Pergunta indiscreta
Não tenho bem certeza sobre quem percebeu o grau de periculosidade da curiosidade felina, capaz de eliminar suas sete vidas em uma única tacada, e cunhou o adágio. Fato é que, se a curiosidade felina é fatal, perde em muito para a humana, pelo menos no grau de indiscrição.
Antes que o leitor imaginário se confunda, digo logo que não trato aqui daquela curiosidade tão válida para o desenvolvimento humano. A mesma responsável por ter colocado o homem na Lua só para buscar umas pedrinhas ou por ter impulsionado as velas de Colombo até os costados de uma suposta Índia. Falo de uma curiosidade que se transmuta em um misto de intimidade e mesquinharia, sem a mínima razão aparente.
Estranhamente, as perguntas inexplicáveis crescem em número nestas épocas de festividades. Você viu o sujeito duas vezes na vida. Uma de relance no elevador, outra com breve aceno na garagem. Fosse em qualquer época do ano mais modorrenta, o terceiro encontro seria apenas um cumprimento de cabeças, Pois, nesta época a conversa logo se inicia com um “E aí, onde vai passar o Reveillon?”. E parasse aí, tudo estaria bem. Mas o papo, como qualquer outro, pode evoluir sempre para ponderações mais íntimas a cada frase. No fim, após explicar porque a sogra também vai, junto com a prima distante de Leopoldina, duas pessoas cujo ódio recíproco é cultivado há anos, você ainda terá que justificar a absurda escolha de uma pousada em Caraguatatuba, a 17 quilômetros da praia, com 22 lances de escada até o quarto.
Como o cronista é sujeito de boa vontade, põe fé que a alteração no comportamento seja algum fruto dos ventos de otimismo que sopram nesta época e inspiram a comunidade a viver em alguma espécie de fraternidade forçada. Assim, a pergunta, que outrora seria pura intromissão na vida alheia, é vista como óleo para azeitar a máquina do convívio humano e tornar a coisa toda mais colorida.
Todavia, por mais que cheio de boas inspirações o cronista seja, não há como negar que, muitas vezes, a curiosidade ultrapassa, muitas vezes, o bom senso humano. Ao fim, só me resta, na minha cabeça prática, questionar para quê fazer uma pergunta se não há interesse na resposta. Assim, deixo a curiosidade para os gatos, que se enfiam o focinho onde não são chamados, ao menos têm narizes vermelhos e bonitinhos.
P.S.: Peço desculpas pela falta de periodicidade dos últimos textos. Mas a redação do Estado Crônico mudou de sede e ainda estou a arrumar papéis e rascunhos. Até ano que vem!

Talvez quem veja Alberto no Parque Vila Lobos enxergue uma pessoa solitária. Ou, talvez não enxergue ninguém em especial. Agachado, nos fones de ouvido Fool on the Hill, nas mãos sua câmera por companhia, a única aproximação do tumulto das brincadeiras infantis é pela objetiva. Um olho semi-serrado. O outro captura cenas mudas, cujo som perde-se na distância.
Segundo descobri recentemente, os esquimós têm doze mais de quarenta palavras para conceituar a neve. Pudera, eles têm bastante neve para trabalhar. Neve no chão, neve de fazer casa, neve de derreter e beber, neve de brincar e neve de fazer boneco de neve. Assim, pode parecer estranho o fato de ser o português a única língua que possui uma palavra para definir, com precisão, a saudade.
Briguei com o tempo. Estamos de relações cortadas até última ordem, mas, creio, nosso rompimento será definitivo. A bem da verdade, nossa relação não foi das mais harmoniosas, como podia parecer a quem olhasse de fora a vida deste cronista (atenção especial à etimologia da palavra!). Mas, diante dos últimos acontecimentos, parti para uma solução radical. Não converso mais com o pai tempo. 






