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23
jun

Lost, um mês fora de cena – SPOILERS

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 23 de junho de 2010, Tags: , ,

Lost

Impressionante como o mundo pós-moderno é descartável rápido. Há um mês, a exibição do último capítulo de Lost envolveu uma mobilização incrivel na Internet. Hoje, a maiorrevoluçãodatelevisão já foi engolfada pela Copa do Mundo. Mas o Estado Crônico trabalha contra o olvido do que é bom e relembra a data repetindo a reflexão feita à época.

O texto abaixo é o e-mail encaminhado por um grande amigo meu, João Alberto, e escrito, creio eu, ainda no calor da experiência que foi assistir o fim de Lost. Rebeci a mensagem, mas guardei na cápsula anti-spoilers até assistir o episódio. Assim, o texto foi a primeira coisa que li sobre o tão aguardado desfecho da série.

Eu gostei do final do Lost, adorei. Para falar a verdade, não esperava tanto.

Lost terminou da maneira que sempre foi, contando a história de pessoas, seus conflitos, suas escolhas, seus erros, seus acertos. Terminou sem resolver todos os mistérios. Ok, terminou mesmo. Mas tinha que resolvê-los todos? A vida não é assim mesmo? Dúvidas que por várias vezes ficam sem resposta? Conflitos não resolvidos? Até nisso o final foi fantástico. Ao negar a solução para tudo, acertou em cheio na necessidade humana de respostas e a frustração de não obtê-las sempre ou das mesmas são serem o esperado. “Cada resposta só levará a outra pergunta”. Não vejo sentido em explicar quem jogava comida na ilha ou o que aconteceu com Walt. As coisas acontecem na nossa vida, as pessoas passam por ela, existir é assim. Não era possível responder a tudo. E nem mesmo era desejável. A verdade é que as pessoas fizeram de Lost algo muito mais misterioso do que realmente era (não que não fosse muito), criando centenas de teorias em função de qualquer detalhe e depois exigindo respostas. Como disse Jacob para Kate no penúltimo epsódio, "(Kate) é só um nome riscado numa parede. O trabalho é seu se você quiser".

Não achei o final piegas, longe disso. O final do Lost foi Jack, após ver o avião da Ajira (não, não era o Oceanic 815 ou outro avião) partir, morrendo. E este final não foi feliz. Foi "felizes para sempre", por exemplo, Kate e James saírem da ilha, um sem a pessoa a quem tinha acabado de dizer que amava e o outro para um mundo em que não tinha qualquer propósito? Aonde está o final feliz dos candidatos? Se eles foram felizes, os que não morreram, o foram depois de terem deixado a ilha, mas isso fica para a imaginação de cada um.

Ao trazê-los à igreja (na acepção genérica do termo) da Dharma de novo (vista na 5 temporada), todos juntos, para que se lembrassem, perdoassem (como Locke perdoou Ben) e esquecessem (no sentido de irem adiante), não encontrei nenhuma referência à chegada ao Paraíso ou de que eles estivessem no Purgatório. Eles ainda estavam por descobrir para onde iriam, se é que iam para algum lugar depois daquele encontro e se é que iriam todos para o mesmo lugar. Se aquela “realidade paralela” (quem afinal de contas não era realidade – “você não tem um filho Jack”) fosse mesmo o purgatório, o que Hugo, o personagem mais inocente e mais doce de todos estava fazendo ali? O que ele tinha para purgar? Enfim, “ali” é só um lugar, sem nome, sem tempo (”não há agora aqui”), onde eles se encontraram porque suas vidas foram tão conectadas umas às outras que precisavam uns dos outros para irem em frente. O que é ir em frente também fica para a imaginação e, creio que talvez tenha sido o motivo do vitral de múltiplas referências religiosas, para o seu credo (se você tiver um).

Li muitas outras coisas depois, mas o resumo de minhas idéias está aí.

Passado um mês, a única coisa que me espanta é o número de pessoas insatisfeitas com o final do seriado. Diria até que a reação do público merece uma análise a parte.

