Artigos com ‘Crônicas da Internet’

6
dez

Tamagotchi

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 6 de dezembro de 2013,  em Crônicas

TamagotchiVou falar agora um negócio entrega-idade. Mas, não tem jeito. Com o tempo a idade acaba se entregando por si mesma.

Pois bem, estava lá eu outro dia no vagão de metrô nosso de cada dia, observando o comportamento dos passageiros. Todos com a cabeça baixa, divertindo-se com aquele aparelhinho de tela colorida, por aqui chamado de celular. Foi quando um vento nostálgico entrou pela janela e me fez recordar de um brinquedo mais antigo.

O leitor imaginário mais jovem não chegou a conhecer, mas foi febre, há algum tempo, um aparelhinho chamado tamagotshi. Era um gadget, ainda que a expressão não existisse à época, não muito maior do que um chaveiro, cuja função era simular um bichinho de estimação. A criança tinha que alimentar o brinquedo, virtualmente, claro, colocar para dormir e sei lá mais o que. No fim, o bichinho morria se não comesse, morria se não dormisse, morria se ficasse triste, sem brincar. Morria de tudo.

Não sei bem qual era o sentido da coisa toda, porque eu nunca tive um tamagoishi. Aliás, eu nunca tinha o-brinquedo-que-todo-mundo-tem. Eu estava um passo à frente ou um passo atrás da moda. Isso não mudou muito desde então.

O mais importante, no entanto, é perceber que o tamagotshi não é muito diferente do Twitter, do Facebook, do Instagram e desse monte de outras coisas com as quais adoramos “interagir”. Até mesmo o Estado Crônico entra nessa lista. São uns bichinhos virtuais essas redes. Você tem que ficar atento ao que elas querem, alimentar na hora certa, cuidar direitinho para tudo dar certo e aguardar elas crescerem. Do contrário, seu perfil morre, vítima de irrelevância crônica.

Suspeito que o sucesso das sociais esteja associado ao envelhecimento dessa geração, que cresceu brincando de tamagotshi. Claro, não é a mesma coisa, porque hoje, do outro lado daqueles joinhas, estrelinhas e afins, há um ser humano, interagindo com você e experimentando um universo inteiro de sentimentos.

Mas, será que faz tanta diferença assim?

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6
out

Insensível ao toque

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 6 de outubro de 2011,  em Crônicas

Steve-Jobs-China-300x300

” i cannot think for myself,
i need to fit on the shelf
and pretend to be one more gadget
something expensive but disposable”

Nanda Fogli

 

Então, morreu Steve Jobs, com direito a cobertura especial nos canais de notícia a cabo, memes, primeiro lugar nos Trend Topics do Twitter. #morreujobs, todos chora. O modo de hipérbole, ligado na regulagem máxima, tão habitual nos falecimentos de celebridades, atinge o ápice extremo e transforma o ex-CEO da Apple no “messias dos novos tempos” (e uso aspas sem precisar citar a fonte, tamanha a enxurrada de exageros). Mas, meus queridos leitores, sempre tão atentos ao mundo das sutilezas, já devem ter notado que, por baixo de toda badalação, there’s one more thing.

Claro, seria demasiada pretensão deste humilde escriba pretender reduzir Steve Jobs a uma função de mero passante do Século XX. Ele pensou produtos inéditos, fez multidões abrirem suas carteiras para comprar modelos mais novos de gadgets, arrebanhou consumidores como ovelhas às iStores, tornou a tecnologia acessível até para sua avó e provavelmente mais uma porção de coisas que eu desconheço. Soube, claro, cobrar mais por tudo isso. Ademais, idealizou a uma das empresas mais lucrativas do mundo.

Daí a dizer que Jobs levou uma revolução ao mundo com sua passagem pelo planeta, meus caros, dá-se um enorme abismo.

Pois, eis que, em sua maior glória, mora a maior limitação de Steve Jobs. Em um mundo fora do campo de distorção criado pelo discurso hagiológico de seus seguidores, a Apple é apenas uma empresa, talvez com método e procedimentos diferente das demais, mas, em essência, rigorosamente igual a qualquer outro negócio. Criam-se e vendem-se produtos, alguns ganham, outros perdem e a vida segue, com menos ou mais dinheiro no bolso e algum celular novo nas mãos.

