Artigos com ‘Crônicas pequenas’

27
jan

Lente Macro

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

O corpo foi encontrado poucos minutos passados da meia noite. Uma barata, não identificada, em meio ao gramado da quadra. A primeira formiga que por ali chegou não soube apurar a causa mortis, mesmo após verificar em detalhes o corpo e observar a existência de um ferimento corto-contuso no ventre da vítima.

Apesar da prudência e dos cuidados investigativos naturalmente exigidos pela gravidade do caso, a formiga não se interessou por aguardar a polícia técnica e, com vistas a evitar o formigueiro concorrente, chamou suas amigas para iniciarem juntas o trabalho de remoção.

Em minutos, um silencioso cortejo fúnebre cruzava o gramado. Equilibrado no alto de cuidadosas operárias, o corpo era levado ao sepulcro final na entrada do formigueiro. Mas, anunciada com breves gotas, uma chuva torrencial lavou o caminho longo e tortuoso da coveiras do jardim. E onde antes era apenas grama, surgiram rios caudalosos e fendas abismais. O complexo trabalho de engenharia necessário para vencer os obstáculos passou a ser observado ao longe por um interessado roedor, cuja gula só foi afastada em virtude do gato errante, morador perene da região e chefe da quadra.

No entanto, o primeiro raio de sol despertou um bem-te-vi de seu recluso galho no primeiro andar da mangueira. Os olhos treinados avistaram a trilha de formigas carpideiras. E, antes que elas chegassem à proteção de seus escuros túneis, com uma revoada, dois passinhos e uma bicada, o corpo-troféu, voou carregado pelos ares, esvaziando todo os esforço da madrugada empenhado pelo forte corpo operário do formigueiro.

Durante o dia, as empregas, as estudantes uniformizadas, as estudantes não uniformizadas, os engravatados das autarquias, o zelador, os maconheiros vespertinos, a equipe de cortadores de grama, o pessoal da capoeira, o entregador de móveis atrasados, ninguém percebeu o movimento insignificante do gramado, todos afogados em seus pensamentos de grandeza, muito maiores que o universo inteiro.

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16
jan

You know my name, look up my number

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Houve uma época que este escriba passava longas tardes macias entre masmorras e dragões, brincando no que o mundo se acostumou a chamar de Role Playing Game. Mais do que a aventura vivida no universo imaginado do jogo, fascinava-me a criação dos personagens de tal forma que a coisa toda para mim tornou-se um grande catálogo telefônico, cheio de nomes e números, mas com muito pouca história.

À leitora imaginária não-nerd, explico como era feito o processo de divinamente gerar um personagem a partir do barro de idéias. Primeiro, era dado ao jogador um certo número de pontos, a serem distribuídos em atributos básicos. Força, destreza, inteligência e carisma, por exemplo. A idéia principal era esboçar alguma personalidade nestas características, evitando um psdbista equilíbrio de pontos. Você queria se transformar em um grande gênio? Gastasse lá uns bons pontos em inteligência. Ou a vontade era de um personagem com mais lábia que o Silvio Santos? Invista no carisma e vá convencer leão à dieta vegan.

Mas a coisa não termina aí, pois ainda falta o tempero. Com os pontinhos restantes, o personagem ganha algumas qualidades especiais. Facilidade para aprender idiomas, por exemplo, custa uns pontos, mas transforma o sujeito em um poliglota natural. Todavia, como o cobertor é curto, você deve querer acrescentar alguns defeitos à pessoa imaginada. Assim, coloca-lhe uns desvio de caráter que lhe dão um saldo de pontos, a serem usados em mais vantagens. Eu, por exemplo, adoro a teimosia de meus personagens, hábeis em encasquetar com uma mania até o fim da aventura. Mesmo problema, aliás, que lhes obrigava a tentar convencer todos sobre suas opiniões.

Fato é que sempre achei os personagens de RPG parecidos com os humanos. Vejo por aí que somos meio assim, cada um com um acréscimo de características, qualidades e defeitos, que ao fim, resultam em um somatório de pontos. Mas, se no RPG, todos possuíam um mesmo saldo formidável para gastar na distribuição, os humanos possuem cada uma quantidade reduzida de pontos. Assim, para múltiplas qualidades, surgem defeitos aqui e acolá. Claro, há quem seja capaz de apreciar Bergman e escalar o Everest, imparidade apaixonante de características, que merece ser logo registrada.

