Artigos com ‘Crônicas curtas’

30
dez

Pergunta indiscreta

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Não tenho bem certeza sobre quem percebeu o grau de periculosidade da curiosidade felina, capaz de eliminar suas sete vidas em uma única tacada, e cunhou o adágio. Fato é que, se a curiosidade felina é fatal, perde em muito para a humana, pelo menos no grau de indiscrição.

Antes que o leitor imaginário se confunda, digo logo que não trato aqui daquela curiosidade tão válida para o desenvolvimento humano. A mesma responsável por ter colocado o homem na Lua só para buscar umas pedrinhas ou por ter impulsionado as velas de Colombo até os costados de uma suposta Índia. Falo de uma curiosidade que se transmuta em um misto de intimidade e mesquinharia, sem a mínima razão aparente.

Estranhamente, as perguntas inexplicáveis crescem em número nestas épocas de festividades. Você viu o sujeito duas vezes na vida. Uma de relance no elevador, outra com breve aceno na garagem. Fosse em qualquer época do ano mais modorrenta, o terceiro encontro seria apenas um cumprimento de cabeças, Pois, nesta época a conversa logo se inicia com um “E aí, onde vai passar o Reveillon?”. E parasse aí, tudo estaria bem. Mas o papo, como qualquer outro, pode evoluir sempre para ponderações mais íntimas a cada frase. No fim, após explicar porque a sogra também vai, junto com a prima distante de Leopoldina, duas pessoas cujo ódio recíproco é cultivado há anos, você ainda terá que justificar a absurda escolha de uma pousada em Caraguatatuba, a 17 quilômetros da praia, com 22 lances de escada até o quarto.

Como o cronista é sujeito de boa vontade, põe fé que a alteração no comportamento seja algum fruto dos ventos de otimismo que sopram nesta época e inspiram a comunidade a viver em alguma espécie de fraternidade forçada. Assim, a pergunta, que outrora seria pura intromissão na vida alheia, é vista como óleo para azeitar a máquina do convívio humano e tornar a coisa toda mais colorida.

Todavia, por mais que cheio de boas inspirações o cronista seja, não há como negar que, muitas vezes, a curiosidade ultrapassa, muitas vezes, o bom senso humano. Ao fim, só me resta, na minha cabeça prática, questionar para quê fazer uma pergunta se não há interesse na resposta. Assim, deixo a curiosidade para os gatos, que se enfiam o focinho onde não são chamados, ao menos têm narizes vermelhos e bonitinhos.

P.S.: Peço desculpas pela falta de periodicidade dos últimos textos. Mas a redação do Estado Crônico mudou de sede e ainda estou a arrumar papéis e rascunhos. Até ano que vem!

Tags: , , , , ,

25
nov

No meu tempo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Albert Ank avô conta história 1884Creio que ainda não tenha relatado aos leitores imaginários sobre meus, também imaginários, futuros netos. São todos bonitos, inteligentes e fofos, pois saíram ao avô, que guarda tais características em abundância. Sentam-se habitualmente ao meu redor e escutam, atentos e maravilhados, histórias sobre um longínquo tempo, do qual eu sou uma das poucas testemunhas vivas.

Enganam-se vocês ao prever, como eu fiz, que o maior espanto vem no momento que conto sobre a época quando não havia as Internets. A primeira vez que fiz tal relato, eles balançaram as cabecinhas, com aquela cara de “jáseijásei”, como quem escuta uma conversa tão repetida que já se transformou em uma alegoria de si mesma.

Eles, por mais inusitado que pareça, gostam de ouvir sobre os hábitos que existiam e desapareceram com o tempo. Falo, por exemplo, sobre como fui criado lendo jornais, entregues diariamente em minha casa por um sujeito de motorcicleta. No atraso do exemplar matinal, eu telefonava (algo que precisou ser esclarecido) para reclamar. Quando explico que o hábito da leitura dos periódicos me inspirou a, anos depois, ter um site de crônicas, eles acham incrível. Pedem para ler os textos e se divertem com alguns. Não entendem, por exemplo, porque eu falei sobre um cara chamado Steve Jobs, tampouco o porque de tantos textos sobre coisas passageiras.

