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Pequenas Grandes Angústias Cotidianas

   Postado por: Carlos Goettenauer na data de 4 de abril de 2015, em Crônicas

O telefone toca e você já olha preocupado, porque telefone tocando não costuma ser coisa boa. Nunca foi. Você já até se acostumou. Notícia boa chega via WhatsApp, via email, via telegrama fonado, via Diário Oficial. Já telefone é como o Oficial de Justiça das notícias. Ninguém com boa intenção pega o telefone, disca (porque notícia ruim disca o número, dígito por dígito, não usa o número da agenda, olha no papel ou no caderninho que fica do lado do aparelho), espera chamar, fala “alô”. Ninguém liga para ninguém hoje em dia.

O telefone toca, você ainda olha preocupado. Vê o número. Você não conhece. Claro, ninguém conhece número de ninguém, só o da Rádio Globo, que tocava na sua casa quando você era criança. Dois zero cinco, zero um dois três, no programa do Haroldo de Andrade. Tinha uma musiquinha atrás, você até consegue lembrar. Sua mãe ouvia em um rádio creme. Quer cor exótica para rádio (aliás, onde será que está o rádio?) Mas aí aparece o nome também. É conhecido.  Não se veem há um tempo. Gente boa o sujeito. Por onde será que ele anda? Você já dá aquela relaxada. Não deve ser desgraça pelo menos. Aí aparece a foto do cara. Foto de rede social, que o celular aprendeu sozinho a pegar. Mas não a foto do Facebook, porque seu celular é hipster, é metidão, tem vontade própria e escolhe a foto o Google Plus para associar aos contatos. Então não é foto nova, é foto que já tem mais de três anos. Nem o cara lembra mais que essa foto que aparece para todo mundo quando ele telefona para alguém. Até porque ele não deve ligar para ninguém mesmo. Ninguém liga para ninguém hoje em dia.

O telefone toca mais uma vez. Você já não está mais tão menos relaxado. Melhor atender. Porque se não atender o sujeito vai saber que você deixou de atender ao telefonema dele. E vai ficar esperando você retornar. Você não vai retornar, porque nunca retorna telefonema. Para ninguém. Nem para parente. Principalmente para parente. Então vai pintar aquele clima pesado entre vocês. E quem sabe vocês se encontram na rua por acaso um dia. Ele vai falar que você não atende as ligações dele. Provavelmente não vai acontecer, porque vocês moram a seguros dois mil quilômetros de distância um do outro. Só que se acontecer vai ser pior, porque talvez o cara esteja vindo para Brasília esse fim de semana e queira só marcar alguma coisa. Um chope rápido. Ali no Beirut mesmo. Melhor atender. Ou ficar em casa o fim de semana inteiro. Seria boa ideia. Mas não dá, tem que ir ao supermercado. E você quer andar no Parque da Cidade no domingo. Você não quer encontrar o cara sem querer. Melhor atender. Meio irritado, é verdade. Quem é que liga para alguém hoje em dia?

O telefone toca, mais uma vez. Você está irritado. Tem que disfarçar antes de atender. Tem que lembrar o nome do cara. Não precisa, está escrito ali. Essa parte foi fácil. Tem que lembrar como você costumava chamar o cara na época que conviviam. Não dá para sair chamando o sujeito da mesma maneira que você chama todo mundo hoje. Hoje você chama todo mundo de “meu irmão” se for homem e “minha amiga” se for mulher. Tem que ser como naquela época quando vocês conviviam. Para rolar um vínculo, uma identidade. Tem que usar o vocativo certo. A entonação certa. Era “camarada”! Vocês se chamavam de “camaradas”. Não se sabe bem porque. A União Soviética já tinha acabado. Vocês nem eram comunistas. Nem pretendiam fazer nenhuma revolução socialista. Olhando para trás, não fazia mesmo muito sentido. Talvez fosse o caso de mudar esse tratamento. Ou talvez naquela época vocês se sentissem camaradas, no sentido fraternal da coisa. Mas agora não dá para pensar nisso. O telefone está tocando pela quinta vez. E se desligar, você já sabe, vai encontrar o cara por acaso no Parque da Cidade, vai rolar aquele clima tenso.

