Artigos com ‘Crônicas pequenas’

25
nov

No meu tempo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Albert Ank avô conta história 1884Creio que ainda não tenha relatado aos leitores imaginários sobre meus, também imaginários, futuros netos. São todos bonitos, inteligentes e fofos, pois saíram ao avô, que guarda tais características em abundância. Sentam-se habitualmente ao meu redor e escutam, atentos e maravilhados, histórias sobre um longínquo tempo, do qual eu sou uma das poucas testemunhas vivas.

Enganam-se vocês ao prever, como eu fiz, que o maior espanto vem no momento que conto sobre a época quando não havia as Internets. A primeira vez que fiz tal relato, eles balançaram as cabecinhas, com aquela cara de “jáseijásei”, como quem escuta uma conversa tão repetida que já se transformou em uma alegoria de si mesma.

Eles, por mais inusitado que pareça, gostam de ouvir sobre os hábitos que existiam e desapareceram com o tempo. Falo, por exemplo, sobre como fui criado lendo jornais, entregues diariamente em minha casa por um sujeito de motorcicleta. No atraso do exemplar matinal, eu telefonava (algo que precisou ser esclarecido) para reclamar. Quando explico que o hábito da leitura dos periódicos me inspirou a, anos depois, ter um site de crônicas, eles acham incrível. Pedem para ler os textos e se divertem com alguns. Não entendem, por exemplo, porque eu falei sobre um cara chamado Steve Jobs, tampouco o porque de tantos textos sobre coisas passageiras.

Mas são os escritos mais simples que lhes encantam. Gostam dos textos sobre pessoas que vejo por aí no metrô e no parque. Tentam entender porque me preocupei tanto um tempo sobre a tristeza e felicidade. A neta que mais saiu à avó, quieta de olhos vivos, pergunta qual é meu tempero predileto. Eu digo que não são os temperos que me encantam, mas seu aroma, sabor e energia.

Uma das boas vantagens de viver em um mundo que muda tão rápido é acumular histórias para meus futuros netos. Mas eles não querem saber sobre como foi a vitória na Copa de 2014 ou sobre como funcionavam as impressoras matriciais. Vivem no varejo, em busca de histórias que lhes expliquem quem são. No máximo perguntam onde eu estava quando o mundo acabou e recomeçou.

São meio estranhos esses meus netos.

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18
nov

No Parque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

pipaTalvez quem veja Alberto no Parque Vila Lobos enxergue uma pessoa solitária. Ou, talvez não enxergue ninguém em especial. Agachado, nos fones de ouvido Fool on the Hill, nas mãos sua câmera por companhia, a única aproximação do tumulto das brincadeiras infantis é pela objetiva. Um olho semi-serrado. O outro captura cenas mudas, cujo som perde-se na distância.

Pensa, seriamente, em abordar a dupla de pai e filho que, ao longe, tenta empinar uma pipa. Mas a interrupção arruinaria a fotografia, que está composta em sua cabeça muito antes da cena acontecer. Assim, o sigilo faz parte de sua arte, que registra o mundo sem o peso do olhar.

Enfim, o pai, com o carretel na mão, fica em primeiro plano, no lado esquerdo do quadro. A linha traça uma diagonal até o ponto de fuga, onde o menino segura a pipa no alto. Na ponta dos pés, o garoto estica o corpo ao máximo, como se os centímetros a mais de sua elasticidade fosse a diferença entre uma decolagem mal sucedida e um vôo perfeito do brinquedo.

A imagem não dura um segundo e logo a pipa sobe. Alberto consegue registrar o quadro perfeito, (f5, 1/500s, ISO 100, 120mm). O vento ajuda a todos e lança uma pequena brisa. Suficiente apenas para mover a rabiola e os cabelos da criança na hora do disparo e lançar a pipa em seu vôo.

Como disse, há quem diga que Alberto é um sujeito solitário, com sua mania de ser mero expectador do mundo. Em verdade, para afastar essa impressão, seria necessário se aproximar de Alberto e conhecer a multiplicidade de mundos registrados nas cenas guardadas pelo olhar silencioso da objetiva. Mas, para tanto, há que se vencer muitas barreiras e, antes de qualquer sucesso, Alberto já teria guardado seu equipamento e abandonado o parque.

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11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

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19
out

Chega de Saudade

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Chagall PromenadeSegundo descobri recentemente, os esquimós têm doze mais de quarenta palavras para conceituar a neve. Pudera, eles têm bastante neve para trabalhar. Neve no chão, neve de fazer casa, neve de derreter e beber, neve de brincar e neve de fazer boneco de neve. Assim, pode parecer estranho o fato de ser o português a única língua que possui uma palavra para definir, com precisão, a saudade.

