Artigos com ‘Crônicas da Copa do Mundo’

29
mai

Revolucionários, Moderados e Otimistas

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de maio de 2014,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Revolução FrancesaÀ época dos bancos de escola, meu professor de História insistia que, durante a Revolução Francesa, a Convenção Nacional contava com três forças políticas. Jacobinos, Girondinos e Grupo da Planície, jamais esquecerei, dividiam-se conforme sua firmeza na crença de que a guilhotina era um método válido para a resolução de conflitos. Na inocência de quem vivia no Brasil dos anos 90, não comprava muito a divisão proposta. Não entendia como funcionava essa coisa de ter razão e cortar a cabeça de quem está errado.

Pois, hoje, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, vejo que meu professor de história não mentiu para mim. Consigo imaginar, inclusive, as páginas dos livros de História que, daqui a muitos anos, relatarão os dias de hoje a um eventual bebê bonito.

Próximo ao início da Copa do Mundo, o povo do país do futebol decidiu se revoltar. Três grupos se formaram.

O mais radical era a turma do #nãovaitercopa. Inicialmente, contava com a participação de setores decisivos da sociedade, como os comentaristas da Globo News, a associação de moradores de Higienópolis, os grupos indígenas do Setor Noroeste de Brasília e o Batman do Leblon. Conforme virou modinha e deixou de ser hipster, recebeu a adesão de outros atores importantes, como sindicalistas e o Ronaldo Fenômeno, depois de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição. Englobava facções múltiplas da sociedade, cujo único ponto de concordância, paradoxalmente, era discordarem de “tudo isso que está aí”. Sem que ninguém se preocupasse em definir o que era “isso” e “aí”, o grupo alternava sua atuação entre a depredação do espaço público, as greves oportunistas em setores sociais sensíveis e passeatas de apoio a oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Tudo isso sem partido, mas com camisa branca da paz.  Ou preta, de luto com a situação do país. Tanto fazia. A pauta de reivindicações não chegou a ser descoberta pelos historiadores, porque cada integrante da passeata gritava uma coisa diferente, mas os cartazes revelavam o apoio da multidão à utilização, antes de qualquer palavra, de hashtags (era como eles chamavam, à época, aquele negocinho, #, que parece o jogo-da-velha). Lamentavelmente, as manifestações do grupo terminavam sempre com uma minoria de vândalos em confronto com a polícia. Ou com a polícia em confronto com uma minoria de manifestantes que gritava “sem violência”. Ninguém nunca entendeu direito. O mais importante é que o movimento começou pacífico, enquanto a maioria queimava o álbum de figurinhas da Copa e cantava o hino nacional abraçado na bandeira.

Na posição intermediária havia o grupo moderado, que era contra a gastança-de-dinheiros-em-estádios-enquanto-a-saúde-está-de-mal-a-pior, a corrupção, a ausência de infraestrutura para receber os estrangeiros e, principalmente, a cobrança de 6% de IOF nas compras no exterior. Bloco mais coeso, embarcava os comentaristas da Globo News, minha timeline do Facebook e a galera que colecionava o álbum de figurinhas da Copa (mas não queimava, porque, afinal, era moderada e ainda precisava trocar muitas figurinhas). Segundo relatavam, fizeram, desde o início, veemente oposição silenciosa à escolha do Brasil como sede da Copa. Só não manifestaram seus protestos antes porque, quando perguntaram sua opinião, eles estavam assistindo ao Campeonato Brasileiro, à Libertadores, ao Game of Thrones e ao Mais Você. Em que pese seu inconformismo com a realização da Copa no Brasil, o grupo optou, às vésperas do torneio, apoiar o evento, também silenciosamente, sob o argumento de que o dinheiro roubado já havia sido roubado, não havia lá muito o que se fazer, então, era melhor assistir mesmo aos jogos e torcer pela Seleção, cantando o hino nacional, abraçando a bandeira.

