Artigos com ‘Crônicas’

27
ago

Por uma rede antissocial

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Emoticon bravoComo todo bom internauta, adoro fuçar as fotos do Orkut manter-me atualizado sobre as novidades do meu círculo de amigos pelas redes sociais. Um mundo maravilhoso surge no monitor. Todos sorridentes, sempre alegres com a vida. Mesmo a tristeza, nas raras vezes que dá as caras, aparece em fontes coloridas e simpáticos emoticons chorosos ou um acréscimo de “saudades eternas” no sobrenome. No entanto, há um enorme campo que ainda deve ser desbravado pelos empreendedores da Internet, as redes antissociais.

Surpreendente, aliás, que a Internet tenha permanecido alheia até hoje ao mais poderoso dos sentimentos, o ódio. Basta uma rápida olhadela, seja na esquina movimentada mais próxima ou na história da humanidade, para confirmar o potencial humano em arrumar confusão e discórdia. Assim, nada mais natural que criar uma rede social na qual as pessoas se encontraram para discutir, brigar, ofender-se mutuamente, tudo com a segurança, comodidade e segurança propiciada pela Internet. Lembre-se daquele seu inimiguinho de infância, há anos perdido no esquecimento? Pois então, na nova rede vocë poderá reencontralo para terminar aquele “te pego lá fora” não mal resolvido há décadas.

A rede antissocial trará o melhor de todos os mundos. Com um clique rápido na leve interface você começará uma inimizade com seu mais recente desafeto, seja alguém com quem você tenha brigado no trânsito ou no bar. E, adeus reciprocidade. Não será mais necessário ter seu ódio correspondido para odiar alguém. Se iniciará um novo conceito, o ódio platônico. Celebridades, por exemplo, poderão comemorar quando atingirem seu primeiro milhão de inimigos. Em seguida, nada de recadinhos coloridos no mural dos outros. Você entrará na rede e receberá o maravilhoso aviso “fulano deixou uma ofensa para você”. Há como começar um dia melhor?

Já as comunidades, que fizerem o sucesso de algumas redes sociais, serão substituídas por clubinhos da raiva. As possibilidades são incalculáveis. Pessoas do mundo inteiro vão poder dividir seu desgostos e desinteresses em comum. Imagino as histórias edificantes que serão contadas daqui a anos sobre relacionamentos surgidos na rede antissocial. “Conheci meu marido no clube de pessoas que odeiam andar de bicicleta ergométrica em avenida”, afirmará alguma noiva entusiasmada.

Ao bem da verdade, o internauta superligado nas últimas novidades do mundo cibernético, atualmente deve desperdiçar passar boa parte do tempo digerindo a infinitude de conteúdo oriundo das redes sociais. O volume de bobagens informações é tão grande que se torna quase impossível manter-se atualizado com os últimos trending topics do Twitter, ler o s scraps do Orkut e aceitar os novos pedidos de amizade do Facebook. Assim, antes de o pacote de dados do celular 3G ficar mais caro que a dívida externa dos país em desenvolvimento, a rede antissocial é a solução definitiva para economizar nosso tempo, para que possamos nos concentrar no que há de mais importante na vida. Brigar em família.

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24
ago

Matemática da vida

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Operações matemáticas Com quatro operações se faz uma vida inteira.

Da soma de duas metades, nasce um inteiro. A partir de então, uma multiplicação sem comparativos. Zigoto, mórula, blástula, feto e parto.

Depois, vêm as adições. (A)crescem os dentes, o cabelo, as unhas insistentes, o corpo e as preocupações. Somam-se experiências para construir um adulto.

“Crescei e multiplicai-vos”, preparados ou não. A Bíblia, infelizmente, omitiu-se das divisões e subtrações. No sagrado silêncio, o pai tempo faz o trabalho sujo de roubar vigor. Como um ladrão paciente, retira a cor dos cabelos, os reflexos dos nervos e força do coração. Noves fora, zero, adeus mundo cruel.