Mas, se eu encontro o danado que inventou a palavra, pego ele! Porque o sujeito criou uma coisa sem a qual, até aquele momento, todos conseguiam viver.

Basta ver que os grandes cientistas, enluvados em jalecos brancos, afirma ser a saudade um sentimento muito difícil de ser encontrado na natureza em estado puro. Normalmente, vem acompanhada de uma série outras impurezas que a contaminam e tornam sua apreciação quase impossível.

Veja-se, por exemplo, a saudade de quem já partiu para sempre. Impossível ser um sentimento puro, pois está misturada com tristeza e dor. Tampouco a nostalgia pode ser colocada simples saudade, pois, como informa a etimologia, é oriunda da junção das palavras gregas nostos (regresso) e algos (dor). Portanto, é, no máximo, uma saudade projetada ao passado, temperada, talvez, com uma decepção com o presente.

Assim, segundo apurou o cronista, em entrevista com os mais doutos cientistas dos sentimentos, apenas os mais vigorosos emocionalmente estão realmente aptos a sentir saudade pura e simples. Saudade que surge não de solidão ou insegurança, mas de simples ausência, temporária ou não. Como uma comichão pelo futuro, com a qual você até se acostuma, mas nunca pára de coçar.

Sorte daquele que é capaz de sentir pura saudade. Azar daquele que a sente.

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23
set

Donald x Gastão

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Donald x GastãoNão importa o quanto os sábios sociólogos, economistas, biólogos e estatísticos consigam dividir, subdividir, categorizar e classificar os humanos, eu, imbuído de profundos estudos em antropologia de revista em quadrinhos, afirmo que só há dois tipos de pessoas. Os Pato Donalds e os Gastãos. E antes que o leitor imaginário mais reprovador balance a cabeça em desacordo, indignado com mais uma de minhas idéias estapafúrdias, aviso logo que no último parágrafo, me desdirei, sem, contudo, me contradizer.

O Pato Donald é velho conhecido de infância e o mais famoso dos patos, dispensando apresentações adicionais. No entanto, sua fama do lado de cá das páginas não corresponde à sorte que tem de dentro da história. Donald é azarado como poucos. Cuida de três sobrinhos travessos e atentados, vive um namoro de eterno pegar na mão com a Margarida e, mesmo sendo parente próximo do pato mais rico do mundo, vive na chutando lata. Tanto pior, aliás, pois quando se coloca a trabalhar para o tio, acaba por ser explorado até a última força, como o mais espoliado dos proletários.

Gastão é o contraponto exato de Donald. Dono da maior sorte do mundo, não precisa fazer nada se manter, pois simplesmente tropeça no dinheiro. Consegue as melhores barbadas sem nenhum esforço. O tipo de cara que chega naquele restaurante com fila de espera de horas e consegue a melhor mesa, por estar na hora certa, no lugar certo. É, enfim, um abençoado pelo cosmos.

Os dois são parentes próximos, da mesma família e, provavelmente, com condições equivalentes de vida, não fosse o absurdo azar de um e a incrível do outro.

Há, portanto, apenas dois tipos de pessoas no mundo. Como Donald, o sujeito está na base da cadeia que alimenta os fluxos aleatórios de fortuna. Não digo que não chegará a lugar nenhum da vida, um eterno gauche drummoniano. Mas precisará do dobro de esforço para conseguir a metade dos lucros. Já os Gastões são os peixes grandes do mundo. Mas antes que se reduza o pensamento exclusivamente ao vil metal, esclarece-se que nas menores coisas também é possível notar a diferença. Na hora de parar o carro no shopping, conseguir a fila mais rápida do supermercado e ser sorteado no melhor brinde na festa de final de ano da empresa.

Mas há algo de especial em ser um Pato Donald. Talvez os leitores imaginários menos conhecedores do universo Disney não saibam, mas o pato mais famoso tem uma identidade secreta. Veste-se de Super Pato e, na calada da noite, torna-se o grande herói mascarado Patópolis. Uma glória clandestina, como bem cabe a nós, formiguinhas do mundo, com nossas conquistas insignificantes do cotidiano. Sem pódio ou beijo de namorada. Mas talvez com um conforto inexplicável. E injustificável.

