30
jul

No busão – uma proposta política

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas

Insira seu parlamentar aqui! Quase todo brasileiro tem uma solução própria para solucionar a crise de representatividade que atinge nosso cenário político. Alguns pregam o radicalismo de uma revolução, seguida do extermínio cruel de todos os deputados e senadores. Quase Terror Jacobino, versão tupiniquim. No entanto, eu tenho uma proposta muito mais moderada e viável. Meu plano é obrigar todo ocupante de cargo público a se deslocar, exclusivamente, de ônibus urbano.

Neste ambiente favorável ao contato humano e intercâmbio social, nossas doutas autoridades teriam a inestimável oportunidade de conviver com as mais variadas camadas da população. De longe, vêm os mais humildes, que já lotam o ônibus nas primeiras paradas. Mas ao longo do caminho, conforme a condução cruza áreas mais valorizadas, alguns ocupantes improváveis, de terno e perfume, vêm se juntar a festa. Ao chegar ao epicentro de qualquer cidade, o ônibus já é uma amostra demográfica condensada em um tubo de ensaio da MARCOPOLO®, dificílima de ser reproduzida em laboratórios estatísticos.

O horário também seria previamente estipulado, para garantir ao o máximo da experiência urbana ao nosso representante. Algo entre 6 e 7 da noite, no horário “nobre” do transporte público urbano. Nesta hora, quando já não cabe mais ninguém em qualquer centímetro da malha viária, o político teria a oportunidade única de entrar no ônibus pelo último lugar da fila, para ocupar, junto com mais umas dezessete pessoas, o privilegiado lugar entre o primeiro degrau e a porta de entrada. Assim, a cada nova parada, quando as portas se abrissem, Nossa Excelência desfrutaria de uma breve lufada de brisa, oriundo do sempre puro ar das capitais brasileiras. Claro que, imediatamente, as portas se fechariam para manter o equilíbrio térmico do ambiente interno, algo próximo da umidade de uma floresta tropical, cumulado com o calor do deserto africano.

Licencinha, faz favor...Mais estejam as autoridades alertadas com relação a um ponto especial. Para garantir a melhor interação com o povo brasileiro, fundamental para o sucesso de qualquer governante, o político não poderá se fazer acompanhar de segurança, seja particular ou agente fardado da polícia estatal. É pouco recomendável, por conseqüência, portar objeto de valor, especialmente eletrônicos que despertem a cobiça alheia, como celulares de último tipo ou iPods. Aliás, para garantir o contato com a massa, a autoridade não deve portar sequer um livro ou fones de ouvido. Afinal, ninguém quer perder a chance de compartilhar o último funk da galera do fundão, muitas vezes produzido ali mesmo, no calor do transporte, pelos (i)letrados criadores de nossa valorosa cultura pátria.

As vantagens da medida seriam muitas, tanto para os políticos, quanto para o povo brasileiro. Para não citar a economia em passagens áreas para consulta às bases, nossos governantes estariam em dia com a repercussão de suas decisões de Estado na massa governada. Em curto prazo, creio que haveria redução no número de assentos preferenciais, para grávidas, idosos, obesos, pessoas com sacolas vermelhas e crianças de colo. Depois, algumas melhorias no transporte urbano seriam percebidas. Daí em diante, um acréscimo na qualidade da educação e o Brasil já estaria no caminho da emancipação. Todavia, se tudo der errado, ao menos a medida reduziria as emissões de carbono.

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27
jul

Thundercats e o imperialismo

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas

Mumm-Ra, o líder da resistência do Terceiro Mundo, com sua tradicional babinha na boca! Já relatei antes meu desapreço por He-man, um reacionário em sunga de pelúcia. Mas minha antipatia por falsos heróis alcança outros desenhos animados antigos e suas mensagens sutis. Nesta linha, Thundercats é outro programa cujas más intenções nunca escaparam de minha aguçada percepção.

Para quem não se lembra mais, vale à pena recapitular a história dos felinos humanóides.