E, como o Estado Crônico é nada e um pouco de tudo ao mesmo tempo, arrisco-me a deixar aos doutos leitores um conselho daqueles de livro best-seller, para quem busca de realização pessoal, profissional, social, emocional e dinheiral. Descubra seu número. Os defeitos parecem menos pesados quando surgem como custo de outras habilidades. E, se no caminho prateleira de auto-ajuda, você tropeçar com uma pessoa que tenha exatamente seu número, não saia mais do lado dela. Mas não se esqueça de correr na ficha do personagem e acrescentar como bônus o item “sorte” a sua lista qualidades.

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6
jan

2012 descendo a ladeira

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Então está aí o leitor imaginário, já no fim da primeira-semana-do-ano, portador orgulhoso de sua lista de planos para 2012, cheia de clichês, mas feita no capricho. Lá estão, com quadradinhos na frente para serem ticados conforme a tarefa for cumprida, os mais aspirados desejos do ano. Pagar a academia para não malhar, malhar a academia para não pagar, não pagar a academia para não malhar e, sendo esta a última hipótese, no insucesso das demais, pagar a academia para malhar. Ah! Mas, corpo são, mente sã. Assim, assoma-se às atividades físicas o plano de engrandecer-se intelectualmente. Planeja o leitor adicionar a seu já vasto cabedal literário uma série de leituras, todas aptas a iluminar o caminho da sabedoria.

Sorte de meu leitor imaginário, com seus planos prontos. Pois o escriba, assoberbado nessa coisa toda de viver, comer, trabalhar e ir ao zoológico no domingo dar pipoca aos macacos (não pode, mas eu o faço por respeito às referências musicais), ainda não teve uma mísera réstia de tempo para reduzir a termo todo os planos para o ano seguinte.

E assim vai que o ano, começado meio desplanejado, em neologismo impróprio, grifado de vermelho pelo editor de textos, seguirá em ritmo acelerado e, antes que se possa afirmar, com habitual tradição, que o ano-está-passando-rápido-demais, eu ficarei encalacrado entre os afazeres, sem poder determinar, com aquele sábio distanciamento temporal preventivo, quais serão minhas próximas atitudes.

Assim, as coisas mais simples e modorrentas se misturarão com as mais complicadas e maneirosas. Colocarei nos planos viajar para o Nepal, mas não sem antes consertar a torneira do banheiro, cujo gotejar sem fim me faz engolir um nó de culpa todas as vezes que alguém alarma o fim dos mananciais de água doce no mundo. Tentarei salvar a Mata Atlântica, mas antes preciso lembrar de responder todos as mensagens dos leitores do Estado Crônico (infelizmente poucos, razão pela qual a tarefa não deveria ser absorvida pela falta de tempo).

E no campo literário a bagunça se fará melhor e maior. Grande Sertão Veredas aguardará sua vez de leitura. Todo satisfeito, abrirá seus bracinhos de papel em pedido de colo num sofá confortável, na tarde preguiçosa de um sábado que não existe. Nonada. Casa Grande & Senzala finalmente desempacará da fila ou persistirá em sua situação de melhor livro ainda não lido? E, finalmente, os, até agora 5, tijolos de Crônicas de Fogo e Gelo ainda pretendem ter uma chance, mais pelo burburinho do que pela vontade do cronista.

E com tudo, last but not least, para não deixar o leitor apreensivo e irritado com o anglicanismo bobinho, há sempre o plano de manter o Estado Crônico atualizado como um periódico eletrônico de fofoca de celebridades, com mais posts do que lista de discussão sobre política e um estoque de crônicas que faria de Nelson Rodrigues um invejoso escrivinhador. É bastante coisa. Tudo bem bagunçado e sem prioridades. Na mistura, viram os planos e metas meros pactos de diretrizes, repletos de contradições. E se o leitor goza da felicidade de uma listinha de fim de ano, o cronista prosseguirá no dia a dia, a vida de improviso, com quem atravessa a rua fora da faixa para pegar o ônibus de portas quase fechando.

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30
dez

Pergunta indiscreta

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Não tenho bem certeza sobre quem percebeu o grau de periculosidade da curiosidade felina, capaz de eliminar suas sete vidas em uma única tacada, e cunhou o adágio. Fato é que, se a curiosidade felina é fatal, perde em muito para a humana, pelo menos no grau de indiscrição.

