Artigos com ‘Crônicas’

21
abr

Quinta-feira

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 21 de abril de 2015,  em Crônicas

ZoológicoÚnica noite livre da semana. Ú. NI. CA. Confessa, noite livre em casa. Porque noite livre na rua, com os amigos, indo aquele bar que você não queria tanto ir, mas foi assim mesmo porque, afinal, também não queria tanto não ir, a ponto de deixar de ir, aquele bar não conta como noite livre. Conta como o proverbial “ir zoológico dar pipoca aos macacos.” (Raul explica tudo tão bem)

Única noite livre da semana. Quer dizer. Livre, livre, soltinha, à toa, a noite não é. Para ser livre você precisa ignorar várias camadas de coisas que precisa fazer. Aquelas coisas importantes que poderiam mudar sua vida se você fosse fazer. Começar a estudar o NovoCódigodeProcessoCivil, para trocaram o Código? Ou aquelas coisas que você deveria fazer, mas, pelamordedeus, hoje é a única noite livre da semana e você não vai usar para, sei lá, ir à academia correr na esteira, arrumar a gaveta da mesa de cabeceira. Sua cabeça é boa em esquecer coisas inconvenientes. Ainda bem. Noite livre, graças à memória seletiva.

Única noite livre da semana, finalmente. Já é quinta. Quase sexta. Sexta não é mais semana, nem livre, porque vai aparecer alguma coisa, sempre aparece. Sexta é um dia traiçoeiro. Complicado. Aparece amigo, aparece zoológico, aparecem aquelas coisas que você vai acreditando que gosta, mas dá uma preguiça de ir na hora. Aquelas coisas que podem ser até que legais. Mas nem sempre são. Igual concerto de música clássica. É bom se não tiver ninguém tossindo ou conversando ou balançando a perna nervosamente, fazendo aquela barulhinho chato com a cadeira. Nhic, nhic, nhic, nhic. Mas sempre tem. O oboé faz lá o barulho de oboé, a nota de oboé, o timbre de oboé. E a cadeira “nhic, nhic, nhic, nhic”. Dá vontade de falar todo gentil “Para de balançar essa de perna, meu senhor, porque eu preciso ouvir o oboé.” Mas não pode falar, porque atrapalha todo mundo. E fica chato para você. A vontade de falar com a pessoa passa. Vira vontade de matar a pessoa. Com um oboé, que agora já parou de tocar. Já está tocando o cello. A cadeira na mesma. A perna na mesma. Sexta-feira é um dia complicado. Traiçoeiro. Não dá para confiar.

Mas hoje é quinta-feira. Única noite livre da semana (já contei?! Ú. NI. CA.) E um monte de coisas boas para fazer. Tem livro para ler. Seriado para ver. Filme para assistir. Videogame para jogar. Tudo coisa boa. Só tem um problema. Tem muita coisa. Dá aquela angústia. Tem que decidir. E decidir não é fácil. Porque se faz uma coisa, na verdade, você deixa de fazer um monte de outras coisas. E dentro de cada coisa, tem um monte de subcoisas. Vai ver filme? No Netflix ou bluray? Qual filme?

Sei não, filme dá sono. Você já está com sono. Vai dormir. E aí, já sabe, a única noite livre da semana vira noite dormindo torto no sofá. Filme não. Demora muito. Melhor não. Jogo também não, porque deixa você agitado. Coisa de velho isso de “ficar agitado”. Igual gato naquele horário que gato corre pela casa sem explicação. Coisa de gato velho, deve ser. Você no GTA corre de carro, corre da polícia, corre dos outros que correm para pegar você. Se desligar o jogo vai continuar correndo. Como que dorme depois? Se dormir, corre no sonho. Melhor não. Livro? Sono. Melhor não. Vai de seriado. Mais fácil. Seriado é curtinho. Menos de uma hora. Pílula de diversão. Dá até para olhar um pouco do livro, se não tiver com sono. Ou ver dois capítulos do seriado. Pode ser.

Aí você vai ver o seriado. E, bem, esse não está legal. Não deu liga o episódio. Azar, hein? Justo na única noite livre da semana o capítulo do seriado é chato. Agora não dá mais para começar outra coisa. E você nem tem ânimo para ver outro capítulo do seriado, porque, se esse foi chato, o próximo também. Bate aquela tristeza. Porque você tinha um mundo de coisas para fazer e escolheu errado. Tinha filme. Tinha livro. Tinha GTA. Mas não, você resolveu ver o seriado e deu nisso. Até o bar era melhor que o seriado.

