Tua Própria Voz
No início não havia muito. Deus e uma confusão de matéria prima para o Universo. E Ele disse… Mas antes que dissesse qualquer coisa, antes da própria luz ser criada, surgiu o mais importante. A voz criadora. Daí para fazer luz, separar água e terra, criar macaco, praia, tobogã, foi um passo. Apenas mais palavras.
Talvez venha desse ato criador inicial o maior delírio humano. A crença da criação pelo verbo. Não passa um dia sem que acreditemos poder inventar, fazer, refazer, mudar tudo a partir de palavras. Mais, damos confiança aos ditos alheios, ouvimos o jornal e lemos o conto, tudo um pouco igual. Tudo um pouco de realidade.
Por outro lado, deve vir dessa crença em uma cosmogonia literária a estranha idéia de alguns que acreditam sinceramente ter algo relevante a dizer. O sujeito, não satisfeito com seu universo de devaneios pessoais, sobe em um banco, pega uma caneta ou, ato de maior insanidade moderna, resolve colocar um blog na Internet. Passa a espalhar seus pensamentos por todos os cantos e, se encontra alguma platéia mais ou menos crédula, convence alguns sobre a retidão de suas opiniões antes recolhidas ao recanto mais secreto da sua cabeça. Como se, ao fim de tudo, suas palavras fossem criar alguma diferença, fosse vibrar as cordas da existência alheia.
Entretanto, para que a mágica da criação pelo verbo seja efetiva, o sujeito deve, antes de convencer o respeitável público, conseguir encontrar seu próprio tom. Não basta ter idéias. Tampouco é suficiente proferi-las. É necessária a harmonia entre o que é dito, quem diz e como é dito. Tudo deve vibrar em sintonia. Eis a maior dificuldade. Não é rara a experiência de quem ouve pela primeira vez sua própria voz reproduzida por algum gravador. A estranheza daquele som incomoda tanto que não raro o sujeito se vira para o lado e dispara para a primeira vítima “Esse sou eu?”
Não, não é você. Devemos ficar tranqüilos. Ou não. Pois aquela voz não é a sua. É a que os outros ouvem. Nossa própria voz está guardada em algum lugar mais íntimo, onde é a completa correspondência do que queremos dizer. Modulação exata, tom perfeito. Não faltam palavras. Também não sobra aquele comentário desastrado que acaba com a noite ou, em casos mais graves, anos de matrimônio.
Mas nossa própria voz é ideal platônico. Provavelmente Ele, em Sua perfeição, seja o único que consiga a perfeita harmonia entre o que é pensado e o que é dito. Cabe a nós a tentativa de maior aproximação, sabendo que essa correspondência é a única forma de manter nossas idéias além de nós mesmos, onde alcançarão alguém mais.
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