Na ponta oposta ao grupo #nãovaitercopa, estava a turma otimista. Certos de que #vaitercopa e de que ela seria sensacional, o movimento apoiou a realização do torneiro. Filiaram-se ao time dos otimistas os comentaristas da Globo News (menos o Diogo Mainardi, porque a última vez que ele foi otimista foi com a queda de Constantinopla), as pessoas com ingresso para assistir aos jogos, a galera que já tinha completado o álbum de figurinhas da Copa, o Ronaldo Fenômeno antes de comer a sobremesa no almoço com o candidato da oposição, o Felipão, alguns jogadores da Seleção e o resto do Brasil inteiro.  Nos intervalos das partidas da Copa, o grupo organizava passeatas em oposição ao apoio à oposição ao apoio do Poder Público à Copa. Ao fim da manifestação, todos cantavam o hino nacional, abraçados na bandeira.


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13
jul

Hitler descobre que a Copa acabou

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 13 de julho de 2010,  em Crônicas da Copa

ATENÇÃO: Como prometido, o problema com o vídeo foi corrigido.

Nem só de crônicas vive este blog. Assim, para encerrar definitivamente nosso ciclo de posts sobre a Copa do Mundo, preparamos um vídeo muito especial, com a reação de Hitler ao saber sobre o fim do torneio.

Espero os leitores imaginários gostem. Agora, Copa do Mundo, só em 2014.

Lembramos que o trecho acima foi retirado do excelente filme A Queda – As últimas horas de Hitler (Der Untergang), de 2004.

P.S.: O texto das legendas foi criado por mim (@cadugoette) e por Raphael Goettenauer (@rafuh). Meus agradecimentos ao último por algumas idéias.

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2
jul

Acabou

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 2 de julho de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Acabou. Não há o que se fazer. Não acredito em quem usa, em um momento como esses, o clichê sobre a importância de saber competir e aceitar as derrotas. Perder é horrível, uma pequena morte. Sua aceitação passa pela negação, raiva, barganha e depressão, como um luto.

No exato momento estou entre a negação e a raiva. Ainda não acredito no apito final, mas já começo a sentir uma raiva, fantasiada de mau-humor crônico, a me subir pela espinha. Hoje, não queiram me encontrar em uma fila demorada ou engarrafamento. Também não vou ser adulto. Aliás, quero distância dos sentimentos pretensamente adultos, crescidinhos e edificantes. Prefiro procurar infantilmente um culpado. Já escolhi Felipe Melo como minha presa. Como mineiro, peguei raiva dele para o resto da vida. Daqui a vinte anos, na Copa da China, não me venha o safado tentar treinar a Seleção sem falar com a imprensa, sob a justificativa de perseguição na Era Melo.

Depois da raiva, passo à barganha. Se pelo menos a Argentina for desclassificada e a final for uma goleada de Gana sob a Alemanha… Perder a Copa para ver um time africano campeão não terá sido tão ruim e inútil. Não vou perdoar o Felipe Melo, claro, mas vai ser gratificante ver os europeus derrotados pelo continente negro. Justiça histórica. E que soem as Vuvuzelas tão alto que eu possa ouvir daqui, sem a interferência irritante do Galvão Bueno.

Todavia, cedo ou tarde, a aceitação vai chegar, talvez após uma breve depressão. Afinal, Copa do Mundo é igual eleição e a cada quatro anos tem uma nova. Além do que, por mais desclassificado que estejamos agora, foi bom me empenhar na torcida, comemorar cada gol, por menos que tenham sido. Não me arrependo dos gritos e vuvuzeladas. Acreditem ou não, eu me diverti muito seja torcendo, seja compartilhando minhas idéias com meus leitores imaginários. Continuo brasileiro e patriota, dentro e fora de campo e não retiro rigorosamente nenhuma vírgula do que escrevi no último mês. “Valeu à pena, sou pescador de ilusões”.

Agora, vamos mudar de assunto, que eu não aguento mais escutar e falar de futebol.

