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Cheiro de chuva

   Postado por: Carlos Goettenauer na data de 12 de julho de 2013, em Crônicas

Rain in Belle-Ile, MonetCom menos de 6 anos de idade, Alice já acreditava possuir habilidades únicas, muito mais especiais que a dos super-heróis da TV. Conseguia, por exemplo, com sua super audição, adivinhar a chegada do pai pelo barulho das chaves em suas grandes mãos ansiosas. Todavia, o superpoder mais exclusivo era secreto. A menina conseguia sentir o cheiro de chuva.

Após os dias mais quentes, quando a tempestade lavava descuidadamente as folhas das árvores e levava o pó acumulado no barro dos telhados de volta ao chão, Alice sentia o perfume da chuva subir como uma brisa fresca. Era como se o ar fora reinventado, só para ser respirado, inédito, pela menina de cotovelos na janela.

Assim, entre todas as habilidades, essa era a mais mágica, porque enchia o mundo de novidade. Por isso, a menina acreditou que precisa dividir o segredo e, em uma tarde de chuva, contou sobre seu superpoder para a avó, a única pessoa no seu mundo que parecia enxergar alguma magia fora da luz azul da televisão.

A velha, com as antigas narinas secas, fungou o ar ao redor e sentenciou a magia à morte. “Cheiro de chuva? Isso não existe menina. É só água, caindo do céu e voltando para o chão. É bonito, mas não tem cheiro.”

Alice, tão criança, confiava nos adultos. Especialmente nos mais velhos. E, após o veredito da avó, passou a ignorar o cheiro bom de depois da chuva. Ainda podia senti-lo, mas tentava não prestar atenção. Deveria ser alguma daquelas coisas que só ela via e entendia. Coisa que não existe, qualquer bobagem. Um dia deixaria de ser menina e era melhor, por antecipação, não se ocupar de criancices.

Mais velha, Alice descobriu muitas coisas. Durante uma enfadonha aula de química, em uma terça-feira quente, aprendeu que o cheiro de chuva existia. Era coisa comprovada e explicada com uma equação complexa para ser entendida. Capaz até de cair na prova. Enfim, não era louca. Ao menos, não por sentir cheiro de chuva.

Deve ter sido de propósito que os deuses lançaram, justo após aquela aula de química, uma chuva, destas perfeitas. Nem fortes, nem fracas, sem ventos, mas de pingos fortes. E o cheiro da chuva subiu do chão, enquanto Alice voltava para casa.

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Este artigo foi postado em 12 de julho de 2013 às 10:00 am e está classificado em Crônicas. Você pode acompanhar os comentários ao post no feed RSS. Deixe um comentário ou trackback no seu website.

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3 comentários até agora

 1 

Adorei o texto. Singelo e com uma pitada de metafísica (será que posso chamar assim?)

12 de julho de 2013 às 12:10 pm
Sílvio
 2 

Mais que singelo…com cheiro de nostalgia…de algo que perdemos, sem nunca ter tido.

22 de agosto de 2013 às 2:00 am
Márcio
 3 

Passando por aqui deu pra sentir o cheiro da terra molhada!!!
É magia mesmo, assim como essa sua pena (teclado) mágico, que nos faz ver a virtude de se “admirar o simples, que de tudo emana”.

30 de setembro de 2013 às 7:32 am

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