No fim, só resta divisão. Sistema, órgãos, tecidos, células e patrimônio na mão dos herdeiros. Não é à toa que o derradeiro processo judicial chama-se partilha.

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Conforme relatei no último post, este blog está agora aberto à colaborações dos leitores. Assim, para estreiar a categoria das crônicas imaginárias, o leitor João Paulo encaminhou sua contribuição.

Toda balada é a mesma coisa. É triste dizer isso; mas é a pura realidade. As pessoas tentam inventar moda, para quebrar a monotonia. Mudam o nome da festa. Fazem um tributo a “nãoseiquem”. Mudam as cores das paredes do estabelecimento e falam que houve uma “reforma”. Mudam as meninas do bar. Mudam o preço na bilheteria… Mas no fim da história, a “night” é um acontecimento praticamente uniforme. Nesse texto, vamos destacar como a noite, numa danceteria dessas Brasil afora, se reparte em “setores” bem definidos; setores estes que se estabelecem ora por características psicológicas das pessoas que os compõem; ora por traços estruturais do acontecimento que se desdobra noite adentro. São alguns deles:

1) A pista

Pista de dança

Lá está o coração da noite. Ele pulsa, sempre, e envia a seiva da vida noturna por todos os seus afluentes, as outras áreas da danceteria. A pista é uma referência pra quem está na noite. É lá que está o “ex-da-fulana olhando pra beltrana” ; e é lá que “aquela gatinha mexe no cabelo, mas eu não sei se ta dando mole”. É a pista a protagonista que justifica toda a burocracia e infraestrutura que se constrói em volta dela. Uma dessas instituições burocráticas, é o…

2) O Bar

Ali é que são “chanceladas” as viagens à pista. O bar funciona como uma repartição que carimba o passaporte de quem quer “passar as férias no Caribe” – nesse caso, “Caribe” é a pista. No bar, as pessoas vão se “aclimatando”, passando pela metamorfose de quem saiu de um mundo seguro (lá fora); e entra num mundo de velocidade diferente, a “balada” (ou a “night”, para os mais velhos). Uma cervejinha aqui, uma troca de olhares ali; e o cidadão vai se adaptando ao jogo da paquera. No bar, são toleradas conversas do mundo fora da boate, coisa que não acontece na pista. Por enquanto, quem está aqui, fica parado, se “aquecendo” para a apoteose, na pista.

Bar de balada

3) O Playground

Playground

No melhor dos sentidos, há quem vá para a noite sem saber muito por quê. Esses são os “bobalhões” (num bom sentido, o mesmo de “bobo alegre”). Esses caras vão para uma boate brincar, rir, pagar mico. Também é muito válido. Não é raro você ver gente falando Darth Vader, Super Mario Bros.; teorias da conspiração; etc., no meio da noite. Essas pessoas demarcam um território chamado “Playground” na balada. Trazem alegria pra noite e disseminam uma atmosfera pacífica por lá. São muito bem vindas, com certeza. Também estão no playground os casaizinhos, que estão na balada a passeio, visto que nenhum de seus membros está a procura de um outro alguém, ali, naquele momento.

4) O banheiro

Essa é uma localização catalisadora dos acontecimentos da noite. É lá que o cara que tomou um fora vai fazer a sua catarse. E também que a menina vai chorar, porque seu ex está com outra. Por ali, se modificam estratégias, são dados conselhos, tomadas decisões, etc. No banheiro nascem os “planos B” das pessoas. É lá, enfim, que se colocam os pingos nos “is”. Eu arriscaria dizer que se a pista é o coração; no banheiro é que está o cérebro da noite! (Nesse ponto, a noite e o camarão têm muito em comum…)

Banheiro de balada

5) A fila para pagar

No fim, a carruagem vira abóbora...

