Artigos com ‘Crônicas pequenas’

6
dez

Tamagotchi

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

TamagotchiVou falar agora um negócio entrega-idade. Mas, não tem jeito. Com o tempo a idade acaba se entregando por si mesma.

Pois bem, estava lá eu outro dia no vagão de metrô nosso de cada dia, observando o comportamento dos passageiros. Todos com a cabeça baixa, divertindo-se com aquele aparelhinho de tela colorida, por aqui chamado de celular. Foi quando um vento nostálgico entrou pela janela e me fez recordar de um brinquedo mais antigo.

O leitor imaginário mais jovem não chegou a conhecer, mas foi febre, há algum tempo, um aparelhinho chamado tamagotshi. Era um gadget, ainda que a expressão não existisse à época, não muito maior do que um chaveiro, cuja função era simular um bichinho de estimação. A criança tinha que alimentar o brinquedo, virtualmente, claro, colocar para dormir e sei lá mais o que. No fim, o bichinho morria se não comesse, morria se não dormisse, morria se ficasse triste, sem brincar. Morria de tudo.

Não sei bem qual era o sentido da coisa toda, porque eu nunca tive um tamagoishi. Aliás, eu nunca tinha o-brinquedo-que-todo-mundo-tem. Eu estava um passo à frente ou um passo atrás da moda. Isso não mudou muito desde então.

O mais importante, no entanto, é perceber que o tamagotshi não é muito diferente do Twitter, do Facebook, do Instagram e desse monte de outras coisas com as quais adoramos “interagir”. Até mesmo o Estado Crônico entra nessa lista. São uns bichinhos virtuais essas redes. Você tem que ficar atento ao que elas querem, alimentar na hora certa, cuidar direitinho para tudo dar certo e aguardar elas crescerem. Do contrário, seu perfil morre, vítima de irrelevância crônica.

Suspeito que o sucesso das sociais esteja associado ao envelhecimento dessa geração, que cresceu brincando de tamagotshi. Claro, não é a mesma coisa, porque hoje, do outro lado daqueles joinhas, estrelinhas e afins, há um ser humano, interagindo com você e experimentando um universo inteiro de sentimentos.

Mas, será que faz tanta diferença assim?

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28
nov

Seu bebê é feio

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Toda a graça e beleza do bebê renascentistaA cena é conhecida. Talvez até testemunhada pelo leitor imaginário mais experiente. A mamãe vestida em uma camisola cujas estampas só não perdem em bom senso para a cortina de casa de tia. A cara de quem não dorme há dezoito noites. E isso é só o ensaio. O pai, ainda invicto na batalha que se inicia, carrega orgulhoso um pacote pelo quarto. Volta e meia, desfaz o embrulho e revela à comitiva de visitantes o novo raminho que acaba de nascer na árvore familiar.

Então, dá-se o momento mágico. Cinco tios, nove primos, a tia-avó que mora em Cataguases, aquele colega da firma, que não queria vir, mas sabe que para essas horas tem que “dar uma atenção”, todo o séquito de visitantes, ao contemplar aquele rostinho fofinho, recém inaugurado, exclama em uníssono.

“Meu deus! Que coisa mais linda!”

Ah… Como é falsa a humanidade. Mas, é dever de ofício deste cronista, sincero que só beata se confessando em leito de morte, colocar a verdade no berço. Não, minha cara leitora imaginária. Ele não é bonito. Sinto muito decepcionar, sei que a noite não foi fácil e os próximos dias puro padecimento no paraíso. Mas não dá para iniciar essa jornada tão bonita em uma ilusão estética.

Seu bebê é feio.

Sei que ele é fofo, cutch-cutch e uma gracinha. O mais bochechudo das galáxias. Mas bonito é que ele não é. Bonito é outra coisa. E,  para que não fiquem as mamães e papais decepcionados, aviso logo. Ser feio não é exclusividade do seu bebê. Veja, mesmo os pintores renascentistas, tão celebrados pelas belezas que criam, não foram capazes de imaginar um único bebê bonito, registrando o menino santo com cara de baiacu inflado por seguidas vezes. A bem da verdade, o único bebê bonito ainda está para nascer e vai demorar bastante.

