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Ode aos textos nunca escritos

   Postado por: Carlos Goettenauer na data de 20 de maio de 2014, em Crônicas

LixeiraCelebrem-se, agora, os textos nunca escritos!

Aquela ideia ótima que lhe ocorreu dentro do ônibus, uma mão ocupada em manter o equilíbrio, outra em segurar as três sacolas, duas do supermercado, com lasanha congelada e pipoca de micro-ondas, outra da Livraria Cultura, com maçãs. Não se anotou nada do conteúdo. Ficou apenas aquela coceira ali na cabeça, onde agora há esquecimento. A ideia, boa mesmo, seria um texto, não desceu no ponto certo. Coitada. Deve vagar perdida pela Zona Oeste de São Paulo.

Há também os textos não escritos por culpa de outros cronistas. Sem grandes habilidades, este modesto cronista lapidou o texto na cabeça por semanas, quiçá meses, e quando sentou para escrever, outro mais celebrado já havia falado sobre o assunto. Escreveu melhor, com mais propriedade, mais qualidade. Na atualidade, o Antônio Prata é o que mais apronta esse golpe. Mas, volta e meia, mesmo os falecidos insistem em furtar textos de minha mente. Às vezes é até uma honra. Veja que até o Rubem Braga (sim, o próprio!) já se escarafunchou nas dobrinhas cinzentas do meu cérebro para afanar uns pensamentos.

Outra “viva!” aos textos que perderam a relevância por preclusão temporal. Escrever sobre a vida corrente dá nisso. Antes de terminado o texto, o último acontecimento já é o penúltimo, antepenúltimo e virou gotinha de irrelevância no rio do tempo. Uma pena. Vai ver é por isso que os outros escrevem romances atemporais e tem sucesso, enquanto a sina do cronista é virar forro peniquinho de cachorro. Questionável honra que, aliás, não goza o cronista da época digital, cujas palavras param no latão virtual do sistema operacional.

Claro, não se celebre tudo, pois nem apenas de ideias piramidais vive a cabeça do Cronista. Uma vaia aos textos não escritos por terem argumentos ruins. A esses o eterno esquecimento não é pena suficiente. Como naquele caso em que veio a cabeça criativa, ao revirar uma caixa de mudança, sussurrar “uma crônica sobre controles remotos velhos!”. E o superego já abafou a ideia “não, não, não, de ideia estapafúrdia o Estado Crônico já está cheio! Esquece!”. E lá foi o texto para o rol dos nunca escritos. Pior é ver que o Antônio Prata roubou a ideia. E não ficou ruim.

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  1. Aos taxistas
  2. Um casamento real
  3. Que dia é hoje?
  4. Desculpa esfarrapada
  5. Ganhe R$ 100,00 para ler este texto!

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Este artigo foi postado em 20 de maio de 2014 às 10:29 pm e está classificado em Crônicas. Você pode acompanhar os comentários ao post no feed RSS. Deixe um comentário ou trackback no seu website.

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Um comentário

Crivê
 1 

Esse seu texto me lembrou uma poesia do Drummond que adoro, chamada Poesia:
“Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.”

24 de maio de 2014 às 7:32 pm

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