Como é de conhecimento notório, planetas ficcionais são destruídos muito facilmente, vide Cripton e Alderan. Thundera, a terra natal dos Thundercats, não teve melhor sorte e acabou virando poeira cósmica. Com a destruição, a nobreza do lugar, que não poderia ser deixada flutuando na galáxia eternamente, foi encaminhada a outro planeta, chamado América Latina BRIC Terceiro Mundo. Todavia, nem tudo seriam flores para o grupo de nobres gatinhos. Ao chegarem ao novo lar, descobriram que o planeta já era habitado há milênios por Mumm-Rá, uma respeitável liderança local.

A partir de então os Thundercats mostram sua verdadeira face de conquistadores saguinários. Qualquer criatura com bom senso, se forçada a viver em um planeta novo, procuraria um mínimo de diplomacia e respeito aos costumes locais. Ah! Mas não os arrogantes Thundercats! Logo ao chegarem, já bancaram que eram os donos da verdade e detentores da justiça, consubstanciada em uma espada que cresce quando manipulada. Para provar sua superioridade intelectual, trouxeram um aparato tecnológico, convertido para utilização militar.

Os leitores imaginários devem lembrar que os fatos não aparecem no programa de televisão com as mesmas cores que aqui coloco. O líder local, Mumm-Rá, é retratado como múmia asquerosa, violenta, com babinha na boca e cobrinhas na cabeça. No entanto, seu hábito de usar bandagens e fazer feitiços supostamente malignos reflete os costumes da região, desprezados pelos Thundercats. Na ótica dos invasores, reproduzida no desenho, tudo que não é felpudo e ronrona como um gato é feio, perigoso e deve ser destruído.

Talvez hoje os Thundercats não teriam tanto sucesso em sua empreitada colonizadora. Se sua nave tivesse desviado do Terceiro Mundo e caisse em Pandora, o planeta reproduzido em Avatar, a história seria outra. Certamente Munn-Rá tem muito a aprender com os Na’vi sobre resistência nativa. Mas, quanto isso, deve ser feita justiça à imagem do líder de Terceiro Mundo, que merece lugar na galeria de grandes libertadores coloniais.

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23
jul

Te cuida Manequinho!

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas

Manequinho, exibindo suas vergonhas e dando mau exemplo para a galera. Saci-pererê certamente não precisou de cota para entrar no panteão do folclore brasileiro. De pulinho em pulinho, na fumacinha do cachimbo, Saci conseguiu ser escalado como um dos personagens imortais de Monteiro Lobato e alcançar glória nacional. Bem visto por todos, que entendias suas travessuras como molecagens inocentes, ele conseguiu até uma vaga de mascote de clube de futebol. Bom, pelo menos até recentemente.

Segundo notícias, o Internacional FC de Porto Alegre pretende, de maneira sorrateira, demitir Saci-pererê do cargo de mascote oficial do clube. Para sua vaga já foi escalado um macaco, curiosamente chamado de Escurinho.

Não vamos culpar o clube de futebol. Afinal, os tempos são outros e Saci seria uma péssima influência para as crianças, sempre pitando seu infame cachimbo. Passível até de responsabilização por danos morais em algum juizado por aí. Algo inaceitável para a segurança pública. Lembro que na minha infância existiam uns cigarrinhos de chocolates, embalados em caixas, cujo rótulo era um menino negro fumando. Uma dupla agressão à moral e bons costumes de nossa muito respeitável sociedade. Em apenas uma embalagem instigava-se nas crianças o racismo e o vício! Aliás, pior, ao vício de cigarro e de chocolate, que muito em breve também ter suas propagandas com alertas sobre a possibilidade do consumo excessivo transformar você em um obeso mórbido. As fotos na embalagem serão horrendas senhoras, pensando quatrocentos quilos.

Quem nunca fumou um chocolate? Tempos perigosos aqueles. Não possuíamos quem pensasse por nós e vivíamos indefesos, à mercê de inescrupulosos fabricantes de cigarrinhos de chocolate. Sem a patrulha politicamente correta, não sabíamos como consumir, xingar com educação ou ser preconceituoso com respeito. Recentemente vi que o jovem afro-descendente da embalagem perdeu o cigarro, usa uma roupinha mais classe-média e trás entediantes lápis de colorir. O novo sabor? Não faço a mais vaga idéia, pois não comprei. O barato mesmo era fingir que fumava chocolate, algo que certamente transformou minha geração em fumantes desbragados, que vivem tossindo seus pulmões pelos cantos.

