Te cuida Manequinho!
Saci-pererê certamente não precisou de cota para entrar no panteão do folclore brasileiro. De pulinho em pulinho, na fumacinha do cachimbo, Saci conseguiu ser escalado como um dos personagens imortais de Monteiro Lobato e alcançar glória nacional. Bem visto por todos, que entendias suas travessuras como molecagens inocentes, ele conseguiu até uma vaga de mascote de clube de futebol. Bom, pelo menos até recentemente.
Segundo notícias, o Internacional FC de Porto Alegre pretende, de maneira sorrateira, demitir Saci-pererê do cargo de mascote oficial do clube. Para sua vaga já foi escalado um macaco, curiosamente chamado de Escurinho.
Não vamos culpar o clube de futebol. Afinal, os tempos são outros e Saci seria uma péssima influência para as crianças, sempre pitando seu infame cachimbo. Passível até de responsabilização por danos morais em algum juizado por aí. Algo inaceitável para a segurança pública. Lembro que na minha infância existiam uns cigarrinhos de chocolates, embalados em caixas, cujo rótulo era um menino negro fumando. Uma dupla agressão à moral e bons costumes de nossa muito respeitável sociedade. Em apenas uma embalagem instigava-se nas crianças o racismo e o vício! Aliás, pior, ao vício de cigarro e de chocolate, que muito em breve também ter suas propagandas com alertas sobre a possibilidade do consumo excessivo transformar você em um obeso mórbido. As fotos na embalagem serão horrendas senhoras, pensando quatrocentos quilos.
Tempos perigosos aqueles. Não possuíamos quem pensasse por nós e vivíamos indefesos, à mercê de inescrupulosos fabricantes de cigarrinhos de chocolate. Sem a patrulha politicamente correta, não sabíamos como consumir, xingar com educação ou ser preconceituoso com respeito. Recentemente vi que o jovem afro-descendente da embalagem perdeu o cigarro, usa uma roupinha mais classe-média e trás entediantes lápis de colorir. O novo sabor? Não faço a mais vaga idéia, pois não comprei. O barato mesmo era fingir que fumava chocolate, algo que certamente transformou minha geração em fumantes desbragados, que vivem tossindo seus pulmões pelos cantos.
Mas, convenhamos, Saci teve o que mereceu. Deveria ter notado que os tempos eram outros, menos tolerantes aos vícios. Negro, deficiente, fumante e travesso, Pererê teve bastante tempo para se emendar na vida, largar o cachimbo, comprar uma perna mecânica igual a do Rei Roberto, daquelas tão discretas que viram lendas. Se tivesse um pouco mais de bom senso, hoje estaria ocupando uma vaga em universidade ou, melhor ainda, um cargo de caximbador carimbador maluco no serviço público.
Talvez ainda haja tempo para Saci. Sugiro a substituição do cachimbo, por algum outro objeto. Uma cuia de chimarrão? Não, muito regionalista. Uma pipa? Não, pode incentivar as crianças a se eletrocutarem na rede elétrica. Deixar as mão vazias? Não, vai parecer que ele é pobre, coisa que de fato ele é, mas não precisa parecer. O ideal é uma pastinha escolar e um livro na outra mão! Incentiva a educação e a leitura em apenas um mascote.
De todo, se não houver salvação para o emprego do Saci-pererê, espero que ele volte em segurança para o Reino de Narizinho, lugar muito mais divertido e fantástico que este onde vivemos. Entretanto, no caminho, não custa passar no Rio de Janeiro e avisar ao botafoguense Manequinho para guardar suas vergonhas e parar de fazer xixi em público. Afinal, a patrulha está à solta, para nossa segurança.
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