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16
set

Se arrependimento matasse…

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Cachorro arrependidoNão se pode falar que meu pai seja alguém de opiniões voláteis. Mas a facilidade com que ele se arrepende de suas escolhas garantiu-lhe um bordão: “ah! Se arrependimento matasse!” Pois, chega ele com um saquinho de parafusos, confere que eles não cabem nas buchas e, lá vem a frase. Ou, experimenta uma nova marca de margarina, não gosta, solta outra vez o regozijo pela ausência de fatalidade no arrependimento.

É pai, ainda bem que arrependimento não mata. Do contrário eu seria órfão faz tempo.

Em que pese a ausência de punição pelo arrependimento, não parece ser esta uma das condutas mais na moda. No mundo super colorido de alegria infinita, os gurus da prateleira de auto-ajuda já proclamaram a morte do arrependimento como alternativa para a vida saudável, bacana, feliz e cheia daquele otimismo solar de propaganda de pasta de dente.

E os contentes de plantão têm mesmo seus motivos para se afastar do arrependimento. Longe da beleza do ideal cristão, não é fácil cultivar o sentimento com a sabedoria de meu pai. Olhar para a trás e se arrepender equivale a jogar lama no passada, perceber a inutilidade e o equívoco das escolhas pretéritas.

Claro, há, também, quem olhe para trás com uma pontada de arrependimento e consiga ver que sem um tropeço de um lado ou outro, não dava para chegar até está. Uma versão mais polida e orgulhosa do arrependimento, que, como bem notou Oscar Wilde, alguns dão o nome de experiência.

Verdade é que arrependimento é meio como cachorro que ladra, mas não morde. Põe mais medo que causa malefício. Você se põe na encruzilhada e oscila entre duas trilhas. Horas de indecisão com medo do monstro do arrependimento. Mas, no futuro, o monstro vira um bichinho de estimação e você passa a acariciá-lo, para aplacar o descontentamento com o presente.

Por outro lado, influenciado pela sabedoria paterna, sigo a corrente minoritária e, diante da ausência de punibilidade pelo fato, arrependo-me a todo o momento de muitas escolhas. Desde escolher uma camisa com uma cor tão escalafobética para ir a festa de formatura, até ter viajado tão pouco em tanto tempo. Melhor assim, carregando a voz do arrependimento no ombro, para colocar bastante pensamento nas decisões. Afinal, ruim não é se arrepender, é errar.

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9
set

Sobre icebergs e turbinas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

United 232Segundo reza a lenda, eternizada no filme, o fabricante do Titanic, orgulhoso do poder de sua criatura, teria afirmado que nem Deus poderia afundar aquele navio. Com toda certeza, meus bem informados leitores imaginários já sabem o triste desfecho da história. Não foi necessária a intervenção divina. Bastou um bloco aleatório de gelo, grande como as forças naturais costumam ser, para se converter o soberbo feito da engenharia humana em um barquinho sem vergonha, que hoje jaz no fundo do oceano atlântico.

Mas, não se enganem, nem todas tragédias vêm do tamanho de icebergs. Em 19 de julho de 1989, o vôo United 232 decolou, de Denver, no estado americano do Colorado. Não havia garrafas de champagne no casco. Nem banda. Era mais um avião, com aborrecidos businessmen cheios de afazeres em Chicago e famílias que viajavam para visitar a vovó. Embora alguns tenham orado, os passageiros embarcaram sem a garantia do fabricante contra o insucesso de qualquer tentativa divina de derrubar a aeronave.

E, convenhamos, eles não tinham mesmo nada a temer. O dia era tranqüilo, o tempo bom, a tripulação atenciosa e capacitada como sempre e o avião, um sólido DC-10, possuía a mais moderna tecnologia disponível. Ainda assim, uma das hélices da turbina acordou naquele dia especialmente fadigada. Depois de anos girando de maneira eficiente, fraturas microscópicas, engrandecidas pelo tempo, romperam as pás. Lançada pela turbina, por ela própria impulsionada, a hélice destruiu a fuselagem da aeronave, cortou parte do sistema hidráulico e transformou o D-10 em um gigantesco avião de brinquedo, sem controle remoto.

O desfecho das duas tragédias não é muito diferente. Muitos morreram, alguns sobreviveram. Mas há uma característica especial a cada uma. O Titanic afundou pela ação de algo gigantescamente poderoso. Um iceberg que poderia, e deveria, ser notado a quilômetros de distância. O desastre foi resultado da enorme pretensão e descuido humano. O United 232 não teve a mesma sorte. O trágico defeito de fabricação da hélice estava ali desde o primeiro dia de operação. Foram incontáveis horas de vôo sem nada errado com o equipamento, até então confiável. Mas as pequenas fissuras, intrínsecas ao material, foram lhe comendo por dentro, sem que absolutamente ninguém pudesse enxergar. E um dia, a coisa toda dá errado e, de súbito, temos um acidente.