Mas, convenhamos, Saci teve o que mereceu. Deveria ter notado que os tempos eram outros, menos tolerantes aos vícios. Negro, deficiente, fumante e travesso, Pererê teve bastante tempo para se emendar na vida, largar o cachimbo, comprar uma perna mecânica igual a do Rei Roberto, daquelas tão discretas que viram lendas. Se tivesse um pouco mais de bom senso, hoje estaria ocupando uma vaga em universidade ou, melhor ainda, um cargo de caximbador carimbador maluco no serviço público.

Talvez ainda haja tempo para Saci. Sugiro a substituição do cachimbo, por algum outro objeto. Uma cuia de chimarrão? Não, muito regionalista. Uma pipa? Não, pode incentivar as crianças a se eletrocutarem na rede elétrica. Deixar as mão vazias? Não, vai parecer que ele é pobre, coisa que de fato ele é, mas não precisa parecer. O ideal é uma pastinha escolar e um livro na outra mão! Incentiva a educação e a leitura em apenas um mascote.

De todo, se não houver salvação para o emprego do Saci-pererê, espero que ele volte em segurança para o Reino de Narizinho, lugar muito mais divertido e fantástico que este onde vivemos. Entretanto, no caminho, não custa passar no Rio de Janeiro e avisar ao botafoguense Manequinho para guardar suas vergonhas e parar de fazer xixi em público. Afinal, a patrulha está à solta, para nossa segurança.

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20
jul

Filme: A Onda (Die Welle)

   Postado por Carlos Goettenauer em Cinema, Filmes de 2010

A onda Fosse eu dono de locadora de filmes e as prateleiras teriam outra ordem, com categorias menos ortodoxas. Nada de suspense, terror, aventura e romance. Uma de minhas novas classificações seria filmes de professor. Estariam lá os óbvios Sociedade dos Poetas Mortos e Ao Mestre, Com Carinho, seguidos do mais atual O Clube do Imperador (como não falei que o filme precisa ser bom, O Sorriso de Monalisa teria espaço na prateleira também). Recentemente, minha a seção imaginária ganhou outro ótimo título, o alemão A Onda.

“Inspirado” em fatos reais, com todas as aspas que as inspirações cinematográficas merecem, A Onda é adaptado do livro americano The Wave (ainda sem tradução para o português), que conta a história de um pequeno grupo facista, criado por um professor, em sala de aula, como um experimento para demonstrar o funcionamento de um regime autoritário.

Se o livro The Wave não chega a ser sequer uma boa obra literária, sua adaptação para o cinema é impressionante. Transportada dos EUA dos anos 6ª para a sociedade alemã contemporânea, ainda ressentida pelos eventos da 2ª Guerra, a história ganha contornos mais ricos e interessantes.

No filme, Rainer Wenger, professor do que deve ser o segundo grau alemão, encontra-se diante do desafio de ensinar o que é autocracia a uma sala de alunos, para quem opção política significa, quando muito, vestir-se como punk-anarquista, ou, em uma adaptação a nossa realidade, usar uma camisa de Che Guevara. Diante da apatia da turma, Rainer desiste de uma exposição teórica e cria, na prática, um grupo autocrático na sala de aula, ao qual se dá o nome de A Onda. A adesão entusiasmada dos alunos ao discurso fascista do professor revela a estranha susceptibilidade do mundo pós-moderno a regime autoritário.

