Em um passado distante, o então técnico da seleção brasileira de futebol foi acusado de utilizar palavras chulas para atacar jornalistas durante uma entrevista coletiva. Os mesmos microfones, que até então escutavam sedentos, passaram a acusar o entrevistado de ofensas à moral dos inocentes ouvidos brasileiros, tão acostumados à fina flor verbal. Para classificar as palavras do técnico, a imprensa utilizou a curiosa e abstrata categoria de baixo calão.
Mestre Aurélio nos explica que o termo calão está associado ao uso de “termos baixos e grosseiros”. Portanto, baixo calão seria, em tese, quase uma redundância, porque calão, sozinho, já é baixo. E não existiria o alto calão.
Com todo o respeito, preciosismo exagerado do dicionário. A utilização do baixo na frente do calão implica que existe, sim, um alto (es)calão dos verbetes. São palavras com muito poder e dinheiro. Constitucionalidade e mercantilização estão lá, sempre muito próximas umas das outras. Mas há outras. Autoridade, por exemplo, consegue tudo que quer ao sacar do bolso um documento de identidade de cor especial, capaz de comprovar sua alta extirpe. Ultrapassa as burocráticas barreiras da ordem alfabética e deixa para trás palavras menos valorizadas, como Legislação e Igualdade.
Todavia, há também a classe média vocabular. Deve ser constituída por palavras que andam por aí de transporte público ou engarrafadas em seus carros. Eu e Vocês, certamente são palavras de médio calão. Mas, atenção. Como nos ensinam os gramáticos, a linguagem é dinâmica e todo dia mais alguns termos são arrastados para as camadas mais baixas do vivedouro dos verbetes. Ninguém garante a manutenção de algum termo no universo do médio calão, principalmente nesses tempos de crise. Vejam, por exemplo, Socialista. Foi elogio, depois xingamento. Hoje em dia é casada com Moderado e vive bem, mas não trabalha mais fora.
Por outro lado, o universo das palavras permite certa mobilidade social e algumas palavras bem aventuradas ascendem a camadas superiores. Bunda, por exemplo, até bem pouco tempo circulava em lugares mal freqüentados, como Zonas. Hoje em dia é diferente. Bunda ganhou fama, dinheiro, freqüenta capa de revista e novela das oito. Seu sucesso é tão grande que o Bumbum, seu primo rico, anda em franco desuso e, atualmente, é quase pueril. Deve estar deprimido, o coitado.
Fato é que nossa relação com as palavras é muito complicada. Tentamos fazer delas nossas ferramentas, quase escravas. Dizemos o que pensamos com palavras. Mas, na via reversa, são elas que dizem muito sobre nós. Dentro de nossas frases espontâneas e bem intencionadas, as palavras contam mensagens sutis. Avisam a todos quem somos, de onde, de que e a que viemos. Não importa o que é dito, pois a mensagem repousa em como é dito.
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