Balada que se preze tem fila pra pagar, no final da noite. Na fila, todo mundo já está cansado. A carruagem já virou abóbora, nesse momento. As máscaras caíram e a maquiagem das meninas já borrou. As mais cara-de-pau já tiraram o sapato. Mas a fila comporta algo a mais do que os outros setores da noite: sinceridade. Dá sempre pra pedir um telefone. Afinal, a fila é a “ponte” entre a falsidade da noite e o mundo real, que está a um portão de distância. Depois que a conta é paga, o indivíduo se transporta para uma outra dimensão: a da vida real. E aí, só restam planos para o fim de semana seguinte.

 


João Paulo mantem o blog
Disco voadores e calangoos.

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13
ago

Proposta para acabar com o azar

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Gato branco, tomando sorteve colorido, para ninguém ter azar. Sexta-feira treze, em agosto, e meus leitores imaginários de mais juízo devem ter ficado em casa, devidamente protegidos das intempéries do destino. Afinal, hoje os astros dizem que o dia é cosmicamente desfavorável às atividades que exponham o sujeito a riscos, como atravessar a rua ou acessar blogs de conteúdo duvidoso. Eu, como tenho o corpo fechado pelos personagens místicos das novelas da Globo, não preciso me preocupar com esse problema. Mesmo assim, em um ataque de solidariedade, passo algumas dicas para conseguir mais sorte nesta tenebrosa data.

Novos tempos exigem novos hábitos e, convenhamos, gato (de qualquer cor) só dá azar para sorvetes coloridos ratos, assim como não passar por baixo de escadas não é superstição. Trata-se, no máximo, de bom senso de quem não quer ser atingido por um uma lata de tinta na testa. Portanto, para ter melhor sorte, devem-se adotar novas mandingas.

A principal alteração na vida para quem não quer sucumbir às catástrofes aleatórias é livrar-se do objeto mais agourento do mundo. O dinheiro. Basta observar a vida dos ricos para perceber que dinheiro dá um azar tremendo. Todos sempre envolvidos com atos de violência, como seqüestros e arrastões em condomínios fechados, super chiques. E a vida amorosa? Quase impossível apontar um casamento duradouro entre ricos. Normalmente os matrimônios de alta renda se desfazem mais rápido que calotas polares. Quando o dinheiro se associa à fama, a dificuldade torna-se ainda maior e até os enlaces modelo acabam em divórcios exemplares.

Ademais, dinheiro é um talismã ao contrário. Enquanto um galhinho de arruda pode trazer boa sorte e bons fluídos, uma nota de cem dólares desperta nas outras pessoas a terrível inveja. Como se sabe, um sujeito invejoso projeta péssimas energias no ambiente, sempre muito nocivas aos endinheirados. A melhor maneira para acabar com o sentimento destrutivo é, portanto, livrar-se do dinheiro, fonte da inveja alheia.

Por outro lado, pobre não tem azar. Tudo de ruim que acontece com ele já está perfeitamente previsto dentro de seu roteiro de vida. Assalto no ônibus? Ora, é mais do que provável. Doença na família com falta de atendimento no SUS? Quem mandou não pagar plano de saúde.

Portanto, antes que qualquer endinheirado se afogue em uma garrafinha de Dom Pérignon, sugiro que seja realizada uma transferência de todo seu patrimônio para alguém que tenha capacidade de lidar com este imã de azar. Só assim os ricos viverão uma existência longe de energias ruins. Deve-se, claro, ter o cuidado de escolher como destinatário das doações uma pessoa que conte com uma grande proteção espiritual e bons feitiços anti-urucubaca, exatamente como o cronista que vos escreve. Quaisquer dúvidas sobre número de conta
corrente ou demais entraves burocráticos podem ser esclarecidas no formulário de contatos ou com cartas para a redação. E boa sexta-feira treze para quem não tem grana suficiente para ter azar.

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6
ago

Um tapinha não dói

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Este bebê não foi maltratado para a escrita desta crônica. O mundo legislativo anda mesmo efervescente. Recentemente surgiu a polêmica da proibição das palmadas educativas e, logo que as crianças malcriadas pararam de comemorar, foi lançada outra lei. Agora, graças à reforma no Estatuto do Torcedor, os aficcionados por seus times não podem mais entoar seus cânticos ofensivos nos estádios, especialmente se a provocação envolver racismo ou xenofobia.

