provas pela janela do apartamento do professor. Aliás, são eles também que, na hora das refeições, comem logo as batatas fritas e passam o almoço encarando feio a pobre folha de alface e o tímido tomate.

E, já que tocamos no intricado assunto dos alimentos, há no ramo alguns grandes cortes cuja total amplitude de significados ainda não consigo absorver. Veja-se a divisão entre aqueles que comem mais arroz contra os que comem mais feijão. Seriam os primeiros adeptos de um sabor monótono, mas com inquestionável segurança digestiva, opositores das estripulias dos amantes do feijão, com sua saborosa riqueza e evidentes riscos ao equilíbrio intestinal? O leitor imaginário mais arguto poderá responder em suas cartinhas à redação.

Alguém  pode-se opor contra minhas divisões e interpretações da humanidade. Pois eu lhes digo que são demasiado úteis. Atalhos, para facilitar a compreensão deste planeta tão grande e diverso. E, além do mais, não consigo ver como muito melhores os critérios de divisão do mundo que há por aí, firmados em cor, sexo, saldo bancário, circunferência abdominal, local de nascimento e a mesma história velha de sempre.

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27
jan

Lente Macro

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

O corpo foi encontrado poucos minutos passados da meia noite. Uma barata, não identificada, em meio ao gramado da quadra. A primeira formiga que por ali chegou não soube apurar a causa mortis, mesmo após verificar em detalhes o corpo e observar a existência de um ferimento corto-contuso no ventre da vítima.

Apesar da prudência e dos cuidados investigativos naturalmente exigidos pela gravidade do caso, a formiga não se interessou por aguardar a polícia técnica e, com vistas a evitar o formigueiro concorrente, chamou suas amigas para iniciarem juntas o trabalho de remoção.

Em minutos, um silencioso cortejo fúnebre cruzava o gramado. Equilibrado no alto de cuidadosas operárias, o corpo era levado ao sepulcro final na entrada do formigueiro. Mas, anunciada com breves gotas, uma chuva torrencial lavou o caminho longo e tortuoso da coveiras do jardim. E onde antes era apenas grama, surgiram rios caudalosos e fendas abismais. O complexo trabalho de engenharia necessário para vencer os obstáculos passou a ser observado ao longe por um interessado roedor, cuja gula só foi afastada em virtude do gato errante, morador perene da região e chefe da quadra.

No entanto, o primeiro raio de sol despertou um bem-te-vi de seu recluso galho no primeiro andar da mangueira. Os olhos treinados avistaram a trilha de formigas carpideiras. E, antes que elas chegassem à proteção de seus escuros túneis, com uma revoada, dois passinhos e uma bicada, o corpo-troféu, voou carregado pelos ares, esvaziando todo os esforço da madrugada empenhado pelo forte corpo operário do formigueiro.

Durante o dia, as empregas, as estudantes uniformizadas, as estudantes não uniformizadas, os engravatados das autarquias, o zelador, os maconheiros vespertinos, a equipe de cortadores de grama, o pessoal da capoeira, o entregador de móveis atrasados, ninguém percebeu o movimento insignificante do gramado, todos afogados em seus pensamentos de grandeza, muito maiores que o universo inteiro.

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16
jan

You know my name, look up my number

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Houve uma época que este escriba passava longas tardes macias entre masmorras e dragões, brincando no que o mundo se acostumou a chamar de Role Playing Game. Mais do que a aventura vivida no universo imaginado do jogo, fascinava-me a criação dos personagens de tal forma que a coisa toda para mim tornou-se um grande catálogo telefônico, cheio de nomes e números, mas com muito pouca história.

À leitora imaginária não-nerd, explico como era feito o processo de divinamente gerar um personagem a partir do barro de idéias. Primeiro, era dado ao jogador um certo número de pontos, a serem distribuídos em atributos básicos. Força, destreza, inteligência e carisma, por exemplo. A idéia principal era esboçar alguma personalidade nestas características, evitando um psdbista equilíbrio de pontos. Você queria se transformar em um grande gênio? Gastasse lá uns bons pontos em inteligência. Ou a vontade era de um personagem com mais lábia que o Silvio Santos? Invista no carisma e vá convencer leão à dieta vegan.

Mas a coisa não termina aí, pois ainda falta o tempero. Com os pontinhos restantes, o personagem ganha algumas qualidades especiais. Facilidade para aprender idiomas, por exemplo, custa uns pontos, mas transforma o sujeito em um poliglota natural. Todavia, como o cobertor é curto, você deve querer acrescentar alguns defeitos à pessoa imaginada. Assim, coloca-lhe uns desvio de caráter que lhe dão um saldo de pontos, a serem usados em mais vantagens. Eu, por exemplo, adoro a teimosia de meus personagens, hábeis em encasquetar com uma mania até o fim da aventura. Mesmo problema, aliás, que lhes obrigava a tentar convencer todos sobre suas opiniões.