Então você atende e não fala “Alô?”. Já dispara: “E aí meu Camarada?”. Mas não um “E aí meu Camarada?” irritado. Não um “E aí meu Camarada?” falso. Vem um “”E aí meu Camarada?” moleque. Você até sorri. O personagem veio. Foi só evocar aquele tempo quando vocês se chamavam de camaradas sem querer fazer nenhuma revolução. Então você se sente, atendendo aquele telefonema, como um surfista que consegue pegar a onda e rasgar a água bem na diagonal. Aquela imagem bonita. O mar azul levantando, a prancha cruzando a onda, pouco antes da crista. Quer dizer, é o que você imagina, porque não surfa. Nem consegue se equilibrar na prancha. Mas a sensação que dá quando você vê o sujeito na TV parece que é essa. Viu? Deu tudo certo. Você conseguiu atender o telefone. Nem foi tão difícil. As pessoas ainda ligam umas para as outras. É exótico. É eventual. Mas ligam. Deve ser moda hipster.

Mas não. É voz de mulher. Você já pensa que fez alguma bobagem, claro. Essas coisas costumam sempre ser culpa sua. Colocou o nome de uma pessoa com o telefone de outra na agenda do celular. Fato que não é o camarada, é outra pessoa. Mulher. Ou ele mudou muito de voz. Mas não foi você quem errou. Na verdade, você acertou. Cadastrou o número do celular e o número do fixo do camarada no mesmo contato. E a agora é a mãe do camarada no telefone fixo. Você, malandrão de agenda de celular na nuvem, foi pego no contrapé, porque nunca nem viu a mãe do camarada. Sabia que ele tinha uma, claro, por presunção. Mas nunca foi um fato que tenha merecido algum relevo na sua consciência. A mãe do camarada era como a população inteira da China. Você até sabe que está lá, mas é meio que uma coisa abstrata, implícita no mundo.

Só que a mãe do camarada não é mais abstrata. Ela quer falar com você. Sobre sua irmã. O que é bem complicado, porque você não tem irmã. Não que saiba, pelo menos. Ou talvez você tenha tratado sua irmã como a população da China, ali, meio que no canto do cérebro onde você coloca aquelas coisas que não lembra que existem. Será que você deixou de retornar uma ligação da sua irmã? Agora você já não confia mais em si mesmo. O assunto está complicado. Ela conhece sua irmã da aula de porcelana. Ficou sabendo que ela está doente. Coisa séria. Barra. Sorte que você não tem irmã, tem quase certeza disso. Tanto que quando vai falar com homens, chama de “irmão” e vai falar com mulher, chama de “amiga”. Então não é sua irmã que está doente. Tenta explicar. Fala que sim, que você é você mesmo, o camarada amigo do filho dela. Mas que não, você não tem irmã. Que sua irmã não fez aula de porcelana. Que sua irmã não está doente. Nem seu irmão. Sim, está todo mundo bem na família, você fala só por garantia. Seu irmão teve dengue, mas não convém falar, o papo já está complicado demais sem essa informação. Você até pensa em perguntar se o camarada está bem. Pensa duas vezes. Melhor não, vai que ele não está bem. Ou vai que ele vem para Brasília nesse fim de semana. Você não quer encontrar ninguém esse fim de semana. Tem um monte de coisas para fazer. E tem que ir ao supermercado.

Você desliga o telefone. Confere o WhatsApp para ver se seu amigo, por acaso, mandou alguma mensagem. Mas não. Parece que ele não vem para Brasília. Sorte. No fim de semana você vai ao Parque da Cidade. Mas vai preocupado. Vai com medo de encontrar o sujeito. Um pouco de culpa lá no fundo, pode ser. Não vai ser legal. Talvez ligue para o camarada só para ver como ele está e despreocupar. Melhor não. Passa um e-mail. Assim resolve. Ninguém liga mesmo para ninguém hoje em dia.

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Um comentário

marilene Nunes
 1 

Amei seu blog…

5 de janeiro de 2017 às 3:55 pm

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