Possivelmente, o momento de criatividade do poder legislativo deve ser fruto de nossa economia estável e desenvolvimento humano. Assim, sem terem que se preocupar com questões mais melindrosas, os legisladores podem se dedicar à atividade inventiva de estabelecer novas formas de tornar nossas vidas mais seguras e agradáveis.

É bem verdade que as torcidas organizadas e seus enfurecidos cantos discriminatórios há muito precisavam ser controlados. E imagine-se o trabalho horrendo que não seria ensinar a toda a massa de torcedores como se portar educadamente em um estádio de futebol. Às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil, o país precisa de uma solução imediata e garantida para manter os bons costumes dos torcedores, especialmente diante dos sempre mais importantes olhares estrangeiros. Assim, nada melhor do que criminalizar os cânticos, de maneira bem genérica. Desta forma, nossa preparada força policial está autorizada a abordar os infratores com a educação costumeira, para didaticamente descer o cacete demonstrar a correção de se obedecer à lei.

O mesmo se diga das palmadas, agora abolidas. Eram realmente um meio antiquado para a manutenção da autoridade paterna. Sem o recurso fácil do tapinha no traseiro, os pais se verão obrigados a partir para novas formas educativas, que dependem de mais empenho, como o choque-elétrico dialogo construtivo. Certamente, apenas a coerção estatal poderia levar essa alteração de comportamento, que, de outra forma, só seria atingida com anos e anos de investimento em educação fundamental e acompanhamento pedagógico aos pais. Veja como é sábio o legislador, que, de uma tacada só, economizou tempo e dinheiro do contribuinte.

Na minha humilde opinião de cronista obscuro, as duas leis já existiam por aí. Que eu lembre, agredir crianças e xingar os outros já não era bem visto pela sociedade há muito tempo. Mas isso deve ser coisa de minha mente criativa, que enxerga coisas onde elas não estão. O certo é que, agora, nossa sociedade deu dois importantes passos para o desenvolvimento social. Especialmente quando lembramos sobre a qualidade de nosso sistema prisional, que só encontra rival na Suíça. Em tais casas de reclusão, os papais de mão-pesada e os torcedores boca-suja se encontrarão para refletir sobre sua existência e repensar seus atos.

Por outro lado, melhor que o Governo não se ocupe de fazer valer a lei. Afinal, como nos ensina o costume brasileiro, o sucesso de uma legislação não depende da fiscalização e controle, mas sim da vontade popular em aderir às novas normas e garantir que a lei pegue.

Com todo este arcabouço normativo, teremos que dar adeus à esperança de atazanar os argentinos nos estádios em 2014. Mas, minha única preocupação é que talvez todo esse esforço legislativo seja inútil, quando, no nosso caminho do desenvolvimento, nós encontrarmos o bom-senso, solução para todos os conflitos, jurídicos ou não.

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3
ago

Os 5 personagens mais chapados do universo nerd

   Postado por Carlos Goettenauer  em Listas infames

Dando continuídade ao nosso programa de calúnias infundadas teorias conspiratórias, o Estado Crônico elaborou a lista dos personagens mais doidos, do cinema, TV e games.

Eles até tentam esconder, mas seu comportamento acaba entregando que, às escondidas, dão um tapa na pantera. Seja com uma erva ou um cogumelo, tudo termina em uma viagem bacana.

1. Gandalf, o cinzento

Gandalf, concentrado com seu cachimbo.

Muito antes de o mundo ser mundo, Gandalf já andava por aí, ostentando seu glorioso cachimbo e fazendo anéis de fumaça coloridos. A qualidade do fumo do magos de Senhor dos Anéis é tão boa que sua chegada era sempre celebrada no Condado. Juntos, mago e hobbits podiam passar horas à beira de uma fogueira, batendo aquele papo bacana, mandando um lance maneiro, sobre dragões, elfos e anões.