Mas são os escritos mais simples que lhes encantam. Gostam dos textos sobre pessoas que vejo por aí no metrô e no parque. Tentam entender porque me preocupei tanto um tempo sobre a tristeza e felicidade. A neta que mais saiu à avó, quieta de olhos vivos, pergunta qual é meu tempero predileto. Eu digo que não são os temperos que me encantam, mas seu aroma, sabor e energia.

Uma das boas vantagens de viver em um mundo que muda tão rápido é acumular histórias para meus futuros netos. Mas eles não querem saber sobre como foi a vitória na Copa de 2014 ou sobre como funcionavam as impressoras matriciais. Vivem no varejo, em busca de histórias que lhes expliquem quem são. No máximo perguntam onde eu estava quando o mundo acabou e recomeçou.

São meio estranhos esses meus netos.

Tags: , , ,

18
nov

No Parque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

pipaTalvez quem veja Alberto no Parque Vila Lobos enxergue uma pessoa solitária. Ou, talvez não enxergue ninguém em especial. Agachado, nos fones de ouvido Fool on the Hill, nas mãos sua câmera por companhia, a única aproximação do tumulto das brincadeiras infantis é pela objetiva. Um olho semi-serrado. O outro captura cenas mudas, cujo som perde-se na distância.

Pensa, seriamente, em abordar a dupla de pai e filho que, ao longe, tenta empinar uma pipa. Mas a interrupção arruinaria a fotografia, que está composta em sua cabeça muito antes da cena acontecer. Assim, o sigilo faz parte de sua arte, que registra o mundo sem o peso do olhar.

Enfim, o pai, com o carretel na mão, fica em primeiro plano, no lado esquerdo do quadro. A linha traça uma diagonal até o ponto de fuga, onde o menino segura a pipa no alto. Na ponta dos pés, o garoto estica o corpo ao máximo, como se os centímetros a mais de sua elasticidade fosse a diferença entre uma decolagem mal sucedida e um vôo perfeito do brinquedo.

A imagem não dura um segundo e logo a pipa sobe. Alberto consegue registrar o quadro perfeito, (f5, 1/500s, ISO 100, 120mm). O vento ajuda a todos e lança uma pequena brisa. Suficiente apenas para mover a rabiola e os cabelos da criança na hora do disparo e lançar a pipa em seu vôo.

Como disse, há quem diga que Alberto é um sujeito solitário, com sua mania de ser mero expectador do mundo. Em verdade, para afastar essa impressão, seria necessário se aproximar de Alberto e conhecer a multiplicidade de mundos registrados nas cenas guardadas pelo olhar silencioso da objetiva. Mas, para tanto, há que se vencer muitas barreiras e, antes de qualquer sucesso, Alberto já teria guardado seu equipamento e abandonado o parque.

Tags: , , , ,

11
nov

Conto de Fadas

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

fada tristeNinguém, em rápida análise, tem dúvida do que seja um conto de fadas. Princesa encontra príncipe, normalmente na forma de algum animal nojento. A bruxa, movida por algum sentimento vil, tenta de alguma forma acabar com a alegria dos dois. Uma fada, de coloridas asas semi-transparentes, utiliza a varinha de condão para dar uma ajuda ao casal. Por fim, a bruxa se estrepa e vira uma poça de matéria orgânica derretida, pois parece ser este o destinho reservado às bruxas, e a vida segue no “felizes para sempre”.

Com alguma mudança na ordem dos acontecimentos e inversão de personagens, assim se passa um bom conto de fadas. Coisa que parece simples. Tão simples que o sonho de quase todo mundo é viver um, mudando, no máximo, “felizes para sempre” em “até que a morte os separe”. Tanto melhor se a bruxa pegar leve na história e evitar areia nos olhos e soco abaixo da cintura, tornando a vida dos pombinhos mais fácil.

Paradoxalmente, todavia, certos conceitos são bem mais difíceis de serem entendidos quando dissecados para a compreensão. Pois, veja-se que alguns contos de fadas são coisas mesmo estranhas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, caminha pelo bosque bem sozinha para encontrar a vovozinha e, até onde consta, não usa chapéu, mas sim um capuz vermelho. Já Cinderela era a infeliz proprietária do pé mais disforme de todo o reino, pois seu sapato não servia em rigorosamente mais ninguém do lugar. Aliás, o trabalho do seu príncipe, de ir de pé em pé a todas donzelas do vilarejo, seria facilmente simplificado por uma consulta ao sapateiro do lugar, cuja memória dificilmente ignoraria tão exótico membro.

