30
jul

No busão – uma proposta política

   Postado por: Carlos Goettenauer na data de 30 de julho de 2010, em Crônicas

Insira seu parlamentar aqui! Quase todo brasileiro tem uma solução própria para solucionar a crise de representatividade que atinge nosso cenário político. Alguns pregam o radicalismo de uma revolução, seguida do extermínio cruel de todos os deputados e senadores. Quase Terror Jacobino, versão tupiniquim. No entanto, eu tenho uma proposta muito mais moderada e viável. Meu plano é obrigar todo ocupante de cargo público a se deslocar, exclusivamente, de ônibus urbano.

Neste ambiente favorável ao contato humano e intercâmbio social, nossas doutas autoridades teriam a inestimável oportunidade de conviver com as mais variadas camadas da população. De longe, vêm os mais humildes, que já lotam o ônibus nas primeiras paradas. Mas ao longo do caminho, conforme a condução cruza áreas mais valorizadas, alguns ocupantes improváveis, de terno e perfume, vêm se juntar a festa. Ao chegar ao epicentro de qualquer cidade, o ônibus já é uma amostra demográfica condensada em um tubo de ensaio da MARCOPOLO®, dificílima de ser reproduzida em laboratórios estatísticos.

O horário também seria previamente estipulado, para garantir ao o máximo da experiência urbana ao nosso representante. Algo entre 6 e 7 da noite, no horário “nobre” do transporte público urbano. Nesta hora, quando já não cabe mais ninguém em qualquer centímetro da malha viária, o político teria a oportunidade única de entrar no ônibus pelo último lugar da fila, para ocupar, junto com mais umas dezessete pessoas, o privilegiado lugar entre o primeiro degrau e a porta de entrada. Assim, a cada nova parada, quando as portas se abrissem, Nossa Excelência desfrutaria de uma breve lufada de brisa, oriundo do sempre puro ar das capitais brasileiras. Claro que, imediatamente, as portas se fechariam para manter o equilíbrio térmico do ambiente interno, algo próximo da umidade de uma floresta tropical, cumulado com o calor do deserto africano.

Licencinha, faz favor...Mais estejam as autoridades alertadas com relação a um ponto especial. Para garantir a melhor interação com o povo brasileiro, fundamental para o sucesso de qualquer governante, o político não poderá se fazer acompanhar de segurança, seja particular ou agente fardado da polícia estatal. É pouco recomendável, por conseqüência, portar objeto de valor, especialmente eletrônicos que despertem a cobiça alheia, como celulares de último tipo ou iPods. Aliás, para garantir o contato com a massa, a autoridade não deve portar sequer um livro ou fones de ouvido. Afinal, ninguém quer perder a chance de compartilhar o último funk da galera do fundão, muitas vezes produzido ali mesmo, no calor do transporte, pelos (i)letrados criadores de nossa valorosa cultura pátria.

As vantagens da medida seriam muitas, tanto para os políticos, quanto para o povo brasileiro. Para não citar a economia em passagens aéreas para consulta às bases, nossos governantes estariam em dia com a repercussão de suas decisões de Estado na massa governada. Em curto prazo, creio que haveria redução no número de assentos preferenciais, para grávidas, idosos, obesos, pessoas com sacolas vermelhas e crianças de colo. Depois, algumas melhorias no transporte urbano seriam percebidas. Daí em diante, um acréscimo na qualidade da educação e o Brasil já estaria no caminho da emancipação. Todavia, se tudo der errado, ao menos a medida reduziria as emissões de carbono.

Gostou? Leia mais:

  1. Proposta para acabar com o azar
  2. Por uma rede antissocial
  3. Que dia é hoje?
  4. Uma esmolinha pelamor de Deus
  5. Brasil x Holanda – Contém spoilers

Tags: , , , ,

Este artigo foi postado em 30 de julho de 2010 às 8:24 am e está classificado em Crônicas. Você pode acompanhar os comentários ao post no feed RSS. Deixe um comentário ou trackback no seu website.

Clique em "Curtir" para deixar seu comentário no Facebook!

9 comentários até agora

 1 

Lendo o seu texto, lembrei de um político aqui de Manaus que faz isso @marcelo_ramos. A ideia é muito boa e certamente será apoiada pelos eleitores.

30 de julho de 2010 às 4:50 pm
ma calarezi
 2 

Faltou comentar os abusos sexuais sofridos pelas mulheres no horário da lotação. se alguém merece isso, são eles.

31 de julho de 2010 às 12:55 am
 3 

Uma sugestão para o buzão dos políticos: tem que ter dentro dele pelo menos um aposentado com uma sacolinha daquela linguiça “cheirosa”…

2 de agosto de 2010 às 12:18 am
 4 

Fala Cadu! Acho que se político andasse de ônibus, o trocador ia ter que ter atenção redobrada. Ia ser estressante a vida pra eles (trocadores)… :)

2 de agosto de 2010 às 1:36 am
Ana Luiza
 5 

Bom,quando conseguisse, ia ter que se sentar ao lado da tia gorda com suas sacolas e a criança de colo. Ahh, e ter que segurar um pouquinho o rebento para ajudá-la a se levantar depois…

2 de agosto de 2010 às 3:24 pm
Wilson Rodrigues de Oliveira
 6 

O cronista deverá espancar o revisor do texto, por deixar passar “passagens áreas”. Após o espancamento, deverá recolher-se nas instalações de Guantánamo, onde os inimigos dos políticos brasileiros e, portanto, de Cuba devem permanecer “pensando”, por uns 40 anos.

3 de agosto de 2010 às 9:14 pm
Wilson Rodrigues de Oliveira
 7 

Aliás, o comentário da “ma calarezi” é muito oportuno. Há um tempo atrás, sofri abuso, no metrô, de uma moçinha (muito bonitinha, por sinal)… Não a vi mais…

4 de agosto de 2010 às 7:40 am
Wilson Rodrigues de Oliveira
 8 

Caso a moçinha que abusou do meu corpo faça parte dos “leitores imaginários” deste Blog, gentileza entrar em contato comigo, para darmos prosseguimento ao abuso.

4 de agosto de 2010 às 9:39 pm
beto gonçalves
 9 

bom gostei dos comentarios legal

26 de novembro de 2016 às 4:51 pm

Deixe seu comentário!

Nome (*)
E-mail (não será publicado) (*)
Website
Comentário
Clique abaixo para enviar o comentário!