Aliás, Gandalf é tão chegado em uma viagem, que levou a turma em um trip louca pelas Terras Médias.

 

2. Mestre Yoda

Os fãs de Star Wars (entre eles eu) que me perdoem, mas só o uso excessivo de entorpecentes explica o comportamento de Yoda no Episódio V – O Império Contra-ataca.

Se antes da queda da República, o mestre Jidi era um referencial de ponderação, a ascensão do Império levou Yoda a uma mudança súbita de comportamento. Em seu exílio em Dagobah, Yoda aparece com outra personalidade, ligeiramente insano, normalmente envolvido em uma fumaça suspeitíssima e falando por frases ainda mais desconexas.

Sim, muito estranho o comportamento do mestre é.

Yoda, numa boa, mandando um lance com Luke.

 

3. Salsicha

Acho que alguém tá em uma bad trip

A maioria das pessoas se contenta em falar com animais. Mas só Salsicha fala  e escuta ele respondendo. Conversar com o cachorro é habilidade exclusiva de seu melhor amigo, não acompanhada nem mesmo resto da turma. Prova inconteste de que seus neurônios foram para as cucuias faz tempo. O estado alucinógenode Salsicha é tão grande, que suspeito até da veracidade dos fantasmas vistos pela dupla.

Para acrescentar, Salsicha vive com fome, em uma infindável larica e cultiva com carinho uma Kombi florida, representante típica da Era de Aquárius.

 

4. Gargamel

Imagine-se sentando em uma relva, cercado de cogumelos. De repente, ao fundo, você escuta Lucy In The Sky With Diamond uma musiquinha. “Lá, lá, lalá, lalá, lalalalá…”

Depois disso, duas dezenas de humanoides azuis, vestindo apenas um short e um capuz, aparecem surgidos do meio do mato.

Pois bem, os Smurfs não apenas são uma alucinação de Gargamel. Eles são o resultado de uma viagem forte de chá de cogumelo. Os mesmos cogumelos ondem moram, diga-se de passagem.

E o gato Cruel? Só catnip explica…

Explica para ele que os caras azuis são só nóia. 

 

5. Super Mário

Com esses olhos enormes...

Depois de Gargamel, a onda de alucinógenos invadiu os games. E Mario foi o primeiro a adotar.

O herói da Nintendo vive em um mundo onde tartarugas voam e flores cospem fogo. Claro, que todos esses elementos são afeitos do excesso de cogumelos ingeridos pelo encanador.

Aliás, esse ótimo quadrinho explica a verdadeira história de Mário.

Claro, a lista acima merece alguma inclusões. Snarf, por exemplo, era um ótimo canditato, mas acho que vou deixar os Thundercats em paz, por algum tempo.

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30
jul

No busão – uma proposta política

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Insira seu parlamentar aqui! Quase todo brasileiro tem uma solução própria para solucionar a crise de representatividade que atinge nosso cenário político. Alguns pregam o radicalismo de uma revolução, seguida do extermínio cruel de todos os deputados e senadores. Quase Terror Jacobino, versão tupiniquim. No entanto, eu tenho uma proposta muito mais moderada e viável. Meu plano é obrigar todo ocupante de cargo público a se deslocar, exclusivamente, de ônibus urbano.

Neste ambiente favorável ao contato humano e intercâmbio social, nossas doutas autoridades teriam a inestimável oportunidade de conviver com as mais variadas camadas da população. De longe, vêm os mais humildes, que já lotam o ônibus nas primeiras paradas. Mas ao longo do caminho, conforme a condução cruza áreas mais valorizadas, alguns ocupantes improváveis, de terno e perfume, vêm se juntar a festa. Ao chegar ao epicentro de qualquer cidade, o ônibus já é uma amostra demográfica condensada em um tubo de ensaio da MARCOPOLO®, dificílima de ser reproduzida em laboratórios estatísticos.