Entretanto, nem todos os iPhones do mundo tocando juntos poderiam fazer uma revolução. Revoluções são feitas de quebras de estruturas sociais, reagrupamento de classes, destruição e reconstrução nas formas de circulação de renda, cristalização de novos ideais e outras tantas coisas que não cabem nas telas do maior dos iPads. Tivesse Jobs libertado escravos chineses e morrido pobre,sem cabeça, em uma guilhotina, aí então seria merecedor do título de revolucionário.

Longe dos títulos de revolucionário e visionário, Jobs alimentou mais do mesmo, ainda que com admirável habilidade. À espera do novo lançamento de um celular, seguimos vítima de das mesmas mazelas, insensíveis aos múltiplos toques nas telas (in)sensíveis. O mundo que enxerga uma revolução em Steve Jobs é um mundo cego, que caminha triste para consumir a si mesmo na fabricação de mais uma maçã metálica.

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18
fev

Passe adiante

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 18 de fevereiro de 2011,  em Crônicas

Encaminhe esta mensagem para o maior número de pessoasNão é de hoje que o Estado Crônico goza do status de blog mais desconhecido da Internet pátria. Obviamente, nestes tempos de hiper popularidade, o anonimato não agrada ninguém, de maneira que sempre me coloquei às voltas com idéias para divulgar este site. Todavia, certamente fui amaldiçoado por torcer a favor do Coiote durante toda minha vida. Assim, até aqui todos meus planos falharam e permaneço cronista que escreve a leitores imaginários. Há alguns dias, no entanto, fui atingido por uma idéia de simplicidade tão cristalina que, imediatamente, coloquei-me a duvidar de minha inteligência por não ter pensado em algo tão bom antes. Pois bem, iniciarei uma corrente por e-mail para divulgar o blog.

Para tal intento, antes de tudo, é necessário adotar um pseudônimo. Mas não um destes nomes adotados por escritores que pretendem permanecer desconhecidos da massa. Ao contrário! O objetivo é tornar-se cada dia mais famoso. Assim, deve-se utilizar, preliminarmente, o nome de um autor já consagrado. Preferencialmente, alguém que já goza de credibilidade na Internet. No caso em questão, escolhi Luis Fernando Veríssimo, vítima predileta do plágio às avessas. Como cresci lendo suas crônicas diárias no jornal “O Globo” e outros tantos livros com coletâneas de textos, não me seria difícil emular seu estilo e passar-me pelo escritor gaúcho.

A partir de então, basta escolher o tema da minha corrente. Há aí dois grandes gêneros, que podem ser divididos em subgêneros. A um lado temos as mensagens edificantes. Contar como é bom você acordar feliz pela manhã com o barulho da chuva, o cheiro da relva e a passarinhada cantando. Ou recitar que é importante lembrar se das pessoas que amamos e estão ao nosso lado, ou longe, ou no meio termo. Tanto faz. Alguma coisa que narre visitas de anjos e a importância da fé também é válida, mas entrar demais no campo da religião pode diminuir o público e a eficácia da corrente.

Outro grande gênero é o correio de protesto, do qual sou grande admirador. Entra-se no campo da reclamação perpétua. Vale ser contra o governo e os políticos ladrões, contra a programação da tevê brasileira, contra a falta de respeito no trânsito ou de educação das pessoas que não deixam velhinhos usarem os assentos preferenciais. Neste caso, deve-se ter especial atenção para a atualidade do tema. Circula, atualmente, um texto atribuído (adivinhem) ao Luiz Fernando Veríssimo, que fala mal do Big Brother Brasil 2 4 5 7 9 10 11(?!). Quanto sincronismo e percepção desse autor anônimo.