Então, não se aborreçam por isso. Feiura passa. Entre o ultrassom-4D-multicolor, onde a criança aparece com a cara de massinha de modelar, e o recém nascido, há uma evolução estética considerável. Beleza toma tempo. Gente demora a amadurar, virar gente mesmo. Enquanto isso, é aguentar aquela rostinho oscilando entre o azedo e o choro.

P.S.: Marcinha, o Heitorzinho será uma gracinha, tá?

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21
nov

Eu não!

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

facelessNão. Eu não sou isso que você está falando. Não sou mesmo. Sei que às vezes parece. É meu jeito. Mas não, eu não sou nem um pouco. Nem gosto dessas coisas. Sou até ao contrário disso. Ah! Aquilo que eu falei? Pareceu que eu sou, é? Sei. É a maneira que falo as coisas. É mau jeito. Às vezes sou direto demais, sabe? Sinceridade. Ninguém gosta de sinceridade. Mas sincero, isso eu sou. Pode anotar aí! Além do mais aquilo era brincadeira. Eu brinco muito, não me leve a sério. O problema hoje é que todo mundo leva tudo muito a sério. O pessoal precisa relaxar mais, descontrair. Hum… Aquilo que eu fiz? Não, interpretaram errado. Eu estava tentado só mostrar como é para quem é… você sabe, né?, nem vou falar. Era uma forma de dar um exemplo. O que eu queria era o contrário. Interpretam sempre tudo errado. É ao contrário, sabe? Eu faço com uma intenção, mas aí levam para o outro lado. O problema do mundo é esse, ninguém se importa com suas intenções, só com o que parece ser. Que quase sempre não é. E costuma ser ao contrário. Todo mundo julga tudo hoje em dia. Sem prestar atenção no que você realmente queria dizer. Sei que falam que eu sou. É por causa disso aí. Parece, às vezes, pelas coisas que falo. E também por esse meu jeito, mais… Sincero! Meu jeito mais sincero. Mas não, eu não sou nem um pouco. Nem gosto de gente assim, para falar a verdade. Sei que meus amigos são. Eles sim! Mas eu tento dar uns toques neles. É por isso que não corto a amizade. Acho que é importante que eu esteja ali do lado para mostrar para eles como eles estão errados. Mas aí já começam a falar. Diga-me com quem andas… Já sabe, né? Também não é para sair por aí condenando todo mundo. E quer saber? Esse pessoal aí que diz que eu sou. Eles é que são. Fingem que não, disfarçam, tentam colocar a culpa nos outros. Mas a verdade é que no fundo eles são. Não! Não estou condenando ninguém! Eles podem ser, claro. No fundo todo mundo é um pouco, não? Todo mundo dá uma escapada às vezes. Todo mundo é, nem que seja no fundo.

Menos eu. Eu não sou. De jeito nenhum!

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12
jul

Cheiro de chuva

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Rain in Belle-Ile, MonetCom menos de 6 anos de idade, Alice já acreditava possuir habilidades únicas, muito mais especiais que a dos super-heróis da TV. Conseguia, por exemplo, com sua super audição, adivinhar a chegada do pai pelo barulho das chaves em suas grandes mãos ansiosas. Todavia, o superpoder mais exclusivo era secreto. A menina conseguia sentir o cheiro de chuva.

Após os dias mais quentes, quando a tempestade lavava descuidadamente as folhas das árvores e levava o pó acumulado no barro dos telhados de volta ao chão, Alice sentia o perfume da chuva subir como uma brisa fresca. Era como se o ar fora reinventado, só para ser respirado, inédito, pela menina de cotovelos na janela.

Assim, entre todas as habilidades, essa era a mais mágica, porque enchia o mundo de novidade. Por isso, a menina acreditou que precisa dividir o segredo e, em uma tarde de chuva, contou sobre seu superpoder para a avó, a única pessoa no seu mundo que parecia enxergar alguma magia fora da luz azul da televisão.