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29
jun

5 razões porque futebol é um esporte idiota

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de junho de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa

futebol_idiota

Não aguenta mais empates em zero a zero? Gols válidos anulados? Gols inválidos legitimados? Então, se você é uma pessoa normal, já deve ter percebido que futebol é um esporte para idiotas.

Aliás, foi o que os americanos concluiram, depois da eliminação para Gana. Assim, para diantar eventual eliminação do Brasil (bate na madeira), já fizemos nossa listinha de razões para concluir que futebol é um esporte idiota.

Pelo menos, se a Argentina ganhar a Copa (bate na madeira outra vez), já vamos ter motivos para não gostar mais de futebol!

1. Empates

Estado Crônico: seu repositório de crônicas e textos.
O placar informa o resultado após a realização de um grande classico, de altíssimo nivel futebolístico 

Sinceramente, não me entra na cabeça a possibilidade de um jogo empatar. Basquete, vôlei, cuspe-em-distância, todo esporte sério tem, necessariamente, vencedores. É próprio da essência da competição que alguém ganhe e alguém perca. Do contrário, todo o esforço de jogar e torcer vira uma perda de tempo sem tamanho.

Ah! Mas futebol não precisa de vencedores. Pode terminar em empate. Pior ainda quando termina zero a zero. Você, torcedor fiel, ficou olhando para 22 tontos correrem atrás de uma bola no gramado, para não ver nada que preste no final!

Deveria existir uma regra que obrigasse os jogares a se esfalfarem até sair um vencedor. Ou proibir os goleiros de usar as mãos.

 

2. Os jogares são ricos e o torcedor é pobre

Nada mais irritante que ver um cara chamado Jordeicleison, incapaz de conjugar um verbo no plural, embuchado de tanto ganhar dinheiro, só porque sabe jogar bola. É o triunfo absoluto da ignorância. “Mamãe, não vou nunca mais para escola, porque eu quero ser jogador de futebol quando eu crescer”.

Aliás, no futebol quase todo mundo ganha. Jogador, técnico, cartola, locutor, comentarista, fabricante de camisas, patrocinador, editor de álbuns de figurinha e até o jornaleiro. O único que sempre perde dinheiro e continua pobre é o torcedor, idiota, que gasta rios de dinheiro para consumir tudo que tenha a cor de seu time.

Nojento, tcham!
Ronaldinho Gaucho, exibindo seu (belo) visual de milhorário

 

3. Regras ineficientes e inúteis

Piu-piu árbitro?
Pelo menos ele é mais simpático e inteligente que os árbitros da Copa do Mundo

As mulheres têm toda a razão em não entenderem a regra do impedimento. Vamos lá, o atacante não pode estar antes do último defensor, traçada uma linha imaginária perpendicular às laterais, com base no posicionamento do tronco dos atletas. Isso, claro, considerando o momento do passe, porque, afinal, todo mundo está correndo, cada um para um lado diferente.

E para que servem tantas regras se, no fim das contas, o árbitro não enxerga porcaria nenhuma e apita o que lhe dá na cabeça, como, por exemplo, o sambinha que aprendeu ontem?

Um esporte em que, muitas vezes, ninguém sabe dizer se o lance decisivo foi ou não válido, não merece ser levado a sério.

 

4. É perigoso

Dizem que os esportes radicais são perigosos. Pois eu não conheço ninguém que tenha se machucado pulando de paraquedas, escalando cachoeira ou fazendo base jump. Por outro lado, não consigo numerar a quantidade de “atletas” que se submeteram a algum tipo de cirurgia porque se machucaram jogando bola.

Portanto, para mim futebol é o esporte mais perigoso que existe. Diga-se de passagem, é um dos poucos esportes de contato físico que se joga sem proteção quase nenhuma. A coisa e tão difícil, que nos fornece a ridícula cena de homens crescidos protegendo as partes íntimas com medo de uma bolada. Um pouco de dignidade ali não ia mal, hein?