As duas histórias andam há tempos em minha cabeça, como metáforas do acaso. Tenho sempre a tendência a procurar, em cada uma das tragédias da vida, alguma grande explicação, conclusiva como um iceberg. Seja ao entender a tragédia social do garoto pedinte na praça de alimentação, seja para explicar a história de parentes que nunca mais se falaram. Mas, na maior parte das vezes, as grandes tragédias acontecem em razão de motivos simples, cotidianos e, pior de tudo, quase invisíveis. Suas causas estão silenciosas a nos contemplar desde o primeiro dia. E não há nada que possamos fazer para evitá-las.

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23
ago

Desculpa esfarrapada

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Monalisa, como todos sabem, estava pensando em uma desculpa para não ir ao show do Jorge Vecillo.Sábado à noite, a TV a cabo, por algum motivo misterioso, sintoniza-se por conta própria naquele filme gostoso de ser assistir com preguiça. Lá fora, a chuva fina convida o cobertor a namorar a pipoca quente sob o sofá macio. Tudo perfeito, não fosse o convite para comemorar o aniversário do concunhado em um barzinho sen-sa-cio-nal, com direito a voz e violão interpretando todos os melhores sucessos da Música Popular de Elevador.

Um comichão começa do lado esquerdo do peito, onde os cientistas já comprovaram ser a região responsável consciência pesada. Claro, a cura imediata para o problema seria levantar, esquecer o filme, vestir roupas compatíveis com uma expedição para o Everest e curtir a valer aquela versão de “Monalisa”, do Jorge Vercillo, cuja existência é lembrada apenas pelos cantores de bar. Mas, como nos ensinou o velho Sidarta, há o caminho do meio. A solução que evitará o constrangimento de recusar o oportuno convite do concunhado e, ao mesmo tempo, deixará aproveitar a companhia da pipoquinha com cobertura de lã de carneiro.

Eis o momento quando a cabeça se contorce na busca da desculpa perfeita. O Santo Graal de todos os aqueles que não compram presente de aniversário para a namorada, faltaram a aula de inglês para ficar jogando Civilization ou perderam a hora no trabalho, após serem seduzidos um milhar de vezes pela função soneca do celular. Pois, arrumar desculpa é uma das mais difíceis artes do manual da cara de pau social. Ela deve ser algo cuja ocorrência é provável, mas, ao mesmo tempo, inesperada. Um evento crível, sem perder o caráter de surpresa, típico do anedotário do cotidiano extraordinário. Verdade que há desculpa pronta para uma série de situações. Ao atraso, entrega-se sempre o trânsito, o grande vilão das metrópoles. Às dores de cabeça noturnas (“essa sinusite ainda acaba comigo”) são escusas aos compromissos desagradáveis. Já a falta tempo para protelar qualquer obrigação advogada pelo superego, mas há muito jogada para o último grau de prioridade pelo id.

O problema é que dar desculpa, como qualquer coisa que exija alguma arte, no começo é difícil, mas, depois de algumas poucas vezes, já se entranha na pessoa e vira hábito. A partir de então, o sujeito fica desleixado com a vida, na crença que, qualquer coisa que aconteça, uma desculpinha livrará a situação. Passa a ser um desculpeiro, uma espécie que, eu garanto, qualquer leitor é capaz de identificar um ou dois em seu circulo de amigos imaginários.

Assim, se não há como viver na utopia de um mundo de sinceridade completa, também não nos deixemos seduzir pelo comodismo da auto condescendência. Pois, no processo de jogar na turma que te espera ao som do Jorge Vercillo a culpa pela noite estragada, a desculpa só tem o objetivo de tirar de nós o inexplicável peso que há na insistência de ser honesto consigo mesmo. Portanto, da próxima vez que o telefone tocar, seja sincero e diga “hoje não dá, preciso aguar meu canteiro de alecrim”. Afinal, desculpa para ser rabugento não existe.

P.S.: Sim, este texto surgiu enquanto eu buscava uma desculpa para não ter publicado nada semana passada.

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12
ago

Quase um toque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

 

Quase um toque“Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.”