Fato é que sempre achei os personagens de RPG parecidos com os humanos. Vejo por aí que somos meio assim, cada um com um acréscimo de características, qualidades e defeitos, que ao fim, resultam em um somatório de pontos. Mas, se no RPG, todos possuíam um mesmo saldo formidável para gastar na distribuição, os humanos possuem cada uma quantidade reduzida de pontos. Assim, para múltiplas qualidades, surgem defeitos aqui e acolá. Claro, há quem seja capaz de apreciar Bergman e escalar o Everest, imparidade apaixonante de características, que merece ser logo registrada.

E, como o Estado Crônico é nada e um pouco de tudo ao mesmo tempo, arrisco-me a deixar aos doutos leitores um conselho daqueles de livro best-seller, para quem busca de realização pessoal, profissional, social, emocional e dinheiral. Descubra seu número. Os defeitos parecem menos pesados quando surgem como custo de outras habilidades. E, se no caminho prateleira de auto-ajuda, você tropeçar com uma pessoa que tenha exatamente seu número, não saia mais do lado dela. Mas não se esqueça de correr na ficha do personagem e acrescentar como bônus o item “sorte” a sua lista qualidades.

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6
jan

2012 descendo a ladeira

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Então está aí o leitor imaginário, já no fim da primeira-semana-do-ano, portador orgulhoso de sua lista de planos para 2012, cheia de clichês, mas feita no capricho. Lá estão, com quadradinhos na frente para serem ticados conforme a tarefa for cumprida, os mais aspirados desejos do ano. Pagar a academia para não malhar, malhar a academia para não pagar, não pagar a academia para não malhar e, sendo esta a última hipótese, no insucesso das demais, pagar a academia para malhar. Ah! Mas, corpo são, mente sã. Assim, assoma-se às atividades físicas o plano de engrandecer-se intelectualmente. Planeja o leitor adicionar a seu já vasto cabedal literário uma série de leituras, todas aptas a iluminar o caminho da sabedoria.

Sorte de meu leitor imaginário, com seus planos prontos. Pois o escriba, assoberbado nessa coisa toda de viver, comer, trabalhar e ir ao zoológico no domingo dar pipoca aos macacos (não pode, mas eu o faço por respeito às referências musicais), ainda não teve uma mísera réstia de tempo para reduzir a termo todo os planos para o ano seguinte.

E assim vai que o ano, começado meio desplanejado, em neologismo impróprio, grifado de vermelho pelo editor de textos, seguirá em ritmo acelerado e, antes que se possa afirmar, com habitual tradição, que o ano-está-passando-rápido-demais, eu ficarei encalacrado entre os afazeres, sem poder determinar, com aquele sábio distanciamento temporal preventivo, quais serão minhas próximas atitudes.

Assim, as coisas mais simples e modorrentas se misturarão com as mais complicadas e maneirosas. Colocarei nos planos viajar para o Nepal, mas não sem antes consertar a torneira do banheiro, cujo gotejar sem fim me faz engolir um nó de culpa todas as vezes que alguém alarma o fim dos mananciais de água doce no mundo. Tentarei salvar a Mata Atlântica, mas antes preciso lembrar de responder todos as mensagens dos leitores do Estado Crônico (infelizmente poucos, razão pela qual a tarefa não deveria ser absorvida pela falta de tempo).

E no campo literário a bagunça se fará melhor e maior. Grande Sertão Veredas aguardará sua vez de leitura. Todo satisfeito, abrirá seus bracinhos de papel em pedido de colo num sofá confortável, na tarde preguiçosa de um sábado que não existe. Nonada. Casa Grande & Senzala finalmente desempacará da fila ou persistirá em sua situação de melhor livro ainda não lido? E, finalmente, os, até agora 5, tijolos de Crônicas de Fogo e Gelo ainda pretendem ter uma chance, mais pelo burburinho do que pela vontade do cronista.

E com tudo, last but not least, para não deixar o leitor apreensivo e irritado com o anglicanismo bobinho, há sempre o plano de manter o Estado Crônico atualizado como um periódico eletrônico de fofoca de celebridades, com mais posts do que lista de discussão sobre política e um estoque de crônicas que faria de Nelson Rodrigues um invejoso escrivinhador. É bastante coisa. Tudo bem bagunçado e sem prioridades. Na mistura, viram os planos e metas meros pactos de diretrizes, repletos de contradições. E se o leitor goza da felicidade de uma listinha de fim de ano, o cronista prosseguirá no dia a dia, a vida de improviso, com quem atravessa a rua fora da faixa para pegar o ônibus de portas quase fechando.

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