Aliás, o esporte é tão perigoso que volta e meia alguém morre em campo, por uma súbita parada cardíaca ou, pior, atingido por um raio – prova definitiva que Deus não gosta de futebol.

Adorei a sua bolsa.
Esses argentinos, hein, sei não…

 

5. Torcedores fanáticos

E sua mãe também!
Não sei porque, mas tenho certeza que o pai está orgulhoso.

Os torcedores fanáticos sintetizam a bobagem que é futebol. Eles acompanham um esporte que não tem regras e só serve para encher os outros de dinheiro. Mas quando um crássico termina empatado, o que fazem os torcedores? Resolvem que vão se matar na próxima esquina. Nada mais lógico, não?

O torcedor fanático mais civilizado é, no mínimo, um chato insuportável. Só sabe falar sobre como o Jordeicleison não está rendendo bem em dupla com o Uachinguiton ou discutir, infinitamente, o lance polêmico do último jogo. Por lance polêmico leia-se a última invenção do árbitro, que não viu que o zagueiro “dando condições” ao atacante.

Trata-se de gente que, reconhecidamente, leva o futebol mais a sério que os jogares.

 

Espero ter irritado bastante muitos dos fãs de futebol. Afinal, eles me irritaram a vida inteira e eu tenho o direito de devolver o favor.

Nota do editor: o presente texto representam, exclusivamente, as idéias do colunista. O Estado Crônico não compartilha com as opiniões aqui expressadas.

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22
jun

5 razões para torcer contra a Argentina

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 22 de junho de 2010,  em Crônicas da Copa, Listas infames

Não faz sentido, nós, no alto de nossos 5 títulos mundiais, nos preocuparmos tanto com um time menor como o argentino. No entanto, torcer contra nuestros hermanos é o segundo esporte predileto dos brasileiros.

Mas temos nossos motivos, conforme nos mostra a lista das 5 razões para torcer contra a Argentina.

1. Maradona


É muito difícil para minha cabeça brasileira entender como os argentinos gostam do Maradona. Certo, ele ganhou uma Copa do Mundo para a Argentina, mas até aí o Romário ganhou uma para o Brasil e nem por isso virou uma divindade por aqui.

O “craque” argentino é um péssimo exemplo, em quase todos os campos (com trocadilho). Já se envolveu em tudo de ruim, como drogas e um ditador, e sua incontrolável boca bobagenta só não é maior que sua pança enorme e seu ego inflado pela inexplicável adoração popular.

Se os heróis dizem muito sobre o povo, a Argentina começou com o pé esquerdo (ou a mão?)

Maradona, fumando seu habitual cubano, com pose de atleta.

2.O Cabelo

Cabelos ao vento, mas o odor...

Cabelo de jogador de futebol já não é um exemplo de beleza. Mas os argentinos fazem de tudo para tornar os jogares de outras seleções modelos de propaganda de xampu.

Além de servir para irritar visualmente o adversário, o típico cabelo argentino, comprido, com rabinho, preso por um arco, tem por objetivo causar desconforto com o odor de gato molhado, emanado pela cabeleira depois de 10 minutos de jogo.

3. Paixão pelo sofrimento


Como gostam de sofrer esses argentinos! São tão dramáticos que elegeram o tango como um símbolo nacional.

Mas a maior demonstração da paixão argentina pelo sofrimento é sua insistência em gostar tanto de futebol. Há anos que não ganham uma Copa do Mundo e amargam derrotas históricas contra seus arqui-rivais, nós, brasileiros.

Já é hora de eles passarem a torcer pelo campeonato mundial de tango, competição que teriam melhores chances. Depois dizem que botafoguense ou corintiano gosta de sofrer…

Argentinos, após uma gloriosa derrota.

4. Marra argentina

O famoso gol ilegal de Maradona, repetido pelos legos.

