25
mar

Aperte Play

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 25 de março de 2013, em Crônicas

Clique para abrir o site do fotógrafoQuando aprendi a escrever foi como ganhar um grande brinquedo.

Alfabetização é uma coisa meio mágica. De uma hora para outra a criança adquire um sem número de possibilidades para mundo até então fechado. Mas, mesmo com todo encanto que traz a leitura, lembro que era a possibilidade da escrita que mais me enfeitiçava naquele processo.

Depois de entender como se faz a magia da escrita, eu pude, pela primeira vez, mostrar minhas idéias para o grande público. Ainda que, à época, os leitores fossem ainda mais imaginários do que hoje. Na grande maioria das vezes, apenas minha mãe, cuja aprovação invariável dos textos era, para dizer o mínimo, suspeita. Ser escritor foi, provavelmente, a primeira profissão que desejei na vida.

Estranhamente, esse desejo foi esmaecendo. Com o tempo, escrever foi se tornando sempre coisa séria. Escreva bem, menino. Escreva direito, escreva correto, conjugue o verbo na segunda pessoa do plural do pretérito mais-que-perfeito do indicativo (droga de tempo verbal chato). À escrita atribuiu-se sempre alguma utilidade. Escrever para se comunicar, ser claro, passar no vestibular, mandar cartas para a avó (que já tinha morrido e se recusava a ler as missivas), ter bom emprego e redigir contratos infalíveis. Que saco.

Fato é que ninguém disse “escreva por escrever, feito brincadeira, porque é legal e essas idéias malucas que você tem, sei lá, vai que algum doido gosta também e lê, compra a mensagem, dialoga, sabe como é, já vão ser dois malucos juntos.” Essa falta de incentivo à escrita contrasta, aliás, com todas as mensagens que colhi na vida sobre as maravilhas da leitura. “Ler liberta, ler enriquece, ler te dá asas, ler te leva a lugares, ler faz você conseguir namorada bonita e inteligente.”

(Bom, pelo menos a última frase deve ser verdade, o que escusa os arautos da leitura do crime de estelionato, mas já falei minha opinião sobre o tema antes.)

Ainda assim, entre todos os textos perdidos por aí, personagens natimortos e histórias engolidas no mundo esquecido dos livros não escritos, consegui, meio por acaso, chegar a esse blog. Mas, por muito tempo, precisei, de alguma maneira, buscar um discurso que justificasse o tempo perdido nas palavras e a energia gasta com algo que não ia além daqui mesmo (e da cabeça dos leitores imaginários) ou em fazer para que esse algo fosse além do que já era. E isso era uma angústia.

Vejo que não sou muito diferente de outros tantos por aí nessa angústia. Todavia, conscientemente, trabalho, quando escrevo, para me libertar do compromisso de chegar a algum objetivo além da própria atividade. Escrever pela alegria de atirar os pensamentos nessa parede estranha e esperar ver o que vai dar. Até se não for dar nada. O zen da escrita.

P.S.: Enquanto fermentava as idéias para esse texto, uma amiga me mostrou o blog de seu filho de 6 anos. Achei fofo. Aos poucos, nesse mundão grande da Internet, ele toma gosto pela escrita. Queria ter seis anos hoje para poder ter um blog assim e espalhar mais ideias por aí.

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14
dez

Aperte Pausa

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 14 de dezembro de 2012, em Crônicas

Terra, um pálido ponto azul visto de Saturno.Sei que não será nada original este blog retornar ao assunto do fim do mundo às vésperas do evento. Mas, desde quando têm os cronistas direito de buscarem pautas que escapem das vicissitudes do cotidiano?

Assim, com apenas mais 7 dias para aproveitarmos nossa gloriosa vidinha aqui no pálido ponto azul, busco apenas jogar algumas conjecturas hipotéticas no ar.

E se, ao invés de acabar em um fogaréu roliço no negro do espaço, nosso mundo fosse só dar uma pausa. Um relax sob a sombra do coqueiro. De uma hora para outra, seja lá por qual motivo, desse na idéia de alguém proibir a novidade?

No noticiário, um William Bonner atônito, dizendo “E hoje não aconteceu rigorosamente nada que seja digno de notícia. Nenhuma tragédia em nenhum país longe, nenhum escândalo de corrupção, nem gols das equipes de futebol. Então, para suprir o vazio da programação, vamos passar vídeos de gatinhos fofos que tiramos do YouTube”.

