Artigos com ‘Crônicas para divertir’

27
jan

Lente Macro

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

O corpo foi encontrado poucos minutos passados da meia noite. Uma barata, não identificada, em meio ao gramado da quadra. A primeira formiga que por ali chegou não soube apurar a causa mortis, mesmo após verificar em detalhes o corpo e observar a existência de um ferimento corto-contuso no ventre da vítima.

Apesar da prudência e dos cuidados investigativos naturalmente exigidos pela gravidade do caso, a formiga não se interessou por aguardar a polícia técnica e, com vistas a evitar o formigueiro concorrente, chamou suas amigas para iniciarem juntas o trabalho de remoção.

Em minutos, um silencioso cortejo fúnebre cruzava o gramado. Equilibrado no alto de cuidadosas operárias, o corpo era levado ao sepulcro final na entrada do formigueiro. Mas, anunciada com breves gotas, uma chuva torrencial lavou o caminho longo e tortuoso da coveiras do jardim. E onde antes era apenas grama, surgiram rios caudalosos e fendas abismais. O complexo trabalho de engenharia necessário para vencer os obstáculos passou a ser observado ao longe por um interessado roedor, cuja gula só foi afastada em virtude do gato errante, morador perene da região e chefe da quadra.

No entanto, o primeiro raio de sol despertou um bem-te-vi de seu recluso galho no primeiro andar da mangueira. Os olhos treinados avistaram a trilha de formigas carpideiras. E, antes que elas chegassem à proteção de seus escuros túneis, com uma revoada, dois passinhos e uma bicada, o corpo-troféu, voou carregado pelos ares, esvaziando todo os esforço da madrugada empenhado pelo forte corpo operário do formigueiro.

Durante o dia, as empregas, as estudantes uniformizadas, as estudantes não uniformizadas, os engravatados das autarquias, o zelador, os maconheiros vespertinos, a equipe de cortadores de grama, o pessoal da capoeira, o entregador de móveis atrasados, ninguém percebeu o movimento insignificante do gramado, todos afogados em seus pensamentos de grandeza, muito maiores que o universo inteiro.

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11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

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14
out

De mau com o tempo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Relógio estragadoBriguei com o tempo. Estamos de relações cortadas até última ordem, mas, creio, nosso rompimento será definitivo. A bem da verdade, nossa relação não foi das mais harmoniosas, como podia parecer a quem olhasse de fora a vida deste cronista (atenção especial à etimologia da palavra!). Mas, diante dos últimos acontecimentos, parti para uma solução radical. Não converso mais com o pai tempo.

Não se engane o leitor imaginário, com idéias de que se trata de mais um daqueles pequenos desentendimentos, típicos de relacionamentos longos, como o que tivemos nos últimos trinta anos. Não é uma briguinha como quando ficamos preso no trânsito e o tempo até a hora do vôo parece passar rápido como nunca. Coisa esquecida logo quando se senta na cadeira do avião.

Infelizmente, nossa briga foi mais grave. E, em como todo desentendimento, a culpa foi não foi minha. Pois, estive sempre acostumado a uma passagem do tempo em um ritmo, que se era tão lento como eu gostaria, tampouco era uma flecha que transforma o mundo em um borrão.

Mas então, confiando na constância do tempo, coloquei-me a esperar um grande acontecimento. Nada demais, três semanas e já estaria tudo resolvido. Sentei-me confortável no sofá, abri um livro, virei para o lado, mirei forte os olhos do pai tempo e disse-lhe, “faz seu trabalho daí, que eu fico quietinho por aqui”. Ah! Mas, como um cachorro que sente seu medo, ele percebeu a ansiedade no meu sorriso disfarçado. E desde então, passou da maneira mais devagar possível. Melhor, estancou, por pura provocação. Minutos arrastam-se pesados, horas viram dias e semanas, meus caros, são tão grandes que cabem dentro de si mesmas. Qualquer atividade que, antes, tomava horas, subitamente agora parece se completar em um instante, só para me deixar com cara de bobo entendiado.