O horário também seria previamente estipulado, para garantir ao o máximo da experiência urbana ao nosso representante. Algo entre 6 e 7 da noite, no horário “nobre” do transporte público urbano. Nesta hora, quando já não cabe mais ninguém em qualquer centímetro da malha viária, o político teria a oportunidade única de entrar no ônibus pelo último lugar da fila, para ocupar, junto com mais umas dezessete pessoas, o privilegiado lugar entre o primeiro degrau e a porta de entrada. Assim, a cada nova parada, quando as portas se abrissem, Nossa Excelência desfrutaria de uma breve lufada de brisa, oriundo do sempre puro ar das capitais brasileiras. Claro que, imediatamente, as portas se fechariam para manter o equilíbrio térmico do ambiente interno, algo próximo da umidade de uma floresta tropical, cumulado com o calor do deserto africano.

Licencinha, faz favor...Mais estejam as autoridades alertadas com relação a um ponto especial. Para garantir a melhor interação com o povo brasileiro, fundamental para o sucesso de qualquer governante, o político não poderá se fazer acompanhar de segurança, seja particular ou agente fardado da polícia estatal. É pouco recomendável, por conseqüência, portar objeto de valor, especialmente eletrônicos que despertem a cobiça alheia, como celulares de último tipo ou iPods. Aliás, para garantir o contato com a massa, a autoridade não deve portar sequer um livro ou fones de ouvido. Afinal, ninguém quer perder a chance de compartilhar o último funk da galera do fundão, muitas vezes produzido ali mesmo, no calor do transporte, pelos (i)letrados criadores de nossa valorosa cultura pátria.

As vantagens da medida seriam muitas, tanto para os políticos, quanto para o povo brasileiro. Para não citar a economia em passagens aéreas para consulta às bases, nossos governantes estariam em dia com a repercussão de suas decisões de Estado na massa governada. Em curto prazo, creio que haveria redução no número de assentos preferenciais, para grávidas, idosos, obesos, pessoas com sacolas vermelhas e crianças de colo. Depois, algumas melhorias no transporte urbano seriam percebidas. Daí em diante, um acréscimo na qualidade da educação e o Brasil já estaria no caminho da emancipação. Todavia, se tudo der errado, ao menos a medida reduziria as emissões de carbono.

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27
jul

Thundercats e o imperialismo

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Mumm-Ra, o líder da resistência do Terceiro Mundo, com sua tradicional babinha na boca! Já relatei antes meu desapreço por He-man, um reacionário em sunga de pelúcia. Mas minha antipatia por falsos heróis alcança outros desenhos animados antigos e suas mensagens sutis. Nesta linha, Thundercats é outro programa cujas más intenções nunca escaparam de minha aguçada percepção.

Para quem não se lembra mais, vale à pena recapitular a história dos felinos humanóides.

Como é de conhecimento notório, planetas ficcionais são destruídos muito facilmente, vide Cripton e Alderan. Thundera, a terra natal dos Thundercats, não teve melhor sorte e acabou virando poeira cósmica. Com a destruição, a nobreza do lugar, que não poderia ser deixada flutuando na galáxia eternamente, foi encaminhada a outro planeta, chamado América Latina BRIC Terceiro Mundo. Todavia, nem tudo seriam flores para o grupo de nobres gatinhos. Ao chegarem ao novo lar, descobriram que o planeta já era habitado há milênios por Mumm-Rá, uma respeitável liderança local.

A partir de então os Thundercats mostram sua verdadeira face de conquistadores saguinários. Qualquer criatura com bom senso, se forçada a viver em um planeta novo, procuraria um mínimo de diplomacia e respeito aos costumes locais. Ah! Mas não os arrogantes Thundercats! Logo ao chegarem, já bancaram que eram os donos da verdade e detentores da justiça, consubstanciada em uma espada que cresce quando manipulada. Para provar sua superioridade intelectual, trouxeram um aparato tecnológico, convertido para utilização militar.