No cinema, nada de estréias. Senta lá e vai assistir trilogia de O Senhor dos Anéis na versão estendida. Lista de livros? Encolhendo, porque ninguém acresce títulos à pilha de leituras pendentes. Discos? Ouça os que já tem, bailando naquele festejo de quem celebra bodas de ouro.

Tecnologia? Vire-se com o que aí está. Abaixo a Lei de Moore! Ninguém mais vai preso se mantiver computador desatualizado por mais de duas semanas. Também não precisaremos mais de notação científica para numerar modelo de celular. Fique com a quinta maçã  ou a terceira galáxia, pois os dois já passam mensagem, têm toque polifônico, tela colorida e controlam foguete espacial.

Não sei bem qual seria a consequência econômica disso. Suspeito que alguma recessão grave, cumulada com o desemprego do Bonner e agravada pela nossa crise de abstinência de distrações. No entanto, mais dia menos dia, alguém vai sair do riscado e frear a máquina de novidades.

Mas, por mais estranho que possa parecer, não achei tão ruim a proposta. Pelo menos haverá os vídeos de gatinhos fofos no Jornal Nacional.

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7
dez

Carta ao Sr. Reinaldo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 7 de dezembro de 2012, em Blogagens

Reinaldo-AzevedoNão, Sr. Reinaldo Azevedo. Eu não sou idiota, como você me classificou. E ainda que o fosse, não seria o fato de discordar das suas opiniões que me transformaria em um dos burros celebrados em sua coluna. Ademais, ao contrário do que o Sr. falou, eu li e compreendi seu texto inteiro, talvez mais de uma vez, só pelo prazer e assombro de ver como se constrói um texto falacioso.

Aliás, idiota, tampouco, era Oscar Niemeyer, como você também afirmou. O argumento lançado no texto pelo Sr. parece até lógico e, talvez por isso mesmo, seduz muita gente. Vê-se que, em sua opinião, Niemeyer era um arquiteto genial, mas, ideologicamente, um idiota.

Contudo, Sr. Reinaldo, há aí, no mínimo, dois problemas.

O primeiro é a falácia de julgar a idéia e condenar a pessoa. Pois o Sr. não apenas afirmou que as ideias de Niemeyer eram idiotas, mas foi um passo além. Afirmou que o homem Niemeyer era um idiota (ok, eu sei, metade idiota).

Veja, há uma certa distância em chamar alguém de idiota e dizer que suas ideias são idiotas. Posso dizer, por exemplo, que as ideias do Sr Reinaldo são idiotas, umas excrescências intelectuais. No entanto, veja que eu não estou chamando o Sr. Reinaldo de idiota, por mais tentador que isso seja. Esse é um passo que não dou, seja por prudência, pois não conheço o Sr. suficiente para julgá-lo, seja por respeito ao ser humano.

Pois, pode parecer estranho, mas chamar os outros de idiota é ofensivo, Sr. Reinaldo. E se os tais outros já estiverem mortos, é mais ofensivo ainda. E (agora deve vir uma grande surpresa para o Sr.) chamar uma pessoa de idiota, no dia de sua morte, em um dos meios de comunicação mais lidos do país, é ofensivo, não apenas ao falecido, como a sua família e a toda nação. Vai ver é por isso que as pessoas se ofenderam. Não foram suas críticas ao comunismo que eriçaram os pelos de seus opositores, mas a ofensa pessoal a Oscar Niemeyer, estampada logo no título de sua coluna, o que, por óbvio, dispensa a própria leitura do texto para entender seu caráter ofensivo.

Mas, como eu disse, há dois problemas com suas opinião. Pois bem. O segundo erro é sua crença ferrenha de que qualquer opinião contrária a sua é idiota. Na verdade, as ideias devem ser debatidas, discutidas, trabalhadas, agredidas e talvez até defendidas. Mas nunca desqualificadas como idiotas a uma primeira olhada, simplesmente por serem filiadas a esta ou aquela ideologia. Esse processo de discussão, Sr. Reinaldo, é debate público e democrático.

Sei que o Sr. não é afeito ao debate. Tanto que, quando teve o texto questionado nos comentários, avocou a autoridade de moderador e, ao invés de deixar que as próprias opiniões vivessem (ou talvez morressem) por si mesmas, escreveu uma segunda coluna, classificando como 100% idiotas os leitores que, como eu, ousaram discordar do Sr. E, aliás, com essa atitude voltou ao primeiro erro, de julgar a idéia e condenar a pessoa. Mas o debate público é o único meio de garantir a prevalência das melhores idéias. E, faz um bem danado, pois permite que nós, vez ou outra, saiamos de nossa bolha confortável, onde escutamos apenas opiniões convenientes.