Então, pergunto aos meus leitores imaginários. Que fazer diante de tamanha malícia do tempo? Briguei, feito criança mimada. Não converso, não mando bilhetinho e, se ele ligar me procurando para fazer as pazes, não atendo. Agora quero que o tempo viva na dele, passe no ritmo que bem entender e vá atazanar a vida de outro. Mas claro, sei que provavelmente terei que, cedo ou tarde, me reconciliar. Afinal, o grande mistério de uma vida feliz passar por fazer durar lento o tempo de um beijo e acelerar a sua passagem na fila do banco.

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30
set

Avatar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Walrus Goo Goo G'JoobO leitor imaginário, internauta que é (e se não fosse, aqui não estaria), já deve, em algum momento de sua existência virtual, ter sido obrigado a criar por aí seu tal “perfil” em uma rede destas que andam na moda. E deve ainda saber, se não é dos mais novatos no assunto, que a coisa é antiga para quem anda, há mais tempo, tomando bronzeado de luz azul na frente do monitor.

Certo é que, antes de James Cameron inventar seus bichões azuis, esse esforço de criar um avatar em outra dimensão já era coisa recorrente para os internautas. Pois, mesmo com a mais avançada tecnologia astronáutica da rede, você só existirá no mundinho virtual se projetar sua personalidade para ele, preferencialmente de alguma maneira mais ou menos controlada.

Claro, poliram a brincadeira com o tempo. No período pré-cambriano da Internet, quando o IRC era a coisa mais moderna da galáxia, sua liberdade criativa para formar o avatar se limitava à escolha de um nome, o bom e velho nickname. Eu, como sou fã dos Beatles e meio maluco (olha a redundância!), auto proclamei-me Walrus, em referência direta à música (goo goo g’joob) e indireta à Lewis Carol. Bom, era só um nome. Todavia, com uma meia dúzia de linhas de bazófia, tinha-se um personagem, meio esquisito, mas pronto para usar, na chatesfera.

Hoje a coisa “evoluiu” bastante. Você preenche um breve cadastro na rede, que lhe pergunta apenas nome, sobrenome, estado civil, CIC, cor do olho direito, hobby, filmes preferidos, passagens prediletas do Grande Sertão Veredas, angulação do estrabismo ocular, circunferência do dedo anelar (direito e esquerdo, afinal o estado civil pode mudar), quantidade de tempo que equilibra um cabo de vassoura no indicador e comprimento do antebraço. Com estes pequenos questionamentos, acrescidos à possibilidade de colocar a foto do papagaio da vizinha, filme com o batizado do primo do cunhado e todas as delícias do compartilhamento digital, é de se esperar que seu lindo perfil do lado de cá corresponda mais com o que temos do lado de lá (estejam e onde você, leitor, preferir).

Mas isso não acontece.

Por mais estranho que seja, enquanto mais ricos de possibilidades, creio que nossos avatares cada dia se parecem menos conosco. Seja lá por qual mistério do misticismo eletrônico, mesmo com meu esforço em fazer um perfil do Twitter e do Facebook, honesto e sincero, que reflita minha cara, a coisa desanda. Quanto mais cera se passa, mais embaçado fica. Olho os demais perfis, comparo as pessoas conhecidas com sua personalidade eletrônica e, ao fim, concluo que não conheço mais ninguém.

Há duas possibilidades para o fenômeno. Em Olhai os Lírios do Campo, o protagonista afirmava gostar de dirigir à noite, pois, com a redução de informações, a estrada ficava mais nítida. Talvez seja isso. Só com nome e idéias em um monitor de fósforo verde, era mais fácil ser sincero. Por outro lado, creio que, hoje, universos virtuais e reais já se misturaram faz tempo. Não dá mais para separar a realidade do que há através do espelho. Assim, as pessoas na Internet são as mesmas fora dela. E eis o problema. A simulação é feita de carne e osso, bem aqui no mundo das saudações forçadas e beijinhos protocolares. Se a sinceridade é virtual, a falsidade é verdadeira.