Mas os mais estranhos, de longe, são os contos de fadas sem fadas. João e o Pé de Feijão, João e Maria, A Bela e a Fera e a própria Chapeuzinho Vermelho. Todos contos de fadas privados daquela que é, em tese, a dona da história. Mas, então diga a prezada leitora imaginária, grande conhecedora dos mistérios narrativos, onde está a magia de uma história sem fadas? Abundam bruxas, caldeirões ferventes, gigantes enraivecidos e lobos de olhos grandes e nós aqui, por nós mesmos, sempre a caça de soluções mundanas? Para mim, não dá.

Assim, doravante, sou defensor pela reserva de mercado para as fadas nas narrativas mágicas. Basta de histórias com caçadores disfarçados de salvadores de donzelas. Ou do realismo exagerado de lançar velhinhas no forno quente. Sei, claro, que as fadas não precisam do meu esforço, pois sabem resolver seus problemas sozinhas. Ainda assim, insisto que as histórias cheias de felicidades, arco-íris e potes de ouro são exclusividade delas, com seu vôo leve, impulsionado por asas de borboleta.

Tags: , , , , , , ,

27
out

Realidade imaginada

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Alice caindo“Reality leaves a lot to the imagination.”

John Lennon

Segundo nos conta Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes residia no número 221B, da Baker Street, localizada na elegante zona londrina do West End. O local tornou-se tão famoso que, quando, em 1930, a Abbey Road Building Society passou a ocupar o endereço, começou a receber inúmeras correspondência direcionadas ao detetive.

Todavia, dificilmente os remetentes receberam suas respostas, em razão de um pequeno problema. Como bem sabem os leitores, Sherlock Holmes jamais existiu, da mesma forma que o endereço só foi criado quando a Baker Street foi renumerada. Até então, a realidade inteira de Sherlock cabia dentro da cabeça de Conan Doyle e seus leitores.

E desafio a atirar a primeira pedra o leitor que nunca fez uma confusão como esta, colocando do lado de cá do espelho mundos imaginários. Acho, na verdade, cada dia mais difícil separar uma coisa de outra. Não consigo estabelecer, com certeza, se as políticas da Rainha Vermelha que mora no buraco do coelho são menos ou mais importantes do que os últimos acontecimentos de Brasília. Tenho por certa, no entanto, a minha incapacidade de influenciar em qualquer um dos dois.

Diferente não é quando olho para o passado. Vejo se misturarem as histórias de Ricardo Coração de Leão e Robin Hood, sem que eu possa diferenciar quando começa ou termina a lenda. Da mesma forma, o que separa a Escalibur da espada que degolou Ana Bolenha?

Mas há quem consiga perceber que existe a realidade e a ficção como coisas distintas. Confesso, todavia, que desconfio destes convictos São Tomés, que só enxergam o que seus olhos lhes mostram. Porque, entre um lado e outro existe um universo colorido, onde na não há diferença entre a pílula azul ou vermelha. Enfim, amo quem se enovela em suas próprias histórias e entende que, de real mesmo, o mundo só tem nossa imaginação.

Tags: , , , ,

19
out

Chega de Saudade

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Chagall PromenadeSegundo descobri recentemente, os esquimós têm doze mais de quarenta palavras para conceituar a neve. Pudera, eles têm bastante neve para trabalhar. Neve no chão, neve de fazer casa, neve de derreter e beber, neve de brincar e neve de fazer boneco de neve. Assim, pode parecer estranho o fato de ser o português a única língua que possui uma palavra para definir, com precisão, a saudade.

Mas, se eu encontro o danado que inventou a palavra, pego ele! Porque o sujeito criou uma coisa sem a qual, até aquele momento, todos conseguiam viver.

Basta ver que os grandes cientistas, enluvados em jalecos brancos, afirma ser a saudade um sentimento muito difícil de ser encontrado na natureza em estado puro. Normalmente, vem acompanhada de uma série outras impurezas que a contaminam e tornam sua apreciação quase impossível.

