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mar
Propaganda da Tucson
Sei que, a princípio, por não ser publicitário, não tenho "legitimidade" para falar mal de uma propaganda. Mas, eu sou público e acho que, como potencial consumidor do produto vendido, mereço ser escutado.
Tudo bem, a propaganda da Tucson é relativamente antiga, mas minha antipatia por ela ainda não passou, então resolvi dividir minha irritação com meus leitores.
Antes, vamos ter o prazer de ver o vídeo novamente.
Bom, a peça começa com uma pergunta: "Por que o Tucson foi eleito como o melhor SUV do mundo?". Então, passa-se as respostas de compradores. Estrutura bem simples, certo? Não fosse a seqüência de bobagens que se segue…
1º Motivo, dado pela sra. Renata, arquiteta. Ela se apaixonou pelo carro. Ótimo, uma súbita paixão não é bem um motivo para o carro ser eleito o melhor do mundo, mas, vá lá, esse ainda é o motivo menos pior. Tudo bem que, indiretamente, ele se resume ao "não tenho a menor idéia de porque comprei essa porcaria. Deu vontade e vou e compro. Deve ser porque assisto propagandas demais…"
2º Motivo, dado pelo sr. Rodrigo, empresário. Merece áspas: "É meu, zero bala, acabei de comprar." Ainda não peguei a lógica do depoimento. O carro é o melhor do mundo porque o Rodrigo, empresário, comprou? Ou será que ele, Rodrigo, considera aquele o melhor carro do mundo porque ele comprou? Bom, de toda forma, é fácil saber qual o melhor carro do mundo. É só perguntar para o Rodrigo que carro ele tem. Nem interessa se ele tem um Lada. Na verdade, a qualificação dos carros é dada pelo propriedade pelo Sr. Rodrigo, o arquétipo de branco-brasileiro bem sucedido.
Dá para ver que a partir daí para frente o consumidor vai ser chamado de idiota até o fim…
3º Motivo, dado pelo Sr. Francisco, administrador de empresas. Enfim, alguém fala de alguns motivos. O conforto e o motor do carro.
4º Motivo, dado pelo Sr. Ricardo, diretor de marketing. Outros motivos, o carro é bom de curva e espaçoso.
Os dois depoimentos merecem ser analisados juntos. Os sujeitos tentam comprar o cliente pela identificação. Afinal de contas, nenhum dois dois é especialista em mecânica e as qualidades apontadas são altamente subjetivas. A questão é, se os clientes devem se identificar com aqueles dois sujeitos, eu não quero ser cliente da Tucson. Os dois tem cara de bobos e dizem, implicitamente, "comprei esse carro para compensar meu complexo de inferioridade. Funciona, compra você também". Aliás, o tal Rodrigo também transmite isso, mas num estilo mais jovial. Ele fala, "esse carro não é só de tio encalhado. Você jovem inseguro também pode comprar."
Mas tem uma questão importante, os dois gostam muito de correr (um fala do motor o outro da estabilidade). Ou seja, compensam sua insegurança pisando no acelerador. Algo como o que o nosso querido Pateta faz no papel de Sr. Weeller.
5º Motivo, dado pela Sra. Gabriela, diretora de criação. O carro passa em enchente. Beleza, é só isso mesmo. Ela tem medo de afundar e resolveu comprar um carro que passa em enchente. Deveria ter comprado um barco, mas ele tem as desvantagem de não andar no asfalto. Em suma, ela tem medo, igual a Regina Duarte. Até a voz chega a ser tremida, para garantir a insegurança da personagem. Melhor se ela não se aventurasse em enchentes, afinal, carros não foram feitos para isso e a Tucson menos ainda. Assim, uma grande bobagem a dita por essa mulher.
6º Motivo, dado pela Sra. Leila, diretora de T.I. Pelo menos, ela é assumida e comprou o carro porque ele é alto e ela gosta de ver todo mundo por cima. Deve ter medo de olhar todo mundo no mesmo nível. Vai que ela entra em surto psicótico ao perceber que, no trânsito, ela é igualzinho ao Zé das Ferragens, com sua Brasília velha.
Bom, acho que não precisa mais aprofundar-me em minhas análises. O grupo seleto de pessoas que compraram Tucson, estranhamente escolhido entre os empresários publicitários descendentes de italianos, tem os seguintes motivos para sua escolha: falta de motivos (ou paixão inexplicável), ego grande demais para caber em outro carro (eu não compro o melhor carro do mundo, o carro se torna o melhor do mundo porque eu comprei) e insegurança (ou compulsão por passar em enchentes).
Outro ponto interessante é o regionalismo absurdo. Não sei se a propaganda passou em outras cidades, mas os personagens da peça são típicos de São Paulo (típicos no pior sentido, porque a cidade, graças a Deus é grande e maravilhosamente diversa, sendo que os chatos são minoria). Talvez daí venha o excesso de nomes italianos. Parece que o carro foi feito especificamente para uma casta de paulistanos, que compram Tucsons para ficarem parados no trânsito. Espero meus leitores imaginários me contarem se a propaganda foi exibido em outro lugar ou se os publicitários perceberam que só funcionaria por aqui mesmo.
Com um comercial desses, eu nunca vou comprar uma Tucson.
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Tags: Crônicas, Crônicas divertidas, Crônicas engraçadas, Crônicas para refletir, Textos de reflexão, Textos divertidos
Este artigo foi postado em
16 de março de 2010 às 8:00 pm e está classificado em Crônicas.
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