Antes que o leitor imaginário se confunda, digo logo que não trato aqui daquela curiosidade tão válida para o desenvolvimento humano. A mesma responsável por ter colocado o homem na Lua só para buscar umas pedrinhas ou por ter impulsionado as velas de Colombo até os costados de uma suposta Índia. Falo de uma curiosidade que se transmuta em um misto de intimidade e mesquinharia, sem a mínima razão aparente.

Estranhamente, as perguntas inexplicáveis crescem em número nestas épocas de festividades. Você viu o sujeito duas vezes na vida. Uma de relance no elevador, outra com breve aceno na garagem. Fosse em qualquer época do ano mais modorrenta, o terceiro encontro seria apenas um cumprimento de cabeças, Pois, nesta época a conversa logo se inicia com um “E aí, onde vai passar o Reveillon?”. E parasse aí, tudo estaria bem. Mas o papo, como qualquer outro, pode evoluir sempre para ponderações mais íntimas a cada frase. No fim, após explicar porque a sogra também vai, junto com a prima distante de Leopoldina, duas pessoas cujo ódio recíproco é cultivado há anos, você ainda terá que justificar a absurda escolha de uma pousada em Caraguatatuba, a 17 quilômetros da praia, com 22 lances de escada até o quarto.

Como o cronista é sujeito de boa vontade, põe fé que a alteração no comportamento seja algum fruto dos ventos de otimismo que sopram nesta época e inspiram a comunidade a viver em alguma espécie de fraternidade forçada. Assim, a pergunta, que outrora seria pura intromissão na vida alheia, é vista como óleo para azeitar a máquina do convívio humano e tornar a coisa toda mais colorida.

Todavia, por mais que cheio de boas inspirações o cronista seja, não há como negar que, muitas vezes, a curiosidade ultrapassa, muitas vezes, o bom senso humano. Ao fim, só me resta, na minha cabeça prática, questionar para quê fazer uma pergunta se não há interesse na resposta. Assim, deixo a curiosidade para os gatos, que se enfiam o focinho onde não são chamados, ao menos têm narizes vermelhos e bonitinhos.

P.S.: Peço desculpas pela falta de periodicidade dos últimos textos. Mas a redação do Estado Crônico mudou de sede e ainda estou a arrumar papéis e rascunhos. Até ano que vem!

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25
nov

No meu tempo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Albert Ank avô conta história 1884Creio que ainda não tenha relatado aos leitores imaginários sobre meus, também imaginários, futuros netos. São todos bonitos, inteligentes e fofos, pois saíram ao avô, que guarda tais características em abundância. Sentam-se habitualmente ao meu redor e escutam, atentos e maravilhados, histórias sobre um longínquo tempo, do qual eu sou uma das poucas testemunhas vivas.

Enganam-se vocês ao prever, como eu fiz, que o maior espanto vem no momento que conto sobre a época quando não havia as Internets. A primeira vez que fiz tal relato, eles balançaram as cabecinhas, com aquela cara de “jáseijásei”, como quem escuta uma conversa tão repetida que já se transformou em uma alegoria de si mesma.

Eles, por mais inusitado que pareça, gostam de ouvir sobre os hábitos que existiam e desapareceram com o tempo. Falo, por exemplo, sobre como fui criado lendo jornais, entregues diariamente em minha casa por um sujeito de motorcicleta. No atraso do exemplar matinal, eu telefonava (algo que precisou ser esclarecido) para reclamar. Quando explico que o hábito da leitura dos periódicos me inspirou a, anos depois, ter um site de crônicas, eles acham incrível. Pedem para ler os textos e se divertem com alguns. Não entendem, por exemplo, porque eu falei sobre um cara chamado Steve Jobs, tampouco o porque de tantos textos sobre coisas passageiras.

Mas são os escritos mais simples que lhes encantam. Gostam dos textos sobre pessoas que vejo por aí no metrô e no parque. Tentam entender porque me preocupei tanto um tempo sobre a tristeza e felicidade. A neta que mais saiu à avó, quieta de olhos vivos, pergunta qual é meu tempero predileto. Eu digo que não são os temperos que me encantam, mas seu aroma, sabor e energia.

Uma das boas vantagens de viver em um mundo que muda tão rápido é acumular histórias para meus futuros netos. Mas eles não querem saber sobre como foi a vitória na Copa de 2014 ou sobre como funcionavam as impressoras matriciais. Vivem no varejo, em busca de histórias que lhes expliquem quem são. No máximo perguntam onde eu estava quando o mundo acabou e recomeçou.

São meio estranhos esses meus netos.

