Um tapinha não dói
O mundo legislativo anda mesmo efervescente. Recentemente surgiu a polêmica da proibição das palmadas educativas e, logo que as crianças malcriadas pararam de comemorar, foi lançada outra lei. Agora, graças à reforma no Estatuto do Torcedor, os aficcionados por seus times não podem mais entoar seus cânticos ofensivos nos estádios, especialmente se a provocação envolver racismo ou xenofobia.
Possivelmente, o momento de criatividade do poder legislativo deve ser fruto de nossa economia estável e desenvolvimento humano. Assim, sem terem que se preocupar com questões mais melindrosas, os legisladores podem se dedicar à atividade inventiva de estabelecer novas formas de tornar nossas vidas mais seguras e agradáveis.
É bem verdade que as torcidas organizadas e seus enfurecidos cantos discriminatórios há muito precisavam ser controlados. E imagine-se o trabalho horrendo que não seria ensinar a toda a massa de torcedores como se portar educadamente em um estádio de futebol. Às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil, o país precisa de uma solução imediata e garantida para manter os bons costumes dos torcedores, especialmente diante dos sempre mais importantes olhares estrangeiros. Assim, nada melhor do que criminalizar os cânticos, de maneira bem genérica. Desta forma, nossa preparada força policial está autorizada a abordar os infratores com a educação costumeira, para didaticamente descer o cacete demonstrar a correção de se obedecer à lei.
O mesmo se diga das palmadas, agora abolidas. Eram realmente um meio antiquado para a manutenção da autoridade paterna. Sem o recurso fácil do tapinha no traseiro, os pais se verão obrigados a partir para novas formas educativas, que dependem de mais empenho, como o choque-elétrico dialogo construtivo. Certamente, apenas a coerção estatal poderia levar essa alteração de comportamento, que, de outra forma, só seria atingida com anos e anos de investimento em educação fundamental e acompanhamento pedagógico aos pais. Veja como é sábio o legislador, que, de uma tacada só, economizou tempo e dinheiro do contribuinte.
Na minha humilde opinião de cronista obscuro, as duas leis já existiam por aí. Que eu lembre, agredir crianças e xingar os outros já não era bem visto pela sociedade há muito tempo. Mas isso deve ser coisa de minha mente criativa, que enxerga coisas onde elas não estão. O certo é que, agora, nossa sociedade deu dois importantes passos para o desenvolvimento social. Especialmente quando lembramos sobre a qualidade de nosso sistema prisional, que só encontra rival na Suíça. Em tais casas de reclusão, os papais de mão-pesada e os torcedores boca-suja se encontrarão para refletir sobre sua existência e repensar seus atos.
Por outro lado, melhor que o Governo não se ocupe de fazer valer a lei. Afinal, como nos ensina o costume brasileiro, o sucesso de uma legislação não depende da fiscalização e controle, mas sim da vontade popular em aderir às novas normas e garantir que a lei pegue.
Com todo este arcabouço normativo, teremos que dar adeus à esperança de atazanar os argentinos nos estádios em 2014. Mas, minha única preocupação é que talvez todo esse esforço legislativo seja inútil, quando, no nosso caminho do desenvolvimento, nós encontrarmos o bom-senso, solução para todos os conflitos, jurídicos ou não.
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