A velha, com as antigas narinas secas, fungou o ar ao redor e sentenciou a magia à morte. “Cheiro de chuva? Isso não existe menina. É só água, caindo do céu e voltando para o chão. É bonito, mas não tem cheiro.”

Alice, tão criança, confiava nos adultos. Especialmente nos mais velhos. E, após o veredito da avó, passou a ignorar o cheiro bom de depois da chuva. Ainda podia senti-lo, mas tentava não prestar atenção. Deveria ser alguma daquelas coisas que só ela via e entendia. Coisa que não existe, qualquer bobagem. Um dia deixaria de ser menina e era melhor, por antecipação, não se ocupar de criancices.

Mais velha, Alice descobriu muitas coisas. Durante uma enfadonha aula de química, em uma terça-feira quente, aprendeu que o cheiro de chuva existia. Era coisa comprovada e explicada com uma equação complexa para ser entendida. Capaz até de cair na prova. Enfim, não era louca. Ao menos, não por sentir cheiro de chuva.

Deve ter sido de propósito que os deuses lançaram, justo após aquela aula de química, uma chuva, destas perfeitas. Nem fortes, nem fracas, sem ventos, mas de pingos fortes. E o cheiro da chuva subiu do chão, enquanto Alice voltava para casa.

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7
jun

Estraga Magia

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Ah Mister M, o mestre dos estraga magia.Imagine-se o leitor imaginário a assistir ao novo número de um grande mágico. Passa para cá caixa com metade de mulher dentro, passa para lá cartola transbordando coelhos, muitos deles ocupadíssimos em levitar e assanhadamente fazer reaparecer buquês de rosas por trás das orelhas das jovens na plateia.

Ao lado do leitor, a essa hora ainda abandonado pelo cronista na cadeira do teatro, um sujeito assiste aos números, sério, com bloquinho e caneta. Ao fim, vira-se para o leitor imaginário e passa a descrever a maneira como todos aqueles malabarismos mágicos foram montados para enganar o público. Pura ilusão, aponta ele, feita de polias, espelhos, fios transparentes, fundos falsos e cadafalsos.

Está aí, ao lado do leitor imaginário, um espécime cada dia mais comum na fauna humana. O estraga magia.

Trata-se do sujeito que tem explicação para tudo quanto é que pode existir no planetinha Terra. Quiçá na galáxia. Você lá, a se maravilhar com o arco-íris e as miragens no deserto, e ele te explicando sobre a refração da luz nas gotas de água, frequência das ondas luminosas e como tudo isso influencia a revenda de commodities no mercado de tapioca. Quase uma Wikipédia viva, com seu repertório de conhecimento apagando o encantamento de qualquer pequeno milagre cotidiano.

Mas, apesar do hábito da desmitificação, o estraga magia tem lá suas utilidades. Especialmente porque nem todo encanto vem para bem. Assim, você descobre que não deve misturar vinho e Coca-cola, porque o álcool e o gás carbônico, quando misturados, reagem no estomago para se transformarem em ácido carboxílico. E isso dói.

E para desdizer o que disse antes, nem acredito que o estraga magia seja assim tão ruim. Na pior das hipóteses, suas ponderações enciclopédicas podem, no máximo, ser um pé de página na conversa mística. Triste mesmo é quem vê encanto e magia na ignorância.

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25
mar

Aperte Play

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Clique para abrir o site do fotógrafoQuando aprendi a escrever foi como ganhar um grande brinquedo.

Alfabetização é uma coisa meio mágica. De uma hora para outra a criança adquire um sem número de possibilidades para mundo até então fechado. Mas, mesmo com todo encanto que traz a leitura, lembro que era a possibilidade da escrita que mais me enfeitiçava naquele processo.

