Ao contrário da maioria das crianças, eu sempre torcia pelo lado errado nos desenhos animados. Não se trata de algum desvio de comportamento, nem síndrome "do contra", presente naquele tipo de sujeito que sempre se opõe a opção da maioria. Na verdade, sempre senti maior identificação com a "oposição", que busca desmascarar a fraude que são os heróis.
No desenho do He-man, não era diferente. O arqui-rival do herói, Esqueleto, com sua risada maligna, sempre me atraiu muito mais do que o lado bonsinho. Todavia, hoje percebo que minha identificação com o inimigo de He-man tem uma explicação muito evidente. Há algo de podre no reino de Etérnia.
Algumas questões precisam ser esclarecidas, para demonstrar a grande fraude de Eternia, repassada pelo desenho. O reino protegido por He-man, alter-ego do príncipe Adam, é, obviamente, uma monarquia absolutista. E como toda monarquia, não deixa espaço para a oposição. O alto escalão do reino é constituído, assim, pelas figuras responsáveis pela opressão das forças subversivas. Mentor, Teela, Gorpo e Feiticeira, cada um é responsável por alguma função na maligna máquina opressora estatal. Mas, acima de todos, principe Adam, que ungido de poderes de metafísicos por Feiticeira, se transforma em He-man, o herói de força quase infinita, que parte sempre na luta contra os inimigos do reino de Etérnia. É ele que representa a figura mais perigosa do reino. Basta ver que, para seus comparsas, Adam é um príncipe esquisitão, que tem um tigre frouxo como animal de estimação. Já para os inimigos, He-man é o sujeito responsável por lançar um monstro bestial, chamado Gato Guerreiro, em todos os revolucionários.
Do outro lado está Esqueleto, o oposicionista. Seu objetivo é invadir o Castelo de Grayskull e derrubar o Reino. No entanto, os planos de Esqueleto só vão até aí, segundo mostra o desenho. Obviamente, a censura estatal não permitiu revelar que o "terrível" personagem pretende, na verdade, reestabelecer a democracia na sociedade, livrando Etérnia dos crápulas monarquistas.
Tudo bem que o desenho mostra algum excesso aqui e ali do Esqueleto, mas, convenhamos, o programa foi, evidentemente, criado para difamar sua imagem de herói revolucionário. Aliás, o próprio Mentor, o Goebbels de Etérnia, deve ter feito a edição de cada um dos episódios.
Mas, ainda que Esqueleto seja, em alguns momentos, exagerado em sua cruzada oposicionista, uma outra questão deve ser levantada. É possível uma revolução pacata, sem partir para o ataque violento ao sistema estabelecido? Imaginem que esqueleto vestisse sua roupa de moço bom e pedisse uma audiência com Randor, o rei de Etérnia. Estaria hoje em uma masmorra, sendo roído por um tigre monstruoso.
Assim, ao lembrar de Esqueleto, só me resta bradar o mote. Viva la Revolución!
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21 de abril de 2010 às 1:01 pm e está classificado em Crônicas, Nerd.
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