O Galvão Bueno chama de catimba. Eu chamo de falta de educação mesmo. A verdade é que os argentinos não prezam pelo jogo limpo. Basta apertar um pouco que começam as faltas criminosas, os xingamentos ao pé-de-ouvido e as ofensas pessoais aos jogadores adversários.

Pior que os argentinos se gabam dessa falha de caráter e gostam de lembrar-se da “mão de Deus” de Maradona ou o episódio das águas batizadas, no jogo contra o Brasil na Copa de 1990.

5. Proximidade geográfica

Talvez esta seja a pior característica dos argentinos. Provavelmente existe mais uma meia dúzia de países tão ou mais desagradáveis. Mas eles estão longe, além mar, muito fora de nossos olhos. No entanto, a Argentina, para azar deles e nosso, está colada no Brasil e é nosso país irmão. E, existe irmão que não briga?

Pois bem, para nós, a única opção é torrar a paciência dos argentinos a cada jogo de futebol, já que não podem optar pela indiferença.

Fronteira Brasil x Argentina

Claro que a lista acima não é exaustiva e já fica o convite para os acréscimos nos comentários.

Todavia, si usted es argentino, haga tambien sus comentarios abajo. Estoy seguro que a nosotros, brasileños, nos vá a agradar mucho sus opiniones!

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17
jun

Torcer. Mais que um direito, um dever!

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 17 de junho de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Bandeira do Brasil

Levadas pela empolgação da Copa, muita gente revela seu verdadeiro caráter nessa época. Aquele sujeito habitualmente sério e educado, durante as partidas do Brasil, pode se tornar um tocador de Vuvuzalas da melhor qualidade, capaz de gritar os piores impropérios a cada lance do time adversário. Mas nada me surpreende mais do que descobrir, em pele de cordeiro, um traidor brasileiro que torce contra nossa seleção.

Tanto pior quando o vivente torce para outro país. O mais trágico de tudo é ver que, por trás da falta de patriotismo, há sempre uma desculpa mal arrumada, do tamanho de guarda-chuvas pequeno em dia de tempestade.

Vez ou outra, escuto de algum traidor da pátria a alegação que essa seleção do fulano não é a minha seleção(preencha fulano com o técnico da vez). Divergências com escalação, com o esquema tático, com a postura do técnico dentro ou fora de campo, tudo serve de explicação para esquecer o escrete canarinho e optar pelo apoio à Espanha (favorita da atualidade), ao Uruguai ou, acreditem ou não, à Argentina (crime apenado com 2 a 3 anos de detenção, seguida de decapitação). Quase sempre as divergências ideológicas com o técnico escamoteiam, sob o manto de suposto conhecimento tecnico-futibolístico, a vergonha de exibir orgulho pela pelo Brasil, como se fosse mais digno torcer por um país diferente.

Há um caso mais grave. Surge como um complexo de inferioridade, polido com cera de arrogância. O sujeito abraça seu sobrenome, levanta as mãos para seus ancestrais e passa a torcer pelos seus antepassados. Itália, Espanha, Alemanha e qualquer outro país europeu vira o favorito de alguns torcedores brasileiros com nomes importados, que esquecem sua verdadeira nacionalidade. Muito estranho, porque não vejo ninguém arrotar ser decendente de escravo, pegar seu traje tradicional africano e encarar uma torcida a favor da Uganda.

Os vira-casacas, em alguns casos, costumam trazer em seu discurso argumentos que ultrapassam o futebol. Alega-se que o Brasil não é um país sério, está cheio de pilantragem e aquele papo de sempre. No fundo querem falar só “o Brasil é um país miserável e eu não torço pra pobre!”, no estilo imortalizado Justo Veríssimo. Eventualmente, há ainda os que criticam o fato do brasileiro se tornar tão patriota na Copa do Mundo, como se isso fosse grande falha de caráter. Ora, a falta de patriotismo alheio não justifica a própria.