Outra característica do texto-corrente de sucesso é a certeza de opinião. Nada de entrelinhas que possam enfraquecer seu posicionamento. Deve ser adotado um texto reto, preto no branco, sem essas bobagens barrocas que tanto abundam nos livros. Quem quer mudar a vida das pessoas deve ter convicção. As sutilezas literárias são para os autores fracos e leitores incompetentes. Mas, claro, tanta certeza não pode vir acompanhada de veracidade. Assim, qualquer informaçao que sustente a argumentação presente na mensagem deve ser inverídica. Preferencialmente, usa-se histórias críveis e interessantes, sobre crianças que teriam morrido depois de beber Coca-cola na lata suja ou estilistas que não querem suas roupas usadas por latinos.

Por fim, há as maldições a quem não repassa o texto adiante. Sem dúvida, trata-se da melhor parte da corrente. O leitor deve se sentir realmente compelido a apertar o botão de “Repassar a todos”, sob pena de perder a pessoa amada, ter todo o dinheiro confiscado por um plano econômico lançado exclusivamente para lhe sacanear a vida e, ao fim, trocar de sexo acidentalmente, vítima de uma distração no preenchimento de um formulário de plano de saúde. Mortes estúpidas também são válidas e podem ser utilizadas como meio de coerção. É uma espécie de maldição compensação literária. Depois de ter iluminado tanto seu dia, tudo que o texto pede é continuar circulando por aí. Tenho a impressão, inclusive, que o Estado Crônico é tão desconhecido porque esqueci de passar a diante uma corrente em 1997.

Sucesso é mesmo algo curioso. Talvez a maior façanha de um escritor imaginário, como eu, seja conseguir a popularidade de um texto, ainda que este não leve seu nome. Ainda assim, vale lembrar que você leitor deve passar este texto para o maior número de pessoas possível. Em 1943, uma mulher, no estado do Recife, não passou esta corrente adiante e morreu engasgada com uma sombrinha enquanto fazia um complexo movimento do Frevo. Já em 2009, um paulista leu este texto no trabalho e não remeteu a seus contatos. Quando ia para casa, ficou detido em um engarrafamento na Marginal que durou 3 dias. Prestes a sucumbir de desnutrição, já quase sem forças, lembrou-se do texto e utilizou seu celular 3G para repassar a mensagem para toda sua agenda. Tão logo a operação foi concluída, o caminhão tombado foi retirado da pista e o congestionamento se desfez.

Assim, colabore você também para o sucesso do Estado Crônico e utilize os botões abaixo para divulgar este post. Senão…

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8
nov

#MIPI – Movimento Internet Para Internautas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 8 de novembro de 2010,  em Crônicas, Listas infames

Típico usuário atual da INTERNET Para quem é mais jovem pode até parecer ficção, mas houve um tempo em que a Internet era um espaço virtual agradável, propício à troca de informações úteis e ao desenvolvimento intelectual da humanidade. Pode-se dizer que foi a Era de Ouro da redemundialdecomputadores, como era conhecida pela mídia, época em que o mundo cibernético era habitado apenas por um sem número de nerds grandes mentes, denominados Internautas, capazes de domar todas as dificuldades que envolviam transferir arquivos, visitar websites e papear no mIRC, tudo em uma conexão que não superava os 2 kb/s.

Mas o tempo passo, a banda larga chegou e com ela vários usuários incultos invadiram a Internet e destruíram tudo que havia de bom no mundinho virtual. Tornaram as redes sociais inabitáveis, entupiram nossas caixas de e-mails com spam e, com seu sotaque detestável, criaram um idioma novo.

Assim, chegou a hora da reação. O Estado Crônico inicia hoje o Movimento Internet para Internautas (#MIPI), cujo objetivo é extirpar a Internet dos invasores que dominaram o espaço virtual, sem respeito aos bons costumes e hábitos dos que aqui já estavam. Uma migração predatória e perniciosa.

Nossos propostas iniciais são poucas, mas já devem ser o suficiente para melhorar em muito a convivência na Internet e mandar os invasores para o mundo real, de onde nunca deveriam ter saído.

1) Acabar com as fazendas virtuais e outros jogos afins

Miguxo te mandou uma vaca louca de presente na "Colheita Maldita"

Os joguinhos das redes sociais são uma praga que deve ser eliminada o mais rápido possível. Pesquisas demonstram que nenhum Internauta sério considera seriamente a possibilidade de cultivar um pomar no Facebook ou um curral no Orkut. Aliás, o que leva alguém a acreditar que um porco virtual pode ser considerado um presente?