Quase sem querer – Legião Urbana

Não sei se foi por vergonha, falta de oportunidade ou por julgar o assunto irrelevante, mas acabei sem contar para vocês, meus distintos leitores imaginários, sobre o incidente de minha quase morte. Sim, quase morri. Eu e mais algumas ilustres passageiros de uma van, em um quase acidente automobilístico. Um pouco de aplicação prática (já sei, é redundância, seu patrulheiro do pleonasmo) da teoria do caos e vocês poderiam remover os quases das frases acima e este blog perderia seu escriba, bem como as estatísticas da Via Dutra seriam engordadas.

Eis que o leitor imaginário já se aconchegou na poltrona e pensou, “lá vai o maluco do Carlos Goettenauer falar de bobagens transcendentais de luz do fim do túnel e nãoseioque além da vida”. Equivocou-se. A anedota acima é só exemplificativa, pois, meditando sobre o ocorrido de quase morte, percebo que o mais incômodo não é o termo fatal da expressão, mas sim o quase lhe permeando. Palavrinha ardilosa esta. Você coloca um quase na frente da expressão e o que é deixa de ser, mas continua como se fosse.

Então, quase não é nada, é um infinitésimo vazio, preenchido com um tudo que ainda não é. Mas consegue engolir o mundo inteiro dentro de si. Diga ao doente terminal que o a cura de sua moléstia quase foi descoberta e isto não lhe servirá de consolo. Pergunte ao quase aprovado no vestibular, aquele que ficou por um ponto, o valor de um advérbio. Enfim, quase é um sim ao contrário, quase não. O pedacinho enorme do que ficou faltando para ser grande. Se a palavra já fosse conhecida no século XV, Hamlet, com seu famoso crânio na mão, perguntaria, “ser, não ser, ou quase?”

Assim, a palavra quase é uma daquelas que deveria vir acompanhada de um alerta do Ministério da Semiótica sobre sua má utilização. Segundo nos ensina o velho Aurélio, a expressão vem do latim, quasi, e significa, originalmente, como se. Advérbio acossado da Síndrome de Viúva Porcina, aquela que foi sem nunca ter sido. Torna qualquer alternativa viável em uma paradoxal possibilidade impossível.

No entanto, se no país do futebol, o quase é a trave atrapalhando o gol de placa do craque do último final de semana, há quem saiba encher o advérbio de expectativa. Então o quase não é mais inverso de tudo, para ser a ponte para o que ainda não é, mas será, se as condições climáticas continuarem as mesmas e as montanhas russas seguirem seus previstos trilhos. Um quase lá, pertinho, falta pouco. Vem até com o pedido de paciência em alguns casos. Cautelosos, talvez pessimistas aconselharão cuidado para não se iludir com a incerteza adverbial. Mas quem acredita, prossegue, sem medo do quase.

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5
ago

Aos taxistas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

A escolha se dá por uma daquelas obras inexplicáveis do acaso, sempre guiadas por astros travessos. O primeiro do ponto, o único na chuva. Você entra no carro e ele, o taxista, já te conhece. Sabe, pelo menos, de onde você vem, se tem bagagem e de qual tamanho e estilo ela é. Antes da primeira marcha, já sabe para onde você vai. E, não se engane, isto já é muita coisa.

Com as poucas réstias de informações, o taxista, com anos de treinamento de rua, formula o dossiê completo do passageiro. Carrega uma  pasta de couro? Está a trabalho. Um homem e uma mulher? Jamais escapam de serem um casal. Uma habilidade que, se fosse ensinada em algum curso de psico-leitura-mercadológica para vendedores de automóveis, tomaria anos de confinamento em uma sala de aula. E, ainda assim, resultaria no oferecimento de um esportivo para senhoras conservadoras.

Certo que a conversa, quase invariavelmente começa contornando as variações climáticas repentinas. Mas, pelas bordas, de alguma maneira que só a aleatoriedade do papo furado possui, em menos de cinco minutos o taxista e você já dividem a mesma idéia sobre a falta de qualidade do jornalismo televisivo, a ausência de segurança nas ruas, o resultado de alguma pesquisa científica obscura sobre o comportamento de pessoas apaixonadas e idêntica opinião política, quase sempre “do contra”, seja lá contra o quê. Assim, daquela capacidade absorver fatos sobre os passageiros, surge a matéria prima para a conversa que será a distração para os minutos de viagem.

Após chegar a seu destino, você paga a corrida, desce do taxi e se despede do seu mais novo melhor amigo. Trás na memória alguns casos que, de tão inacreditáveis, nunca terá coragem de repetir para alguém, sob o risco de passar por um grande mentiroso. Lógico, a efemeridade da convivência forçada fará desaparecer a lembrança da amizade em poucos segundos. Amanhã você já fará sinal para outro carro e mais uma porta para este universo particular se abrirá.

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