Assim, para todos que tentam escapar de seu dever nacionalista de torcer pelo Brasil, segue um recado desagradável. Nacionalidade é como doença congênita ou cor da pele. Você pode fazer o que for e continuará sendo brasileiro, até o fim. Ainda que se esconda nas geleiras do norte, o verde amarelo continuará estampado em quem você é. Torcer pelo Brasil, portanto, não é questão de opção. É dever! Então, jovem, você que tem sangue nas veias, vista sua camisa canarinho e deixe de frescura no próximo jogo do Brasil!

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14
jun

Dunga, a esfinge

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de junho de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Crônicas sobre a Copa do Mundo, no Estado Crônico!Dunga, no melhor estilo “decifra-me ou devoro-te”. 

 

Há quase três anos, tive a oportunidade de acompanhar, no Morumbi, o jogo entre Brasil e Uruguai pelas eliminatórias da Copa de 2010. Apesar da vitória e da campanha campeã na Copa América de 2007, o estádio, ao fim do segundo tempo, gritava “Fora Dunga” em uníssono. Desde então, tenho tentado desvendar porque o técnico com o histórico de conquistas tão sólido, jamais ganhou a simpatia do torcedor.

Como técnico, Dunga ainda amarga poucas derrotas (que assim permaneça). Mas como jogador, ele perdeu uma Copa, ganhou uma Copa e perdeu outra. E como todo mundo que perde, Dunga detesta ter que se explicar.

Sem uma voz legítima, Dunga passou a ser interpretado pelos grandes “especialistas” do futebol. Na ausência de discurso oficial, restou à imprensa traduzir o técnico à massa. Assim, Dunga passou a ser julgado pela versão da “mídia especializada”, notoriamente antipática ao técnico. O público, como sempre, apenas repetiu o que foi ensinado.

Mas, a que veio Dunga? Não sabemos ainda. Mas é certo que o grande projeto de Dunga entra em sua fase final em algumas horas. A partir de então vamos saber o que esconde essa que parece ser, até agora, a face mais séria da seleção brasileira.

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13
jun

Origem curiosa de 5 expressões do futebol

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 13 de junho de 2010,  em Crônicas da Copa, Listas infames

“O zagueiro evitou o gol olímpico e a torcida foi ao delírio! O chute de trivela teria resultado em um fantástico gol de placa.” Conhecemos essas expressões, mas, e sua origem? Copa do Mundo a pleno vapor, chegou a hora de ver a curiosa origem sobre algumas expressões usadas pelos nossos locutores de futebol, muitas das quais já ganharam nosso cotidiano.

 

Gol Olímpico

No início, o gol marcado direto do escanteio não era considerado válido no futebol.

Em 1924, a FIFA alterou as regras, para validar o gol feito pelo cobrador do escanteio. Em outubro do mesmo ano, a Argentina venceu o Uruguai em um amistoso, por 2 x 1. Na partida, o argentino Cesáreo Onzari marcou um gol olímpico.

A expressão passou a ser usada pelos argentinos para ironizar os uruguaios, então campeões olímpicos e,  a partir de então ganhou o continente e acabou aterrisando no Brasil.

Estado Crônico: crônicas engraçadas e textos divertidos.
A rara imagem do gol olímpico, marcado pelo argentino Cesário Onzari.  

 

Gol de Placa

Foto da placa do Maracanã não deixa dúvida. O gol de Pelé cunhou a expressão "de placa". A placa do Maracanã não deixa dúvidas. O gol de Pelé cunhou a expressão "de placa".

Talvez essa seja a história mais famosa da etimologia do futebol. Segundo consta, a expressão foi cunhada após uma partida disputada entre Santos e Fluminense, no Maracanã, em 5 de março de 1961, vencida pelos santitas por 3 x 1. No jogo, Pelé marcou um gol tão fantástico que Joelmir Betting, então jornalista esportivo, solicitou ao jornal “O Esporte” que encomendasse uma placa para ser fixada no saguão do estádio, em homenagem ao feito.

A partir de então, a expressão entrou para o vocabulário futibolístico como sinônimo de gol bonito.