16
set

Colocando os ouvidos em Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band – Remastered

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 16 de setembro de 2009,

Aos 4’49’’ de A Day In The Life, durante longo acorde de dó maior produzido por quatro pianos, que em uníssono anunciam o fim de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, alguém faz um barulho em sua cadeira. Os sensíveis microfones do estúdio 2 de Abbey Road captaram impiedosamente o som estranho, um barulho como de molas rangendo. Há quem diga que, após o barulho do assento, alguém chia, pedindo silêncio. Eu não sei.

A permanência de tal chiado, após a remasterização dos discos dos Beatles, era uma das preocupações que eu tinha, quando iniciei a audição de Sgt. Peppers Remastered, sexta-feira, 11/09/2009.

Mas, licença ao leitor imaginário, vamos tirar os fones de ouvido e retornar algumas horas no tempo. Voltemos para à loja onde comprei o disco. Na Livraria Cultura, onde fiz a compra, em volta do mini-altar produzido para os Fab, um certo burburinho curioso se formava. Não fazia nem algumas horas que os discos estavam disponíveis para venda naquela loja e, creio, no Brasil. Em volta dos álbuns alguns curiosos se reuniam. Cabeças brancas ombreando com adolescentes. Sim, os Beatles conseguem isso. Eu, ansioso, já estava na loja pela segunda vez. Afinal, passados dois dias do lançamento, eu ainda não tinha colocado meus ouvidinhos em nem uma das faixas remasterizadas.

Mais tarde, abri o álbum. Na sessão de inveja nos amigos do trabalho, tirei digipack do plástico protetor, com uma tesoura. A cola que, imagino eu deveria soltar fácil, não deixava o envelope abrir. Por dentro, um novo encarte, com textos novos, mas ainda apenas em inglês, uma grande bobagem para um CD fabricado no Brasil. Algumas fotos novas, beleza. O disco, em si, agora é preto, como a etiqueta do álbum. Até aí tudo bem. Pouca novidade, mas nada fora da expectativa. Hora de pegar os fones de ouvido.

Não sou um grande perito em som e estou longe de ser um audiófilo, que sabe avaliar a qualidade de cada um dos timbres das músicas. Quem vos fala é um fã, que há tempos escuta Beatles e, por certo, conhece Sgt. Pepper de cor e salteado. Ainda assim, reencontrar as músicas com a qualidade de som remasterizada foi uma experiência fantástica. As vozes, tão próximas, chegam a assustar. Os instrumentos, em sua grande maioria, podem ser perfeitamente distinguíveis.

Sei que existe uma série de chatos de plantão dizendo que a qualidade do áudio não melhorou uma vírgula. Existem, sim, dificuldades com algumas faixas, de instrumentos que foram condensados em um canal, como em Lovely Rita. Nada que comprometa o resultado final. Mais ainda, as faixas não mantiveram a mixagem original, em respeito a tradição, mas decepcionando os fãs que esperavam uma experiência inédita ouvindo as músicas. Também frustrados aqueles que achavam que iam escutar milhões de novos sons, abafados por chiados da versão antiga. Você acha, realmente, que após quatro décadas ouvindo as mesmas músicas, ainda há algo novo ali para descobrir? Na verdade, trata-se de redescrobrir, por trás das camadas overdubling, as nuances de cada som.

Mas aos chatos, deixo a resposta de alguém que não é fã, minha esposa. Por anos ela escutou, aqui e ali, alguma música dos Beatles, mais por respeito a minha vontade de ouvir determinada canção, do que, propriamente, por seu interesse. No entanto, em minha segunda audição do álbum remasterizado, ela se juntou a mim na sala e, pela primeira vez, em mais de uma década, fez um comentário positivo à banda. Um simples, “agora consigo ouvir eles cantando”. Sinceramente, acho que quando os remanescentes dos Beatles resolveram relanças sua obra, seu objetivo não eram os velhos fãs, caquéticos de tanto ouvir as mesmas músicas, mas um publico novo, que, talvez, estivesse distante da obra por considerá-la velha e datada demais.

Aos 4’49’’ de A Day In The Life, durante longo acorde de dó maior produzido por quatro pianos, que em uníssono anunciam o fim de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, alguém faz um barulho em sua cadeira. Mais de quarenta anos depois, após uma pesada remasterização, o mesmo barulho ainda está lá, alguém continua reclamando com o atrapalhado. Vida longa aos Beatles que, pelo menos na qualidade de som, chegaram ao século XXI, Falta, eu sei, a liberação do conteúdo por meio digital, mas isso, certamente, é assunto para outro post.