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18
nov

No Parque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

pipaTalvez quem veja Alberto no Parque Vila Lobos enxergue uma pessoa solitária. Ou, talvez não enxergue ninguém em especial. Agachado, nos fones de ouvido Fool on the Hill, nas mãos sua câmera por companhia, a única aproximação do tumulto das brincadeiras infantis é pela objetiva. Um olho semi-serrado. O outro captura cenas mudas, cujo som perde-se na distância.

Pensa, seriamente, em abordar a dupla de pai e filho que, ao longe, tenta empinar uma pipa. Mas a interrupção arruinaria a fotografia, que está composta em sua cabeça muito antes da cena acontecer. Assim, o sigilo faz parte de sua arte, que registra o mundo sem o peso do olhar.

Enfim, o pai, com o carretel na mão, fica em primeiro plano, no lado esquerdo do quadro. A linha traça uma diagonal até o ponto de fuga, onde o menino segura a pipa no alto. Na ponta dos pés, o garoto estica o corpo ao máximo, como se os centímetros a mais de sua elasticidade fosse a diferença entre uma decolagem mal sucedida e um vôo perfeito do brinquedo.

A imagem não dura um segundo e logo a pipa sobe. Alberto consegue registrar o quadro perfeito, (f5, 1/500s, ISO 100, 120mm). O vento ajuda a todos e lança uma pequena brisa. Suficiente apenas para mover a rabiola e os cabelos da criança na hora do disparo e lançar a pipa em seu vôo.

Como disse, há quem diga que Alberto é um sujeito solitário, com sua mania de ser mero expectador do mundo. Em verdade, para afastar essa impressão, seria necessário se aproximar de Alberto e conhecer a multiplicidade de mundos registrados nas cenas guardadas pelo olhar silencioso da objetiva. Mas, para tanto, há que se vencer muitas barreiras e, antes de qualquer sucesso, Alberto já teria guardado seu equipamento e abandonado o parque.

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11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

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19
out

Chega de Saudade

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Chagall PromenadeSegundo descobri recentemente, os esquimós têm doze mais de quarenta palavras para conceituar a neve. Pudera, eles têm bastante neve para trabalhar. Neve no chão, neve de fazer casa, neve de derreter e beber, neve de brincar e neve de fazer boneco de neve. Assim, pode parecer estranho o fato de ser o português a única língua que possui uma palavra para definir, com precisão, a saudade.

Mas, se eu encontro o danado que inventou a palavra, pego ele! Porque o sujeito criou uma coisa sem a qual, até aquele momento, todos conseguiam viver.

Basta ver que os grandes cientistas, enluvados em jalecos brancos, afirma ser a saudade um sentimento muito difícil de ser encontrado na natureza em estado puro. Normalmente, vem acompanhada de uma série outras impurezas que a contaminam e tornam sua apreciação quase impossível.

Veja-se, por exemplo, a saudade de quem já partiu para sempre. Impossível ser um sentimento puro, pois está misturada com tristeza e dor. Tampouco a nostalgia pode ser colocada simples saudade, pois, como informa a etimologia, é oriunda da junção das palavras gregas nostos (regresso) e algos (dor). Portanto, é, no máximo, uma saudade projetada ao passado, temperada, talvez, com uma decepção com o presente.

Assim, segundo apurou o cronista, em entrevista com os mais doutos cientistas dos sentimentos, apenas os mais vigorosos emocionalmente estão realmente aptos a sentir saudade pura e simples. Saudade que surge não de solidão ou insegurança, mas de simples ausência, temporária ou não. Como uma comichão pelo futuro, com a qual você até se acostuma, mas nunca pára de coçar.

Sorte daquele que é capaz de sentir pura saudade. Azar daquele que a sente.

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23
set

Donald x Gastão

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Donald x GastãoNão importa o quanto os sábios sociólogos, economistas, biólogos e estatísticos consigam dividir, subdividir, categorizar e classificar os humanos, eu, imbuído de profundos estudos em antropologia de revista em quadrinhos, afirmo que só há dois tipos de pessoas. Os Pato Donalds e os Gastãos. E antes que o leitor imaginário mais reprovador balance a cabeça em desacordo, indignado com mais uma de minhas idéias estapafúrdias, aviso logo que no último parágrafo, me desdirei, sem, contudo, me contradizer.

