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Carta ao Sr. Reinaldo

   Postado por Carlos Goettenauer na data de 7 de dezembro de 2012,

Reinaldo-AzevedoNão, Sr. Reinaldo Azevedo. Eu não sou idiota, como você me classificou. E ainda que o fosse, não seria o fato de discordar das suas opiniões que me transformaria em um dos burros celebrados em sua coluna. Ademais, ao contrário do que o Sr. falou, eu li e compreendi seu texto inteiro, talvez mais de uma vez, só pelo prazer e assombro de ver como se constrói um texto falacioso.

Aliás, idiota, tampouco, era Oscar Niemeyer, como você também afirmou. O argumento lançado no texto pelo Sr. parece até lógico e, talvez por isso mesmo, seduz muita gente. Vê-se que, em sua opinião, Niemeyer era um arquiteto genial, mas, ideologicamente, um idiota.

Contudo, Sr. Reinaldo, há aí, no mínimo, dois problemas.

O primeiro é a falácia de julgar a idéia e condenar a pessoa. Pois o Sr. não apenas afirmou que as ideias de Niemeyer eram idiotas, mas foi um passo além. Afirmou que o homem Niemeyer era um idiota (ok, eu sei, metade idiota).

Veja, há uma certa distância em chamar alguém de idiota e dizer que suas ideias são idiotas. Posso dizer, por exemplo, que as ideias do Sr Reinaldo são idiotas, umas excrescências intelectuais. No entanto, veja que eu não estou chamando o Sr. Reinaldo de idiota, por mais tentador que isso seja. Esse é um passo que não dou, seja por prudência, pois não conheço o Sr. suficiente para julgá-lo, seja por respeito ao ser humano.

Pois, pode parecer estranho, mas chamar os outros de idiota é ofensivo, Sr. Reinaldo. E se os tais outros já estiverem mortos, é mais ofensivo ainda. E (agora deve vir uma grande surpresa para o Sr.) chamar uma pessoa de idiota, no dia de sua morte, em um dos meios de comunicação mais lidos do país, é ofensivo, não apenas ao falecido, como a sua família e a toda nação. Vai ver é por isso que as pessoas se ofenderam. Não foram suas críticas ao comunismo que eriçaram os pelos de seus opositores, mas a ofensa pessoal a Oscar Niemeyer, estampada logo no título de sua coluna, o que, por óbvio, dispensa a própria leitura do texto para entender seu caráter ofensivo.

Mas, como eu disse, há dois problemas com suas opinião. Pois bem. O segundo erro é sua crença ferrenha de que qualquer opinião contrária a sua é idiota. Na verdade, as ideias devem ser debatidas, discutidas, trabalhadas, agredidas e talvez até defendidas. Mas nunca desqualificadas como idiotas a uma primeira olhada, simplesmente por serem filiadas a esta ou aquela ideologia. Esse processo de discussão, Sr. Reinaldo, é debate público e democrático.

Sei que o Sr. não é afeito ao debate. Tanto que, quando teve o texto questionado nos comentários, avocou a autoridade de moderador e, ao invés de deixar que as próprias opiniões vivessem (ou talvez morressem) por si mesmas, escreveu uma segunda coluna, classificando como 100% idiotas os leitores que, como eu, ousaram discordar do Sr. E, aliás, com essa atitude voltou ao primeiro erro, de julgar a idéia e condenar a pessoa. Mas o debate público é o único meio de garantir a prevalência das melhores idéias. E, faz um bem danado, pois permite que nós, vez ou outra, saiamos de nossa bolha confortável, onde escutamos apenas opiniões convenientes.

Entretanto, sei também, Sr. Reinaldo, que, embora seja difícil viver com a inconveniente opinião alheia, o debate é inevitável. Veja só que o Sr., no alto da autoridade imaginária de quem escreve uma coluna de uma revista famosa, tem que conviver com minha opinião discordante, em um blog independente. E, tenho certeza que o Sr., em sua marfiniana torre de audiência, me acha insignificante e usará isso para desqualificar meus argumentos. Mas, ao menos, sou honesto o suficiente para dar voz às (muitas) vozes discordantes, aceitar o debate e manter íntegra minha opinião. Isso tudo sem ser ou chamar alguém de idiota.