Depois de entender como se faz a magia da escrita, eu pude, pela primeira vez, mostrar minhas idéias para o grande público. Ainda que, à época, os leitores fossem ainda mais imaginários do que hoje. Na grande maioria das vezes, apenas minha mãe, cuja aprovação invariável dos textos era, para dizer o mínimo, suspeita. Ser escritor foi, provavelmente, a primeira profissão que desejei na vida.

Estranhamente, esse desejo foi esmaecendo. Com o tempo, escrever foi se tornando sempre coisa séria. Escreva bem, menino. Escreva direito, escreva correto, conjugue o verbo na segunda pessoa do plural do pretérito mais-que-perfeito do indicativo (droga de tempo verbal chato). À escrita atribuiu-se sempre alguma utilidade. Escrever para se comunicar, ser claro, passar no vestibular, mandar cartas para a avó (que já tinha morrido e se recusava a ler as missivas), ter bom emprego e redigir contratos infalíveis. Que saco.

Fato é que ninguém disse “escreva por escrever, feito brincadeira, porque é legal e essas idéias malucas que você tem, sei lá, vai que algum doido gosta também e lê, compra a mensagem, dialoga, sabe como é, já vão ser dois malucos juntos.” Essa falta de incentivo à escrita contrasta, aliás, com todas as mensagens que colhi na vida sobre as maravilhas da leitura. “Ler liberta, ler enriquece, ler te dá asas, ler te leva a lugares, ler faz você conseguir namorada bonita e inteligente.”

(Bom, pelo menos a última frase deve ser verdade, o que escusa os arautos da leitura do crime de estelionato, mas já falei minha opinião sobre o tema antes.)

Ainda assim, entre todos os textos perdidos por aí, personagens natimortos e histórias engolidas no mundo esquecido dos livros não escritos, consegui, meio por acaso, chegar a esse blog. Mas, por muito tempo, precisei, de alguma maneira, buscar um discurso que justificasse o tempo perdido nas palavras e a energia gasta com algo que não ia além daqui mesmo (e da cabeça dos leitores imaginários) ou em fazer para que esse algo fosse além do que já era. E isso era uma angústia.

Vejo que não sou muito diferente de outros tantos por aí nessa angústia. Todavia, conscientemente, trabalho, quando escrevo, para me libertar do compromisso de chegar a algum objetivo além da própria atividade. Escrever pela alegria de atirar os pensamentos nessa parede estranha e esperar ver o que vai dar. Até se não for dar nada. O zen da escrita.

P.S.: Enquanto fermentava as idéias para esse texto, uma amiga me mostrou o blog de seu filho de 6 anos. Achei fofo. Aos poucos, nesse mundão grande da Internet, ele toma gosto pela escrita. Queria ter seis anos hoje para poder ter um blog assim e espalhar mais ideias por aí.

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4
dez

A Arte de Voltar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

O Retorno do Filho Pródigo RembrandtDois sentimentos dividem quem volta.

E deixo propositadamente a última palavra sem seu devido adjunto adnominal. Pois não me interessa para onde ou do quê se volta. Basta existir o fenômeno da “volta”, após a ausência prolongada, para o sujeito (o “voltante”) ser dividido por dois sentimentos dispares.

O primeiro é o mais notável. A familiaridade. Reencontrar-se com o que já se conhece. A rigidez da dobradiça da porta de casa, fechada por um mês, que ecoa pelo corredor do prédio o mesmo barulho de todos os rotineiros retornos, gritando “Lar, doce lar”. Daí vem inquestionável conforto, mesmo para aquele que retorna às situações mais desagradáveis. Aliás, tenho a impressão que o apego a familiaridade deve ser ainda maior quando se retorna ao caos. O preso se reconforta na cela, quando vem a saber que eles ainda servem a mesma refeição horrível, a qual se acostumou a comer ao longo da última pena.

Estranhamente, é a mesma familiaridade que, quando em excesso, se torna enfadonha e leva ao tédio. E este, à partida, fenômeno sem o qual não há qualquer retorno. Pois, quem parte vai em busca de uma nova realidade, seja o estranhamento nas planícies desérticas da Mongólia ou o conturbado mar de gente da China.