Ainda tenta consertar. Assiste aos últimos episódios do Porta-dos-Fundos. Mas nem ri, porque era a única noite livre da semana. E está desperdiçada. Mas a vida é assim. Uma única noite livre na semana. E você sempre escolha a coisa errada para fazer.

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4
abr

Pequenas Grandes Angústias Cotidianas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 4 de abril de 2015,  em Crônicas

O telefone toca e você já olha preocupado, porque telefone tocando não costuma ser coisa boa. Nunca foi. Você já até se acostumou. Notícia boa chega via WhatsApp, via email, via telegrama fonado, via Diário Oficial. Já telefone é como o Oficial de Justiça das notícias. Ninguém com boa intenção pega o telefone, disca (porque notícia ruim disca o número, dígito por dígito, não usa o número da agenda, olha no papel ou no caderninho que fica do lado do aparelho), espera chamar, fala “alô”. Ninguém liga para ninguém hoje em dia.

O telefone toca, você ainda olha preocupado. Vê o número. Você não conhece. Claro, ninguém conhece número de ninguém, só o da Rádio Globo, que tocava na sua casa quando você era criança. Dois zero cinco, zero um dois três, no programa do Haroldo de Andrade. Tinha uma musiquinha atrás, você até consegue lembrar. Sua mãe ouvia em um rádio creme. Quer cor exótica para rádio (aliás, onde será que está o rádio?) Mas aí aparece o nome também. É conhecido.  Não se veem há um tempo. Gente boa o sujeito. Por onde será que ele anda? Você já dá aquela relaxada. Não deve ser desgraça pelo menos. Aí aparece a foto do cara. Foto de rede social, que o celular aprendeu sozinho a pegar. Mas não a foto do Facebook, porque seu celular é hipster, é metidão, tem vontade própria e escolhe a foto o Google Plus para associar aos contatos. Então não é foto nova, é foto que já tem mais de três anos. Nem o cara lembra mais que essa foto que aparece para todo mundo quando ele telefona para alguém. Até porque ele não deve ligar para ninguém mesmo. Ninguém liga para ninguém hoje em dia.

O telefone toca mais uma vez. Você já não está mais tão menos relaxado. Melhor atender. Porque se não atender o sujeito vai saber que você deixou de atender ao telefonema dele. E vai ficar esperando você retornar. Você não vai retornar, porque nunca retorna telefonema. Para ninguém. Nem para parente. Principalmente para parente. Então vai pintar aquele clima pesado entre vocês. E quem sabe vocês se encontram na rua por acaso um dia. Ele vai falar que você não atende as ligações dele. Provavelmente não vai acontecer, porque vocês moram a seguros dois mil quilômetros de distância um do outro. Só que se acontecer vai ser pior, porque talvez o cara esteja vindo para Brasília esse fim de semana e queira só marcar alguma coisa. Um chope rápido. Ali no Beirut mesmo. Melhor atender. Ou ficar em casa o fim de semana inteiro. Seria boa ideia. Mas não dá, tem que ir ao supermercado. E você quer andar no Parque da Cidade no domingo. Você não quer encontrar o cara sem querer. Melhor atender. Meio irritado, é verdade. Quem é que liga para alguém hoje em dia?

O telefone toca, mais uma vez. Você está irritado. Tem que disfarçar antes de atender. Tem que lembrar o nome do cara. Não precisa, está escrito ali. Essa parte foi fácil. Tem que lembrar como você costumava chamar o cara na época que conviviam. Não dá para sair chamando o sujeito da mesma maneira que você chama todo mundo hoje. Hoje você chama todo mundo de “meu irmão” se for homem e “minha amiga” se for mulher. Tem que ser como naquela época quando vocês conviviam. Para rolar um vínculo, uma identidade. Tem que usar o vocativo certo. A entonação certa. Era “camarada”! Vocês se chamavam de “camaradas”. Não se sabe bem porque. A União Soviética já tinha acabado. Vocês nem eram comunistas. Nem pretendiam fazer nenhuma revolução socialista. Olhando para trás, não fazia mesmo muito sentido. Talvez fosse o caso de mudar esse tratamento. Ou talvez naquela época vocês se sentissem camaradas, no sentido fraternal da coisa. Mas agora não dá para pensar nisso. O telefone está tocando pela quinta vez. E se desligar, você já sabe, vai encontrar o cara por acaso no Parque da Cidade, vai rolar aquele clima tenso.

