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jan

Lente Macro

   Postado por: Carlos Goettenauer em Crônicas

O corpo foi encontrado poucos minutos passados da meia noite. Uma barata, não identificada, em meio ao gramado da quadra. A primeira formiga que por ali chegou não soube apurar a causa mortis, mesmo após verificar em detalhes o corpo e observar a existência de um ferimento corto-contuso no ventre da vítima.

Apesar da prudência e dos cuidados investigativos naturalmente exigidos pela gravidade do caso, a formiga não se interessou por aguardar a polícia técnica e, com vistas a evitar o formigueiro concorrente, chamou suas amigas para iniciarem juntas o trabalho de remoção.

Em minutos, um silencioso cortejo fúnebre cruzava o gramado. Equilibrado no alto de cuidadosas operárias, o corpo era levado ao sepulcro final na entrada do formigueiro. Mas, anunciada com breves gotas, uma chuva torrencial lavou o caminho longo e tortuoso da coveiras do jardim. E onde antes era apenas grama, surgiram rios caudalosos e fendas abismais. O complexo trabalho de engenharia necessário para vencer os obstáculos passou a ser observado ao longe por um interessado roedor, cuja gula só foi afastada em virtude do gato errante, morador perene da região e chefe da quadra.

No entanto, o primeiro raio de sol despertou um bem-te-vi de seu recluso galho no primeiro andar da mangueira. Os olhos treinados avistaram a trilha de formigas carpideiras. E, antes que elas chegassem à proteção de seus escuros túneis, com uma revoada, dois passinhos e uma bicada, o corpo-troféu, voou carregado pelos ares, esvaziando todo os esforço da madrugada empenhado pelo forte corpo operário do formigueiro.

Durante o dia, as empregas, as estudantes uniformizadas, as estudantes não uniformizadas, os engravatados das autarquias, o zelador, os maconheiros vespertinos, a equipe de cortadores de grama, o pessoal da capoeira, o entregador de móveis atrasados, ninguém percebeu o movimento insignificante do gramado, todos afogados em seus pensamentos de grandeza, muito maiores que o universo inteiro.

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Este artigo foi postado em 27 de janeiro de 2012 às 6:01 pm e está classificado em Crônicas. Você pode acompanhar os comentários ao post no feed RSS. Deixe um comentário ou trackback no seu website.

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5 comentários até agora

Crivê
 1 

Isso aí, miniaturista!

28 de janeiro de 2012 às 9:43 pm
Ivan Bilheiro
 2 

“[...] todos afogados em seus pensamentos de grandeza, muito maiores que o universo inteiro”.
Boa! Preciso!

28 de janeiro de 2012 às 10:54 pm
Lia
 3 

Got, o minimalista.
rs

29 de janeiro de 2012 às 11:03 pm
Lia
 4 

Já vejo o Got indo pro RJ toda semana…. http://www.cce.puc-rio.br/sitecce/website/website.dll/folder?cOferec=6337
rs

7 de fevereiro de 2012 às 11:01 am
Camilla andradde
 5 

qual é a moral da cronica

9 de maio de 2012 às 9:39 pm

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