Há não muito tempo, milionário era um sujeito riquíssimo, associado a montanhas incalculáveis de dinheiro, capazes de despertar a cobiça de Tio Patinhas. Então, a revolução digital chegou e nos apresentou aos bilionários, que perfuraram poços eletrônicos de riqueza e, com espinhas na cara, já ganhavam mais dinheiro que os paxás da velha indústria. No entanto, por mais que faltem números para contar a grandeza da riqueza dos magnatas, percebo que o populacho insiste em se abraçar em seu antigo status de milzonário.
No já comentado Bilhões e bilhões, Carl Sagan descreve a inflação das grandezas numéricas ao longo da história. No início, as centenas atendiam todas as necessidades humanas. Duzentas vaquinhas no curral, trezentas pessoas na vila e, no máximo, dois ou três lugares para ir. O desenvolvimento da humanidade, no entanto, trouxe a necessidade de mais números para contar as coisas. Aí vieram os milhares, milhões, bilhões e números com tantos zeros que não cabem no papel. O mesmo se dá com os ricos. A cada dia precisam de mais números para contar, não só seu dinheiro, mas também o tamanho de suas fazendas, a potência de seus carros, os quilômetros entre a mansão e o espaço, onde farão seu próximo tour.
Vida de milzonário é diferente. Do lado de cá, dificil é juntar milzão. O acúmulo de qualquer mil dinheiros, seja qual for a moeda da moda, depende de longo tempo de trabalho. Aí, com os mils no bolso, compra-se alguma coisa do tamanho das casas decimais. O dia da compra vai ser celebrado por muito tempo, como uma conquista. O milzonário de boa memória ainda vai lembrar que naquele dia carregou nãoseiquantos mil em espécie ou fez um cheque de tantosmil reais, uma quantia fabulosa, equivalente a meses e meses de trabalho, suor, economia, mais trabalho, mais suor e mais economia.
No entanto, parece que o mundo a cada dia custa mais caro para os milzonários. Antigamente, as coisas que não vamos ter custavam um milhão. Estavam nessa categoria as Ferraris, os iates, as mansões no litoral, a muitos zeros de distância do bolso milzonário. Inalcançáveis, pelo menos serviam de parâmetro para a falta de dinheiro dos outros. Hoje, no entanto, parece que as necessidades de consumo chegaram aos milhões que não temos. O apartamento, meio milhão, a cobertura de seu vizinho, mais de um milhão. Milzonário, desista de nunca mais ter uma Ferrari, agora você não terá mais casa própria.
Mas eu, como bom milzonário (salvo hipótese do Google comprar o Estado Crônico) não vou desistir. De milhas em milhas, pode-se juntar o suficiente para uma viagem para o exterior e, paradoxalmente, economizar dinheiro gastando em bugigangas eletrônicas. Ou optar pela solução radical. Dividir a existência em bilhões de vezes no meu cartão de crédito do clube dos milzonários e atrasar seu pagamento, melhor maneira de ver um número com seis zeros no extrato, ainda que seja o saldo devedor.
P.S.: Com os devidos créditos, a nomenclatura milzonário foi cunhada por Ana Luiza (@analuizalb, filiada ao clube dos milzonários e leitora misteriosa do Estado Crônico), a quem este post, bem como os passados e futuros, são incondicionalmente dedicados.
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