Em tese, a sociedade contemporânea, extremamente diversificada e aberta a toda sorte de idéias, estaria imune à ascenção do autoritarismo, baseado na adoção de uma proposta ideológica única. Todavia, paradoxalmente, a multiplicidade da sociedade resulta em uma busca pela individualidade, que só pode ser conquistada no grupo. Assim, surgem os emos, as crepusculetes e até mesmo as torcidas organizadas de futebol. Nesse mundo plural, discursos autoritários parecem ser extremamente sedutores, pois entregam às massas o sentimento de identidade única perdido. Com respostas rápidas e simples para tudo, muito bem retratadas no filme pelos interrogatórios de Rainer a seus alunos, o autoritarismo permite sufocar a angustiante ausência de certezas que cerca nosso cotidiano.

No entanto, o grande mérito de A Onda não é apenas demonstrar, na tela, como um regime autoritário ainda pode encontrar espaço em nosso mundo. Tal como os alunos retratados no filme, o telespectador é seduzido pelas propostas do professor e, ainda que intimamente sinta-se ligeiramente desconfortável, enxerga uma série de benefícios em abrir mão da liberdade e adotar a autocracia. Em determinado momento, é difícil não concordar com um dos personagens que tenta provar as maravilhas trazidas pela Onda. Mas, como todo bom filme de professor, A Onda pode dar uma boa e sombria lição. Se a política se tornar exclusivamente assunto de estampa de camiseta, as portas para o autoritarismo estarão abertas.

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16
jul

Os milzonários

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas

cifrao Há não muito tempo, milionário era um sujeito riquíssimo, associado a montanhas incalculáveis de dinheiro, capazes de despertar a cobiça de Tio Patinhas. Então, a revolução digital chegou e nos apresentou aos bilionários, que perfuraram poços eletrônicos de riqueza e, com espinhas na cara, já ganhavam mais dinheiro que os paxás da velha indústria. No entanto, por mais que faltem números para contar a grandeza da riqueza dos magnatas, percebo que o populacho insiste em se abraçar em seu antigo status de milzonário.

No já comentado Bilhões e bilhões, Carl Sagan descreve a inflação das grandezas numéricas ao longo da história. No início, as centenas atendiam todas as necessidades humanas. Duzentas vaquinhas no curral, trezentas pessoas na vila e, no máximo, dois ou três lugares para ir. O desenvolvimento da humanidade, no entanto, trouxe a necessidade de mais números para contar as coisas. Aí vieram os milhares, milhões, bilhões e números com tantos zeros que não cabem no papel. O mesmo se dá com os ricos. A cada dia precisam de mais números para contar, não só seu dinheiro, mas também o tamanho de suas fazendas, a potência de seus carros, os quilômetros entre a mansão e o espaço, onde farão seu próximo tour.

Vida de milzonário é diferente. Do lado de cá, dificil é juntar milzão. O acúmulo de qualquer mil dinheiros, seja qual for a moeda da moda, depende de longo tempo de trabalho. Aí, com os mils no bolso, compra-se alguma coisa do tamanho das casas decimais. O dia da compra vai ser celebrado por muito tempo, como uma conquista. O milzonário de boa memória ainda vai lembrar que naquele dia carregou nãoseiquantos mil em espécie ou fez um cheque de tantosmil reais, uma quantia fabulosa, equivalente a meses e meses de trabalho, suor, economia, mais trabalho, mais suor e mais economia.

No entanto, parece que o mundo a cada dia custa mais caro para os milzonários. Antigamente, as coisas que não vamos ter custavam um milhão. Estavam nessa categoria as Ferraris, os iates, as mansões no litoral, a muitos zeros de distância do bolso milzonário. Inalcançáveis, pelo menos serviam de parâmetro para a falta de dinheiro dos outros. Hoje, no entanto, parece que as necessidades de consumo chegaram aos milhões que não temos. O apartamento, meio milhão, a cobertura de seu vizinho, mais de um milhão. Milzonário, desista de nunca mais ter uma Ferrari, agora você não terá mais casa própria.

Mas eu, como bom milzonário (salvo hipótese do Google comprar o Estado Crônico) não vou desistir. De milhas em milhas, pode-se juntar o suficiente para uma viagem para o exterior e, paradoxalmente, economizar dinheiro gastando em bugigangas eletrônicas. Ou optar pela solução radical. Dividir a existência em bilhões de vezes no meu cartão de crédito do clube dos milzonários e atrasar seu pagamento, melhor maneira de ver um número com seis zeros no extrato, ainda que seja o saldo devedor.