Então você atende e não fala “Alô?”. Já dispara: “E aí meu Camarada?”. Mas não um “E aí meu Camarada?” irritado. Não um “E aí meu Camarada?” falso. Vem um “”E aí meu Camarada?” moleque. Você até sorri. O personagem veio. Foi só evocar aquele tempo quando vocês se chamavam de camaradas sem querer fazer nenhuma revolução. Então você se sente, atendendo aquele telefonema, como um surfista que consegue pegar a onda e rasgar a água bem na diagonal. Aquela imagem bonita. O mar azul levantando, a prancha cruzando a onda, pouco antes da crista. Quer dizer, é o que você imagina, porque não surfa. Nem consegue se equilibrar na prancha. Mas a sensação que dá quando você vê o sujeito na TV parece que é essa. Viu? Deu tudo certo. Você conseguiu atender o telefone. Nem foi tão difícil. As pessoas ainda ligam umas para as outras. É exótico. É eventual. Mas ligam. Deve ser moda hipster.

Mas não. É voz de mulher. Você já pensa que fez alguma bobagem, claro. Essas coisas costumam sempre ser culpa sua. Colocou o nome de uma pessoa com o telefone de outra na agenda do celular. Fato que não é o camarada, é outra pessoa. Mulher. Ou ele mudou muito de voz. Mas não foi você quem errou. Na verdade, você acertou. Cadastrou o número do celular e o número do fixo do camarada no mesmo contato. E a agora é a mãe do camarada no telefone fixo. Você, malandrão de agenda de celular na nuvem, foi pego no contrapé, porque nunca nem viu a mãe do camarada. Sabia que ele tinha uma, claro, por presunção. Mas nunca foi um fato que tenha merecido algum relevo na sua consciência. A mãe do camarada era como a população inteira da China. Você até sabe que está lá, mas é meio que uma coisa abstrata, implícita no mundo.

Só que a mãe do camarada não é mais abstrata. Ela quer falar com você. Sobre sua irmã. O que é bem complicado, porque você não tem irmã. Não que saiba, pelo menos. Ou talvez você tenha tratado sua irmã como a população da China, ali, meio que no canto do cérebro onde você coloca aquelas coisas que não lembra que existem. Será que você deixou de retornar uma ligação da sua irmã? Agora você já não confia mais em si mesmo. O assunto está complicado. Ela conhece sua irmã da aula de porcelana. Ficou sabendo que ela está doente. Coisa séria. Barra. Sorte que você não tem irmã, tem quase certeza disso. Tanto que quando vai falar com homens, chama de “irmão” e vai falar com mulher, chama de “amiga”. Então não é sua irmã que está doente. Tenta explicar. Fala que sim, que você é você mesmo, o camarada amigo do filho dela. Mas que não, você não tem irmã. Que sua irmã não fez aula de porcelana. Que sua irmã não está doente. Nem seu irmão. Sim, está todo mundo bem na família, você fala só por garantia. Seu irmão teve dengue, mas não convém falar, o papo já está complicado demais sem essa informação. Você até pensa em perguntar se o camarada está bem. Pensa duas vezes. Melhor não, vai que ele não está bem. Ou vai que ele vem para Brasília nesse fim de semana. Você não quer encontrar ninguém esse fim de semana. Tem um monte de coisas para fazer. E tem que ir ao supermercado.

Você desliga o telefone. Confere o WhatsApp para ver se seu amigo, por acaso, mandou alguma mensagem. Mas não. Parece que ele não vem para Brasília. Sorte. No fim de semana você vai ao Parque da Cidade. Mas vai preocupado. Vai com medo de encontrar o sujeito. Um pouco de culpa lá no fundo, pode ser. Não vai ser legal. Talvez ligue para o camarada só para ver como ele está e despreocupar. Melhor não. Passa um e-mail. Assim resolve. Ninguém liga mesmo para ninguém hoje em dia.