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22
jul

Chatice

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Gato chatoPor mais duro que possa ser, chega um momento da vida que é necessário se olhar no espelho, esfregar as mãos no rosto e, em grave concentração, assumir a inegável verdade. Eu sou chato. Mas não um pouquinho chato, como quase todo mundo é quando acorda com o nariz entupido. Fala de uma chatice incomensurável, daquelas que me surpreende como alguém consegue tolerar minha modorrenta companhia por mais de dez minutos.

A bem da verdade, dizer-se chato é muito pouco, pois, como todo representante do gênero, entendo que a chatice pode ser classificada em diversas vertentes, cada qual com sua nuance mais evidente, mas igualmente desagradável, em todas das quais eu consigo incorrer, desde já me enquadrando no chato sistemático, com mania de classificar tudo.

Há, por exemplo, o chato monotemático. Já consigo ver o leitor imaginário lá do fundo da sala, de braço levantado empolgado, que se enxergou na categoria. É, você mesmo que só consegue falar dos filhos, do marido/esposa, dos Beatles, da novela da Globo, de futebol, ou, especialmente, de si mesmo. Aliás, a última categoria, do chato egocêntrico, merece um capítulo todo para ela no Grande Manual da Chatice Crônica, ainda a ser escrito.

Em seguida, surge uma categoria meio nebulosa de chatice. O chato feliz. Trata-se daquela criaturinha irritante que está alegre, faça sol na constelação de leão ou chuva ácida de canivete. Suspeito de qualquer pessoa que permaneça sempre feliz, especialmente daqueles que acordam cedo segunda-feira, com um sorriso nos lábios e saem para dar um “exerciciozinho”. É o chato pegajoso, que te conta sempre a mesma piada e ri sozinho. Há, por óbvio, o oposto extremo, o chato infeliz, que, por mais que lhe caiam mil bênçãos do céu, vai reclamar sempre da artrose no mindinho esquerdo do pé. Aí, que saco é isso…

Todavia, em que pese toda a má fama dos chatos, não são eles nem um pouco piores que os legais. E, vez ou outra, desconfio que o mundo só caminhe para a frente porque algum chato viu um defeito onde ninguém mais enxergou, reclamou em uma fila onde todos estavam calados, brigaram na hora em que todos fingiram que não viram. Mas, claro, isto tudo é desculpinha furada para justificar o injustificável. Porque, afinal, chato que é chato não tolera autoindulgência

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1
abr

Mania de Limpeza

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

privadaNão sei nada de biólogo, psicologia ou psiquiatria, mas desconfio que Transtorno Obsessivo Compulsivo, o famoso TOC, seja uma doença que se espalha no ar. Só assim para explicar a preocupação constante com a sujeira que cresceu na sociedade ao longo dos anos. Uma epidemia de higiene, que, na falta de melhor nome, pode ser resumida por mania coletiva de limpeza.

Talvez tenha começado antes, mas o primeiro meio de transmissão desta doença deu-se por inocentes latinhas de bebidas. Eu, que tive minha infância nos perigosos anos oitenta, lembro muito bem que todos tomavam seu refrigerante ou cerveja sem precisar lavar a lata. Bastou uma história sobre não-sei-quem ter morrido não-sei-onde de leptospirose, após beber em uma lata com urina de rato. O mal já estava feito e, desde então, ninguém mais conseguiu tomar seus goles com tranqüilidade se antes não submetesse a lata a um processo de pasteurização.

Com a contaminação crescente, os padrões de higiene precisaram ser elevados a níveis cada dia mais altos. A redução número de microorganismos no sanitário passou a ser questão de segurança nacional. Segundo as propagandas de desinfetantes, os produtos de limpeza usados no banheiro são tão eficientes que, em breve, vai ser mais seguro almoçar usando a privada no lugar do prato.

Mas, o apogeu da epidemia veio apenas recentemente, em forma de álcool gel. Hoje, qualquer estabelecimento de respeito deve ter afixado nas paredes uma borrifador do produto, para manter as mãos dos consumidores constantemente limpas. Suspeita-se, inclusive, que o governo em breve tomará medidas para tornar o álcool gel item da cesta básica e obrigará todos a tomar banhos diários em uma solução gosmenta.

