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Um tapinha não dói

   Postado por: Carlos Goettenauer em Crônicas

Este bebê não foi maltratado para a escrita desta crônica. O mundo legislativo anda mesmo efervescente. Recentemente surgiu a polêmica da proibição das palmadas educativas e, logo que as crianças malcriadas pararam de comemorar, foi lançada outra lei. Agora, graças à reforma no Estatuto do Torcedor, os aficcionados por seus times não podem mais entoar seus cânticos ofensivos nos estádios, especialmente se a provocação envolver racismo ou xenofobia.

Possivelmente, o momento de criatividade do poder legislativo deve ser fruto de nossa economia estável e desenvolvimento humano. Assim, sem terem que se preocupar com questões mais melindrosas, os legisladores podem se dedicar à atividade inventiva de estabelecer novas formas de tornar nossas vidas mais seguras e agradáveis.

É bem verdade que as torcidas organizadas e seus enfurecidos cantos discriminatórios há muito precisavam ser controlados. E imagine-se o trabalho horrendo que não seria ensinar a toda a massa de torcedores como se portar educadamente em um estádio de futebol. Às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil, o país precisa de uma solução imediata e garantida para manter os bons costumes dos torcedores, especialmente diante dos sempre mais importantes olhares estrangeiros. Assim, nada melhor do que criminalizar os cânticos, de maneira bem genérica. Desta forma, nossa preparada força policial está autorizada a abordar os infratores com a educação costumeira, para didaticamente descer o cacete demonstrar a correção de se obedecer à lei.

O mesmo se diga das palmadas, agora abolidas. Eram realmente um meio antiquado para a manutenção da autoridade paterna. Sem o recurso fácil do tapinha no traseiro, os pais se verão obrigados a partir para novas formas educativas, que dependem de mais empenho, como o choque-elétrico dialogo construtivo. Certamente, apenas a coerção estatal poderia levar essa alteração de comportamento, que, de outra forma, só seria atingida com anos e anos de investimento em educação fundamental e acompanhamento pedagógico aos pais. Veja como é sábio o legislador, que, de uma tacada só, economizou tempo e dinheiro do contribuinte.

Na minha humilde opinião de cronista obscuro, as duas leis já existiam por aí. Que eu lembre, agredir crianças e xingar os outros já não era bem visto pela sociedade há muito tempo. Mas isso deve ser coisa de minha mente criativa, que enxerga coisas onde elas não estão. O certo é que, agora, nossa sociedade deu dois importantes passos para o desenvolvimento social. Especialmente quando lembramos sobre a qualidade de nosso sistema prisional, que só encontra rival na Suíça. Em tais casas de reclusão, os papais de mão-pesada e os torcedores boca-suja se encontrarão para refletir sobre sua existência e repensar seus atos.

Por outro lado, melhor que o Governo não se ocupe de fazer valer a lei. Afinal, como nos ensina o costume brasileiro, o sucesso de uma legislação não depende da fiscalização e controle, mas sim da vontade popular em aderir às novas normas e garantir que a lei pegue.

Com todo este arcabouço normativo, teremos que dar adeus à esperança de atazanar os argentinos nos estádios em 2014. Mas, minha única preocupação é que talvez todo esse esforço legislativo seja inútil, quando, no nosso caminho do desenvolvimento, nós encontrarmos o bom-senso, solução para todos os conflitos, jurídicos ou não.

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Este artigo foi postado em 6 de agosto de 2010 às 8:37 am e está classificado em Crônicas. Você pode acompanhar os comentários ao post no feed RSS. Deixe um comentário ou trackback no seu website.

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7 comentários até agora

Marcus Goettenauer
 1 

Essa lei é ridícula, ainda bem que todos os meus filhos já são maires de 16 anos, e ainda não existe, salvo melhor juízo, nada contra uns bons tapas na orelha para corrigir um deslize, isso é bíblico. Esses legisladores deveriam se preocupar e coma atual capacidade do Estado de não poder dar suporte aos meninos e meninas abandonados nos sinais, ruas e etc . Isso sim carecia de atenção e não de uma palmada em um filho aplicada por pais zelosos que procuram fazer destes, cidadões melhores para a sociedade.

6 de agosto de 2010 às 9:05 am
Ana Luiza
 2 

Poxa… quem não se recorda dos tapas dos pais que respeite a lei! Bem na hora da revanche somos proibidos???

6 de agosto de 2010 às 4:50 pm
Wilson Rodrigues de Oliveira
 3 

Que pensamento mais retrógrado, caro cronista. Converso com minha filha de 3 anos, no meio da Avenida Paulista, para que ele pare de chorar e rolar no chão, enquanto os transeuntes assistem a cena. Como pai zeloso, converso mais um pouco… Pronto !!! quero dizer… ela continua chorando e rolando no chão. Aí apelo para a psicologia infantil! 3 palmadas no bumbum. Ehhhh beleza!!! Ela levanta, pede desculpas e continuamos nosso caminho.

7 de agosto de 2010 às 12:40 am
marcim
 4 

Não tenho ainda uma opinião formada sobre as palmadas…é fato que já lancei mão, literalmente, desse artifício, porém a violência realmente não pode ser a solução para os conflitos…me comprometi a não mais dar as tais palmadas na pequena. O próximo passo é virar vegetarias e aderir ao budismo.

7 de agosto de 2010 às 11:16 am
marcim
 5 

Quanto aos legisladores…umas boas palmadas em cada um deles seria mais que adequada. De preferência com vara de marmelo e jogando sal nas chagas.

7 de agosto de 2010 às 11:19 am
Daisy Domingues
 6 

É meu caro Goet…parece que esse povo das leis não sabe mais o que fazer para tornar esse mundinho chato cada vez mais chato… Até onde consigo me lembrar, depois de ter percorrido cinco décadas, quando criança eu era o cão chupando manga. Aprontava tudo que tinha de errado pra fazer, e só não fui muitíssimo pior porque tinha algum receio de que meus pais, amorosíssimos que eram, perdessem a paciência e a condescendência, e partissem para as vias de fato, como realmente acontecia nas vezes em que eu extrapolava. Como teria sido, então, sem aquelas santas palmadas?????
Quanto aos palavrões… ah!!! A vida perde muito do seu tempero sem essa prática libertária! Nada como um bom “VÁ SE FODER!”, dito em alto e bom som na hora certa, pra nos redimir de toda a raiva, não é???

7 de agosto de 2010 às 10:57 pm
 7 

Muito antes de você criar este blog, eu já comparava você com o talentosíssimo Bruno Mazzeo (é assim mesmo que escreve?). Ambos têm uma acidez ímpar. Este texto revela bem isso. Muito, mas muito bom mesmo. Parabéns.

12 de agosto de 2010 às 2:58 pm

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