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28
nov

Seu bebê é feio

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 28 de novembro de 2013,  em Crônicas

Toda a graça e beleza do bebê renascentistaA cena é conhecida. Talvez até testemunhada pelo leitor imaginário mais experiente. A mamãe vestida em uma camisola cujas estampas só não perdem em bom senso para a cortina de casa de tia. A cara de quem não dorme há dezoito noites. E isso é só o ensaio. O pai, ainda invicto na batalha que se inicia, carrega orgulhoso um pacote pelo quarto. Volta e meia, desfaz o embrulho e revela à comitiva de visitantes o novo raminho que acaba de nascer na árvore familiar.

Então, dá-se o momento mágico. Cinco tios, nove primos, a tia-avó que mora em Cataguases, aquele colega da firma, que não queria vir, mas sabe que para essas horas tem que “dar uma atenção”, todo o séquito de visitantes, ao contemplar aquele rostinho fofinho, recém inaugurado, exclama em uníssono.

“Meu deus! Que coisa mais linda!”

Ah… Como é falsa a humanidade. Mas, é dever de ofício deste cronista, sincero que só beata se confessando em leito de morte, colocar a verdade no berço. Não, minha cara leitora imaginária. Ele não é bonito. Sinto muito decepcionar, sei que a noite não foi fácil e os próximos dias puro padecimento no paraíso. Mas não dá para iniciar essa jornada tão bonita em uma ilusão estética.

Seu bebê é feio.

Sei que ele é fofo, cutch-cutch e uma gracinha. O mais bochechudo das galáxias. Mas bonito é que ele não é. Bonito é outra coisa. E,  para que não fiquem as mamães e papais decepcionados, aviso logo. Ser feio não é exclusividade do seu bebê. Veja, mesmo os pintores renascentistas, tão celebrados pelas belezas que criam, não foram capazes de imaginar um único bebê bonito, registrando o menino santo com cara de baiacu inflado por seguidas vezes. A bem da verdade, o único bebê bonito ainda está para nascer e vai demorar bastante.

Então, não se aborreçam por isso. Feiura passa. Entre o ultrassom-4D-multicolor, onde a criança aparece com a cara de massinha de modelar, e o recém nascido, há uma evolução estética considerável. Beleza toma tempo. Gente demora a amadurar, virar gente mesmo. Enquanto isso, é aguentar aquela rostinho oscilando entre o azedo e o choro.

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21
nov

Eu não!

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 21 de novembro de 2013,  em Crônicas

facelessNão. Eu não sou isso que você está falando. Não sou mesmo. Sei que às vezes parece. É meu jeito. Mas não, eu não sou nem um pouco. Nem gosto dessas coisas. Sou até ao contrário disso. Ah! Aquilo que eu falei? Pareceu que eu sou, é? Sei. É a maneira que falo as coisas. É mau jeito. Às vezes sou direto demais, sabe? Sinceridade. Ninguém gosta de sinceridade. Mas sincero, isso eu sou. Pode anotar aí! Além do mais aquilo era brincadeira. Eu brinco muito, não me leve a sério. O problema hoje é que todo mundo leva tudo muito a sério. O pessoal precisa relaxar mais, descontrair. Hum… Aquilo que eu fiz? Não, interpretaram errado. Eu estava tentado só mostrar como é para quem é… você sabe, né?, nem vou falar. Era uma forma de dar um exemplo. O que eu queria era o contrário. Interpretam sempre tudo errado. É ao contrário, sabe? Eu faço com uma intenção, mas aí levam para o outro lado. O problema do mundo é esse, ninguém se importa com suas intenções, só com o que parece ser. Que quase sempre não é. E costuma ser ao contrário. Todo mundo julga tudo hoje em dia. Sem prestar atenção no que você realmente queria dizer. Sei que falam que eu sou. É por causa disso aí. Parece, às vezes, pelas coisas que falo. E também por esse meu jeito, mais… Sincero! Meu jeito mais sincero. Mas não, eu não sou nem um pouco. Nem gosto de gente assim, para falar a verdade. Sei que meus amigos são. Eles sim! Mas eu tento dar uns toques neles. É por isso que não corto a amizade. Acho que é importante que eu esteja ali do lado para mostrar para eles como eles estão errados. Mas aí já começam a falar. Diga-me com quem andas… Já sabe, né? Também não é para sair por aí condenando todo mundo. E quer saber? Esse pessoal aí que diz que eu sou. Eles é que são. Fingem que não, disfarçam, tentam colocar a culpa nos outros. Mas a verdade é que no fundo eles são. Não! Não estou condenando ninguém! Eles podem ser, claro. No fundo todo mundo é um pouco, não? Todo mundo dá uma escapada às vezes. Todo mundo é, nem que seja no fundo.