Não há cura conhecida para a epidemia de limpeza, tendo em vista seu agente transmissor é absolutamente invulnerável a qualquer substância conhecida pela humanidade. Mas, se você tiver dinheiro suficiente, pode comprar o mais novo desinfetante, capaz de, com uma única gota, exterminar toda a fauna do oceano atlântico. E, o mais estranho em tudo isso, é que, com toda nossa desenvolvida tecnologia, não consigo enxergar o mundo mais limpo. Mas, devem ser meus óculos, que podem estar sujos.

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25
mar

Ganhe R$ 100,00 para ler este texto!

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Como todo bom mineiro, só arrisco quando tenho certeza. Da mesma forma, sou dotado de olhar sagáz e de cara de sujeito esperto. Assim, é uma grande contradição o fato de eu ser vítima de toda sorte de golpista aleatório. Basta que surja um golpe novo na praça, aplicado contra velhinhos inocentes e criancinhas impúberes, para que eu caia sem tempo.

Esta conclusão veio recentemente, ao ler um texto sobre o Golpe do Americano. O tipo chegou perto de mim com um duiuispiqueinglichi e contou, em um inglês de fazer inveja, uma história triste. Foi assaltado, apanhou da polícia, roubaram todo seu dinheiro, documentos e coisa e tal. Precisava de uns trocados para o taxi ou qualquer outra coisa que o valha. Pois, pior do que cair no golpe, eu só descobri que era armação quando vi um relato semelhante. Até então eu me dava por satisfeito, como se aquele tivesse sido um dos raros momentos de bondade do meu coração

O leitor imaginário já deve conhecer os golpes mais típicos que circulam por aí e, como não é bobo como o presente escrivinhador, deve ter se safado de todos eles. Mas, nível de bobeira à parte, deve-se concordar que os golpistas, geralmente, apelam para dois sentimentos contraditórios. Primeiro, vem a ganância. O golpe do bilhete premiado é um deles. O título deste post é outro. Acompanhada de uma leve pitada de má-fé, a vontade de levar vantagem sempre leva muita gente a investir em pirâmides que prometem fortunas e depositar dinheiro em contas de estelionatários.

No entanto, há quem seja vacinado contra este tipo de golpe. Eu, por exemplo, não acredito nem em promoção de supermercado, quanto mais em algum esquema para ficar rico rápido. Assim, há outra vertente de golpista, muito mais cruel, que apela para a boa-fé alheia. O safado se faz de sofredor, fala que está sem comer, beber e… (você já antecipou lá no início da história), pede dinheiro, nem que seja um pouquinho, só um trocado para completar a passagem para Itapopoca. Neste momento, o verdadeiro trouxa está em um dilema moral. Pode dar o dinheiro e ser enganado ou pode negar. Na última hipótese, será consumido de remorso por não ter ajudado alguém que precisava. Na primeira, se sentirá um idiota. Diante da dubiedade da situação, inicia-se uma barganha de mercado marroquinho. Dá-se uma desculpa aqui (“estou com pouco trocado, aceita cartão?”), uma enrolada ali, e o golpista leva menos do que queria e mais do que merecia.

Mas, nem tudo está perdido. Se você é uma vítima habitual de golpes, deve se juntar a mim em um esforço. Vamos nos unir em um desses grupos de ajuda coletivos e dividir nossa experiência. Você poderá se levantar e fazer seu relato (“Meu nome é Pedro Bó e sou um tonto”) para pessoas com o mesmo problema. Rapidamente aprenderá técnicas avançadas de esperteza e descobrirá como ficar do lado certo da Lei de Gerson. Para fazer a matrícula, basta depositar qualquer trocado na minha conta corrente.