 

P.S.: Com os devidos créditos, a nomenclatura milzonário foi cunhada por Ana Luiza (@analuizalb, filiada ao clube dos milzonários e leitora misteriosa do Estado Crônico), a quem este post, bem como os passados e futuros, são incondicionalmente dedicados.

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13
jul

Hitler descobre que a Copa acabou

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas da Copa

ATENÇÃO: Como prometido, o problema com o vídeo foi corrigido.

Nem só de crônicas vive este blog. Assim, para encerrar definitivamente nosso ciclo de posts sobre a Copa do Mundo, preparamos um vídeo muito especial, com a reação de Hitler ao saber sobre o fim do torneio.

Espero os leitores imaginários gostem. Agora, Copa do Mundo, só em 2014.

Lembramos que o trecho acima foi retirado do excelente filme A Queda – As últimas horas de Hitler (Der Untergang), de 2004.

P.S.: O texto das legendas foi criado por mim (@cadugoette) e por Raphael Goettenauer (@rafuh). Meus agradecimentos ao último por algumas idéias.

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8
jul

Palavras de baixo-calão

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas da Copa

xingando3-1Em um passado distante, o então técnico da seleção brasileira de futebol foi acusado de utilizar palavras chulas para atacar jornalistas durante uma entrevista coletiva. Os mesmos microfones, que até então escutavam sedentos, passaram a acusar o entrevistado de ofensas à moral dos inocentes ouvidos brasileiros, tão acostumados à fina flor verbal. Para classificar as palavras do técnico, a imprensa utilizou a curiosa e abstrata categoria de baixo calão.

Mestre Aurélio nos explica que o termo calão está associado ao uso de “termos baixos e grosseiros”. Portanto, baixo calão seria, em tese, quase uma redundância, porque calão, sozinho, já é baixo. E não existiria o alto calão.

Com todo o respeito, preciosismo exagerado do dicionário. A utilização do baixo na frente do calão implica que existe, sim, um alto (es)calão dos verbetes. São palavras com muito poder e dinheiro. Constitucionalidade e mercantilização estão lá, sempre muito próximas umas das outras. Mas há outras. Autoridade, por exemplo, consegue tudo que quer ao sacar do bolso um documento de identidade de cor especial, capaz de comprovar sua alta extirpe. Ultrapassa as burocráticas barreiras da ordem alfabética e deixa para trás palavras menos valorizadas, como Legislação e Igualdade

Todavia, há também a classe média vocabular. Deve ser constituída por palavras que andam por aí de transporte público ou engarrafadas em seus carros. Eu e Vocês, certamente são palavras de médio calão. Mas, atenção. Como nos ensinam os gramáticos, a linguagem é dinâmica e todo dia mais alguns termos são arrastados para as camadas mais baixas do vivedouro dos verbetes. Ninguém garante a manutenção de algum termo no universo do médio calão, principalmente nesses tempos de crise. Vejam, por exemplo, Socialista. Foi elogio, depois xingamento. Hoje em dia é casada com Moderado e vive bem, mas não trabalha mais fora.

Por outro lado, o universo das palavras permite certa mobilidade social e algumas palavras bem aventuradas ascendem a camadas superiores. Bunda, por exemplo, até bem pouco tempo circulava em lugares mal freqüentados, como Zonas. Hoje em dia é diferente. Bunda ganhou fama, dinheiro, freqüenta capa de revista e novela das oito. Seu sucesso é tão grande que o Bumbum, seu primo rico, anda em franco desuso e, atualmente, é quase pueril. Deve estar deprimido, o coitado.

Fato é que nossa relação com as palavras é muito complicada. Tentamos fazer delas nossas ferramentas, quase escravas. Dizemos o que pensamos com palavras. Mas, na via reversa, são elas que dizem muito sobre nós. Dentro de nossas frases espontâneas e bem intencionadas, as palavras contam mensagens sutis. Avisam a todos quem somos, de onde, de que e a que viemos. Não importa o que é dito, pois a mensagem repousa em como é dito.

