Arquivo de ‘Crônicas do leitor’ Category

12
mai

[Crônicas Imaginárias] Adote um amor

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 12 de maio de 2011, Tags: , ,

 

As crônicas imaginárias trazem o texto da leitora mais ilustre do blog, Ana Luiza, que com seus comentários sempre prestigia meus posts.

Saiba como participar com seu texto.

 

Flor na calçadaJá era fim de tarde, num sábado desses bem comuns, quando, no meio do silêncio rastejante do fim de semana, ouviu-se um barulhinho. Nada não, sabe?  Vinha de longe.  Ou seria perto? Que teimava, teimava a incomodar. Era um miadinho? Ah, não, loucura.  Não, é sim. Será? Vou ver.  Agora, assim, vestida desse jeito? Espera ai, vou com você e  fomos… e achamos… e sentimos… sabíamos… e o trouxemos.

A vida sempre arruma um jeitinho de se acomodar, nem que seja nos locais mais improváveis. Como naquela campanha da WWF, que a plantinha nasce no meio da calçada cinza da selva de pedra. No meu caso, especificamente, bem na selva de pedra que adotei para viver, bem na minha rua, bem pertinho de mim, dois olhinhos azuis, fundos e tristes,  comoveram-me  em vários aspectos. Em como conseguiu sobreviver tão pequenino, em como era frágil, em como tinha frio, sede e fome. E, que apesar de todas essas necessidades, lutava pela sua sobrevivência. “Não lhe conheço”, certamente pensou, “olha como sou bravo!”, e me mostrou seus 4 dentinhos de leite!  ” Cuidado porque posso morder você!”

É muito importante pensar nos nossos semelhantes necessitados. Com caridade e respeito ao próximo, talvez mudemos nossa realidade tão sem esperança. Mas existem os animais, que também são criaturas divinas. Não advogo que todos devemos adotar animais, mas que ao menos não sejamos indiferentes aos mesmos. Que não maltratemos  os bichos de rua, que não os ignoremos.  É só um “cachorro”, que tem fome, tem sede e sente dor. Muitos de nós  já ofereceram restos de comida a um bicho de rua, mas alguém aqui já ofereceu água? Já imaginaram a dificuldade de se encontrar água limpa para beber quando se está abandonado?

Naquela noite banho foi dado, leite em pó servido e calor oferecido, em forma de bolsa de água quente. Aos olhos vistos ganhou peso, confiança e beleza. Seu pêlo hoje brilha mais que meus cabelos, os olhos azuis, já sabem,  também mais elegantes que os meus. Mas não é só pelo viço e beleza. É pela felicidade gratuita que sentimos depois disso.  Fui importante para um ser vivo, que para sempre será meu amigo, meu companheiro travesso e uma espécie de filho querido.  O gato Bijou.

Bijou antes e depois

(Ah, e depois do Bijou veio a Mel… Ainda tenho o Biscuit,o gato persa. É claro, já comprei animais e muito provavelmente ainda vou adquirir outros.  Sou fã de algumas raças, nada contra quem faz isso.)

E para aqueles que pensam que dou mais importância a bicho do que gente,  saibam que sou gateira profissional, médica de gente por esporte e leitora imaginária desse blog.

2
dez

[Crônicas Imaginárias] Latidos na manhã

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 2 de dezembro de 2010, Tags: ,

 

 

Voltamos às Crônicas Imaginárias, com o texto encaminhado pela leitora Sandra Santos. Detalhe importante: a imagem que ilustra o post foi capturada pela própria autora, que também é fotógrafa.

Saiba como participar com seu texto.

 

ToinhoNo metrô, indo para o trabalho, isso há uns bons sete anos atrás, eu estava milagrosamente  sentada, o que era  raro naquele horário da manhã e sabia que em minutos o trem ficaria completamente lotado. O silêncio que existe, onde muitas pessoas se encontram e são forçadas a dividir o mesmo espaço, já estava instalado. Num transporte lotado é comum as pessoas  esforçam-se para não serem notadas. Todos estão com sono, esperando um longo dia de trabalho. A viagem geralmente longa, causa aquela impressão que não deveríamos estar alí. Todos se vêem mas ninguém se olha. Vez por outra, entra uma daquelas pessoas que acham que ali é o local ideal para fazer amizade, começam a falar sem que você dê nenhum incentivo e não param mais. Talvez a solidão potencialize isso, sei lá. Na maioria das vezes a única coisa que se quer, é ficar calado.