Menos eu. Eu não sou. De jeito nenhum!

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12
jul

Cheiro de chuva

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 12 de julho de 2013,  em Crônicas

Rain in Belle-Ile, MonetCom menos de 6 anos de idade, Alice já acreditava possuir habilidades únicas, muito mais especiais que a dos super-heróis da TV. Conseguia, por exemplo, com sua super audição, adivinhar a chegada do pai pelo barulho das chaves em suas grandes mãos ansiosas. Todavia, o superpoder mais exclusivo era secreto. A menina conseguia sentir o cheiro de chuva.

Após os dias mais quentes, quando a tempestade lavava descuidadamente as folhas das árvores e levava o pó acumulado no barro dos telhados de volta ao chão, Alice sentia o perfume da chuva subir como uma brisa fresca. Era como se o ar fora reinventado, só para ser respirado, inédito, pela menina de cotovelos na janela.

Assim, entre todas as habilidades, essa era a mais mágica, porque enchia o mundo de novidade. Por isso, a menina acreditou que precisa dividir o segredo e, em uma tarde de chuva, contou sobre seu superpoder para a avó, a única pessoa no seu mundo que parecia enxergar alguma magia fora da luz azul da televisão.

A velha, com as antigas narinas secas, fungou o ar ao redor e sentenciou a magia à morte. “Cheiro de chuva? Isso não existe menina. É só água, caindo do céu e voltando para o chão. É bonito, mas não tem cheiro.”

Alice, tão criança, confiava nos adultos. Especialmente nos mais velhos. E, após o veredito da avó, passou a ignorar o cheiro bom de depois da chuva. Ainda podia senti-lo, mas tentava não prestar atenção. Deveria ser alguma daquelas coisas que só ela via e entendia. Coisa que não existe, qualquer bobagem. Um dia deixaria de ser menina e era melhor, por antecipação, não se ocupar de criancices.

Mais velha, Alice descobriu muitas coisas. Durante uma enfadonha aula de química, em uma terça-feira quente, aprendeu que o cheiro de chuva existia. Era coisa comprovada e explicada com uma equação complexa para ser entendida. Capaz até de cair na prova. Enfim, não era louca. Ao menos, não por sentir cheiro de chuva.

Deve ter sido de propósito que os deuses lançaram, justo após aquela aula de química, uma chuva, destas perfeitas. Nem fortes, nem fracas, sem ventos, mas de pingos fortes. E o cheiro da chuva subiu do chão, enquanto Alice voltava para casa.

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3
jul

Cinebiografia provisória

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 3 de julho de 2013,  em Crônicas

Cinema paradisoNós tínhamos dezesseis anos e nessa idade você pode (e deve) ser rebelde. Então, resolvemos praticar um ato anárquico e desafiar o sistema. Algo revolucionário e contestador. Decidimos assistir a dois filmes no cinema.

No mesmo dia.

Um em seguida ao outro.

Tamanha ansiedade é natural em quem tem todo o tempo do mundo e nenhum tempo a perder. E eu e meu amigo João decidimos desafiar as convenções. A sociedade espera que você seja um sujeito comportado, obediente, cumpridor das tradições e só assista a um filme no dia. Meu pai, se ficasse sabendo, acharia um absurdo completo. Um desperdício. Mas os pais nunca tomam conhecimento dessas aventuras.

Nós demos um tapa na cara da sociedade conservadora.

Claro que um projeto ousado como esse dependia de alguma preparação. Assim, conversamos com os-amigos-do-colégio e montamos um esquema logístico especial. Naquela época, os multiplex de shoppings não eram uma realidade na minha cidade e, para conseguir assistir às duas sessões, precisaríamos de alguma folga no horário para correr entre um cinema e outro, o que acrescentaria mais emoção à aventura.

Assistimos a Men In Black e Velocidade Máxima 2. Dois promissores arrasa-quarteirões daquele ano, com todas as correrias e explosões do gênero. A maratona nos causou um processo de suspensão de descrença, causado por ver tantos personagens escapando com arranhões de situações que, na realidade, seriam absolutamente improváveis.

Saímos das sessões nos sentindo indestrutíveis. Poderíamos atravessar a avenida na frente dos carros e, caso surgisse a oportunidade, impedir assaltos a indefesas senhoras.