Os leitores imaginários devem lembrar que os fatos não aparecem no programa de televisão com as mesmas cores que aqui coloco. O líder local, Mumm-Rá, é retratado como múmia asquerosa, violenta, com babinha na boca e cobrinhas na cabeça. No entanto, seu hábito de usar bandagens e fazer feitiços supostamente malignos reflete os costumes da região, desprezados pelos Thundercats. Na ótica dos invasores, reproduzida no desenho, tudo que não é felpudo e ronrona como um gato é feio, perigoso e deve ser destruído.

Talvez hoje os Thundercats não teriam tanto sucesso em sua empreitada colonizadora. Se sua nave tivesse desviado do Terceiro Mundo e caisse em Pandora, o planeta reproduzido em Avatar, a história seria outra. Certamente Munn-Rá tem muito a aprender com os Na’vi sobre resistência nativa. Mas, quanto isso, deve ser feita justiça à imagem do líder de Terceiro Mundo, que merece lugar na galeria de grandes libertadores coloniais.

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23
jul

Te cuida Manequinho!

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

Manequinho, exibindo suas vergonhas e dando mau exemplo para a galera. Saci-pererê certamente não precisou de cota para entrar no panteão do folclore brasileiro. De pulinho em pulinho, na fumacinha do cachimbo, Saci conseguiu ser escalado como um dos personagens imortais de Monteiro Lobato e alcançar glória nacional. Bem visto por todos, que entendias suas travessuras como molecagens inocentes, ele conseguiu até uma vaga de mascote de clube de futebol. Bom, pelo menos até recentemente.

Segundo notícias, o Internacional FC de Porto Alegre pretende, de maneira sorrateira, demitir Saci-pererê do cargo de mascote oficial do clube. Para sua vaga já foi escalado um macaco, curiosamente chamado de Escurinho.

Não vamos culpar o clube de futebol. Afinal, os tempos são outros e Saci seria uma péssima influência para as crianças, sempre pitando seu infame cachimbo. Passível até de responsabilização por danos morais em algum juizado por aí. Algo inaceitável para a segurança pública. Lembro que na minha infância existiam uns cigarrinhos de chocolates, embalados em caixas, cujo rótulo era um menino negro fumando. Uma dupla agressão à moral e bons costumes de nossa muito respeitável sociedade. Em apenas uma embalagem instigava-se nas crianças o racismo e o vício! Aliás, pior, ao vício de cigarro e de chocolate, que muito em breve também ter suas propagandas com alertas sobre a possibilidade do consumo excessivo transformar você em um obeso mórbido. As fotos na embalagem serão horrendas senhoras, pensando quatrocentos quilos.

Quem nunca fumou um chocolate? Tempos perigosos aqueles. Não possuíamos quem pensasse por nós e vivíamos indefesos, à mercê de inescrupulosos fabricantes de cigarrinhos de chocolate. Sem a patrulha politicamente correta, não sabíamos como consumir, xingar com educação ou ser preconceituoso com respeito. Recentemente vi que o jovem afro-descendente da embalagem perdeu o cigarro, usa uma roupinha mais classe-média e trás entediantes lápis de colorir. O novo sabor? Não faço a mais vaga idéia, pois não comprei. O barato mesmo era fingir que fumava chocolate, algo que certamente transformou minha geração em fumantes desbragados, que vivem tossindo seus pulmões pelos cantos.

Mas, convenhamos, Saci teve o que mereceu. Deveria ter notado que os tempos eram outros, menos tolerantes aos vícios. Negro, deficiente, fumante e travesso, Pererê teve bastante tempo para se emendar na vida, largar o cachimbo, comprar uma perna mecânica igual a do Rei Roberto, daquelas tão discretas que viram lendas. Se tivesse um pouco mais de bom senso, hoje estaria ocupando uma vaga em universidade ou, melhor ainda, um cargo de caximbador carimbador maluco no serviço público.

Talvez ainda haja tempo para Saci. Sugiro a substituição do cachimbo, por algum outro objeto. Uma cuia de chimarrão? Não, muito regionalista. Uma pipa? Não, pode incentivar as crianças a se eletrocutarem na rede elétrica. Deixar as mão vazias? Não, vai parecer que ele é pobre, coisa que de fato ele é, mas não precisa parecer. O ideal é uma pastinha escolar e um livro na outra mão! Incentiva a educação e a leitura em apenas um mascote.