Entretanto, sei também, Sr. Reinaldo, que, embora seja difícil viver com a inconveniente opinião alheia, o debate é inevitável. Veja só que o Sr., no alto da autoridade imaginária de quem escreve uma coluna de uma revista famosa, tem que conviver com minha opinião discordante, em um blog independente. E, tenho certeza que o Sr., em sua marfiniana torre de audiência, me acha insignificante e usará isso para desqualificar meus argumentos. Mas, ao menos, sou honesto o suficiente para dar voz às (muitas) vozes discordantes, aceitar o debate e manter íntegra minha opinião. Isso tudo sem ser ou chamar alguém de idiota.

4
dez

A Arte de Voltar

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 4 de dezembro de 2012, em Crônicas

O Retorno do Filho Pródigo RembrandtDois sentimentos dividem quem volta.

E deixo propositadamente a última palavra sem seu devido adjunto adnominal. Pois não me interessa para onde ou do quê se volta. Basta existir o fenômeno da “volta”, após a ausência prolongada, para o sujeito (o “voltante”) ser dividido por dois sentimentos dispares.

O primeiro é o mais notável. A familiaridade. Reencontrar-se com o que já se conhece. A rigidez da dobradiça da porta de casa, fechada por um mês, que ecoa pelo corredor do prédio o mesmo barulho de todos os rotineiros retornos, gritando “Lar, doce lar”. Daí vem inquestionável conforto, mesmo para aquele que retorna às situações mais desagradáveis. Aliás, tenho a impressão que o apego a familiaridade deve ser ainda maior quando se retorna ao caos. O preso se reconforta na cela, quando vem a saber que eles ainda servem a mesma refeição horrível, a qual se acostumou a comer ao longo da última pena.

Estranhamente, é a mesma familiaridade que, quando em excesso, se torna enfadonha e leva ao tédio. E este, à partida, fenômeno sem o qual não há qualquer retorno. Pois, quem parte vai em busca de uma nova realidade, seja o estranhamento nas planícies desérticas da Mongólia ou o conturbado mar de gente da China.

O que nos leva ao segundo sentimento, o encontro com a novidade. Pois quando se sai para buscar a novidade do outro lado da galáxia, nem se imagina que o retorno será a um lugar diferente.

Mas sempre é.

E o leitor imaginário vai me esfregar o óbvio na cara, dizendo que há muito mais de familiar na volta do que na ida. Verdade. Contudo, eu insisto, porque a novidade do familiar tem que ser buscada nos detalhes. Na grama crescida após a seca, na reforma eterna que é uma mutante constância, na mudança da programação da TV, com o mesmo locutor dando outras notícias, na sutileza de quem respira o ar e percebe a diferença de sua umidade relativa.

Assim, voltar é como viajar para a própria casa. Estranhar-se no lugar familiar. Mas, claro, há quem dirá que nada disso interessa (“Ah! Vá lá dizer que a programação da TV interessa!”). Mas esses voltam sempre para a mesma vidinha desinteressante de sempre. E não há viagem que mude isso.

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31
jul

Norberto, o sistemático

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 31 de julho de 2012, em Crônicas

NorbertoNorberto gostava de organizar coisas. Na falta de um xingamento melhor, chamavam-lhe de “sistemático”. Aos livros, dava o lugar de acordo com o sobrenome do autor, título, ano de publicação e editora. Os discos, muitos, Norberto organizava pelo estilo musical, de maneira geral. Dentro do estilo, ordenava por nome do artista. Por fim, dentro da subcategoria, pelo ano de lançamento do álbum. Já os filmes eram organizados de maneira ímpar, categorizados em “Filmes com areia”, “Filmes com Canto Gregoriano”, “Filmes de Professor” ou “Filmes bons com finais ruins”.

Enfim, tudo era organizado. Até os negativos das fotografias antigas. Sim, Norberto tinha fotos da época dos negativos, rigorosamente organizados em ordem cronológica. E quando se rendeu a fotografia digital, Norberto mandava imprimir suas imagens em negativos, só para não desordenar sua coleção.