Veja-se, por exemplo, a saudade de quem já partiu para sempre. Impossível ser um sentimento puro, pois está misturada com tristeza e dor. Tampouco a nostalgia pode ser colocada simples saudade, pois, como informa a etimologia, é oriunda da junção das palavras gregas nostos (regresso) e algos (dor). Portanto, é, no máximo, uma saudade projetada ao passado, temperada, talvez, com uma decepção com o presente.

Assim, segundo apurou o cronista, em entrevista com os mais doutos cientistas dos sentimentos, apenas os mais vigorosos emocionalmente estão realmente aptos a sentir saudade pura e simples. Saudade que surge não de solidão ou insegurança, mas de simples ausência, temporária ou não. Como uma comichão pelo futuro, com a qual você até se acostuma, mas nunca pára de coçar.

Sorte daquele que é capaz de sentir pura saudade. Azar daquele que a sente.

Tags: , , , , ,

14
out

De mau com o tempo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Relógio estragadoBriguei com o tempo. Estamos de relações cortadas até última ordem, mas, creio, nosso rompimento será definitivo. A bem da verdade, nossa relação não foi das mais harmoniosas, como podia parecer a quem olhasse de fora a vida deste cronista (atenção especial à etimologia da palavra!). Mas, diante dos últimos acontecimentos, parti para uma solução radical. Não converso mais com o pai tempo.

Não se engane o leitor imaginário, com idéias de que se trata de mais um daqueles pequenos desentendimentos, típicos de relacionamentos longos, como o que tivemos nos últimos trinta anos. Não é uma briguinha como quando ficamos preso no trânsito e o tempo até a hora do vôo parece passar rápido como nunca. Coisa esquecida logo quando se senta na cadeira do avião.

Infelizmente, nossa briga foi mais grave. E, em como todo desentendimento, a culpa foi não foi minha. Pois, estive sempre acostumado a uma passagem do tempo em um ritmo, que se era tão lento como eu gostaria, tampouco era uma flecha que transforma o mundo em um borrão.

Mas então, confiando na constância do tempo, coloquei-me a esperar um grande acontecimento. Nada demais, três semanas e já estaria tudo resolvido. Sentei-me confortável no sofá, abri um livro, virei para o lado, mirei forte os olhos do pai tempo e disse-lhe, “faz seu trabalho daí, que eu fico quietinho por aqui”. Ah! Mas, como um cachorro que sente seu medo, ele percebeu a ansiedade no meu sorriso disfarçado. E desde então, passou da maneira mais devagar possível. Melhor, estancou, por pura provocação. Minutos arrastam-se pesados, horas viram dias e semanas, meus caros, são tão grandes que cabem dentro de si mesmas. Qualquer atividade que, antes, tomava horas, subitamente agora parece se completar em um instante, só para me deixar com cara de bobo entendiado.

Então, pergunto aos meus leitores imaginários. Que fazer diante de tamanha malícia do tempo? Briguei, feito criança mimada. Não converso, não mando bilhetinho e, se ele ligar me procurando para fazer as pazes, não atendo. Agora quero que o tempo viva na dele, passe no ritmo que bem entender e vá atazanar a vida de outro. Mas claro, sei que provavelmente terei que, cedo ou tarde, me reconciliar. Afinal, o grande mistério de uma vida feliz passar por fazer durar lento o tempo de um beijo e acelerar a sua passagem na fila do banco.

Tags: , , , , ,

6
out

Insensível ao toque

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Steve-Jobs-China-300x300

” i cannot think for myself,
i need to fit on the shelf
and pretend to be one more gadget
something expensive but disposable”

Nanda Fogli

 

Então, morreu Steve Jobs, com direito a cobertura especial nos canais de notícia a cabo, memes, primeiro lugar nos Trend Topics do Twitter. #morreujobs, todos chora. O modo de hipérbole, ligado na regulagem máxima, tão habitual nos falecimentos de celebridades, atinge o ápice extremo e transforma o ex-CEO da Apple no “messias dos novos tempos” (e uso aspas sem precisar citar a fonte, tamanha a enxurrada de exageros). Mas, meus queridos leitores, sempre tão atentos ao mundo das sutilezas, já devem ter notado que, por baixo de toda badalação, there’s one more thing.

