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Voltamos às Crônicas Imaginárias, com o texto encaminhado pela leitora Sandra Santos. Detalhe importante: a imagem que ilustra o post foi capturada pela própria autora, que também é fotógrafa. |
No metrô, indo para o trabalho, isso há uns bons sete anos atrás, eu estava milagrosamente sentada, o que era raro naquele horário da manhã e sabia que em minutos o trem ficaria completamente lotado. O silêncio que existe, onde muitas pessoas se encontram e são forçadas a dividir o mesmo espaço, já estava instalado. Num transporte lotado é comum as pessoas esforçam-se para não serem notadas. Todos estão com sono, esperando um longo dia de trabalho. A viagem geralmente longa, causa aquela impressão que não deveríamos estar alí. Todos se vêem mas ninguém se olha. Vez por outra, entra uma daquelas pessoas que acham que ali é o local ideal para fazer amizade, começam a falar sem que você dê nenhum incentivo e não param mais. Talvez a solidão potencialize isso, sei lá. Na maioria das vezes a única coisa que se quer, é ficar calado.
Tudo parecia normal, até que apenas uma estação após a minha, entrou um homem que não parecia diferente de ninguém. Achei que iria se sentar mas preferiu ficar em pé perto da porta. Era comum, como a maioria que sai para trabalhar pela manhã e não chama a atenção de ningúem. Provavelmente eu não me lembraria dele. Até que de repente, quem sabe Deus porque motivo, resolveu latir. Sim, latir como um cachorro, desses bem bravos.
Num primeiro momento tirou o folego de todos e as pessoas que estavam naquele vagão ficaram aturdidas. O que estava acontecendo afinal? A presença da loucura ou de algo que não se explica nos aturde.
Naquele dia, todas as convenções haviam sido quebradas por aquele homem que latia. Passado o primeiro impacto, ele, que já havia conseguido a atenção de todos, agora iniciava sua história.
Havia chegado nesta "cidade de loucos" e não sabia o que ainda fazia aqui. Nada dera certo para ele. Perdera a mulher que o traíra com um amigo, perdera o emprego pois seu chefe era um idiota, perdera o carro e agora não sabia para onde ir.
Perdera também a alegria e, eu acredito que sua sanidade, já o havia abandonado também.
Não sei ao certo em que momento aquele homem resolveu latir, e, como se isso fosse pouco, passou a ralhar com um suposto cachorro imaginário. Agia como se quem latisse não fosse ele próprio. Passou a chamar o "cahorro" de Toinho. Latia e em seguida dizia para o Toinho calar-se. A porta abria e Toinho entrava em ação e foi assim, sucessivamente uma estação após a outra. Durante todo o percurso, ninguém se atreveu a entrar.
Quando as portas se fechavam ele parava de latir e retomava sua história.
Há algumas estações antes da Sé, naquele vagão as pessoas já entreolhavam-se com certa cumplicidade e segundos antes do trem de abrir as portas alguém quebrou o gelo e gritou:
- Solta o Toinho!
Quase todos caíram aos risos pois, só então, nos davamos conta de que o vagão mantivera-se praticamente vazio por todo o percurso, quem iria passar por uma porta que era guardada por aquele homem que sabia latir tão ferozmente?
Todos riram… eu ri. Mas um riso sem jeito, um riso nervoso um riso que não merecia ser rido se é que existe essa palavra… Estavamos todos diante da miséria de um ser humano. Perdido. sofrido, sem referências ou direção e ainda assim alguém conseguia usar a situação a seu favor.
Até hoje me lembro daquele homem e me pergunto será que no fundo ele é quem ria de nós? Será que se divertiu ao ver nossas reações tão diversificadas? Nossas expressões de pânico e de impotência diante daquilo que não compreendemos?
Ainda hoje quando me lembro penso que gostaria de saber o que foi feito daquele homem e de seu "Toinho".
Já era fim de tarde, num sábado desses bem comuns, quando, no meio do silêncio rastejante do fim de semana, ouviu-se um barulhinho. Nada não, sabe? Vinha de longe. Ou seria perto? Que teimava, teimava a incomodar. Era um miadinho? Ah, não, loucura. Não, é sim. Será? Vou ver. Agora, assim, vestida desse jeito? Espera ai, vou com você e fomos… e achamos… e sentimos… sabíamos… e o trouxemos. 
Criaturas curiosas são vocês, meus 






