Ler para quê?
Há um preconceito velado que anda por aí, disfarçado de boa vontade intelectual. É a discriminação que sofre quem não gosta de ler. A pessoa afirma, que, abre aspas, não gosta de ler, fecha aspas e, imediatamente, surge na cabeça de todos a imagem de uma mente árida, cujo vazio faria inveja a qualquer tomada de um western de John Ford. Como se fosse o sujeito portador de alguma deficiência congênita que o tornasse um pouco cego, um pouco surdo, um pouco obtuso, tudo ao mesmo tempo. Mas, antes que se diga sobre o meu apoio a tal preconceito, farei um anúncio que talvez ofenda os mais pudicos intelectuais de plantão. Ler livros e mergulhar na literatura, ao contrário do que eu gostaria, não serve para rigorosamente nada.
Basta uma breve análise ao seu redor que minha constatação será ratificada. Seja qual for a medida do ser humano, ela não melhora com a leitura. Pense, por exemplo, na pessoa mais “bem sucedida” que você conhece, com toda a amplitude que o termo pode dar. Certamente, não se trata de algum intelectual. Leitura não dá dinheiro, não trás bons empregos ou promoções no trabalho, não elege candidatos à presidência da república ou a síndico do condomínio. Enfim, ler não trás nenhuma vantagem na conhecida corrida dos ratos.
Talvez então, a leitura possa trazer felicidade. Mais uma vez, refaça o exercício, e pense na pessoa mais feliz que você conhece. Ela, por acaso, está enfrascada em leituras? Certamente não. Muito antes ao contrário, a leitura em excesso derrete os miolos e faz a pessoa perder o juízo, nosso querido Quixote que o diga. Não é raro o relato de intelectuais que colocaram fim na vida motivados por alguma leitura equivocada. Com melhor sorte, o leitor habitual só se torna um sujeito mais chato, crítico, enfadonho, enfim, um xarope. Não sei e a felicidade mora na ignorância, como no interessante Como me tornei estúpido, mas certamente, são vizinhas.
Dito isso, sei que a leitura transforma o ser humano. Só não é para a melhor. Para facilitar vou deixar em branco o fato de ler não tornar o sujeito mais atrativo fisicamente, não prolongar a vida, nem a capacidade respiratória. Enfim, um hábito desagradável, que só faz consumir tempo, dinheiro, produtividade e deixa a pessoa meio aérea.
Sei que minhas afirmações devem deixar confuso o leitor imaginário, que me vê sempre a caminhar com um livro cobrindo o rosto, hábito este que ainda poderá custa-me uma queda nos trilhos do metrô com nefastas conseqüências. Já deve se indagar, revoltado, “por que diabos então você gosta de ler?”.
Ora, quem disse que eu gosto? Na verdade, não gosto nem um tantinho assim de ler. Simplesmente leio porque não consigo não ler, um estado que para mim seria tão atípico como não pensar bobagem (sim, eu escrevo penso muita bobagem). Não é uma questão de gosto ou deleite. Trata-se de alguma obsessão patológica, que começou na infância, com revistinhas em quadrinhos. Com o tempo se desenvolveu, em livros cada dia maiores e mais herméticos e hoje é isto aqui que tu tens. Caminho em direção à uma livraria porque o impulso é maior naquela direção. Para tantas outras pessoas, sem qualquer juízo de valor, por favor, o impulso é na direção da loja de roupas ou do restaurante. Fosse proibida a literatura e eu seria um dos primeiros traficantes. “Já viu esse Saramago aqui? Dizem que não tem um ponto final sequer. Literatura de primeira. Um leitura e você já fica doidão.” Nisso trocaria com outro viciado, escamoteado por um pesado sobretudo, um Levantado do Chão por Guerra e Paz. Tenho a nítida sensação que, se por algum malfadado insucesso do destino for cortada meu suprimento de literatura, entrarei em síndrome de abstinência. Escreverei nas paredes do meu cativeiro para poder ler depois o texto. Será baixa literatura, mas é melhor do que nada.
Então, antes de qualquer discriminação contra aqueles que não têm o hábito da leitura, talvez seja melhor repensar nossa atitude diante do nossas obsessões. Digo nosso por presumir o vício do leitor, que carrega em si também hábito colonizador de pregar a literatura como a melhor das invenções humanas, depois da aspirina. Deixemos os demais livres desse vício terrível da leitura. Com toda a parafernalha midiática que existe por aí, acredito que eles estejam bem sem se incomodar com a última tradução de Tolstói. Pelo menos, é o que penso quando vejo tantas caras felizes na televisão.
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Este post/crônica foi escrito para participar da idéia da blogagem coletiva com o tema “Por que você gosta de ler”, do blog Livros e afins. Eis a justificativa para voltar ao tema do último post em tão pouco tempo. |
Como se sabe, há milhares de anos, Xerazade, para se manter viva, era obrigada a contar suas cativantes histórias ao Califa. Ela, mais do que ninguém, demonstra o significado da escrita para quem é escritor e é, portanto, a representação ideal do autor. Todavia, enquanto Xerazade é coberta de glórias na literatura, seu ouvinte, o malvado Califa, é classificado como tirano cornudo, da categoria déspota-sangue-nos-olhos, cujo único interesse é pegar virgens para em seguida matá-las. A antiga história árabe nos revela bastante sobre o binômio fundamental da literatura, o escritor-leitor.