Claro, seria demasiada pretensão deste humilde escriba pretender reduzir Steve Jobs a uma função de mero passante do Século XX. Ele pensou produtos inéditos, fez multidões abrirem suas carteiras para comprar modelos mais novos de gadgets, arrebanhou consumidores como ovelhas às iStores, tornou a tecnologia acessível até para sua avó e provavelmente mais uma porção de coisas que eu desconheço. Soube, claro, cobrar mais por tudo isso. Ademais, idealizou a uma das empresas mais lucrativas do mundo.

Daí a dizer que Jobs levou uma revolução ao mundo com sua passagem pelo planeta, meus caros, dá-se um enorme abismo.

Pois, eis que, em sua maior glória, mora a maior limitação de Steve Jobs. Em um mundo fora do campo de distorção criado pelo discurso hagiológico de seus seguidores, a Apple é apenas uma empresa, talvez com método e procedimentos diferente das demais, mas, em essência, rigorosamente igual a qualquer outro negócio. Criam-se e vendem-se produtos, alguns ganham, outros perdem e a vida segue, com menos ou mais dinheiro no bolso e algum celular novo nas mãos.

Entretanto, nem todos os iPhones do mundo tocando juntos poderiam fazer uma revolução. Revoluções são feitas de quebras de estruturas sociais, reagrupamento de classes, destruição e reconstrução nas formas de circulação de renda, cristalização de novos ideais e outras tantas coisas que não cabem nas telas do maior dos iPads. Tivesse Jobs libertado escravos chineses e morrido pobre,sem cabeça, em uma guilhotina, aí então seria merecedor do título de revolucionário.

Longe dos títulos de revolucionário e visionário, Jobs alimentou mais do mesmo, ainda que com admirável habilidade. À espera do novo lançamento de um celular, seguimos vítima de das mesmas mazelas, insensíveis aos múltiplos toques nas telas (in)sensíveis. O mundo que enxerga uma revolução em Steve Jobs é um mundo cego, que caminha triste para consumir a si mesmo na fabricação de mais uma maçã metálica.

Tags: , , , ,

30
set

Avatar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Walrus Goo Goo G'JoobO leitor imaginário, internauta que é (e se não fosse, aqui não estaria), já deve, em algum momento de sua existência virtual, ter sido obrigado a criar por aí seu tal “perfil” em uma rede destas que andam na moda. E deve ainda saber, se não é dos mais novatos no assunto, que a coisa é antiga para quem anda, há mais tempo, tomando bronzeado de luz azul na frente do monitor.

Certo é que, antes de James Cameron inventar seus bichões azuis, esse esforço de criar um avatar em outra dimensão já era coisa recorrente para os internautas. Pois, mesmo com a mais avançada tecnologia astronáutica da rede, você só existirá no mundinho virtual se projetar sua personalidade para ele, preferencialmente de alguma maneira mais ou menos controlada.

Claro, poliram a brincadeira com o tempo. No período pré-cambriano da Internet, quando o IRC era a coisa mais moderna da galáxia, sua liberdade criativa para formar o avatar se limitava à escolha de um nome, o bom e velho nickname. Eu, como sou fã dos Beatles e meio maluco (olha a redundância!), auto proclamei-me Walrus, em referência direta à música (goo goo g’joob) e indireta à Lewis Carol. Bom, era só um nome. Todavia, com uma meia dúzia de linhas de bazófia, tinha-se um personagem, meio esquisito, mas pronto para usar, na chatesfera.

Hoje a coisa “evoluiu” bastante. Você preenche um breve cadastro na rede, que lhe pergunta apenas nome, sobrenome, estado civil, CIC, cor do olho direito, hobby, filmes preferidos, passagens prediletas do Grande Sertão Veredas, angulação do estrabismo ocular, circunferência do dedo anelar (direito e esquerdo, afinal o estado civil pode mudar), quantidade de tempo que equilibra um cabo de vassoura no indicador e comprimento do antebraço. Com estes pequenos questionamentos, acrescidos à possibilidade de colocar a foto do papagaio da vizinha, filme com o batizado do primo do cunhado e todas as delícias do compartilhamento digital, é de se esperar que seu lindo perfil do lado de cá corresponda mais com o que temos do lado de lá (estejam e onde você, leitor, preferir).