 

Torcedor

É bem curiosa a utilização da palavra torcedor para designar quem apoia um time. O jornalista Luiz Mendes, em uma entrevista, contou que a expressão foi cunhada pelo cronista Coelho Neto, no início do século XX, em referência às mulheres elegantes que acompanham os jogos do Fluminense e, ansiosas, torciam as luvas ao ver os lances de seu time.

A palavra passou, assim, a denominar quem apoia um time. Mais tarde, o termo se expandiu para outros esportes e hoje, temos 190 millhões de torcedores no Brasil.

 Teriam as luvas femininas originado a expressão “torcedor”?

Teriam as luvas femininas originado a expressão “torcedor”?

 

Zagueiro

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Soldados marchando e o 4x3x3, ninguém imagina, mas a relação é clara.

A palavra zagueiro é originária do termo zaga, para definir o jogador que trabalha atrás, na defesa da equipe. Todavia, no português, a palavra zaga está associada, exclusivamente, ao futebol.

No entanto, o termo se originou da palavra espanhola zaga, que define a parte detrás de alguma coisa ou, ainda mais precisamente, a última linha de uma tropa em marcha.

 

Trivela

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Uma bela fivela, que pode ter originado o termo trivela.  

Antes, vamos esclarecer o que é trivila para os leitores menos adoradores de futebol. Segundo o Houaiss, trivela é “chute de curva, com efeito, desferido com o lado do pé”. A origem do termo é bem obscura.

Segundo a pesquisa realizada pelos redatores do Estado Crônico, a origem do termo está associada à palavra fivela. Segundo o site Ciberdúvidas da língua portuguesa, era hábito, na região da cidade portuguesa do Porto, chamar as fivelas dos sapatos de trivelas. Adivinhem onde ficavam as tais trivelas nos sapatos? No peito do pé, exatamente onde a bola bate para dar o tal efeito no chute de trivela.

Não sei se está correto, mas é uma ótima explicação.

 

Conhece origem de alguma expressão que não esta aí ou tem alguma correção a fazer? Deixe seu recado nos comentários!

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10
jun

Que venha a Copa do Mundo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 10 de junho de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa

Epidemia. Eis a única palavra para explicar. Começa de maneira sutil, em meados de abril, com uma bandeirinha aqui e outro rótulo pintado de verde e amarelo acolá. Todavia, a mania de nacionalizar tudo se espalha de maneira viral. Meio de maio e parece que o Brasil inteiro se embrulhou em celofane verde-amarelo, ganhou cornetas e bandeiras. Passado quase um mês, há o ápice da expectativa. Correspondentes internacionais devidamente enviados e afiados, bolões a pleno vapor, vinhetas massacrantes na TV, vamos todos à Copa do Mundo.

Todavia, quem leu sobre meu desprezo pelo futebol, vai receber a seguinte notícia com alguma surpresa. Eu adoro Copa do Mundo. A contradição é mínima e apenas aparente.

Pode até parecer, mas Copa do Mundo não guarda quase nenhuma relação com futebol. Por mera coincidência, a Copa do Mundo é disputada com regras semelhantes ao futebol. Mas não se trata do mesmo fenômeno. Futebol é um esporte chato, limitado a uns poucos admiradores entendidos (talvez mais que uns poucos, mas não vou entrar no mérito), que sabem, por exemplo, qual foi o campeão brasileiro de 1981. Copa do Mundo, ao contrário é fenômeno de massa e não existe em nichos. Qualquer vivente sabe que o Brasil é pentacampeão. Oxalá Hexa em breve.

Tanto assim, aliás, que alguns jogadores de futebol excepcionais não conseguem se destacar na Copa. Pois não são times de futebol que entram em campo na Copa do Mundo. Trata-se do último suspiro do nacionalismo arraigado. Fanatismo, ufanismo desmedido, tudo ganha alvará de soltura, de quatro em quatro anos, para uma catarse nos campos. Que se dane a política internacional, os blocos regionais, o MERCOSUL, a União Européia e o espírito global. “Somos guerreiros”, os jogadores afirmam em uma recente propaganda. Dentro das quatro linhas, a batalha visceral está liberada, desde que com fairplay.