Mas entre tantos catálogos de Norberto, o mais querido era sigiloso e íntimo. Tratava-se de suas lembranças, arquivadas por sentimentos, em um complexo processo mental desenvolvido ao longo de anos de reflexões silenciosas.

Vez ou outra, Norberto passava os dedos pelos arquivos de suas lembranças, apenas para evocar sentimentos. Quando queria sentir-se rejeitado, lembrava do dia em uma praia da Bahia, quando ele disse sim para ouvir um não. Talvez desejasse apenas sentir raiva, então sacava a pasta com a memória de quando foi coagido a mudar seus planos de viagem. Muito frequentemente visitava o arquivo “Tristeza em estado puro”, cujo conteúdo ele não revelava a ninguém, mas envolvia uma caminhada na chuva.

Norberto não sentia saudades. Não precisava, pois possuía todas as lembranças devidamente arquivadas e as vivia novamente.

No entanto, guardou poucas lembranças boas. Portanto, não gostava de conhecer novas pessoas e viver novas experiências. Estava satisfeito com o que tinha. E cada novo encontro poderia bagunçar seu arquivo, misturando aquela pasta “caminhada até o albergue com sol dourado de outono” com outras lembranças.

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19
jul

Fim do Mundo II

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 19 de julho de 2012, em Crônicas

London Burning 1666Se estou especialmente otimista com o fim do mundo, um ponto em especial me aflige. A possibilidade, cada dia mais remota, de a catástrofe não acontecer no período aprazado. Vai que o evento é adiado, por uma série de questões relacionadas ao planejamento divino, como ausência de recursos para as obras de fim de mundo ou falta de meio de transporte para o deslocamento dos trabalhadores e espectadores do espetáculo (nas esferas celestes a questão é tida como um show pirotécnico – de baixo orçamento).

Imaginem só, todos preparados para o fim do mundo em 21 de dezembro de 2012 e ele não dá as caras. Pior, aparece algumas semanas depois, sem vergonha. Como uma visita que chega sem avisar, quando sua casa está mais bagunçada.

Pois não haverá vexame maior que não poder programar os últimos vestígios da humanidade. Pensem na espécie sucessora do ser humano no domínio do planeta. Seus estudiosos escavarão nossos vestígios, como hoje fazemos com os dinossauros, e tentarão entender nossa cultura.

O fim do mundo fora de hora estragará nossa pouca chance de deixar boa impressão. Nada de desaparecer com os discos de Michel Telo do três-em-um, varrer todos os filmes do Michael Bay para baixo do tapete e esconder os livros de auto-ajuda. Azar nosso, o fogo consumirá até a  extinção, ardiloso que só, o volume de Shakespeare Complete Works e o vinil de Bach.

Vai-se embora também a oportunidade de colocar, sob a pilha de escombros do fim do mundo, um livro bojudo da “Grande e Gloriosa História da Humanidade”, bem editado, sem aqueles tropeços bélicos tão feios.

Que venha o fim do mundo. Mas na data marcada, sem imprevistos!

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6
jul

Fim do Mundo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 6 de julho de 2012, em Crônicas

Buuuum!Entre as tão poucas cartinhas à redação que recebo no escritório do Estado Crônico, uma em especial chamou minha atenção. Tratava-se de uma leitora imaginária, aflita, pois a redução do número de publicações nas últimas semanas poderia significar o fim do blog. “Que farei eu, caro cronista, sem a alegria e diversão de seu texto? Não mais uma pérola de sabedoria semanal, que me livram do tédio existencial…” E por tal caminho seguiam os elogios e angústias da leitora, que, ao meio da leitura, coloquei de lado a carta e agarrei o teclado para escrever novas crônicas.

Assim, para que não reste qualquer dúvida sobre o assunto, esclareço. O Estado Crônico não vai acabar, nem agora, nem tão cedo.

E viverá tanto que, estranhamente, sobrevirá ao mundo, este sim, infelizmente, com data para seu fechar de cortinas já agendada para o final do ano.

Portanto, em que pese a necessidade das crônicas habitualmente acompanharem as variações de humores e interesses do público, considerando que ao fim do mundo não haverá mais leitores, imaginários ou não, decidi antecipar a pauta e falar um pouco sobre o trágico final que se aproxima.

