
Aos 4’49’’ de A Day In The Life, durante longo acorde de dó maior produzido por quatro pianos, que em uníssono anunciam o fim de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, alguém faz um barulho em sua cadeira. Os sensíveis microfones do estúdio 2 de Abbey Road captaram impiedosamente o som estranho, um barulho como de molas rangendo. Há quem diga que, após o barulho do assento, alguém chia, pedindo silêncio. Eu não sei.
A permanência de tal chiado, após a remasterização dos discos dos Beatles, era uma das preocupações que eu tinha, quando iniciei a audição de Sgt. Peppers Remastered, sexta-feira, 11/09/2009.
Mas, licença ao leitor imaginário, vamos tirar os fones de ouvido e retornar algumas horas no tempo. Voltemos para à loja onde comprei o disco. Na Livraria Cultura, onde fiz a compra, em volta do mini-altar produzido para os Fab, um certo burburinho curioso se formava. Não fazia nem algumas horas que os discos estavam disponíveis para venda naquela loja e, creio, no Brasil. Em volta dos álbuns alguns curiosos se reuniam. Cabeças brancas ombreando com adolescentes. Sim, os Beatles conseguem isso. Eu, ansioso, já estava na loja pela segunda vez. Afinal, passados dois dias do lançamento, eu ainda não tinha colocado meus ouvidinhos em nem uma das faixas remasterizadas.
Mais tarde, abri o álbum. Na sessão de inveja nos amigos do trabalho, tirei digipack do plástico protetor, com uma tesoura. A cola que, imagino eu deveria soltar fácil, não deixava o envelope abrir. Por dentro, um novo encarte, com textos novos, mas ainda apenas em inglês, uma grande bobagem para um CD fabricado no Brasil. Algumas fotos novas, beleza. O disco, em si, agora é preto, como a etiqueta do álbum. Até aí tudo bem. Pouca novidade, mas nada fora da expectativa. Hora de pegar os fones de ouvido.
Não sou um grande perito em som e estou longe de ser um audiófilo, que sabe avaliar a qualidade de cada um dos timbres das músicas. Quem vos fala é um fã, que há tempos escuta Beatles e, por certo, conhece Sgt. Pepper de cor e salteado. Ainda assim, reencontrar as músicas com a qualidade de som remasterizada foi uma experiência fantástica. As vozes, tão próximas, chegam a assustar. Os instrumentos, em sua grande maioria, podem ser perfeitamente distinguíveis.
Sei que existe uma série de chatos de plantão dizendo que a qualidade do áudio não melhorou uma vírgula. Existem, sim, dificuldades com algumas faixas, de instrumentos que foram condensados em um canal, como em Lovely Rita. Nada que comprometa o resultado final. Mais ainda, as faixas não mantiveram a mixagem original, em respeito a tradição, mas decepcionando os fãs que esperavam uma experiência inédita ouvindo as músicas. Também frustrados aqueles que achavam que iam escutar milhões de novos sons, abafados por chiados da versão antiga. Você acha, realmente, que após quatro décadas ouvindo as mesmas músicas, ainda há algo novo ali para descobrir? Na verdade, trata-se de redescrobrir, por trás das camadas overdubling, as nuances de cada som.
Mas aos chatos, deixo a resposta de alguém que não é fã, minha esposa. Por anos ela escutou, aqui e ali, alguma música dos Beatles, mais por respeito a minha vontade de ouvir determinada canção, do que, propriamente, por seu interesse. No entanto, em minha segunda audição do álbum remasterizado, ela se juntou a mim na sala e, pela primeira vez, em mais de uma década, fez um comentário positivo à banda. Um simples, “agora consigo ouvir eles cantando”. Sinceramente, acho que quando os remanescentes dos Beatles resolveram relanças sua obra, seu objetivo não eram os velhos fãs, caquéticos de tanto ouvir as mesmas músicas, mas um publico novo, que, talvez, estivesse distante da obra por considerá-la velha e datada demais.
Aos 4’49’’ de A Day In The Life, durante longo acorde de dó maior produzido por quatro pianos, que em uníssono anunciam o fim de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, alguém faz um barulho em sua cadeira. Mais de quarenta anos depois, após uma pesada remasterização, o mesmo barulho ainda está lá, alguém continua reclamando com o atrapalhado. Vida longa aos Beatles que, pelo menos na qualidade de som, chegaram ao século XXI, Falta, eu sei, a liberação do conteúdo por meio digital, mas isso, certamente, é assunto para outro post.