O que nos leva ao segundo sentimento, o encontro com a novidade. Pois quando se sai para buscar a novidade do outro lado da galáxia, nem se imagina que o retorno será a um lugar diferente.

Mas sempre é.

E o leitor imaginário vai me esfregar o óbvio na cara, dizendo que há muito mais de familiar na volta do que na ida. Verdade. Contudo, eu insisto, porque a novidade do familiar tem que ser buscada nos detalhes. Na grama crescida após a seca, na reforma eterna que é uma mutante constância, na mudança da programação da TV, com o mesmo locutor dando outras notícias, na sutileza de quem respira o ar e percebe a diferença de sua umidade relativa.

Assim, voltar é como viajar para a própria casa. Estranhar-se no lugar familiar. Mas, claro, há quem dirá que nada disso interessa (“Ah! Vá lá dizer que a programação da TV interessa!”). Mas esses voltam sempre para a mesma vidinha desinteressante de sempre. E não há viagem que mude isso.

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31
jul

Norberto, o sistemático

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

NorbertoNorberto gostava de organizar coisas. Na falta de um xingamento melhor, chamavam-lhe de “sistemático”. Aos livros, dava o lugar de acordo com o sobrenome do autor, título, ano de publicação e editora. Os discos, muitos, Norberto organizava pelo estilo musical, de maneira geral. Dentro do estilo, ordenava por nome do artista. Por fim, dentro da subcategoria, pelo ano de lançamento do álbum. Já os filmes eram organizados de maneira ímpar, categorizados em “Filmes com areia”, “Filmes com Canto Gregoriano”, “Filmes de Professor” ou “Filmes bons com finais ruins”.

Enfim, tudo era organizado. Até os negativos das fotografias antigas. Sim, Norberto tinha fotos da época dos negativos, rigorosamente organizados em ordem cronológica. E quando se rendeu a fotografia digital, Norberto mandava imprimir suas imagens em negativos, só para não desordenar sua coleção.

Mas entre tantos catálogos de Norberto, o mais querido era sigiloso e íntimo. Tratava-se de suas lembranças, arquivadas por sentimentos, em um complexo processo mental desenvolvido ao longo de anos de reflexões silenciosas.

Vez ou outra, Norberto passava os dedos pelos arquivos de suas lembranças, apenas para evocar sentimentos. Quando queria sentir-se rejeitado, lembrava do dia em uma praia da Bahia, quando ele disse sim para ouvir um não. Talvez desejasse apenas sentir raiva, então sacava a pasta com a memória de quando foi coagido a mudar seus planos de viagem. Muito frequentemente visitava o arquivo “Tristeza em estado puro”, cujo conteúdo ele não revelava a ninguém, mas envolvia uma caminhada na chuva.

Norberto não sentia saudades. Não precisava, pois possuía todas as lembranças devidamente arquivadas e as vivia novamente.

No entanto, guardou poucas lembranças boas. Portanto, não gostava de conhecer novas pessoas e viver novas experiências. Estava satisfeito com o que tinha. E cada novo encontro poderia bagunçar seu arquivo, misturando aquela pasta “caminhada até o albergue com sol dourado de outono” com outras lembranças.

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19
jul

Fim do Mundo II

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

London Burning 1666Se estou especialmente otimista com o fim do mundo, um ponto em especial me aflige. A possibilidade, cada dia mais remota, de a catástrofe não acontecer no período aprazado. Vai que o evento é adiado, por uma série de questões relacionadas ao planejamento divino, como ausência de recursos para as obras de fim de mundo ou falta de meio de transporte para o deslocamento dos trabalhadores e espectadores do espetáculo (nas esferas celestes a questão é tida como um show pirotécnico – de baixo orçamento).

Imaginem só, todos preparados para o fim do mundo em 21 de dezembro de 2012 e ele não dá as caras. Pior, aparece algumas semanas depois, sem vergonha. Como uma visita que chega sem avisar, quando sua casa está mais bagunçada.