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11
mar

Abre a rodinha

   Postado por Carlos Goettenauer  em Blog para ele mesmo, Crônicas

rodinhaViva o leitor imaginário onde viver, tenho certeza que, em qualquer passeio pela região central de sua cidade, poderá testemunhar um aglomeradinho de pessoas, em círculo, olhando curiosas as peripécias desempenhadas algum desses personagens aleatórios das ruas. É a rodinha de curiosos, um fenômeno até agora relegado ao esquecimento pela sociologia, cuja análise merece uma tese de mestrado a ser desenvolvida no botequim mais próximo.

Como assíduo freqüentador do Centro de São Paulo, já tive oportunidade de testemunhar incontáveis rodinhas de curiosos e conclui que há um sem número de temas que impiradores da aglomeração. O mais freqüente, sem dúvida, é a rodinha circense, na qual um performer faz algum truque que encanta os passantes. Já vi a rodinha da mãozinha, onde uma mão boba anda, inexplicavelmente, sozinha pela rua. No mesmo ramo atua o mágico de rua, que tira coelho da cartola no meio da calçada e, em seguida, passa o instrumento de trabalho (a cartola, não o coelho) para a contribuição dos espectadores.

Não menos famosa são as rodinhas musicais. Seu expoente mais tradicional é o grupo de cantores bolivianos interpretando Yesterday na flautinha de bambu, em uma versão que faria Paul McCartney quebrar o sagrado baixo Hofner de raiva. Suspeito que o grupo seja, na verdade, uma franquia administrada em algum vilarejo andino, que se utiliza de túneis subterrâneos para distribuir CDs de “música típica” no centro de qualquer cidade do mundo.

As rodinhas de rua são tão populares que foram um subgênero musical. Por exemplo, ao lado do sertanejo universitário, vem o sertanejo “de rua”, com as mesmas músicas, mas com um instrumental mais pobre. Ainda merece registro o subgênero da rodinha-musical-mirim, com um cantor infantil, que dubla e dança algum astro do momento ou do passado. Eu mesmo já vi Michael Jackson (re)encarnado em uma pobre menino de uns oito anos, incapaz de repetir qualquer passo de dança com alguma dignidade.

Por mais que existam histórias edificais por aí, ninguém está cantando na rua porque é bom, mas “não teve uma chance no mercado”. Assim, as rodinha musicais são sempre irritantes, com aquele som de autofalante de kit multimídia. Perdem na chatisse apenas para a rodinha do fanático religioso, um tipo também bastante comum, constituída de algum pregador que revela a todos a iminência do fim do mundo ou, na vertente oriental, busca convencer o publico a comprar o Bhagavad-gita em uma edição bem acima do preço.

No entanto, independente da temática, há algo que me obriga a sentir empatia com o protagonista colocado ali no centro. Sozinho, ele tenta chamar para sua atividade a atenção de um universo de pessoas desconhecidas, talvez, para ele, também um pouco imaginárias. Pessoas que por acaso encontram aquele aglomerado de gente e param para ouvir o que acontece. E me coloco a perguntar, não seria um blog a forma moderna, talvez mais polida, da rodinha de curiosos?

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25
fev

Puxadinho

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Puxadinho típico.Como tudo por aqui, a arquitetura brasileira não é fácil de ser apreendida. Um sobrevôo pelo Google Earth revela as modernas curvas da deslocada Brasília, influência quase hegemônica em cada monumento público do país. Mas, com todo respeito ao centenário Oscar, não são suas belas obras a melhor representação da nossa arquitetura. Aqui de baixo, quem anda nestas nossas ruas enxerga que o puxadinho é o expoente máximo das obras brasileiro.

O leitor mais burguês, ultrajado, vai afirmar, provavelmente em expressão cheia de eufemismos, que isso é coisa de pobre. Mas basta lembrar que o puxadinho foi chancelado governo com a criação do “anexo” do Palácio do Planalto. Assim, um passeio pelas cidades revela que as maravilhas da cultura do puxadinho atingem não só a periferia como os condomínios de luxo beira-mar. Taj Mahal, Notre-Dame, Empire State, tudo vira fixinha perto de algumas construções, que desafiam as leis, não só de ordem pública, como a da gravidade. Esta última, aliás, com tristes conseqüências na época de chuvas.