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6
jul

Filme: Toy-Story 3

   Postado por Carlos Goettenauer em Cinema, Crônicas, Filmes de 2010

poster_toystory3 Atualmente há um filme em cartaz que lida com a dificuldade de algumas criaturas, fadadas a permanecerem eternamente preservadas em uma forma imutável, lidarem com o crescimento e mudança daqueles a quem amam e servem. Não fosse a imagem ao lado (e o título, claro), os leitores imaginários teriam pensando na saga Crepúsculo. Mas claro, refiro-me a Toy Story 3.

Não vou falar sobre o primor técnico do filme. O melhor crítico brasileiro de cinema já fez isso com muita competência e o pessoal do Rapaduracast nos deu de presente um maravilho episódio, que conta com a presença de Guilherme Briggs, dublador de Buzz Lightear. No entanto, tive a sorte de assistir os três filmes da série da Pixar este ano e sou tentado a concordar com quem diz ser essa a melhor trilogia do cinema. Sem dúvida, unidos, os três filmes formam uma corrente sem elos fracos.

Portanto, não posso deixar o filme passar sem registrar minhas impressões. Certa vez, escutei que uma obra clássica permite vários níveis de leitura. Toy Story 3 é, assim, um clássico imediato. Para os pequenos, o filme trás a fábula de brinquedos que tomam vida e aprontam aventuras secretas. Já a primeira seqüência do filme mostra, com acerto, a visão de uma brincadeira pelos vibrantes olhos infantis. Logo em seguida, somos lançados à melancolia, quando percebemos que aquele menino cresceu e os brinquedos, antes protagonistas de um universo particular maravilhoso, agora repousam em uma caixa e estão diante de uma iminente escolha, que os encaminhará ao esquecimento em um sótão empoeirado, à doação ou, pior dos fins, ao lixo.

Assim, para o público mais “idoso”, a fábula dos brinquedos sai de cena para a entrada de uma reflexão sobre o crescimento e envelhecimento, não apenas nosso, mas também de todos que queremos bem. Mas, ao longo da projeção, a alegoria se expande e notamos que Toy Story trata também sobre quais as relações que podemos e devemos conservar na vida e, especialmente, sobre alguns nós que, por ética ou sabedoria, devemos desatar para permitir o ressurgimento da felicidade, se não nossa, alheia.

Crescer não é simples e Toy Story retira dessa dificuldade a matéria prima para uma obra que, apesar de emocionar o patrulheiro estelar mais durão, não se rende ao sentimentalismo barato. Aliás, a película é capaz de fazer graça sobre vários ritos de passagem para a vida adulta. É divertido, por exemplo, como os brinquedos sequestram o celular Andy, como único recurso para atrair sua decrescente atenção ao velho baú onde repousam.

Mas Toy Story 3 não é grande apenas pela sua metáfora. Ganha mais relevo pelo período em que foi lançado.  Em uma época quando o drama quadrado de um amor eternamente impossível ecoa tanto na sociedade, a fábula infantil dos brinquedos dá uma lição  proustiana aos adolescentes e adultos mal-crescidos. Às vezes é necessário deixar partir aquilo que mais amamos. Nosso passado não repousa bem esquecido em um sótão. Viverá muito mais tranqüilo e feliz em nossa memória.

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2
jul

Acabou

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas, Crônicas da Copa

Acabou. Não há o que se fazer. Não acredito em quem usa, em um momento como esses, o clichê sobre a importância de saber competir e aceitar as derrotas. Perder é horrível, uma pequena morte. Sua aceitação passa pela negação, raiva, barganha e depressão, como um luto.

No exato momento estou entre a negação e a raiva. Ainda não acredito no apito final, mas já começo a sentir uma raiva, fantasiada de mau-humor crônico, a me subir pela espinha. Hoje, não queiram me encontrar em uma fila demorada ou engarrafamento. Também não vou ser adulto. Aliás, quero distância dos sentimentos pretensamente adultos, crescidinhos e edificantes. Prefiro procurar infantilmente um culpado. Já escolhi Felipe Melo como minha presa. Como mineiro, peguei raiva dele para o resto da vida. Daqui a vinte anos, na Copa da China, não me venha o safado tentar treinar a Seleção sem falar com a imprensa, sob a justificativa de perseguição na Era Melo.

