Artigos com ‘Die Welle’
Fosse eu dono de locadora de filmes e as prateleiras teriam outra ordem, com categorias menos ortodoxas. Nada de suspense, terror, aventura e romance. Uma de minhas novas classificações seria filmes de professor. Estariam lá os óbvios Sociedade dos Poetas Mortos e Ao Mestre, Com Carinho, seguidos do mais atual O Clube do Imperador (como não falei que o filme precisa ser bom, O Sorriso de Monalisa teria espaço na prateleira também). Recentemente, minha a seção imaginária ganhou outro ótimo título, o alemão A Onda.
“Inspirado” em fatos reais, com todas as aspas que as inspirações cinematográficas merecem, A Onda é adaptado do livro americano The Wave (ainda sem tradução para o português), que conta a história de um pequeno grupo facista, criado por um professor, em sala de aula, como um experimento para demonstrar o funcionamento de um regime autoritário.
Se o livro The Wave não chega a ser sequer uma boa obra literária, sua adaptação para o cinema é impressionante. Transportada dos EUA dos anos 6ª para a sociedade alemã contemporânea, ainda ressentida pelos eventos da 2ª Guerra, a história ganha contornos mais ricos e interessantes.
No filme, Rainer Wenger, professor do que deve ser o segundo grau alemão, encontra-se diante do desafio de ensinar o que é autocracia a uma sala de alunos, para quem opção política significa, quando muito, vestir-se como punk-anarquista, ou, em uma adaptação a nossa realidade, usar uma camisa de Che Guevara. Diante da apatia da turma, Rainer desiste de uma exposição teórica e cria, na prática, um grupo autocrático na sala de aula, ao qual se dá o nome de A Onda. A adesão entusiasmada dos alunos ao discurso fascista do professor revela a estranha susceptibilidade do mundo pós-moderno a regime autoritário.
Em tese, a sociedade contemporânea, extremamente diversificada e aberta a toda sorte de idéias, estaria imune à ascenção do autoritarismo, baseado na adoção de uma proposta ideológica única. Todavia, paradoxalmente, a multiplicidade da sociedade resulta em uma busca pela individualidade, que só pode ser conquistada no grupo. Assim, surgem os emos, as crepusculetes e até mesmo as torcidas organizadas de futebol. Nesse mundo plural, discursos autoritários parecem ser extremamente sedutores, pois entregam às massas o sentimento de identidade única perdido. Com respostas rápidas e simples para tudo, muito bem retratadas no filme pelos interrogatórios de Rainer a seus alunos, o autoritarismo permite sufocar a angustiante ausência de certezas que cerca nosso cotidiano.
No entanto, o grande mérito de A Onda não é apenas demonstrar, na tela, como um regime autoritário ainda pode encontrar espaço em nosso mundo. Tal como os alunos retratados no filme, o telespectador é seduzido pelas propostas do professor e, ainda que intimamente sinta-se ligeiramente desconfortável, enxerga uma série de benefícios em abrir mão da liberdade e adotar a autocracia. Em determinado momento, é difícil não concordar com um dos personagens que tenta provar as maravilhas trazidas pela Onda. Mas, como todo bom filme de professor, A Onda pode dar uma boa e sombria lição. Se a política se tornar exclusivamente assunto de estampa de camiseta, as portas para o autoritarismo estarão abertas.
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