8
jul

Michael Jackson em 5.1

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 8 de julho de 2009,

Tudo bem, confesso que me rendi ao frenesi consumista que se seguiu ao falecimento de Michael Jackson e lançou seus discos para os primeiros lugares das listas de mais vendidos. Mas logo justifico. Há tempos venho tentando comprar algum DVD do cantor com uma qualidade de som razoável, sem sucesso.

Até então, as opções no mercado eram complicadas. Shows lançados em DVD foram dois, um da turnê do Bad, outro da turnê do Dangerous, esta última passou pelo Brasil. Ambos têm qualidade de som sofrível, exclusivamente em 2 canais. Restavam as opções dos DVDs com os clipes. O único que eu conhecia era o Number One Hits, com um bom repertório, mas também com o áudio em 2 canais.

Finalmente, pela Livraria Cultura, esbarrei no Video Greatest Hits – History. Fui direto no verso conferir as especificações técnicas e, bingo, som 5.1! Já conhecia o disco, mas até o falecimento do MJ, o DVD andava meio sumido das prateleiras e, quando aparecia, era sempre acima dos R$ 50,00 (só para constar, paguei R$ 28,90).

E você, incauto leitor imaginário, deve estar se perguntando “por quê tanta chatisse com o som”? Pois bem, se você possui um aparelho de home-theather, saberá que vídeo qualquer, com som estéreo (em dois canais), é como ouvir uma sinfonia em um radinho a pilha. Concentrados, os instrumentos se misturam e você perde boa parte do que está ouvindo. Tudo bem, a comparação é exagerada, mas a experiência é mesmo muito inferior.

O problema que surge, na maioria das vezes, é que as músicas são lançadas para serem tocadas em aparelhos estéreos. Portanto, normalmente, a única mixagem que existe é de 2 canais. Para fazer um DVD de clipes em 5.1 é necessário remixar, a partir das fitas origináis, todo o áudio. Isso envolve um processo que, imagino, seja bem complicado e caro. Por isso são tão raros os DVDs de clipes em 5.1. Para ter idéia, tenho os DVDs do U2 e do Red Hot Chilli Peppers, ambos em estéreo. Até hoje, em 5.1, só conhecia a caixa The McCartney Years, que traz a compilação de vídeos dos trinta anos de carreira do bom e velho Macca.

Verifiquei que a History de MJ é constituída de dois volumes. O primeiro foi lançado em 2002 e traz os onze clipes em versões integrais. Assim, você tem a oportunidade de assistir os famosos curta-metragem que inovaram a produção de clipes musicais. O vídeo de “Bad”, por exemplo, possui 18 minutos. O segundo volume, ganha o nome de History on Film Vol. II, e possui mais alguns clipes (alguns repetidos, aliás) e algumas aparições ao vivo. Vou me limitar, aqui, a falar do primeiro volume.

Como disse, o som 5.1 traz uma nova experiência para as músicas. O clipe de “Remember Time”, por exemplo, é acompanhado da percussão vindo das caixas satélites traseiras. Ou seja, o som vem das laterais, enquanto o MJ dá seus gritinhos no canal central. “Don´t Stop Till You Get Enough” segue o mesmo plano. Outros casos, como “Thriller”, a melhoria do som vem dos efeitos sonoros em soundround. É bem legal ouvir os pés dos zumbis se arrastando pela sala.

Se o som é um espetáculo a parte, infelizmente a imagem deixa um pouco a desejar. Mais pela limitação da própria produção que, à época, só gravava em 4:3, para as telas de TV. Os poucos clipes em widescreen (16:9) dependem de um zoom para ocupar a tela toda, o que compromete a imagem.

Ainda assim, apesar da falta de qualidade do vídeo em si, assistir History é uma experiência incrível. Para quem não tem, e nem quer ter, um home-theather, a sugestão ainda é Number One Hits, apesar do som 2.0, possui mais músicas.

Por fim, inauguro com esse post minha sessão de resenhas. Como de hábito, costumo dar uma nota para o “avaliado”, de 0 a 5. History pela qualidade de som, repertório e versões completas dos clipes, leva um honroso 4.