Na verdade, acho que naquela idade, sem saber, nós poderíamos tudo mesmo. Mas, na dúvida, fomos ao McDonald’s.


Dezesseis anos se passaram e, com o dobro da idade, decidi repetir a dose daquela noite. Dessa vez, não contaria com a companhia de meu amigo João, separado pela distância geográfica, mas sim de minha querida namorada, com quem divido, entre muitas coisas, o gosto pelo cinema.

Entretanto, estamos mais velhos, mais sábios e, presume-se, mais preparados para essas ousadias. Assim, escolhi não dois, mas três filmes em um único dia. “Elena”, “Faroeste Caboclo” e “O Grande Gatsby” foram escolhidos após uma conversa com os colegas de trabalho e a turma do Facebook. Uma aventura ainda mais mirabolante, considerando que as obras cresceram, não apenas em número, como também em complexidade. Mas, hoje, mais justificável, por espremer nas minguadas horas do final de semana todo o lazer que nos sobra.

O leitor mais perspicaz já percebeu, apenas com a enumeração de seis títulos, o grande equívoco na escolha dos filmes. Pois, se há dezesseis anos eu saíra do cinema como a encarnação de um personagem plenipotente, agora eu sentia uma exaustão amarga. As três obras são trágicas e, cada uma a sua maneira, corroem qualquer ilusão que possamos conservar com relação às aclamadas potencialidades da vida.

Talvez ficar adulto seja esse processo de trocar filmes que explodem por filmes que implodem.

Mas prefiro pensar que não. Como Gatsby, em um otimismo incorrigível. Olho ao redor e prefiro as maravilhas que me cercam hoje.


Preciso de mais dezesseis anos para chegar aos quarenta e oito. Às vésperas dos cinquenta. Não sei como as coisas estarão até lá. O futuro ainda é uma página branca, hoje como era há tantos anos.

Mas, seja como for, pretendo fazer mais uma sessão conjunta de cinema. Se isso ainda existir até lá.

Qualquer novidade, aviso vocês.

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25
mar

Aperte Play

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 25 de março de 2013,  em Crônicas

Clique para abrir o site do fotógrafoQuando aprendi a escrever foi como ganhar um grande brinquedo.

Alfabetização é uma coisa meio mágica. De uma hora para outra a criança adquire um sem número de possibilidades para mundo até então fechado. Mas, mesmo com todo encanto que traz a leitura, lembro que era a possibilidade da escrita que mais me enfeitiçava naquele processo.

Depois de entender como se faz a magia da escrita, eu pude, pela primeira vez, mostrar minhas idéias para o grande público. Ainda que, à época, os leitores fossem ainda mais imaginários do que hoje. Na grande maioria das vezes, apenas minha mãe, cuja aprovação invariável dos textos era, para dizer o mínimo, suspeita. Ser escritor foi, provavelmente, a primeira profissão que desejei na vida.

Estranhamente, esse desejo foi esmaecendo. Com o tempo, escrever foi se tornando sempre coisa séria. Escreva bem, menino. Escreva direito, escreva correto, conjugue o verbo na segunda pessoa do plural do pretérito mais-que-perfeito do indicativo (droga de tempo verbal chato). À escrita atribuiu-se sempre alguma utilidade. Escrever para se comunicar, ser claro, passar no vestibular, mandar cartas para a avó (que já tinha morrido e se recusava a ler as missivas), ter bom emprego e redigir contratos infalíveis. Que saco.

Fato é que ninguém disse “escreva por escrever, feito brincadeira, porque é legal e essas idéias malucas que você tem, sei lá, vai que algum doido gosta também e lê, compra a mensagem, dialoga, sabe como é, já vão ser dois malucos juntos.” Essa falta de incentivo à escrita contrasta, aliás, com todas as mensagens que colhi na vida sobre as maravilhas da leitura. “Ler liberta, ler enriquece, ler te dá asas, ler te leva a lugares, ler faz você conseguir namorada bonita e inteligente.”

(Bom, pelo menos a última frase deve ser verdade, o que escusa os arautos da leitura do crime de estelionato, mas já falei minha opinião sobre o tema antes.)