Depois da raiva, passo à barganha. Se pelo menos a Argentina for desclassificada e a final for uma goleada de Gana sob a Alemanha… Perder a Copa para ver um time africano campeão não terá sido tão ruim e inútil. Não vou perdoar o Felipe Melo, claro, mas vai ser gratificante ver os europeus derrotados pelo continente negro. Justiça histórica. E que soem as Vuvuzelas tão alto que eu possa ouvir daqui, sem a interferência irritante do Galvão Bueno.

Todavia, cedo ou tarde, a aceitação vai chegar, talvez após uma breve depressão. Afinal, Copa do Mundo é igual eleição e a cada quatro anos tem uma nova. Além do que, por mais desclassificado que estejamos agora, foi bom me empenhar na torcida, comemorar cada gol, por menos que tenham sido. Não me arrependo dos gritos e vuvuzeladas. Acreditem ou não, eu me diverti muito seja torcendo, seja compartilhando minhas idéias com meus leitores imaginários. Continuo brasileiro e patriota, dentro e fora de campo e não retiro rigorosamente nenhuma vírgula do que escrevi e no último mês. “Valeu à pena, sou pescador de ilusões”.

Agora, vamos mudar de assunto, que eu não agüento mais escutar e falar de futebol.

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1
jul

Brasil x Holanda – Contém spoilers

   Postado por Carlos Goettenauer em Crônicas, Crônicas da Copa

Em uma copa, há sempre para o Brasil aquele que é O jogo. Depois dele, tudo o que segue é mera burocracia, puro jogo de futebol. Por duas copas seguidas, o jogo foi Brasil e Holanda. Pelas características dos dois times e por se enfrentarem nas fases decisivas do conflito, as duas seleções fizeram a final antecipada do mundial.

Inesquecível o terceiro gol do Brasil em 1994. Maradona fez gol de mão? Pois bem, Romário fez um raríssimo gol de bunda. E melhor, sem encostar na bola, perfeitamente válido. Já, em 1998, Brasil e Holanda tinha tudo para virar um joguinho chato, mas graças a um empate, terminou em um disputa de pênaltis que levou muitos a perderem as unhas e mostrou ao Brasil a imagem de Zagallo gritando motivação a seus atletas.

O vídeo, aos 2m30s, mostra com clareza o raríssimo gol de bunda.

Amanhã podemos viver, novamente, uma grande partida. Mas, há um problema. O time de Dunga é a Seleção Vagalume, brilha para, logo em seguida, se apagar. Se estiver em seu dia ofuscado, o Brasil entra em campo apático e só será páreo para o adversário se também a Holanda estiver em um dia ruim.

Mas, vamos torcer para ver, amanhã, O jogo, com boas atuações dos dois lado e, claro, vitória do Brasil. Vencer a partida de amanhã, com brilho, será um divisor de águas para o time. Cumpriremos tabela para ganhar o mundial em um joguinho previsível com a Alemanha. Não vamos tomar conhecimento do Uruguai, como nem lembramos da Turquia na semifinal de 2002.

Perder? Essa hipótese não existe aqui na redação do Estado Crônico. Mas uma vitória morna apenas prolongará a agonia.

P.S.: O jogo de 2002 foi contra a Inglaterra. Em 2006, O jogo não aconteceu, porque o Brasil não disputou aquele mundial, mandando o Tabajara FC em seu lugar. Já em 1998, após de ter vencido a partida contra a Holanda, o Brasil perdeu a final por WO, em uma história até hoje não muito bem explicada. Fomos campeões morais (como se isso existisse).

P.P.S.: Alguém falou de Argentina na final? Como diria Padre Quevedo, isso no equiziste, é imaginação, delírio e coisa de cabeça psicótica.

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