Tudo parecia normal, até que apenas uma estação após a minha, entrou um homem que não parecia diferente de ninguém. Achei que iria se sentar mas preferiu ficar em pé perto da porta. Era comum, como a maioria que sai para trabalhar pela manhã e não chama a atenção de ningúem. Provavelmente eu não me lembraria dele. Até que de repente, quem sabe Deus porque motivo, resolveu latir. Sim, latir como um cachorro, desses bem bravos.

Num primeiro momento tirou o folego de todos e as pessoas que estavam naquele vagão ficaram aturdidas. O que estava acontecendo afinal? A presença da loucura ou de algo que não se explica nos aturde.

Naquele dia, todas as convenções haviam sido quebradas por aquele homem que latia. Passado o primeiro impacto, ele, que já havia conseguido a atenção de todos, agora iniciava sua história.

Havia chegado nesta "cidade de loucos" e não sabia o que ainda fazia aqui. Nada dera certo para ele. Perdera a mulher que o traíra com um  amigo, perdera o emprego pois seu chefe era um idiota, perdera o carro e agora não sabia para onde ir.

Perdera também a alegria e, eu acredito que sua sanidade, já o havia abandonado também.

Não sei ao certo em que momento aquele homem resolveu latir, e, como se isso fosse pouco, passou a ralhar com um suposto cachorro imaginário. Agia como se quem latisse não fosse ele próprio. Passou a chamar o "cahorro" de Toinho. Latia e em seguida dizia para o Toinho calar-se. A porta abria e Toinho entrava em ação e foi assim, sucessivamente uma estação após a outra. Durante todo o percurso, ninguém se atreveu a entrar.

Quando as portas se fechavam ele parava de latir e retomava sua história.

Há algumas estações antes da Sé,  naquele vagão as pessoas já entreolhavam-se com certa cumplicidade e segundos antes do trem de abrir as portas alguém quebrou o gelo e gritou:
- Solta o Toinho!

Quase todos caíram aos risos pois, só então, nos davamos conta de  que o vagão mantivera-se praticamente vazio por todo o percurso, quem iria passar por uma porta que era guardada por aquele homem que sabia latir tão ferozmente?

Todos riram… eu ri. Mas um riso sem jeito, um riso nervoso um riso que não merecia ser rido se é que existe essa palavra… Estavamos todos diante da miséria de um ser humano. Perdido. sofrido, sem referências ou direção e ainda assim alguém conseguia usar a situação a seu favor.

Até hoje me lembro daquele homem e me pergunto será que no fundo ele é quem ria de nós? Será que se divertiu ao ver nossas reações tão diversificadas? Nossas expressões de pânico e de impotência diante daquilo que não compreendemos?

Ainda hoje quando me lembro penso que gostaria de saber o que foi feito daquele homem e de seu "Toinho".

18
ago

[Crônicas imaginárias] Para entender a balada

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 18 de agosto de 2010, Tags: , ,

Conforme relatei no último post, este blog está agora aberto à colaborações dos leitores. Assim, para estreiar a categoria das crônicas imaginárias, o leitor João Paulo encaminhou sua contribuição.

Toda balada é a mesma coisa. É triste dizer isso; mas é a pura realidade. As pessoas tentam inventar moda, para quebrar a monotonia. Mudam o nome da festa. Fazem um tributo a “nãoseiquem”. Mudam as cores das paredes do estabelecimento e falam que houve uma “reforma”. Mudam as meninas do bar. Mudam o preço na bilheteria… Mas no fim da história, a “night” é um acontecimento praticamente uniforme. Nesse texto, vamos destacar como a noite, numa danceteria dessas Brasil afora, se reparte em “setores” bem definidos; setores estes que se estabelecem ora por características psicológicas das pessoas que os compõem; ora por traços estruturais do acontecimento que se desdobra noite adentro. São alguns deles:

1) A pista

Pista de dança

Lá está o coração da noite. Ele pulsa, sempre, e envia a seiva da vida noturna por todos os seus afluentes, as outras áreas da danceteria. A pista é uma referência pra quem está na noite. É lá que está o “ex-da-fulana olhando pra beltrana” ; e é lá que “aquela gatinha mexe no cabelo, mas eu não sei se ta dando mole”. É a pista a protagonista que justifica toda a burocracia e infraestrutura que se constrói em volta dela. Uma dessas instituições burocráticas, é o…