Fruto da incapacidade brasileira de realizar qualquer planejamento superior a trinta minutos, o puxadinho aparece da urgente necessidade surgida com algum acontecimento que, se não podia ser evitado, ao menos poderia ser previsto. Da gravidez da filha adolescente à expansão do trânsito de São Paulo, que criou o inédito puxadinho viário cujo sugestivo nome é Minhocão, tudo é desculpa chamar a turma do mutirão e bater uma laje no domingo. Aliás, só mesmo com essa habilidade gregária alguém consegue conviver em um puxadinho e sua exótica arquitetura, como suíte da filha com vista panorâmica do sofá da sala da casa dos pais (que flagra!) e banheiro com janela para a cozinha e duas portas.Nem o Palácio do Planalto escapou imune à onda dos puxadinhos.

Por outro lado, o puxadinho deixa claro como o brasileiro é capaz de improvisar com criatividade. Tenho um tio cuja casa sofreu tantas mutações ao longo dos anos que o visitante mais desatento poderia entrar no banheiro e se ver na varanda. Uma cozinha deu lugar a um quarto e, com algumas mudanças cujos registros perdi, terminou como uma sala. Até hoje é possível observar uma improvável torneira no meio da estante da TV.

A alma de um povo, seja lá o que isso signifique, está expressa em suas escolhas arquitetônicas. Afinal, vivemos, trabalhamos e, enfim, vivemos em construções. Enquanto os arranha-céus de Nova Iorque, com suas paradoxais curvas quadradas, refletem a arrogância conservadora americana envernizada em luxuosa ousadia, a explosão de luzes multicoloridas de Tóquio nos levam a enxergar o povo japonês diferente da imagem tradicional do oriental discreto. Já o jeitinho brasileiro arquitetônico está conceituado no puxadinho e sua alegre desrespeito pelas normas. Com a Copa do Mundo de 2014 à frente, tenho certeza que vamos testemunhar várias façanhas da construção civil nos próximos anos. É só esperar.

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14
jan

Sonhar não custa nada(?)

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

lotteryNão há melhor lugar para sonhar acordado do que uma agência lotérica. Na fila, você consegue enxergar os balões de desenho animado vagando sobre a cabeça de cada um dos apostadores. Casas de praia, uma viagem ao redor do mundo, uma fazenda e a vida desregrada que todo mundo pediu a Deus. Há claro, os mais conservadores, que calculam quanto dinheiro o prêmio renderia por mês, protegido na poupança. Gente que economiza até na hora de delirar.

Os mais empreendedores, todavia, acreditam ser possível vencer a distância improvável entre o sonho e sua realização por meio de uma escolha correta de números. Eis aí o surgimento de muita angústia desnecessária. Busca-se descobrir a combinação vencedora, por um processo adivinhatório que combina intuição, datas de nascimento dos filhos e um ramo gravemente menosprezado da ciência humana, a estatística de botequim.

Há também que jogue os mesmos números por anos a fio, sob a esperança, sustentada pelo matemático Oswald de Souza, que um dia a combinação mágica acaba sorteada, nem se seja por insistência dos astros. Eu sofro deste mal. Com freqüência me flagro conferido os números de algum sorteio no qual não participei. Tenho um medo terrível de, diante de minha inércia, os deuses da aleatoriedade, inspirados por Murphy, lancem meus números exatamente no momento em que não tenha feito a fezinha. Eu não deixaria de ganhar, como acontece sempre, mas perderia.

Certamente quem disse que sonhar não custa nada nunca freqüentou uma agência lotérica. O preço para tantos sonhos? Uma pechincha. Dois reais capazes de fabricar palácios dourados a partir de seis números e a promessa falaciosa de enriquecimento instantâneo. Por alguns momentos, é possível sair desse mundinho chato e sem graça para viver em uma realidade imaginada. Infelizmente, o destino, capcioso, costuma transformar todo esse sonho em um bilhete amassado na lixeira mais próxima.

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