Não é por acaso que o nacionalismo é visto com maus olhos atualmente. O ufanismo alimentou o fascismo e serviu de combustível para duas guerras mundiais no último século. Entretanto, o sentimento gerado pela Copa do Mundo é diferente. Por onde é exibido, o torneio provoca uma enorme festa. Carreatas nas ruas, festa sob o Arco do Triunfo (má lembrança) e coro absurdo de vuvuzelas de ex-cativos do apartheid. Vez ou outra aparece um chato para dizer que há violência aqui ou ali. Mas, sem dúvida, são casos isolados, muito diferentes, diga-se, da saída de um Palmeiras e Corintians.

Impossível, portanto, ser antipático a um movimento que mostra, ao fim, a grande capacidade da reunião popular. Especialmente para nós, brasileiros, que nem aprendemos a ser patriotas e já precisamos desaprender, para nos tornar globalizados. Afinal, quem consegue acordo no condomínio para decorar a fachada ou arrecadar dinheiro na vizinhança para pintar a rua pode, muito bem, entender dessa maneira, a importância de pensar e agir juntos.

Post-scriptum, com um convite:

Apesar de todo o dito acima, sei que é maçante o movimento midiático da Copa do Mundo. No entanto, é impossível ser imune.

Assim, conclamo meus prezados leitores, imaginários ou não, a opinar.

Alguém tem interesse na manutenção das crônicas da Copa ou o Estado Crônico deve se manter, doravante, silente sobre a questão? Apenas vocês podem decidir, aí nos comentários!

Agradeço previamente a participação.

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14
abr

Para quem não gosta de futebol

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de abril de 2010,  em Crônicas, Crônicas da Copa, Nerd

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Como toda pessoa normal, eu não gosto de futebol. Sei que o esporte atrai a atenção de milhões de pessoas, quase diariamente. Mas tal paixão só pode se explicar por alguma espécie de psicose coletiva. Algum complexo freudiano mal resolvido, que resulta na paixão injustificada por um time.
Aliás, meu principal problema com o futebol sempre foi escolher um time. O que faz de um sujeito palmeirense, sãopaulino, botafoguense ou flamenguista? Provavelmente a pergunta autoriza várias respostas. Todas que escutei, até hoje, foram explicações meramente personalíssimas, do estilo, “porque meu pai torceu para esse time” ou, o contrário absoluto, “porque meu pai torceu para o outro time” (olha o Freud aí!). Nada mais racional que, efetivamente, justificasse a atração por esta ou aquela equipe.
Ótimo, assim eu posso escolher o time que vou torcer de maneira quase aleatória, sem justificativas, certo? Não, porque uma vez torcedor de uma equipe, o sujeito veste um estereótipo, como se vestisse a camisa do clube. Não existe mais o Carlos, autor do Estado Crônico, mas o Carlos, cruzeirense. E o melhor é que a definição do que vem a ser “cruzeirense” escapa de sua alçada. É dada por uma massa disforme e anônima.
Em suma, cuidado ao se identificar com um time de futebol. Você será identificado por ser seu torcedor!
Entendo, claro, porque o futebol é tão popular. Trata-se de um processo dialógico, no qual o sujeito procura sua individualidade buscando, contraditoriamente, participar de um grupo. Por outro lado, não consigo entender como tantas pessoas caem nessa roubada e se empolgam por um mecanismo que, claramente, só faz explorar a paixão do torcedor. Afinal, para que tantos jogos e campeonatos se são sempre os mesmos times a disputá-los?
No fim, tudo vira óleo para azeitar as engrenagens do mercado. Mas, vamos esquecer deste assunto porque é ano de Copa do Mundo!

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