Contudo, como sempre ocorre nos assuntos de alto relevo da humanidade, nessa história há muita confusão e pouca definição. Pois, a dimensão e o alcance do tal fim do mundo ainda são absolutamente desconhecidos e nem a mais pessimista das pessoais deve esperar a súbita explosão dessa esfera, a qual nos habituamos a chamar de Terra. Assim, provavelmente, quem terá seu fim serão os habitantes do planeta, nem sabemos quais, nem quantos, muito menos de que espécie. Veja-se, por exemplo, o que se passou com, George, o último espécime da última tartaruga gigante, cujo falecimento levou ao fim toda sua espécie. Foi o fim do mundo para a turminha deles.

Creio em um fim do mundo mais ameno. Como diria R.E.M., banda que (sintomaticamente) acabou há pouco, “it’s the end of the world as we know it.”

Exatamente diante disso, coloco-me extremamente otimista com relação ao fim do mundo. Afinal, a grande hecatombe que virá trará, provavelmente, uma série de inconvenientes, mas, na mesma medida, exterminará uma série de outros tantos.

Vejam só, as aporrinhações mais cotidianas vão junto com o mundo. Não mais fila de carros para entrar no estacionamento, nem escolha de amaciantes no supermercado. Mas, a grande vantagem de todas será o fim das preocupações mundanas. Ora, se são elas “mundanas”, não podem sobre-existir em um tempo em que o mundo já não mais existe. E, com isso, lá se vão todas as vaidades, anseios de sucesso e prazer instantâneo.

Dessa maneira, meus prezados leitores e leitoras imaginárias, nada de desânimo com o fim do mundo. Vamos acordar com a melhor cara que pudermos usar no dia 21 de dezembro de 2012, data provável para o fatídico evento. E quem viver (se alguém viver, por óbvio) aproveitará nosso planetinha renascido, talvez de nós mesmos.

Aliás, não é assim todo dia?

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29
jun

Dever de casa

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de junho de 2012, em Blog para ele mesmo, Crônicas, Dever de casa

Dever de casaSerá com grande surpresa que o leitor imaginário receberá a informação a seguir. Aliás, eu mesmo a recebi com quase descrença. Mas, por mais estranho e improvável que pareça, descobri que os textos do Estado Crônico são usados em salas-de-aula. Mais. São usados como apoio pedagógico. Não se trata apenas de material de recorte para colagens surrealistas do primeiro ano fundamental.

Ao que parece, os textos freqüentam a sala de aula com dignidade de obras literárias. São dissecados pelos alunos, cujo trabalho é vasculhar as entrelinhas em busca de algum sentido para os textos. Ou, quem sabe, construir com eles a compreensão de algum estilo literário perdido do passado. Nos dois casos, tenho certeza que a situação dos alunos deve ser bem difícil. Imaginem, tentar algum significado nos textos. Algo digno de perder os cabelos.

Seja lá o que for o trabalho deles, fico muitíssimo feliz com a notícia. É uma daquelas coisas que contarei para minha mãe, orgulhoso. Talvez até ganhe um “parabéns meu filho”. Enfim, diante do fato, achei conveniente facilitar a vida dos professores e, deixar, eventualmente, algumas perguntas prontas para que ajudar nos trabalhos escolares.

O gabarito, claro, não será revelado por mim. Até porque eu não sei mesmo a resposta das perguntas.

E, assim, vai a primeira questão para o dever de casa:

  • No texto No Metrô III, onde está o eu(no caso eu mesmo)-poético(no caso, crônico)?
  • No mesmo texto, como você interpreta a personagem Penélope e seu tricô?
  • O autor do texto faz três referências às cores. Quais são elas e como se relacionam?

Respostas com cartinhas à redação. Quem errar ganha dez.

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22
jun

No metrô III

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 22 de junho de 2012, em Crônicas

Sob a luz duvidosa do vagão, cada um vive em seu próprio mundo. Todos absortos em seus livros, revistas, fones de ouvido de um mundo antes dos iPods, devaneios e a arte aplicada de tirar pelinha com os dentes do cantinho.

Todos menos Penélope.

Ela, sem por um momento lançar os olhos à enorme malha de tricô que tece rapidamente em dedos hábeis, observa cada um dos presentes e constrói para eles histórias que ainda estão por vir.

Para o rapaz de gravata azul, com olhar perdido na paisagem estéril dos túneis do metrô, tece uma história óbvia. Recém chegado na cidade, não sabe o valor do tempo desperdiçado nas idas e vindas. Com os anos, aprenderá a fazer daquele período seu tempo mais confortável e procurará caminhos cada dia mais longos para o trabalho, como quem se encontra ao perder-se no labirinto.