Pois não haverá vexame maior que não poder programar os últimos vestígios da humanidade. Pensem na espécie sucessora do ser humano no domínio do planeta. Seus estudiosos escavarão nossos vestígios, como hoje fazemos com os dinossauros, e tentarão entender nossa cultura.

O fim do mundo fora de hora estragará nossa pouca chance de deixar boa impressão. Nada de desaparecer com os discos de Michel Telo do três-em-um, varrer todos os filmes do Michael Bay para baixo do tapete e esconder os livros de auto-ajuda. Azar nosso, o fogo consumirá até a  extinção, ardiloso que só, o volume de Shakespeare Complete Works e o vinil de Bach.

Vai-se embora também a oportunidade de colocar, sob a pilha de escombros do fim do mundo, um livro bojudo da “Grande e Gloriosa História da Humanidade”, bem editado, sem aqueles tropeços bélicos tão feios.

Que venha o fim do mundo. Mas na data marcada, sem imprevistos!

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6
jul

Fim do Mundo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Buuuum!Entre as tão poucas cartinhas à redação que recebo no escritório do Estado Crônico, uma em especial chamou minha atenção. Tratava-se de uma leitora imaginária, aflita, pois a redução do número de publicações nas últimas semanas poderia significar o fim do blog. “Que farei eu, caro cronista, sem a alegria e diversão de seu texto? Não mais uma pérola de sabedoria semanal, que me livram do tédio existencial…” E por tal caminho seguiam os elogios e angústias da leitora, que, ao meio da leitura, coloquei de lado a carta e agarrei o teclado para escrever novas crônicas.

Assim, para que não reste qualquer dúvida sobre o assunto, esclareço. O Estado Crônico não vai acabar, nem agora, nem tão cedo.

E viverá tanto que, estranhamente, sobrevirá ao mundo, este sim, infelizmente, com data para seu fechar de cortinas já agendada para o final do ano.

Portanto, em que pese a necessidade das crônicas habitualmente acompanharem as variações de humores e interesses do público, considerando que ao fim do mundo não haverá mais leitores, imaginários ou não, decidi antecipar a pauta e falar um pouco sobre o trágico final que se aproxima.

Contudo, como sempre ocorre nos assuntos de alto relevo da humanidade, nessa história há muita confusão e pouca definição. Pois, a dimensão e o alcance do tal fim do mundo ainda são absolutamente desconhecidos e nem a mais pessimista das pessoais deve esperar a súbita explosão dessa esfera, a qual nos habituamos a chamar de Terra. Assim, provavelmente, quem terá seu fim serão os habitantes do planeta, nem sabemos quais, nem quantos, muito menos de que espécie. Veja-se, por exemplo, o que se passou com, George, o último espécime da última tartaruga gigante, cujo falecimento levou ao fim toda sua espécie. Foi o fim do mundo para a turminha deles.

Creio em um fim do mundo mais ameno. Como diria R.E.M., banda que (sintomaticamente) acabou há pouco, “it’s the end of the world as we know it.”

Exatamente diante disso, coloco-me extremamente otimista com relação ao fim do mundo. Afinal, a grande hecatombe que virá trará, provavelmente, uma série de inconvenientes, mas, na mesma medida, exterminará uma série de outros tantos.

Vejam só, as aporrinhações mais cotidianas vão junto com o mundo. Não mais fila de carros para entrar no estacionamento, nem escolha de amaciantes no supermercado. Mas, a grande vantagem de todas será o fim das preocupações mundanas. Ora, se são elas “mundanas”, não podem sobre-existir em um tempo em que o mundo já não mais existe. E, com isso, lá se vão todas as vaidades, anseios de sucesso e prazer instantâneo.

Dessa maneira, meus prezados leitores e leitoras imaginárias, nada de desânimo com o fim do mundo. Vamos acordar com a melhor cara que pudermos usar no dia 21 de dezembro de 2012, data provável para o fatídico evento. E quem viver (se alguém viver, por óbvio) aproveitará nosso planetinha renascido, talvez de nós mesmos.

Aliás, não é assim todo dia?

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