Ainda assim, entre todos os textos perdidos por aí, personagens natimortos e histórias engolidas no mundo esquecido dos livros não escritos, consegui, meio por acaso, chegar a esse blog. Mas, por muito tempo, precisei, de alguma maneira, buscar um discurso que justificasse o tempo perdido nas palavras e a energia gasta com algo que não ia além daqui mesmo (e da cabeça dos leitores imaginários) ou em fazer para que esse algo fosse além do que já era. E isso era uma angústia.

Vejo que não sou muito diferente de outros tantos por aí nessa angústia. Todavia, conscientemente, trabalho, quando escrevo, para me libertar do compromisso de chegar a algum objetivo além da própria atividade. Escrever pela alegria de atirar os pensamentos nessa parede estranha e esperar ver o que vai dar. Até se não for dar nada. O zen da escrita.

P.S.: Enquanto fermentava as idéias para esse texto, uma amiga me mostrou o blog de seu filho de 6 anos. Achei fofo. Aos poucos, nesse mundão grande da Internet, ele toma gosto pela escrita. Queria ter seis anos hoje para poder ter um blog assim e espalhar mais ideias por aí.

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4
dez

A Arte de Voltar

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 4 de dezembro de 2012,  em Crônicas

O Retorno do Filho Pródigo RembrandtDois sentimentos dividem quem volta.

E deixo propositadamente a última palavra sem seu devido adjunto adnominal. Pois não me interessa para onde ou do quê se volta. Basta existir o fenômeno da “volta”, após a ausência prolongada, para o sujeito (o “voltante”) ser dividido por dois sentimentos dispares.

O primeiro é o mais notável. A familiaridade. Reencontrar-se com o que já se conhece. A rigidez da dobradiça da porta de casa, fechada por um mês, que ecoa pelo corredor do prédio o mesmo barulho de todos os rotineiros retornos, gritando “Lar, doce lar”. Daí vem inquestionável conforto, mesmo para aquele que retorna às situações mais desagradáveis. Aliás, tenho a impressão que o apego a familiaridade deve ser ainda maior quando se retorna ao caos. O preso se reconforta na cela, quando vem a saber que eles ainda servem a mesma refeição horrível, a qual se acostumou a comer ao longo da última pena.

Estranhamente, é a mesma familiaridade que, quando em excesso, se torna enfadonha e leva ao tédio. E este, à partida, fenômeno sem o qual não há qualquer retorno. Pois, quem parte vai em busca de uma nova realidade, seja o estranhamento nas planícies desérticas da Mongólia ou o conturbado mar de gente da China.

O que nos leva ao segundo sentimento, o encontro com a novidade. Pois quando se sai para buscar a novidade do outro lado da galáxia, nem se imagina que o retorno será a um lugar diferente.

Mas sempre é.

E o leitor imaginário vai me esfregar o óbvio na cara, dizendo que há muito mais de familiar na volta do que na ida. Verdade. Contudo, eu insisto, porque a novidade do familiar tem que ser buscada nos detalhes. Na grama crescida após a seca, na reforma eterna que é uma mutante constância, na mudança da programação da TV, com o mesmo locutor dando outras notícias, na sutileza de quem respira o ar e percebe a diferença de sua umidade relativa.

Assim, voltar é como viajar para a própria casa. Estranhar-se no lugar familiar. Mas, claro, há quem dirá que nada disso interessa (“Ah! Vá lá dizer que a programação da TV interessa!”). Mas esses voltam sempre para a mesma vidinha desinteressante de sempre. E não há viagem que mude isso.

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31
jul

Norberto, o sistemático

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 31 de julho de 2012,  em Crônicas

NorbertoNorberto gostava de organizar coisas. Na falta de um xingamento melhor, chamavam-lhe de “sistemático”. Aos livros, dava o lugar de acordo com o sobrenome do autor, título, ano de publicação e editora. Os discos, muitos, Norberto organizava pelo estilo musical, de maneira geral. Dentro do estilo, ordenava por nome do artista. Por fim, dentro da subcategoria, pelo ano de lançamento do álbum. Já os filmes eram organizados de maneira ímpar, categorizados em “Filmes com areia”, “Filmes com Canto Gregoriano”, “Filmes de Professor” ou “Filmes bons com finais ruins”.

Enfim, tudo era organizado. Até os negativos das fotografias antigas. Sim, Norberto tinha fotos da época dos negativos, rigorosamente organizados em ordem cronológica. E quando se rendeu a fotografia digital, Norberto mandava imprimir suas imagens em negativos, só para não desordenar sua coleção.