Sem os joguinhos virtuais, boa parte dos usuários invasores vai perder o interesse em ligar o computador para acessar as redes virtuais, livrando-nos de seu desagradável presença.

 

2) Bloquear qualquer e-mail com arquivo de PowerPoint

Não há nada mais desagradável do que abrir seu e-mail e encontrar cinqüenta mensagens edificantes, em arquivo .ppt, demonstrando como devemos respeitar os mais velhos, valorizar as pequenas coisas da vida, ver o mundo com os olhos de criança, mergulhar na inocência dos animais, viver motivados para o dia de amanhã e mais qualquer clichê, sempre com um imagens piegas, ampliadas até os pixels estourarem, e uma musica da Enya no fundo.

A solução é encaminhar uma proposta a todos os servidores de e-mail, requerendo que, para o bem e felicidade geral, sejam criados filtros que impeçam o envio de arquivos de PowerPoint por e-mail.

Imagem típica do Power Point edificante

 

3) Tornar crime a utilização do miguxês

A Hello Kitty do mau vai mattar o miguxo.

Eu confesso que, há milhares de anos, quando o mIRC existia, os usuários abreviavam alguns termos. Mas era uma coisa polida e educada. O “você” virava “vc” e, no máximo, o “porque” passava a “pq”. O tempo passou, veio o ICQ e depois a praga do MSN e, em seguida, a invasão dos imigrantes bárbaros, que trouxeram para o mundo virtual uma maneira absurda de falar e escrever. Trata-se do miguxês.

a unica solussaum eh proibi u idioma…puninu seus usuarius kom penas gravis…komu a leitura obrigatoria d "os lusiadas"…… assim…serah impossiveu a komunicassaum dus miguxus ke…a parti d entaum…naum + utilizaram a redi virtuau komu ambienti d vida……

 

4) Desabilitar o CAPS-LOCK de todos os teclados

Afinal, para que serve o Caps-Lock? Se você quer escrever uma letra maiúscula, aperta shift e o assunto fica resolvido. No mais, só serve para você esquecer ligado e errar a senha milhares de vezes. Então, a única explicação para a manutenção do Caps-Lock nos teclados modernos é permitir a utilização pela massa iletrada e arrogante, que mantém o hábito de escrever o texto inteiro em maiúsculas, irritando todos os Internautas com seus cyber gritos. Há, ainda, a utilização do Caps-Lock pelos também irritantes usuários do neo-miguxês, um dialeto insuportável do idioma miguxês, caracterizado pela utilização alternada de MAiuscULaxXx I MiNuScuLaxXx na mesma palavra.

A única solução é, portanto, entrar em contato com todos os fabricantes de teclado e extirpar o Caps-Lock do computador. Ou, em versão mais radical, instalar um dispositivo que exploda o computador caso a tecla permaneça ativa por mais de 10 segundos

 Caps Lock é como gritar em silêncio

 

5) Fim do ORKUT

Orkut

É duro admitir isso, mas eu já fui um usuário do ORKUT, dos mais entusiastas, antes da invasão dos miguxos. Infelizmente, depois de alguns anos o ORKUT, que no início era promissor, passou a ser um território inimigo, habito pelo o populacho da Internet, com as fotos do “morzão e eu na Praia Grande”, scraps com músicas irritantes (as mesmas do PowerPoint supra citado) e os famigerados joguinhos de vacas virtuais.

Diante da grande contaminação do ORKUT, não resta solução senão sua extinção definitiva, proibindo todos os seus usuários, não apenas de freqüentar qualquer rede social, mas como também toda a Internet.

 

Estas são minhas propostas iniciais para o Movimento Internet Para Internautas. Por certo, não são as únicas. Portanto, façam suas contribuições e endossem as idéias nos comentários.

Mais do que isso, twittem o presente post para levar a hashtag #MIPI para os trending topics e ampliar a adesão ao movimento que libertará nosso espaço dos invasores.

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