Epidemia. Eis a única palavra para explicar. Começa de maneira sutil, em meados de abril, com uma bandeirinha aqui e outro rótulo pintado de verde e amarelo acolá. Todavia, a mania de nacionalizar tudo se espalha de maneira viral. Meio de maio e parece que o Brasil inteiro se embrulhou em celofane verde-amarelo, ganhou cornetas e bandeiras. Passado quase um mês, há o ápice da expectativa. Correspondentes internacionais devidamente enviados e afiados, bolões a pleno vapor, vinhetas massacrantes na TV, vamos todos à Copa do Mundo.
Todavia, quem leu sobre meu desprezo pelo futebol, vai receber a seguinte notícia com alguma surpresa. Eu adoro Copa do Mundo. A contradição é mínima e apenas aparente.
Pode até parecer, mas Copa do Mundo não guarda quase nenhuma relação com futebol. Por mera coincidência, a Copa do Mundo é disputada com regras semelhantes ao futebol. Mas não se trata do mesmo fenômeno. Futebol é um esporte chato, limitado a uns poucos admiradores entendidos (talvez mais que uns poucos, mas não vou entrar no mérito), que sabem, por exemplo, qual foi o campeão brasileiro de 1981. Copa do Mundo, ao contrário é fenômeno de massa e não existe em nichos. Qualquer vivente sabe que o Brasil é pentacampeão. Oxalá Hexa em breve.
Tanto assim, aliás, que alguns jogadores de futebol excepcionais não conseguem se destacar na Copa. Pois não são times de futebol que entram em campo na Copa do Mundo. Trata-se do último suspiro do nacionalismo arraigado. Fanatismo, ufanismo desmedido, tudo ganha alvará de soltura, de quatro em quatro anos, para uma catarse nos campos. Que se dane a política internacional, os blocos regionais, o MERCOSUL, a União Européia e o espírito global. “Somos guerreiros”, os jogadores afirmam em uma recente propaganda. Dentro das quatro linhas, a batalha visceral está liberada, desde que com fairplay.
Não é por acaso que o nacionalismo é visto com maus olhos atualmente. O ufanismo alimentou o fascismo e serviu de combustível para duas guerras mundiais no último século. Entretanto, o sentimento gerado pela Copa do Mundo é diferente. Por onde é exibido, o torneio provoca uma enorme festa. Carreatas nas ruas, festa sob o Arco do Triunfo (má lembrança) e coro absurdo de vuvuzelas de ex-cativos do apartheid. Vez ou outra aparece um chato para dizer que há violência aqui ou ali. Mas, sem dúvida, são casos isolados, muito diferentes, diga-se, da saída de um Palmeiras e Corintians.
Impossível, portanto, ser antipático a um movimento que mostra, ao fim, a grande capacidade da reunião popular. Especialmente para nós, brasileiros, que nem aprendemos a ser patriotas e já precisamos desaprender, para nos tornar globalizados. Afinal, quem consegue acordo no condomínio para decorar a fachada ou arrecadar dinheiro na vizinhança para pintar a rua pode, muito bem, entender dessa maneira, a importância de pensar e agir juntos.
Post-scriptum, com um convite:
Apesar de todo o dito acima, sei que é maçante o movimento midiático da Copa do Mundo. No entanto, é impossível ser imune.
Assim, conclamo meus prezados leitores, imaginários ou não, a opinar.
Alguém tem interesse na manutenção das crônicas da Copa ou o Estado Crônico deve se manter, doravante, silente sobre a questão? Apenas vocês podem decidir, aí nos comentários!
Agradeço previamente a participação.
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Tags: Copa do mundo, Crônicas, Crônicas da Copa do Mundo, Crônicas para refletir, Textos de reflexão
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