O Pato Donald é velho conhecido de infância e o mais famoso dos patos, dispensando apresentações adicionais. No entanto, sua fama do lado de cá das páginas não corresponde à sorte que tem de dentro da história. Donald é azarado como poucos. Cuida de três sobrinhos travessos e atentados, vive um namoro de eterno pegar na mão com a Margarida e, mesmo sendo parente próximo do pato mais rico do mundo, vive na chutando lata. Tanto pior, aliás, pois quando se coloca a trabalhar para o tio, acaba por ser explorado até a última força, como o mais espoliado dos proletários.

Gastão é o contraponto exato de Donald. Dono da maior sorte do mundo, não precisa fazer nada se manter, pois simplesmente tropeça no dinheiro. Consegue as melhores barbadas sem nenhum esforço. O tipo de cara que chega naquele restaurante com fila de espera de horas e consegue a melhor mesa, por estar na hora certa, no lugar certo. É, enfim, um abençoado pelo cosmos.

Os dois são parentes próximos, da mesma família e, provavelmente, com condições equivalentes de vida, não fosse o absurdo azar de um e a incrível do outro.

Há, portanto, apenas dois tipos de pessoas no mundo. Como Donald, o sujeito está na base da cadeia que alimenta os fluxos aleatórios de fortuna. Não digo que não chegará a lugar nenhum da vida, um eterno gauche drummoniano. Mas precisará do dobro de esforço para conseguir a metade dos lucros. Já os Gastões são os peixes grandes do mundo. Mas antes que se reduza o pensamento exclusivamente ao vil metal, esclarece-se que nas menores coisas também é possível notar a diferença. Na hora de parar o carro no shopping, conseguir a fila mais rápida do supermercado e ser sorteado no melhor brinde na festa de final de ano da empresa.

Mas há algo de especial em ser um Pato Donald. Talvez os leitores imaginários menos conhecedores do universo Disney não saibam, mas o pato mais famoso tem uma identidade secreta. Veste-se de Super Pato e, na calada da noite, torna-se o grande herói mascarado Patópolis. Uma glória clandestina, como bem cabe a nós, formiguinhas do mundo, com nossas conquistas insignificantes do cotidiano. Sem pódio ou beijo de namorada. Mas talvez com um conforto inexplicável. E injustificável.

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16
set

Se arrependimento matasse…

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Cachorro arrependidoNão se pode falar que meu pai seja alguém de opiniões voláteis. Mas a facilidade com que ele se arrepende de suas escolhas garantiu-lhe um bordão: “ah! Se arrependimento matasse!” Pois, chega ele com um saquinho de parafusos, confere que eles não cabem nas buchas e, lá vem a frase. Ou, experimenta uma nova marca de margarina, não gosta, solta outra vez o regozijo pela ausência de fatalidade no arrependimento.

É pai, ainda bem que arrependimento não mata. Do contrário eu seria órfão faz tempo.

Em que pese a ausência de punição pelo arrependimento, não parece ser esta uma das condutas mais na moda. No mundo super colorido de alegria infinita, os gurus da prateleira de auto-ajuda já proclamaram a morte do arrependimento como alternativa para a vida saudável, bacana, feliz e cheia daquele otimismo solar de propaganda de pasta de dente.

E os contentes de plantão têm mesmo seus motivos para se afastar do arrependimento. Longe da beleza do ideal cristão, não é fácil cultivar o sentimento com a sabedoria de meu pai. Olhar para a trás e se arrepender equivale a jogar lama no passada, perceber a inutilidade e o equívoco das escolhas pretéritas.

Claro, há, também, quem olhe para trás com uma pontada de arrependimento e consiga ver que sem um tropeço de um lado ou outro, não dava para chegar até está. Uma versão mais polida e orgulhosa do arrependimento, que, como bem notou Oscar Wilde, alguns dão o nome de experiência.

Verdade é que arrependimento é meio como cachorro que ladra, mas não morde. Põe mais medo que causa malefício. Você se põe na encruzilhada e oscila entre duas trilhas. Horas de indecisão com medo do monstro do arrependimento. Mas, no futuro, o monstro vira um bichinho de estimação e você passa a acariciá-lo, para aplacar o descontentamento com o presente.

Por outro lado, influenciado pela sabedoria paterna, sigo a corrente minoritária e, diante da ausência de punibilidade pelo fato, arrependo-me a todo o momento de muitas escolhas. Desde escolher uma camisa com uma cor tão escalafobética para ir a festa de formatura, até ter viajado tão pouco em tanto tempo. Melhor assim, carregando a voz do arrependimento no ombro, para colocar bastante pensamento nas decisões. Afinal, ruim não é se arrepender, é errar.

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