2) O Bar

Ali é que são “chanceladas” as viagens à pista. O bar funciona como uma repartição que carimba o passaporte de quem quer “passar as férias no Caribe” – nesse caso, “Caribe” é a pista. No bar, as pessoas vão se “aclimatando”, passando pela metamorfose de quem saiu de um mundo seguro (lá fora); e entra num mundo de velocidade diferente, a “balada” (ou a “night”, para os mais velhos). Uma cervejinha aqui, uma troca de olhares ali; e o cidadão vai se adaptando ao jogo da paquera. No bar, são toleradas conversas do mundo fora da boate, coisa que não acontece na pista. Por enquanto, quem está aqui, fica parado, se “aquecendo” para a apoteose, na pista.

Bar de balada

3) O Playground

Playground

No melhor dos sentidos, há quem vá para a noite sem saber muito por quê. Esses são os “bobalhões” (num bom sentido, o mesmo de “bobo alegre”). Esses caras vão para uma boate brincar, rir, pagar mico. Também é muito válido. Não é raro você ver gente falando Darth Vader, Super Mario Bros.; teorias da conspiração; etc., no meio da noite. Essas pessoas demarcam um território chamado “Playground” na balada. Trazem alegria pra noite e disseminam uma atmosfera pacífica por lá. São muito bem vindas, com certeza. Também estão no playground os casaizinhos, que estão na balada a passeio, visto que nenhum de seus membros está a procura de um outro alguém, ali, naquele momento.

4) O banheiro

Essa é uma localização catalisadora dos acontecimentos da noite. É lá que o cara que tomou um fora vai fazer a sua catarse. E também que a menina vai chorar, porque seu ex está com outra. Por ali, se modificam estratégias, são dados conselhos, tomadas decisões, etc. No banheiro nascem os “planos B” das pessoas. É lá, enfim, que se colocam os pingos nos “is”. Eu arriscaria dizer que se a pista é o coração; no banheiro é que está o cérebro da noite! (Nesse ponto, a noite e o camarão têm muito em comum…)

Banheiro de balada

5) A fila para pagar

No fim, a carruagem vira abóbora...

Balada que se preze tem fila pra pagar, no final da noite. Na fila, todo mundo já está cansado. A carruagem já virou abóbora, nesse momento. As máscaras caíram e a maquiagem das meninas já borrou. As mais cara-de-pau já tiraram o sapato. Mas a fila comporta algo a mais do que os outros setores da noite: sinceridade. Dá sempre pra pedir um telefone. Afinal, a fila é a “ponte” entre a falsidade da noite e o mundo real, que está a um portão de distância. Depois que a conta é paga, o indivíduo se transporta para uma outra dimensão: a da vida real. E aí, só restam planos para o fim de semana seguinte.

 


João Paulo mantem o blog
Disco voadores e calangoos.
17
ago

Participe do Estado Crônico

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 17 de agosto de 2010,

caderno Criaturas curiosas são vocês, meus leitores imaginários. Logo quando criei o blog, não havia quase manifestação alguma e eu podia dar vazão a minha criatividade, inventando debates entre os leitores, participações construtivas e até as costumeiras brigas nos comentários. O tempo passou e os leitores imaginários foram aumentando e passaram a ser mais ativos, tomando os comentários com seus acréscimos.

Mas, parece que, para alguns, o campo de comentários, que segue cada post, não é o suficiente. Eles querem tomar a voz e terem seus próprios posts.

Pois bem, o Estado Crônico é um blog de crônicas (surpresa!). E eu não sou pretensioso a ponto de pensar que meus textos são os únicos que podem acrescentar a um espaço que, se é meu, é também de cada um dos leitores.

Assim, a partir de agora, qualquer leitor do Estado Crônico pode participar com suas crônicas aqui no blog. Para tanto, basta encaminhar uma mensagem para leitor@estadocronico.com.br, com o arquivo em anexo ou valer-se da página de Participe do Estado Crônico, logo acima.

O envio do texto não implica, necessariamente, na publicação. Antes de qualquer coisa, vou ler os textos, verificar a adequação com o conteúdo do site e, se for necessário, dar algumas sugestões para o autor. Coloco-me na posição de acreditar que, quem encaminhar o texto, está, indiretamente, autorizando que eu faça minhas críticas prévias.

Agora, aguardo a contribuição dos leitores. Boa sorte e obrigado!