Leitores Imaginários
Antes de ver pessoas mortas, em Sexto Sentido, Haley Joel Osment enxergava um amigo imaginário em um filme chamado Bogus. Parece que a capacidade alucinógena do menino cresceu com o tempo e suas visões passaram de apenas um amiginho imaginário, coisa que toda criança tem (eu tive, pelo menos), para uma trupe de fantasmas mutilados. Acho que o mesmo caso vem se dado comigo.
Quando eu escrevi sobre a crise existencial desse blog, afirmei que ele não tinha leitores. Bom, isso era uma meia verdade, porque o blog sempre foi freqüentado pelos meus leitores imaginários. Eles, interessadíssimos, visitavam meus escritos, clicavam em links, até assinavam o feed RSS. Não me incomodava o fato de meus únicos leitores serem fruto da minha imaginação fértil. Na verdade, as palavras, que você leitor agora lê, são criadas na minha mente e, nem por isso, têm uma existência menos digna. Era até conveniente um grupo de leitores imaginários. Eles não corrigem meus textos, não reclamam que eu escrevo demais sobre Beatles, tampouco discutem nos comentários e trocam palavras ofensivas.
O problema surgiu quando apareceu um comentário. Em um primeiro momento fiquei preocupado. Teria meu blog recebido uma visita? Imaginei que isso fosse possível, por total acaso das forças da natureza, que, em seu capricho, teriam criado um campo eletromagnético e desviado para o Estado Crônico alguém que clicou em um link para baixar o último episódio de Lost. Tudo isso ocorrendo no futuro, mas com conseqüências no passado.
Imaginem só, um visitante do blog! Isto tornaria o ato de escrever muito mais assustador, porque, de repente, alguém estaria, efetivamente, lendo o que escrevi. Minha idéias teriam que se censuradas a partir daí. Seria como descobrir que existe uma câmera dentro do banheiro de casa… Há anos!
Lógico que esse medo durou pouco. Refleti melhor e percebi que, por óbvio, o comentário no meu blog só poderia ser fruto de minha imaginação. Por que não? Meus leitores imaginários, sabe-se lá como, passaram a postar comentários, que eu imagino ler. Tudo um grande delírio.
Fiquei mais feliz assim e passei a comemorar. Se o Marcelo Tas comemora os cem mil comentários em seu Blog, eu comemoro meu comentário único e imaginário. De todo, estou contente que meus leitores imaginários tenham dado início a era da interatividade no Estado Crônico. Feliz, mas com medo de ir à cozinha à noite.
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