Acabou
Acabou. Não há o que se fazer. Não acredito em quem usa, em um momento como esses, o clichê sobre a importância de saber competir e aceitar as derrotas. Perder é horrível, uma pequena morte. Sua aceitação passa pela negação, raiva, barganha e depressão, como um luto.
No exato momento estou entre a negação e a raiva. Ainda não acredito no apito final, mas já começo a sentir uma raiva, fantasiada de mau-humor crônico, a me subir pela espinha. Hoje, não queiram me encontrar em uma fila demorada ou engarrafamento. Também não vou ser adulto. Aliás, quero distância dos sentimentos pretensamente adultos, crescidinhos e edificantes. Prefiro procurar infantilmente um culpado. Já escolhi Felipe Melo como minha presa. Como mineiro, peguei raiva dele para o resto da vida. Daqui a vinte anos, na Copa da China, não me venha o safado tentar treinar a Seleção sem falar com a imprensa, sob a justificativa de perseguição na Era Melo.
Depois da raiva, passo à barganha. Se pelo menos a Argentina for desclassificada e a final for uma goleada de Gana sob a Alemanha… Perder a Copa para ver um time africano campeão não terá sido tão ruim e inútil. Não vou perdoar o Felipe Melo, claro, mas vai ser gratificante ver os europeus derrotados pelo continente negro. Justiça histórica. E que soem as Vuvuzelas tão alto que eu possa ouvir daqui, sem a interferência irritante do Galvão Bueno.
Todavia, cedo ou tarde, a aceitação vai chegar, talvez após uma breve depressão. Afinal, Copa do Mundo é igual eleição e a cada quatro anos tem uma nova. Além do que, por mais desclassificado que estejamos agora, foi bom me empenhar na torcida, comemorar cada gol, por menos que tenham sido. Não me arrependo dos gritos e vuvuzeladas. Acreditem ou não, eu me diverti muito seja torcendo, seja compartilhando minhas idéias com meus leitores imaginários. Continuo brasileiro e patriota, dentro e fora de campo e não retiro rigorosamente nenhuma vírgula do que escrevi e no último mês. “Valeu à pena, sou pescador de ilusões”.
Agora, vamos mudar de assunto, que eu não agüento mais escutar e falar de futebol.
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