Ao seu lado, o senhor grisalho. Sem ter o que fazer, ocupa, pela manhã, um assento preferencial e resolve, ao longo do dia, todas as palavras cruzadas dos jornais. Infelizmente, seu vocabulário não é tão longo quanto outrora e, para fazer caber suas idéias no papel, alonga letras, investe palavras e subverte sentidos. Um cantor com uma melodia sem ritmo.

Há também a menina da calça azul colorida. Séria, lê apostilas de concurso enquanto volta do trabalho. Muito ainda lhe acontecerá. Entretanto, ela, embora sempre surpresa, nunca estará despreparada para os acontecimentos, que lhe atingem mas nunca lhe abatem.

O vagão abre as portas monotonamente. Descem a menina e o rapaz da gravata azul. Nem se olham ou se conhecem. No futuro serão felizes. Antes, por muito tempo, Penélope trançará seu tricô, solitária nas viagens. Visível apenas para o senhor grisalho e suas palavras cruzadas e contorcidas.

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1
jun

Montinho de areia

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 1 de junho de 2012, em Crônicas

Só areia.Dizem que no começo era um grão de areia. Ou talvez fosse só um grão de qualquer coisa, pois, sendo o início de tudo, areia ainda não existia e tampouco podiam os grãos ser disso ou daquilo. Eram grãos. Ou melhor, era um grão que eu, por absoluta teimosia e para deixar o texto mais poético, chamo de grão de areia.

Bons tempos aqueles.

Depois o grão explodiu. E pelo que me contam os canais de televisão especializados no assunto, tudo virou uma nuvem de poeira. Poeira cósmica é o nome que dão. E fico eu, no sofá da sala, morrendo de medo da infinitude do universo, a me questionar o que seria poeira cósmica. Certamente não é a mesma que se acumula nos livros da estante. Deve ser poeirinha mais especial, que faz mais que me provocar alergia. Mas seja lá como ela for, gosto mais de pensar em uma nuvem enorme de areia, poeirenta que só ela, a invadir tudo. Melhor, invadir o nada, que, pasmem, ainda estava em estágio de elaboração na época.

E muitos tempo depois, os grãozinhos de areia olharam para o lado, se gostaram e, ao melhor estilo da Clarice Lispector, disseram sim um para o outro. Naquela atração toda, fizeram um bem bolado que chamamos de galáxias, sistemas, estrelas e até um planeta com água e areia. E, vejam a surpresa divina, que água e areia, misturados, transformam-se em barro e do barro, como é sabido, se fazem várias coisas, entre elas tijolos, esculturas, peças de porcelana para minha mãe pintar, paredes, atoleiros, vasos fantasmagóricos, urnas funerárias e não seres humanos. Esses são feitos de outra coisa. Provavelmente poeira cósmica.

E a verdade é que os seres humanos, caminhando sobre as areias, viram que aquilo era bom, útil e, já que estavam ali, de bobeira mesmo, construíram pirâmides e cidades. Entretanto, continuavam meio perdidos. Até que fizeram da areia, vidro. E do vidro, lentes. E das lentes, telescópios para olhar o céu enorme. E enxergaram uma porção de coisas, entre elas, os grãos de areia brilhantes lá encimados. Passaram a entender melhor seu lugar ridiculamente pequeno naquela nuvem enorme de areia. Mas, para consolar, inverteram as mesmas lentes e conseguiram enxergar coisas ainda mais ridiculamente pequenas. Óbvio que o alento durou pouco. Apenas até compreender que não só eles eram feitos daquelas coisas ridiculamente pequenas como, ainda, elas eram terrivelmente fatais.

Se não serviu de consolo, pelo menos as lentes abriram os olhos humanos para várias possibilidades. E eles pensaram bastante até conseguir brincar novamente, cheios de lentes e idéias, para juntar um punhado de areia, tirar o silício dali e fazer plaquinhas eletrônicas. Ah! Mas a brincadeira foi tão divertida que ainda nem terminou. Fizeram microchips, ligaram tudo em um rede e arrumaram um jeito de chamar de revolução tecnológica.

No entanto, olhando daqui, dá para ver que, do início até hoje foi só areia, explodida, agregada, compactada, aquecida, esfriada, polida, molhada, trabalhada e evoluída. Não espanta que se utilize vidro e areia para medir o tempo.

E você aí, reclamando que entrou areia nos seus planos de ir ao litoral relaxar na praia.

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