De todo, se não houver salvação para o emprego do Saci-pererê, espero que ele volte em segurança para o Reino de Narizinho, lugar muito mais divertido e fantástico que este onde vivemos. Entretanto, no caminho, não custa passar no Rio de Janeiro e avisar ao botafoguense Manequinho para guardar suas vergonhas e parar de fazer xixi em público. Afinal, a patrulha está à solta, para nossa segurança.

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16
jul

Os milzonários

   Postado por Carlos Goettenauer  em Crônicas

cifrao Há não muito tempo, milionário era um sujeito riquíssimo, associado a montanhas incalculáveis de dinheiro, capazes de despertar a cobiça de Tio Patinhas. Então, a revolução digital chegou e nos apresentou aos bilionários, que perfuraram poços eletrônicos de riqueza e, com espinhas na cara, já ganhavam mais dinheiro que os paxás da velha indústria. No entanto, por mais que faltem números para contar a grandeza da riqueza dos magnatas, percebo que o populacho insiste em se abraçar em seu antigo status de milzonário.

No já comentado Bilhões e bilhões, Carl Sagan descreve a inflação das grandezas numéricas ao longo da história. No início, as centenas atendiam todas as necessidades humanas. Duzentas vaquinhas no curral, trezentas pessoas na vila e, no máximo, dois ou três lugares para ir. O desenvolvimento da humanidade, no entanto, trouxe a necessidade de mais números para contar as coisas. Aí vieram os milhares, milhões, bilhões e números com tantos zeros que não cabem no papel. O mesmo se dá com os ricos. A cada dia precisam de mais números para contar, não só seu dinheiro, mas também o tamanho de suas fazendas, a potência de seus carros, os quilômetros entre a mansão e o espaço, onde farão seu próximo tour.

Vida de milzonário é diferente. Do lado de cá, dificil é juntar milzão. O acúmulo de qualquer mil dinheiros, seja qual for a moeda da moda, depende de longo tempo de trabalho. Aí, com os mils no bolso, compra-se alguma coisa do tamanho das casas decimais. O dia da compra vai ser celebrado por muito tempo, como uma conquista. O milzonário de boa memória ainda vai lembrar que naquele dia carregou nãoseiquantos mil em espécie ou fez um cheque de tantosmil reais, uma quantia fabulosa, equivalente a meses e meses de trabalho, suor, economia, mais trabalho, mais suor e mais economia.

No entanto, parece que o mundo a cada dia custa mais caro para os milzonários. Antigamente, as coisas que não vamos ter custavam um milhão. Estavam nessa categoria as Ferraris, os iates, as mansões no litoral, a muitos zeros de distância do bolso milzonário. Inalcançáveis, pelo menos serviam de parâmetro para a falta de dinheiro dos outros. Hoje, no entanto, parece que as necessidades de consumo chegaram aos milhões que não temos. O apartamento, meio milhão, a cobertura de seu vizinho, mais de um milhão. Milzonário, desista de nunca mais ter uma Ferrari, agora você não terá mais casa própria.

Mas eu, como bom milzonário (salvo hipótese do Google comprar o Estado Crônico) não vou desistir. De milhas em milhas, pode-se juntar o suficiente para uma viagem para o exterior e, paradoxalmente, economizar dinheiro gastando em bugigangas eletrônicas. Ou optar pela solução radical. Dividir a existência em bilhões de vezes no meu cartão de crédito do clube dos milzonários e atrasar seu pagamento, melhor maneira de ver um número com seis zeros no extrato, ainda que seja o saldo devedor.

 

P.S.: Com os devidos créditos, a nomenclatura milzonário foi cunhada por Ana Luiza (@analuizalb, filiada ao clube dos milzonários e leitora misteriosa do Estado Crônico), a quem este post, bem como os passados e futuros, são incondicionalmente dedicados.

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