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16
mar

[Monte Roraima] Parte-II O Caminho

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 16 de março de 2012, Tags: ,

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Há quem diga que o caminho para o Monte Roraima começa em uma escala atrasada em Manaus. Nesse momento você pode conhecer outros expedicionários, angustiados pela possibilidade real de perder o início da expedição.

Mais provável, todavia, é considerar o início do caminho uma sala de reuniões em um hotel de Boa Vista. Lá um sujeito explica que já foi ao Monte Roraima setenta-e-tantas vezes e ainda não acabou de ir. Até hoje move-se em direção à Montanha na tentativa de encerrar a visita. Até então, você não se preocupava sobre o caminho. Mas lhe contam uma história sobre um sujeito de 150 quilos que, apesar do peso e do sedentarismo, atingiu o topo do Monte com louros e sem lesões fatais no joelho. A lenda motivacional tem efeito inverso e, a partir de então, você passa a questionar sua própria capacidade de alcançar o objetivo da expedição.

Também é possível que o caminho para o Monte Roraima comece no 100, um ponto perdido na rodovia entre o Brasil e a Venezuela, quando um sol vermelho acorda seu dia ao sabor inigualável de duas fatias de bolo de beira de estrada.

Há, por fim, os mais ortodoxos, que dizem começar o caminho para o Monte Roraima no primeiro passo dado na trilha que leva de Paratepuy ao Rio Ték, quando os advogados, químicos, jornalistas, analistas de sistema, tornam-se todos apenas caminhantes.

Em verdade, o caminho comece talvez bem antes, em uma matéria de revista de bordo, um programa da TV ou, de maneira enviesada, ao assistir ao filme sobre um adorável velho maluco, que pendura sua casa em balões.

Independente de tudo isso, você terá certeza de que está no caminho quando olhar ao seu redor e só enxergar ineditismo. A cada planta, anfíbio, queda d’água, flor, pássaro, folha, musgo, turista, pernilongo, índio, pedra, raio de sol, rio de banho, uma sensação de estréia. E apesar da novidade integral que lhe vem, você estará no caminho para o Monte Roraima quando, mesmo diante de tanto estranhamento, tudo parecer incrivelmente familiar. Como se você só estivesse esperando o momento emergir.

29
fev

[Monte Roraima] Parte 1–Os motivos

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 29 de fevereiro de 2012, Tags: , , ,

Monte Roraima

O leitor imaginário mais fanático já conhece o anteriormente citado Goerge Mallory. Pioneiro nas expedições ao Everest, o montanhista foi interrogado repetidamente sobre as razões que lhe motivavam a uma empreitada tão perigosa como escalar a maior montanha do mundo. Da simplicidade que só os lunáticos tem, ele respondeu:

“Porque ele está lá”

Com as devidas modificações, tendo em vista que este escriba não escalou o teto do mundo, mas limitou-se a um passeio ali no Monte Roraima, escutei pergunta semelhante. Por que se dispor a passar oito dias longe da civilização, caminhando por trilhas extenuantes, com uma mochila nas costas, bem mais pesada que o desejado, sob chuva e sol e tendo, como oportunidade de descanso, uma noite de sono sobre o fino saco de dormir, inclinado no chão rochoso de uma caverna?

Antecipadamente, posso negar várias respostas apressadas que muitos desavisados esperam ouvir. Não, não é pela aventura. Não gosto de me aventurar e, se gostasse, bastaria atravessar a Avenida Paulista de olhos fechados para viver altos índices de adrenalina. Enfiar-se em uma trilha não é uma aventura. É só uma viagem, sem os confortos de um micro-ônibus azul e amarelo. Em verdade, sem muitos outros confortos. Dormir em barracas, tomar banho gelado e vestir roupas molhadas no frio das quatro da manhã não é a parte divertida da viagem e não faz ninguém vibrar de alegria. Se bem que há gente amalucada que goste de banho gelado e propague seus benefícios aos sete ventos. Aliás, ventos fortíssimos, com neblina, chuvisco e uma toalha do tamanho de um babador infantil para se secar. Mas, mesmo estes, preferem uma cama quentinha e um lençol de um bilhão de fios no fim do dia.

Tampouco esperem que é para me encontrar comigo mesmo. Vivo comigo o tempo todo. Sou até bem íntimo de mim mesmo. Sei perfeitamente onde meu verdadeiro eu está e não é no alto do Monte Roraima, salvo hipótese de eu ter subido até lá, o que tornaria o esforço inútil. Na verdade, convivo tanto comigo que até embarcaria numa viagem para dar um tempo de mim. Afinal, sou chato pacas. Mas, como um motoqueiro irritado com o barulho do próprio veículo, para meu azar, sempre estou aonde vou.

Então, o leitor imaginário rabugentos já franziu as sobrancelhas, apontou o dedo na cara do cronista e disse: “Vai porque é maluco, quer aparecer, é bicho grilo e/ou não tem nada melhor para fazer.”

Pois então, também não é essa a resposta.

Vai-se ao Monte Roraima, ou a qualquer outra expedição, com dois objetivos. Celebrar e agradecer. Como uma religião, que pode ser dividida por ateus e crente, dedicada a apreciar a riqueza da experiência proporcionada pelo cosmos. Celebrar a imensidão de causas, conseqüências, atos, acasos, coincidências e destinos que levam à existência de algo tão fabulosamente interessante, gigantesco e mínimo como o Monte Roraima. E agradecer o simples fato de estarmos aqui, nesse mesmo cantinho do universo e podermos caminhar até lá.

Enfim, subi o Monte Roraima, como diria Mallory*, “porque ele está lá”.

E eu aqui.

 

 

*Por uma daquelas ironias do mundo, não é possível dizer de Mallory e seu companheiro de escalada, Andrew Irvine, foram os primeiros a chegar ao topo do Everest. Os dois foram vistos próximos ao cume e desapareceram. Indícios apontam para a conclusão positiva. Entre eles, o fato de, 75 anos depois, quando o corpo do alpinista foi encontrado, entre seus bem preservados pertences, não se encontrava a fotografia da esposa, que Mallory carregava com o objetivo de deixar no alto da montanha. A fotografia, não a esposa, para que restem bem claras as boas intenções do alpinista…