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Cinebiografia provisória

   Postado por: Carlos Goettenauer na data de 3 de julho de 2013, em Crônicas

Cinema paradisoNós tínhamos dezesseis anos e nessa idade você pode (e deve) ser rebelde. Então, resolvemos praticar um ato anárquico e desafiar o sistema. Algo revolucionário e contestador. Decidimos assistir a dois filmes no cinema.

No mesmo dia.

Um em seguida ao outro.

Tamanha ansiedade é natural em quem tem todo o tempo do mundo e nenhum tempo a perder. E eu e meu amigo João decidimos desafiar as convenções. A sociedade espera que você seja um sujeito comportado, obediente, cumpridor das tradições e só assista a um filme no dia. Meu pai, se ficasse sabendo, acharia um absurdo completo. Um desperdício. Mas os pais nunca tomam conhecimento dessas aventuras.

Nós demos um tapa na cara da sociedade conservadora.

Claro que um projeto ousado como esse dependia de alguma preparação. Assim, conversamos com os-amigos-do-colégio e montamos um esquema logístico especial. Naquela época, os multiplex de shoppings não eram uma realidade na minha cidade e, para conseguir assistir às duas sessões, precisaríamos de alguma folga no horário para correr entre um cinema e outro, o que acrescentaria mais emoção à aventura.

Assistimos a Men In Black e Velocidade Máxima 2. Dois promissores arrasa-quarteirões daquele ano, com todas as correrias e explosões do gênero. A maratona nos causou um processo de suspensão de descrença, causado por ver tantos personagens escapando com arranhões de situações que, na realidade, seriam absolutamente improváveis.

Saímos das sessões nos sentindo indestrutíveis. Poderíamos atravessar a avenida na frente dos carros e, caso surgisse a oportunidade, impedir assaltos a indefesas senhoras.

Na verdade, acho que naquela idade, sem saber, nós poderíamos tudo mesmo. Mas, na dúvida, fomos ao McDonald’s.


Dezesseis anos se passaram e, com o dobro da idade, decidi repetir a dose daquela noite. Dessa vez, não contaria com a companhia de meu amigo João, separado pela distância geográfica, mas sim de minha querida namorada, com quem divido, entre muitas coisas, o gosto pelo cinema.

Entretanto, estamos mais velhos, mais sábios e, presume-se, mais preparados para essas ousadias. Assim, escolhi não dois, mas três filmes em um único dia. “Elena”, “Faroeste Caboclo” e “O Grande Gatsby” foram escolhidos após uma conversa com os colegas de trabalho e a turma do Facebook. Uma aventura ainda mais mirabolante, considerando que as obras cresceram, não apenas em número, como também em complexidade. Mas, hoje, mais justificável, por espremer nas minguadas horas do final de semana todo o lazer que nos sobra.

O leitor mais perspicaz já percebeu, apenas com a enumeração de seis títulos, o grande equívoco na escolha dos filmes. Pois, se há dezesseis anos eu saíra do cinema como a encarnação de um personagem plenipotente, agora eu sentia uma exaustão amarga. As três obras são trágicas e, cada uma a sua maneira, corroem qualquer ilusão que possamos conservar com relação às aclamadas potencialidades da vida.

Talvez ficar adulto seja esse processo de trocar filmes que explodem por filmes que implodem.

Mas prefiro pensar que não. Como Gatsby, em um otimismo incorrigível. Olho ao redor e prefiro as maravilhas que me cercam hoje.


Preciso de mais dezesseis anos para chegar aos quarenta e oito. Às vésperas dos cinquenta. Não sei como as coisas estarão até lá. O futuro ainda é uma página branca, hoje como era há tantos anos.

Mas, seja como for, pretendo fazer mais uma sessão conjunta de cinema. Se isso ainda existir até lá.

Qualquer novidade, aviso vocês.

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Este artigo foi postado em 3 de julho de 2013 às 9:27 am e está classificado em Crônicas. Você pode acompanhar os comentários ao post no feed RSS. Deixe um comentário ou trackback no seu website.

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2 comentários até agora

Carolina Fellet
 1 

O texto tem o hipnotismo de um bate-papo rico e, obviamente, essa sua assinatura singular – cheia de um sarcasmo inteligente. Além disso, sua história tem liga, o que não percebo em alguns livros que leio, que mais parecem uma planilha do Excel cheia de informações soltas.

3 de julho de 2013 às 1:43 pm
 2 

Eu nunca assisti a dois filmes seguidos no cinema, mas já assisti a vários seguidos em casa o que para minha família era uma subversão. Gostei da sua experiência e espero reproduzi-la um dia. Caso não encontre companhia (meu marido eh conservador nesse aspecto) posso acompanhar o casal na proxima sessão! Ótimo texto!

3 de julho de 2013 às 11:48 pm

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