Mas isso não acontece.

Por mais estranho que seja, enquanto mais ricos de possibilidades, creio que nossos avatares cada dia se parecem menos conosco. Seja lá por qual mistério do misticismo eletrônico, mesmo com meu esforço em fazer um perfil do Twitter e do Facebook, honesto e sincero, que reflita minha cara, a coisa desanda. Quanto mais cera se passa, mais embaçado fica. Olho os demais perfis, comparo as pessoas conhecidas com sua personalidade eletrônica e, ao fim, concluo que não conheço mais ninguém.

Há duas possibilidades para o fenômeno. Em Olhai os Lírios do Campo, o protagonista afirmava gostar de dirigir à noite, pois, com a redução de informações, a estrada ficava mais nítida. Talvez seja isso. Só com nome e idéias em um monitor de fósforo verde, era mais fácil ser sincero. Por outro lado, creio que, hoje, universos virtuais e reais já se misturaram faz tempo. Não dá mais para separar a realidade do que há através do espelho. Assim, as pessoas na Internet são as mesmas fora dela. E eis o problema. A simulação é feita de carne e osso, bem aqui no mundo das saudações forçadas e beijinhos protocolares. Se a sinceridade é virtual, a falsidade é verdadeira.

Tags: , , , , , , , ,

23
set

Donald x Gastão

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Donald x GastãoNão importa o quanto os sábios sociólogos, economistas, biólogos e estatísticos consigam dividir, subdividir, categorizar e classificar os humanos, eu, imbuído de profundos estudos em antropologia de revista em quadrinhos, afirmo que só há dois tipos de pessoas. Os Pato Donalds e os Gastãos. E antes que o leitor imaginário mais reprovador balance a cabeça em desacordo, indignado com mais uma de minhas idéias estapafúrdias, aviso logo que no último parágrafo, me desdirei, sem, contudo, me contradizer.

O Pato Donald é velho conhecido de infância e o mais famoso dos patos, dispensando apresentações adicionais. No entanto, sua fama do lado de cá das páginas não corresponde à sorte que tem de dentro da história. Donald é azarado como poucos. Cuida de três sobrinhos travessos e atentados, vive um namoro de eterno pegar na mão com a Margarida e, mesmo sendo parente próximo do pato mais rico do mundo, vive na chutando lata. Tanto pior, aliás, pois quando se coloca a trabalhar para o tio, acaba por ser explorado até a última força, como o mais espoliado dos proletários.

Gastão é o contraponto exato de Donald. Dono da maior sorte do mundo, não precisa fazer nada se manter, pois simplesmente tropeça no dinheiro. Consegue as melhores barbadas sem nenhum esforço. O tipo de cara que chega naquele restaurante com fila de espera de horas e consegue a melhor mesa, por estar na hora certa, no lugar certo. É, enfim, um abençoado pelo cosmos.

Os dois são parentes próximos, da mesma família e, provavelmente, com condições equivalentes de vida, não fosse o absurdo azar de um e a incrível do outro.

Há, portanto, apenas dois tipos de pessoas no mundo. Como Donald, o sujeito está na base da cadeia que alimenta os fluxos aleatórios de fortuna. Não digo que não chegará a lugar nenhum da vida, um eterno gauche drummoniano. Mas precisará do dobro de esforço para conseguir a metade dos lucros. Já os Gastões são os peixes grandes do mundo. Mas antes que se reduza o pensamento exclusivamente ao vil metal, esclarece-se que nas menores coisas também é possível notar a diferença. Na hora de parar o carro no shopping, conseguir a fila mais rápida do supermercado e ser sorteado no melhor brinde na festa de final de ano da empresa.

Mas há algo de especial em ser um Pato Donald. Talvez os leitores imaginários menos conhecedores do universo Disney não saibam, mas o pato mais famoso tem uma identidade secreta. Veste-se de Super Pato e, na calada da noite, torna-se o grande herói mascarado Patópolis. Uma glória clandestina, como bem cabe a nós, formiguinhas do mundo, com nossas conquistas insignificantes do cotidiano. Sem pódio ou beijo de namorada. Mas talvez com um conforto inexplicável. E injustificável.

Tags: , , , , , , ,