Mas entre tantos catálogos de Norberto, o mais querido era sigiloso e íntimo. Tratava-se de suas lembranças, arquivadas por sentimentos, em um complexo processo mental desenvolvido ao longo de anos de reflexões silenciosas.

Vez ou outra, Norberto passava os dedos pelos arquivos de suas lembranças, apenas para evocar sentimentos. Quando queria sentir-se rejeitado, lembrava do dia em uma praia da Bahia, quando ele disse sim para ouvir um não. Talvez desejasse apenas sentir raiva, então sacava a pasta com a memória de quando foi coagido a mudar seus planos de viagem. Muito frequentemente visitava o arquivo “Tristeza em estado puro”, cujo conteúdo ele não revelava a ninguém, mas envolvia uma caminhada na chuva.

Norberto não sentia saudades. Não precisava, pois possuía todas as lembranças devidamente arquivadas e as vivia novamente.

No entanto, guardou poucas lembranças boas. Portanto, não gostava de conhecer novas pessoas e viver novas experiências. Estava satisfeito com o que tinha. E cada novo encontro poderia bagunçar seu arquivo, misturando aquela pasta “caminhada até o albergue com sol dourado de outono” com outras lembranças.

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6
jul

Fim do Mundo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 6 de julho de 2012,  em Crônicas

Buuuum!Entre as tão poucas cartinhas à redação que recebo no escritório do Estado Crônico, uma em especial chamou minha atenção. Tratava-se de uma leitora imaginária, aflita, pois a redução do número de publicações nas últimas semanas poderia significar o fim do blog. “Que farei eu, caro cronista, sem a alegria e diversão de seu texto? Não mais uma pérola de sabedoria semanal, que me livram do tédio existencial…” E por tal caminho seguiam os elogios e angústias da leitora, que, ao meio da leitura, coloquei de lado a carta e agarrei o teclado para escrever novas crônicas.

Assim, para que não reste qualquer dúvida sobre o assunto, esclareço. O Estado Crônico não vai acabar, nem agora, nem tão cedo.

E viverá tanto que, estranhamente, sobrevirá ao mundo, este sim, infelizmente, com data para seu fechar de cortinas já agendada para o final do ano.

Portanto, em que pese a necessidade das crônicas habitualmente acompanharem as variações de humores e interesses do público, considerando que ao fim do mundo não haverá mais leitores, imaginários ou não, decidi antecipar a pauta e falar um pouco sobre o trágico final que se aproxima.

Contudo, como sempre ocorre nos assuntos de alto relevo da humanidade, nessa história há muita confusão e pouca definição. Pois, a dimensão e o alcance do tal fim do mundo ainda são absolutamente desconhecidos e nem a mais pessimista das pessoais deve esperar a súbita explosão dessa esfera, a qual nos habituamos a chamar de Terra. Assim, provavelmente, quem terá seu fim serão os habitantes do planeta, nem sabemos quais, nem quantos, muito menos de que espécie. Veja-se, por exemplo, o que se passou com, George, o último espécime da última tartaruga gigante, cujo falecimento levou ao fim toda sua espécie. Foi o fim do mundo para a turminha deles.

Creio em um fim do mundo mais ameno. Como diria R.E.M., banda que (sintomaticamente) acabou há pouco, “it’s the end of the world as we know it.”

Exatamente diante disso, coloco-me extremamente otimista com relação ao fim do mundo. Afinal, a grande hecatombe que virá trará, provavelmente, uma série de inconvenientes, mas, na mesma medida, exterminará uma série de outros tantos.

Vejam só, as aporrinhações mais cotidianas vão junto com o mundo. Não mais fila de carros para entrar no estacionamento, nem escolha de amaciantes no supermercado. Mas, a grande vantagem de todas será o fim das preocupações mundanas. Ora, se são elas “mundanas”, não podem sobre-existir em um tempo em que o mundo já não mais existe. E, com isso, lá se vão todas as vaidades, anseios de sucesso e prazer instantâneo.

Dessa maneira, meus prezados leitores e leitoras imaginárias, nada de desânimo com o fim do mundo. Vamos acordar com a melhor cara que pudermos usar no dia 21 de dezembro de 2012, data provável para o fatídico evento. E quem viver (se alguém viver, por óbvio) aproveitará nosso planetinha renascido, talvez de nós mesmos.

Aliás, não é assim todo dia?

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