Abre a rodinha
Viva o leitor imaginário onde viver, tenho certeza que, em qualquer passeio pela região central de sua cidade, poderá testemunhar um aglomeradinho de pessoas, em círculo, olhando curiosas as peripécias desempenhadas algum desses personagens aleatórios das ruas. É a rodinha de curiosos, um fenômeno até agora relegado ao esquecimento pela sociologia, cuja análise merece uma tese de mestrado a ser desenvolvida no botequim mais próximo.
Como assíduo freqüentador do Centro de São Paulo, já tive oportunidade de testemunhar incontáveis rodinhas de curiosos e conclui que há um sem número de temas que impiradores da aglomeração. O mais freqüente, sem dúvida, é a rodinha circense, na qual um performer faz algum truque que encanta os passantes. Já vi a rodinha da mãozinha, onde uma mão boba anda, inexplicavelmente, sozinha pela rua. No mesmo ramo atua o mágico de rua, que tira coelho da cartola no meio da calçada e, em seguida, passa o instrumento de trabalho (a cartola, não o coelho) para a contribuição dos espectadores.
Não menos famosa são as rodinhas musicais. Seu expoente mais tradicional é o grupo de cantores bolivianos interpretando Yesterday na flautinha de bambu, em uma versão que faria Paul McCartney quebrar o sagrado baixo Hofner de raiva. Suspeito que o grupo seja, na verdade, uma franquia administrada em algum vilarejo andino, que se utiliza de túneis subterrâneos para distribuir CDs de “música típica” no centro de qualquer cidade do mundo.
As rodinhas de rua são tão populares que foram um subgênero musical. Por exemplo, ao lado do sertanejo universitário, vem o sertanejo “de rua”, com as mesmas músicas, mas com um instrumental mais pobre. Ainda merece registro o subgênero da rodinha-musical-mirim, com um cantor infantil, que dubla e dança algum astro do momento ou do passado. Eu mesmo já vi Michael Jackson (re)encarnado em uma pobre menino de uns oito anos, incapaz de repetir qualquer passo de dança com alguma dignidade.
Por mais que existam histórias edificais por aí, ninguém está cantando na rua porque é bom, mas “não teve uma chance no mercado”. Assim, as rodinha musicais são sempre irritantes, com aquele som de autofalante de kit multimídia. Perdem na chatisse apenas para a rodinha do fanático religioso, um tipo também bastante comum, constituída de algum pregador que revela a todos a iminência do fim do mundo ou, na vertente oriental, busca convencer o publico a comprar o Bhagavad-gita em uma edição bem acima do preço.
No entanto, independente da temática, há algo que me obriga a sentir empatia com o protagonista colocado ali no centro. Sozinho, ele tenta chamar para sua atividade a atenção de um universo de pessoas desconhecidas, talvez, para ele, também um pouco imaginárias. Pessoas que por acaso encontram aquele aglomerado de gente e param para ouvir o que acontece. E me coloco a perguntar, não seria um blog a forma moderna, talvez mais polida, da rodinha de curiosos?

Criaturas curiosas são vocês, meus 






